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sábado, 19 de novembro de 2011

O sorriso matado

18.11.2011

Balas assassinas mataram Nisio Gomes. Seu jeito meigo e sorridente, era sua característica principal, inconfundível. Sua fala baixa, se tornava por vezes quase incompreensível. Ele estava em quase todas as mobilizações de luta do povo Kaiowá Guarani pelos seus direitos, especialmente à terra. Nos últimos dez anos já voltara quatro vezes a seu tekohá Guaiviry. Era um lutador resistente, persistente. Não desistia nem por nada a seu sagrado chão.

Guduli, nhandesi, sua companheira, morrera há três anos, sem a alegria de viver em sua terra Guaiviry. Ela era entusiasta e contagiava com sua disposição. Era profunda conhecedora a vida e religiosidade de seu povo. Era de uma energia inquebrantável. Com sua morte o grupo ressentiu bastante, mas não desistiu de sua luta, a volta ao tekohá.

Nisio sorriso tombou, nesta manhã, dia 18. Friamente executado diante do seu grupo por pistoleiros contratados pelos interesses contrariados da região. Mataram um lutador sorridente, mas não conseguiram matar a luta.

Dois dias antes de ser assassinado 45 Kiaowá Guarani, que participaram da Jeroky Guasu em Laranjeira Nhanderu, foram levar apoio, solidariedade e alguns alimentos aos seus parentes acampados em Guaiviry. O grupo pressionado e cercado há 20 dias ficou muito feliz e alegre com a visita dos parentes. Numa das fotos Nisio, diante de seu barraco, está sorridente. Assim um dos membros da delegação descreveu a visita "O grupo está na mata, estão bem. Decidiram que vão ficar ali, porque a terra lá é deles mesmo, eles não querem sair de lá. Já é a quarta vez que eles retornam para aquela terra. O Kaiowá é assim, quando decide uma coisa, ninguém segura. Nós chegamos e fomos ver os barracos deles, o pessoal foi dançar com eles. Eles já fizeram um yvyra'i (altar) lá." (Kuarahy)

Decisão
Infelizmente vemos mais sangue sendo derramado neste chão da nação Guarani Kaiowá. É um absurdo vermos tanto impunidade estimulando novas matanças dos nativos da terra, sem que sua terra lhes seja garantida. Porém nada os demove os Kaiowá Guarani de terem de volta seus pedaços de chão, para viverem em paz. "Ninguém vai fazer por nós, somos nós mesmos que temos que fazer. Como nós vemos lá, o Guaiviry, o pessoal está resistindo, estão dizendo que vão permanecer lá, apesar do perigo, da dificuldade, da falta de atendimento. Essa é a decisão deles, e a decisão de cada um que está numa retomada hoje: Ypo'i, Kurusu, Amba, Pyelito. Isso é o que de fora as pessoas têm que ver. " ( Kuarahy)

Após duas horas de conversa e rituais, conversa amena e preocupante assim foi relatada a situação "Por enquanto, lá no Guaiviry, ainda não houve nenhum ataque. Uma pessoa nos contou que quase encontrou com um pistoleiro enquanto estava andando pela mata. Esse é o perigo que eles estão passando. No momento, não estão sendo atacados, mas nunca se sabe..."

Não demorou quarenta horas e o ataque e massacre aconteceu. Quanto sangue ainda precisará ser derramado para que se cumpra a Constituição e legislação internacional garantindo aos povos nativos, no caso os Kaiowá Guarani, suas terras e o sorriso volte aos rostos abatidos pela violência?

* Egon Heck, Povo Guarani Grande Povo, 18 de novembro de 2011

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Relato colhido de Kuarahy, um dos participantes do ato de apoio a Guaiviry

Chegamos à beira da rodovia onde entramos para o tekoha Guaiviry por volta das 16h. Em menos de meia hora de caminhada, chegamos ao local onde eles estão acampados. O grupo está na mata, estão bem. Decidiram que vão ficar ali, porque a terra lá é deles mesmo, eles não querem sair de lá. Já é a quarta vez que eles retornam para aquela terra. O Kaiowá é assim, quando decide uma coisa, ninguém segura. Nós chegamos e fomos ver os barracos deles, o pessoal foi dançar com eles. Eles já fizeram um yvyra'i (altar) lá.

A Polícia Federal e a Funai já estiveram com o pessoal lá, mas o que falta é eles visitarem mais vezes, porque os jagunços das fazendas estão rodeando, vigiando direto. Não teve nenhum ataque até agora, mas as pessoas não estão dormindo bem, principalmente as crianças e os idosos, eles não estão tranquilos.

