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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Comunidade em Construção


Há dois anos aconteceu em Porto Velho o 12º Intereclesial das CEBs, com uma profunda repercussão na Igreja e na vida das Comunidades Eclesiais de Base em todo o Brasil.

O ISER, que presta assessoria à CNBB no campo da religião, cidadania e democracia, reuniu em abril desse ano, no Rio de Janeiro, os assessores das CEBs de todos os regionais da CNBB para um Seminário de reflexão sobre a identidade das CEBs e qual o perfil que têm elas hoje. Ouvir os desafios das CEBs diante do mundo contemporâneo e a proximidade dos 50 anos do Concílio Vaticano II foram também motivações desse Seminário, além de observar a nova significação das CEBs nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja para o próximo quatriênio.

Foi o 12º Intereclesial que levou ao ISER Assessoria a ideia de criar este espaço de formação, pensando numa nova geração de assessores. Dentre os desafios que marcam a caminhada das CEBs nos Regionais, foram apontados: a questão urbana, pois as CEBs têm características rurais e nossa atuação é urbana; a nova classe média avança e a igreja vai dando lugar para o shopping Center; o nível das pessoas que participam está se elitizando; o desafio é a visão utilitarista, ninguém tem tempo; temos dificuldade de dialogar com a nova cultura; o ritmo acelerado de vida que leva a consumir a não ser solidário. A espinha dorsal das CEBs é a comunidade. Não dá para pensar nesta questão descolada de outras situações.

Outros desafios observados: como entender este momento e como identificamos as CEBs hoje? Existe uma linha pentecostal individualista, para solucionar os problemas pessoais; individualismo para curar a minha ferida, e assim não se consegue construir comunidade. Parece que a missa não curou e vai-se em busca de outras curas. Quem é de algum movimento não vem na comunidade. Há uma tentativa de diluir as CEBs em qualquer grupo de oração. Cria-se uma divisão entre os que são da Teologia da Libertação e os que são da Renovação Carismática Católica; criam-se práticas na tentativa de substituir a caminhada das comunidades eclesiais como Cerco de Jericó e outras, com uma visão descontextualizada.

São, portanto, muitos os desafios. Como transformar as paróquias em rede de comunidades e resgatar a profecia? Para Pe. Ferraro, o 12º Intereclesial demonstrou que as igrejas principalmente do Norte e do Centro Oeste não sobreviveriam sem as CEBs. Numa dimensão eclesiológica, ele percebe que, a partir da Conferencia de Aparecida, do 12º Intereclesial e de nossa Carta junto com a articulação continental das CEBs, tudo isso aponta para uma nova estruturação eclesial onde as CEBs que são reconhecidas como figura teológica (elas estão presentes em muitos documentos oficiais da Igreja) e indica também a necessidade de um maior reconhecimento no interior da Igreja. Ninguém pode dizer que as CEBs não existem. Elas aparecem no lugar de comunhão eclesial. Ninguém contesta isso. Um problema, segundo Ferraro, seria como passar do lugar teológico para o lugar social. Para isso deveríamos retomar a questão das CEBs como células estruturais da Igreja (célula inicial de estruturação eclesial segundo o Documento de Medellín), recuperar a dinâmica das primeiras comunidades, dentro do sentido teológico esboçado em Atos dos Apóstolos. Também recuperar a dimensão profética das CEBs, não apenas no sentido de denúncia, mas na linha prospectiva de apontar novos modelos para a comunhão eclesial (estamos diante do papel protagônico das CEBs em relação a um novo modelo eclesial). Tudo isso ainda se completa com a recuperação da dimensão missionária, fugindo ao proselitismo, mas fundando comunidades nos bairros, como a melhor maneira de se fazer missão. Elas ainda são um laboratório para o diálogo inter-religioso. A partir das CFs de 2000, 2005 e 2010, temos que pensar numa nova estruturação ecumênica: não adianta fazer a CF ecumênica e na hora da eucaristia não nos recebermos como irmãos e irmãs da mesma caminhada.

As Novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2011-2015) ao indicar o caminho para a ação evangelizadora nos próximos anos apontam a Igreja: Comunidade de Comunidades, como uma das urgências e prioridades da ação pastoral: “A Igreja se empenhará em ser uma Igreja .. “comunidade de comunidades” a serviço da vida em todas as suas instâncias” (29).

Sem vida em comunidade, não há como efetivamente viver a proposta cristã, isto é, o Reino de Deus. A comunidade acolhe, forma e transforma, envia em missão, restaura, celebra, adverte e sustenta. Ao mesmo tempo em que se constata, nesta mudança de época, uma forte tendência ao individualismo, percebe-se igualmente a busca por vida comunitária. Esta busca nos recorda como é importante a vida em fraternidade. Mostra também que o Espírito Santo acompanha a humanidade suscitando, em meio às transformações da história, a sede por união e solidariedade (59).

O caminho para que nossas paróquias se tornem comunidade de comunidades desafiam a criatividade, o respeito mútuo, a sensibilidade para o momento histórico e a capacidade de agir com rapidez. Mesmo consciente de que processos humanos e transformações de mentalidade não acontecem de uma hora para outra, nos comprometemos em acelerar ainda mais o processo de animação e fortalecimento de efetivas comunidades, que buscam intensificar a vida cristã por meio de autêntico compromisso eclesial (62).

Para o Documento de Aparecida, as CEBs têm sido verdadeiras escolas que formam cristãos comprometidos com sua fé, discípulos e missionários, como testemunhas de uma entrega generosa, até mesmo com o derramar do sangue de muitos membros seus (102).

Para que sejamos uma Igreja comunidade de comunidades, é imprescindível o empenho por uma efetiva participação de todos nos destinos da comunidade, pela diversidade de carismas, serviços e ministérios. Para isso, faz-se necessário promover principalmente, a diversidade ministerial, na qual todos, trabalhando em comunhão, manifestam a única Igreja de Cristo, sejam eles leigos e leigas e ministros ordenados. Urge aos pastores “abrir espaços de participação aos leigos e a confiar-lhes ministérios e responsabilidades, para que todos na Igreja vivam de maneira responsável seu compromisso cristão”. Instrumento privilegiado de uma pastoral orgânica e de conjunto é o planejamento, através da participação de todos os membros da comunidade eclesial na projeção da ação, tanto no processo de discernimento como na tomada de decisão (104a-d).

A efetivação de uma Igreja comunidade de comunidades com espírito missionário manifesta-se também na bela experiência das paróquias-irmãs, dentro e fora da diocese, análoga ao projeto Igrejas-irmãs. Faz-se necessário estimular, sempre mais, com oportunas iniciativas, a partilha e comunhão dos recursos da Igreja no Brasil, desenvolvendo e ampliando o projeto “Igrejas Irmãs” nas Igrejas Particulares, nos regionais e em âmbito nacional, levando em conta a situação de grave necessidade de pessoal e de recursos financeiros nas regiões mais carentes do país. A região amazônica merece uma atenção e dedicação especial


Dom Moacyr Grecci

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