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domingo, 6 de novembro de 2011

O grito dos pobres

"Levanta-te, Senhor! Socorro!
Resgata-nos em nome da tua fidelidade!” (Sl 44,27)

Mais uma vez constatamos essa triste realidade: em nome de um falso desenvolvimento os pobres são novamente desconsiderados, nem sequer são ouvidos e, o que é pior, são ameaçados na sua dignidade e não são respeitados nos seus direitos de cidadãos.

Vivemos num país em que os nossos governantes são trocados no comando do poder, mas quem nele se encontra continua perpetuando o modelo colonialista que impera, infelizmente, na nossa pátria.

Os megaprojetos aprovados e financiados pelo governo federal e estadual repetem procedimentos combatidos por quem sempre defendeu os direitos das pessoas de terem sua terra para subsistência e para viver uma vida com dignidade.

Ouvindo relatos de pessoas atingidas pelo projeto, assim chamado Complexo Logístico Intermodal - Porto Sul, a gente fica estarrecida em ver como as pessoas são manipuladas, até compradas, pelo governo estadual e pela empresa mineradora interessada em lucrar com a exploração do minério na nossa terra. Para as obras desse projeto o governo do Estado da Bahia destinou verbas públicas do PAC, sem que houvesse nenhum tipo de consulta popular. Os processos de licenciamento do Porto Sul e FIOL (Ferrovia de Integração Oeste Leste) envolveram desinformação e truculência com as comunidades diretamente atingidas. Falsas promessas de emprego aliciaram os poderes públicos locais, que mais uma vez deram as costas à população.

O que nos entristece é ver que várias lideranças das comunidades de Igreja estão se deixando levar por esse tipo de procedimento que é condenado pelo ensino social da Igreja. O Papa Paulo VI escreve que "o desenvolvimento autêntico deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo.. O que conta para nós é o homem, cada homem, cada grupo de homens, até se chegar à humanidade inteira” (Populorum progressio, 14, citado por Bento XVI na encíclica Caritas in Veritate, 18).

O que se vê é o desrespeito às pessoas atingidas por esses projetos. Os depoimentos de gente que tem sua terra e sua casa no trajeto da ferrovia e do complexo intermodal vêm corroborar o procedimento truculento do governo do estado que quer, a todo custo, eliminar os obstáculos, quer humanos e ambientais, que estão à frente do mesmo projeto.

Os projetos Pedra de Ferro, FIOL e Porto Sul, atualmente, na Bahia, são os maiores responsáveis pelos impactos socioambientais em comunidades tradicionais, quilombolas, ribeirinhas, indígenas e assentamentos.

No dizer do Papa Bento XVI, "a fé cristã ocupa-se do desenvolvimento sem olhar a privilégios nem posições de poder nem mesmo aos méritos dos cristãos, mas contando apenas com Cristo, a quem há de fazer referência toda a autêntica vocação ao desenvolvimento humano integral” (Caritas in Veritate, 18).

O grito do povo é para que se respeite sua dignidade e seus direitos de vida digna. O progresso deve privilegiar a pessoa humana e não só o lucro dos grandes empreendedores. O que se espera do governo e das pessoas responsáveis pelo projeto é que escutem as pessoas atingidas, e se lhes assegurem a justa compensação financeira e material pelo desgaste e prejuízo de terem que abandonar sua terra, seu cantinho sagrado, e se sintam seguras e sustentadas para continuar vivendo dignamente.

"Depois disso, eu vi: Era uma imensa multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas [...] Eles vêm da grande tribulação. Lavaram suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro. Por isso encontram-se diante do trono de Deus, rendendo-lhe culto dia e noite em seu templo [...] Nunca mais terão fome, e nunca mais terão sede, e não pesará sobre eles o sol nem seu fogo, pois o Cordeiro que está no meio do trono será seu pastor e os conduzirá para as fontes das águas da vida. E Deus enxugará toda a lágrima de seus olhos” (Ap 7,9.14-17).

Esta é a nossa grande esperança.

A graça do Senhor Jesus esteja com todos.


Dom Mauro Montagnoli
Bispo diocesano de Ilhéus

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