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terça-feira, 26 de julho de 2011

QUARENTA ANOS DE TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Estamos comemorando quarenta anos da Teologia da Libertação. É justo que se pare por um instante para levar em conta esse fato que tem influenciado, bem ou mal, a tantos setores das igrejas e das sociedades, não só da América Latina, como também do mundo todo.

Para alguns a Teologia da Libertação foi e é muito positiva; para outros, pelo contrário, uma grande “heresia”. Justamente por apresentar um novo modo de Igreja e de sociedade onde o pobre e o oprimido, aquele que não é, tem vez e voz, onde ele é protagonista; esses últimos veem-se incluídos e valorizados enquanto os poderosos, tanto eclesiásticos como ricos em geral, veem uma ameaça. Não compreendem, difamam e condenam. Participar da paixão dos maltratados deste mundo é para teólogos e pessoas comprometidas uma honra, para outros, um perigo a ser evitado, melhor, desprezado.

Seja como for, a situação concreta de milhões de seres humanos na América Latina desafiou a consciência dos discípulos de Cristo a se posicionarem a partir das palavras e atitudes de Jesus de Nazaré que se compadeceu dos sofredores de seu tempo. Seus seguidores não podem ficar alheios aos gritos dos sofredores que clamam por justiça e liberdade também em nossos dias. O Evangelho lhes mostrou que não podiam ficar apenas no assistencialismo ou no paternalismo dando esmolas para os necessitados. Mostrou-lhes, a partir da realidade, que devim ir além: optar pelos pobres, contra sua pobreza e a favor de sua vida e liberdade. Como, no entanto, fazer isso?

Existem três maneiras de ver o pobre-oprimido:
a) o que não tem;
b) o que tem; e,
c) o que tem força histórica. No primeiro caso é-se levado ao assistencialismo. Isso pode ajudar momentaneamente, mas não transforma – deixa como está. No segundo caso vê-se o pobre como aquele que tem força para sair de onde está. Ele deve ser inserido mercado do trabalho, para então, trabalhando, colaborar mais com o sistema e ter o seu sustento garantido. Não deixa de ser exploração sofisticada. No terceiro caso, no entanto, vê-se o pobre como sujeito de sua própria libertação. Ele tem a força para mudar o sistema injusto que mantém as pessoas em níveis tão desiguais. Essa última maneira de ver e fazer é a grande descoberta da Teologia da Libertação. Falar da libertação do pobre somente tem sentido quando ele próprio é o seu sujeito principal; os outros entram apenas como
aliados.