A decisão deles é permanecer lá. É difícil, essa é a resistência deles... Eles ficaram contentes pela solidariedade que nós fomos levar para eles.
Nós ficamos lá conversando com o pessoal do acampamento, quase duas horas. Fomos dar uma força para eles, para eles continuarem firmes na luta. Depois a gente voltou e vimos que estava cheio de caminhonetes lá, e o ônibus junto. Antes de a gente chegar na estrada, pra pegar o ônibus, eles o levaram na direção de Ponta Porã. Estava muita gente lá, quase escurecendo já. Tinha uns 20 a 25 carros e caminhonetes lá em volta do lugar onde ele estava parado antes. Eles se juntaram mesmo.

Duas horas
Daí prenderam o ônibus por quase umas três horas. Nós ligamos para o motorista, mas nada. E nós ficamos lá, na beira da estrada. Daí de repente chegou um monte de fazendeiros e ficaram perguntando o que a gente estava querendo. Falamos para eles que nós apenas fomos visitar o pessoal lá, ver como estava a situação deles. Eles pensavam que nós íamos invadir e ficar lá. O pensamento deles era esse. Nós estávamos todos pintados, com flechas.

Nós explicamos para eles que só tínhamos ido em solidariedade, em apoio aos parentes que estavam lá. E aí pressionamos para que liberassem o ônibus, nós só queríamos ir embora, não estávamos lá para fazer nada.
O que nós percebemos era que eles estavam querendo identificar todos que estavam lá. Rodearam a gente com os carros, ligaram os faróis. Só que a maioria que está lá não tem mais medo...

Toda hora eles ficavam perguntando quem eram as nossas lideranças.
Colocaram várias cachaças suspeitas no caminho, certamente achavam que nós íamos beber. Também deixaram duas marmitas na estrada. Nós deixamos tudo lá. Podíamos ter trazido, mas com o desespero... Naquele momento a gente não pensou nisso, teria sido bom trazer mesmo para ver o que tinha nas garrafas. Cortaram tudo as mangueiras do ônibus também.

Eles falaram para que nós saíssemos da entrada, pelo menos uns 200 metros. O medo dele era a gente pegar as sacolas no ônibus e entrar na mata. Eles queriam prender alguém, pegar alguém que fosse o responsável. Foi difícil, mas nós conseguimos sair e voltar para casa.

Mas nós não éramos de uma só aldeia, éramos um movimento de solidariedade. Nós estamos lutando, resistindo, lutando pela terra, e essa luta vai continuar, essa é uma decisão que todos os Guarani-Kaiowá tomamos. Nós resolvemos fazer essa visita lá nos eventos que fizemos no Ita'y e no Laranjeira (Encontro de Acampamentos e Jeroky Guasu, poucos dias antes).

Foram umas quase duas horas que eles ficaram impedindo que a gente fosse embora. Eles jogavam farol para tentar nos identificar. A sorte é que o pessoal estava tranquilo lá, o pessoal não tinha ido lá para brigar, tinha ido só para fazer a visita. Mas eu acho que talvez eles queriam que a gente fizesse alguma coisa para eles poderem reagir...

Luta pelo que é nosso
Isso é do nosso movimento, nós estamos lutando pelo nosso direito, pelo que é nosso. O objetivo de visitar lá era mostrar que nós queremos dar um basta à violência! E mostrar que estamos resistindo! Isso é que é importante, não foi só uma liderança, não foi só o Guaiviry que decidiu isso. Existem outras áreas que estão na mesma situação, nós estamos somando nossas forças.

Ninguém vai fazer por nós, somos nós mesmos que temos que fazer. Como nós vemos lá, o Guaiviry, o pessoal está resistindo, estão dizendo que vão permanecer lá, apesar do perigo, da dificuldade, da falta de atendimento. Essa é a decisão deles, e a decisão de cada um que está numa retomada hoje: Ypo'i, Kurusu Amba, Pyelito. Isso é o que de fora as pessoas têm que ver.

Quando a gente decide, para quem está de fora, pode parecer arriscado, mas ninguém nos segura!
Por enquanto, lá no Guaiviry, ainda não houve nenhum ataque. Uma pessoa nos contou que quase encontrou com um pistoleiro enquanto estava andando pela mata. Esse é o perigo que eles estão passando. No momento, não estão sendo atacados, mas nunca se sabe...

Nós temos a informação de que os fazendeiros estão usando outros indígenas para identificar as pessoas que estão lá e tentar convencê-los a sair e voltar a acampar em alguma outra área. Os fazendeiros estão dando dinheiro a essas pessoas, que são conhecidas lá na região. Disseram também que já foi um secretário da Prefeitura de Aral Moreira lá.
Alguma comida eles têm, mas a questão da assistência à saúde, sabe como é, eles dificultam tudo. A preocupação maior é com as crianças.

Egon Dionisio Heck

Fonte: Cimi MS

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