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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A Teologia da Libertação e o papa

Estava embevecido com a Teologia da Libertação, resultado de um curso de imersão de capacitação cristã ministrado no Colégio Santo André pelo padre Jorge Boran. Com a cabeça cheia de novas ideias e concepções políticas até então desconhecidas, ele mergulhou na doutrina da Igreja Progressista, definindo novos ídolos para sua alma vazia de conteúdo.

Voltou sua voracidade literária para outros tipos de livros, como “As Sandálias do Pescador”, de Morris West, e livros conceituais sistematizados sobre a exclusão social nos países da América Latina, por meio do método “ver, julgar e agir”. Para ele, absorvendo de forma pragmática a cartilha oriunda da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizado em Medellín, este método de ver, julgar e agir havia aberto sua mente e seu coração para compreender melhor o mundo, desenvolvendo a capacidade crítica da realidade que, por sua vez, desaguaria numa ação transformadora do mundo a sua volta.

Ele tinha pleno conhecimento de que tudo aquilo era muito novo, fruto da ação inovadora do Concílio Vaticano II e o do esforço hercúleo do papa João 23 de levar adiante sua missão de abrir as portas da Igreja e do conhecimento espiritual, aproximando os sacerdotes e o povo. A Ação Católica havia vencido e um mundo novo descortinava-se à frente daqueles que criam ser a palavra de Cristo a panacéia de todos os males sociais e políticos. A palavra de Deus poderia mudar o mundo e as mentes, tornando os governos mais humanos e os povos mais esclarecidos.

Ele queria participar. Primeiro pensou em ir para a Nicarágua lutar ao lado dos sandinistas contra as forças ditatoriais e imperialistas de Somoza. Acreditava piamente na verdade de dom Óscar Romero: “A missão da Igreja é identificar-se com os pobres. Assim. a Igreja encontra sua salvação”. Com este pensamento, ele também sonhava integrar uma das comunidades eclesiais de base que floresciam em toda a América Latina e, especialmente, no Norte brasileiro.

Foi com esse sonho que ele fez a primeira comunhão aos 21 anos, pelas mão do comboniano Francisco Cordero e tentou ingressar no seminário. Sua vocação sacerdotal não durou uma semana. Entretanto, abandonou o emprego e mudou-se para o sul do Pará, onde havia algumas comunidades de base, com a inabalável fé de ajudar o bispo Dom Pedro Casaldáliga, mas nunca chegou a São Félix do Araguaia. Fixou-se numa região rural próxima a Nova Ipixuna, na rodovia PA 150, e por lá ficou o tempo necessário até ser retirado após várias ameaças de morte. Conheceu e pediu votos para o deputado Paulo Fontelles, defensor dos trabalhadores rurais do sul paraense. Em 1987, sentiu profundamente a morte de Fontelles, assassinado na Fazenda Bamerindus, por pistoleiros contratados pela União Democrática Ruralista (UDR), de Ronaldo Caiado. Hoje, a rodovia PA 150 leva o nome do Deputado Paulo Fontelles.

Passado o tempo, dia desses ele esteve na cripta de dom Hélder Câmara, em Olinda. Por muito tempo ele esteve de pé, olhando aquela tumba fincada no chão da igreja meditando sobre os ditames da vida e do destino. Quando saiu da Igreja, do alto da colina, avistou o mar e toda sua vastidão, vendo a sua direita as ruas tortuosas e os telhados vermelhos de Olinda. E se tivesse ficado no Pará? Teria se casado com uma moça de lá ou teria sido abatido a tiros como aconteceu com centenas de trabalhadores e defensores dos direitos humanos naquela terra inóspita onde o braço da lei até hoje demora a chegar?

E se a Teologia de Libertação tivesse prevalecido sobre a ala conservadora da Igreja, o que teria acontecido com o catolicismo na América Latina? Se Leonardo Boff não tivesse se calado? E se. Toda vezes que vejo o papa Bento 16 na tevê ou no jornal, eu apenas consigo me lembrar do cardeal Joseph Ratzinger, o poderoso prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, defensor da ortodoxia católica e algoz supremo da Teologia da Libertação.

Os teólogos da libertação continuam se reunindo e discutindo. Estiveram em Porto Alegre, Nairóbi, Belém e Dakar no Fórum Mundial de Teologia e Libertação, com a esperança de construir uma rede mundial de teologia contextualizada na libertação dos povos. E ele, sentindo-se velho, olha para trás e lamenta que seus sonhos de um mundo melhor tenham se perdido no tempo. Noutros tempos.

Lelé Arantes

jornalista e escreve aos domingos no BOM DIA

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