A Teologia da Libertação, ao protagonizar o pobre-oprimido, desafia a todos os seguidores de Jesus de Nazaré a se aliarem a essa luta que enfrenta o poder dos fortes-opressores.
Avanços
A Teologia da Libertação, modéstia à parte, reconhece que é uma, para não dizer a mais importante, maneira de concretizar as inovadoras idéias do Concílio Vaticano II, e isso, na realidade nua e crua de tantos sofredores explorados na América Latina. Apesar da resistência que enfrentou, ela não se conteve no Continente Latino-Americano, foi para outros cantos da Terra. Hoje ela, com acentos diferentes, está presente e atuando com força na África, na Ásia e mesmo em países do Primeiro Mundo, onde os excluídos estão descobrindo sua importância e seu protagonismo. O primeiro impulso transformador cresceu e produziu bons frutos. Entre nós surgiram as CEBs, as Pastorais Sociais e vários cristãos vindos de grupos onde se reflete a Palavra de Deus com os pés no chão se engajaram em movimentos políticos de libertação. Não se pode, porém, esquecer a grande contribuição crítica da Teologia da Libertação ao desocultar, com a sua releitura histórica, a perversidade latente no projeto de invasão que vitimou a América Latina onde o colono e o militar vinha de braço dado com o missionário. Isso, segundo a Teologia da Libertação, provocou o grande genocídio e suas consequências para os povos da América Latina. Aí está o pecado que precisa ser combatido por todas as pessoas de boa vontade.
Hoje, como a Conferência de Aparecida lembrou muito bem, os pobres-oprimidos apresentam-se com muitos rostos, talvez diferentes dos que de início se conhecia. È preciso estar atento para enxergá-los e não passar adiante para ir depressa à Igreja (como diz um canto das comunidades) sem vê-los.
Passos tomados pela Teologia da Libertação
Todavia, não basta ver os desvalidos da história, com eles deve-se encontrar saídas; ajudá-los a procurar luzes na fé em Jesus de Nazaré, no seu modo de ser e de ensinar. Assim sendo, a Teologia da Libertação parte de lá onde estão as vítimas. Sente compaixão, como Jesus sentia compaixão diante dos sofredores. Ao se compadecer toma consciência de que isso não pode ser da vontade de Deus: Deus quer a vida e a felicidade para todos os seus filhos, não a dor, a pobreza e a morte. Passa-se imediatamente à pergunta: o que fazer? É o momento de usar as capacidades racionais, procurando saídas concretas, não excluindo a Palavra de Deus interpretada com e a partir do pobre. E é bom lembrar uma descoberta iluminadora das comunidades de que “um fraco mais um fraco não são dois fracos, mas um forte!” Por último, a vida, as conquistas,
mesmo pequenas, são celebradas. Todo agir eficaz merece reconhecimento e celebração. A festa acontece, não quando se senta na mesa do rico onde abundam alimentos caros produzidos pelo suor e sangue de anônimos trabalhadores, mas quando todos são reconhecidos, amados e respeitados, quando a partilha dos bens que Deus coloca ao dispor de seus filhos, através da natureza e do trabalho humano é realizada.
Esses passos mostram “pecados” ocultos, seja das estruturas injustas da sociedade como da própria Igreja. Não adianta querer esconder, mas a leitura dos Evangelhos feita pelos pobres revelou-lhes um Jesus diferente daquele que normalmente lhes foi ensinado pelas pregações piedosas e moralizantes. O confronto de nosso pobre com o Artesão ou Camponês de Nazaré mostrou a terrível contradição entre ele e a riqueza das instituições eclesiais e sociais de nossos dias. Elas pareciam estar mais perto do palácio de Herodes do que da gruta de Belém! Os pobres perceberam que Jesus libertou do pecado, sim; mas que também libertou da doença, da fome e da morte. Concluiu: hoje o seguidor de Jesus de Nazaré deve libertar também o seu semelhante da doença, da fome e da morte.
Outra reviravolta enorme que se produziu no interior das comunidades pobres foi a forma de ver a Virgem Maria. Sempre continua sendo a “doce e sempre Virgem”, mas é também a profetisa que clama por justiça. O hino que ela cantou (Lc 1,47-55) não fica somente como letra para melodias que emocionam, mas se transforma em compromisso para a ação: Deus, por meio dos humildes, “derruba dos tronos os poderosos”.
Fermento de transformação
A Teologia da Libertação nasceu na periferia da sociedade e também na periferia do Cristianismo. Até então, a teologia ensinada na América Latina era somente reflexo da teologia produzida na Europa. Os teólogos, apesar de sua louvável boa vontade, não conseguiam colocar a cabeça pensante onde estavam os pés no chão. Na prática, impunham para os povos de nosso continente o que se produzia em uma Igreja distante de nossa realidade. A concepção de ser reflexo lembra o espelho que reproduz (do avesso) a figura original. Pouco se aproveitava para os pobres daqui aquilo que pretendia responder a perguntas do povo da Europa, eram teologias européias, não latino-americanas.
Não poderia ser diferente: os que mantinham a teologia do centro do Mundo reagiram; muitas vezes longe dos princípios evangélicos, até. Perder o controle do produzir teológico, e mais, ser criticado por pobres da periferia, não podia ser aceito facilmente. No entanto, não convém entrar nessas questões. A história que as julgue no tempo devido.
O fermento transformador da Teologia da Libertação reavivou os pobres, melhor dizendo, os acordou e até, os ressuscitou! Quantos indivíduos que não tinham nome encontraram identidade e lugar em seus grupos e comunidades? A Igreja começou e continua sendo Igreja-rede-de-comunidades. Cada vez mais entende que, como declarou João Paulo II em 1986, a Teologia da Libertação, em condições de opressão, “não é somente útil, mas também necessária”. Isto é confirmado pelo martírio de tantos líderes cristãos comprometidos, desde leigos até bispos. Aliás, os mártires, sempre com a marca registrada de serem pobres com os pobres, denunciam os autoritarismos excludentes. Suas palavras e atitudes fazem tremer o estilo autoritário. Mesmo sendo pobres, mas com consciência de cidadania eclesial, quando pensam e falam, fazem tremer até mesmo os pastores autoritários. Esses não temem o pobre que silencia, pois obedece, mas tremem diante do que pensa.
Por fim, a Teologia da Libertação contribui com todas as teologias, lembrando-lhes que não podem ser verdadeiras teologias cristãs se ao mesmo tempo não têm coragem de elevar as vozes para conclamar a todas as pessoas de boa vontade a lutar contra todo tipo de violência, exclusão e injustiça. Diz Leonardo Boff: “Uma teologia que silencia diante da tragédia de milhões de famélicos e condenados a morrer antes do tempo não tem nada a dizer sobre Deus e o mundo”.
Futuro
Nos últimos anos a Teologia da Libertação parece ter sumido. Movimentos conservadores pululam por toda parte. As pregações nas igrejas tomam outros rumos, até chegando a prometer prosperidade e soluções para todos os problemas da vida a partir de devoções não comprometedoras. As liturgias aparecem no estilo triunfante. Quanto mais luzes e objetos valiosos forem exibidos, mais contentamento se produz. Esta, no entanto, não é a palavra final. Enquanto existir um pobre e um injustiçado excluído, a Teologia da Libertação deve continuar viva. Mesmo estando escondida, ela continua presente. Ninguém pode negar que as muitas formas de pobreza somente aumentaram nos últimos anos. E a Palavra de Deus continua desafiadora. Não são poucos os que a acolhem em terra fértil. Ela pode não aparecer no momento, mas logo vai ressurgir com novo vigor.
A consciência de que todos serão julgados um dia por Deus, mas pelo Deus que tomou corpo na história humana como pobre, e que irá fazê-lo enquanto pobre, há de perturbar a muitos. Que seja assim.

Pe. Mário Fernando Glaab


Artigo baseado na palestra de Leonardo Boff proferida no 24.
Congresso da Soter em Belo Horizonte no dia 12|07|11.
O texto se encontra em Religião e educação para a
cidadania - Pedro A. Ribeiro de Oliveira, Geraldo de Mori, (orgs.). - São Paulo: Paulinas; Belo Horizonte: Soter, 2011, pp. 129-143.

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