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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Os desafios da Igreja numa nova África do Sul

Entrevista com dom José Luis Ponce de León, IMC, bispo de Ingwavuma

O vicariato apostólico de Ingwavuma, diocese ainda em formação, situada na fronteira entre a África do Sul, Moçambique e Suazilândia tem como bispo o argentino dom José Luis Ponce de León, imc. Nascido em Buenos Aires, em 1961, José Luis entrou no Instituto Missões Consolata - IMC, em 1979, onde foi ordenado em 1986. Trabalhou na Colômbia e na Argentina até 1993 quando partiu para a África do Sul, momento em que o país vivia uma virada histórica com o fim da segregação racial e o início do governo de Nelson Mandela. Em 2005 foi chamado para trabalhar em Roma, Itália, na Secretaria para a Missão do IMC, sendo nomeado, em seguida Secretário-Geral da Congregação, cargo que ocupou até 2008, quando foi nomeado o mais jovem bispo na África do Sul. A ordenação aconteceu em abril de 2009. Em recente passagem pela Europa para falar dos projetos relacionados à AIDS, em Roma, dom José Luis concedeu entrevista à revista Missões.

Quais são as prioridades pastorais da Igreja na África do Sul?
Nos anos 80 houve uma reflexão nacional, que resultou num programa pastoral intitulado "Comunidade que Serve à Humanidade". Na África do Sul os cristãos somam apenas 10%. No vicariato de Ingwavuma são 4%. Isso nos leva a trabalhar não apenas no interior da comunidade cristã, mas abertos ao serviço de toda a humanidade. Até 1994, o que marcou o trabalho pastoral foi a luta contra a segregação racial. De fato, se dizia que, à época, o governo via dois perigos: a Igreja Católica e o comunismo. Havia uma luta clara. Em geral, o bispo anglicano Desmond Tutu é o mais conhecido por ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, mas na Igreja Católica tivemos dom Denis Hurley, arcebispo de Durban, o mais jovem bispo a participar do Concílio Vaticano II. Sendo ele branco e sul-africano foi muito importante na luta contra a segregação racial.

Qual foi a participação específica dos missionários nessa luta?
Mais do que combater a segregação racial, a Igreja e os missionários procuraram se aproximar das pessoas optando pelas comunidades negras para promover a integração. Como éramos estrangeiros não podíamos falar abertamente, então nos dedicávamos a trabalhar na área da educação, da saúde e da promoção humana.

Como nomearam um missionário argentino bispo para África do Sul?
A África do Sul por três anos não nomeou nenhum bispo. Quando eu fui nomeado foi algo inédito, mas depois nomearam um polonês, um belga e um de Botswana. Hoje a Conferência dos Bispos da África do Sul, que abrange também Suazilândia e Botswana, tem 29 bispos e mais da metade foi nomeada nos últimos quatro anos. A presença de elementos de fora faz bem. A África do Sul vive o desafio de aumentar a presença local. Há uma necessidade de preparar bem os padres com um programa de formação contínua para um melhor serviço à Igreja.

Na Conferência Episcopal, o senhor é o bispo responsável pelos projetos na área da AIDS. Como a Igreja desenvolveu esse trabalho?
Depois de Mandela, assumiu o governo Thabo Mbeki que ignorou o tema da AIDS, colocando em discussão suas causas, e enquanto isso, muita gente morreu. Quando surgiram os medicamentos retrovirais, Mbeki falou que eram perigosos para o povo. A Igreja seguiu trabalhando na prevenção e incentivando o uso dos retrovirais. O trabalho tem muitas frentes que vai desde a prevenção, visitas aos doentes, acompanhamento às famílias e fornecimento dos medicamentos. Perdemos toda uma geração, restando os avós e as crianças, muitas delas sem registro de nascimento. Trabalhamos para regularizar a situação para que possam obter ajuda do governo. Somente em Ingwavuma ajudamos entre dois a três mil órfãos. Os órfãos não podem ficar em abrigos, então a forma é encontrar alguém que se responsabilize por eles.

O governo dá apoio para todos os que vivem com o vírus HIV?
O atual presidente, Jacob Zuma teve uma atitude diferente do governo anterior e o novo ministro de saúde potencializou os medicamentos retrovirais. A Igreja está fazendo um plano para o futuro, porque em nível nacional dependemos do que os Estados Unidos entregam e isso vai terminar em 2014. Estamos dialogando com o governo local e a nossa proposta é que o governo forneça os medicamentos e a Igreja, as estruturas de apoio. Com isso, seguiremos atendendo as pessoas que já assistimos. Caso o governo não aceite, teremos de desativar as estruturas e transferir os doentes para os hospitais locais.

Como funciona esse atendimento?
Na sede do vicariato, onde vivo, temos duas salas equipadas que funcionam como clínicas para atender os doentes. Além disso, uma equipe se desloca com uma clínica móvel para as regiões do interior. A extensão do Vicariato, de norte a sul, é de 250 km e tem cinco centros (Missões), com 15 a 20 capelas cada, num total de 75 comunidades. Temos também um contêiner com um laboratório de primeira qualidade. Assim não precisamos ir a Durban ou Pretória para os testes e o controle de infecções. Os medicamentos os conseguimos mediante um acordo entre a Conferência Episcopal e o governo dos Estados Unidos, que determina onde adquiri-los.

Como avalia o papel que a África do Sul tem no continente africano?
No plano econômico tenho medo que a África do Sul seja para o continente o que os Estados Unidos são para as Américas. O país está fechando as fronteiras para os estrangeiros. Muitos africanos que veem na África do Sul um paraíso, passam a ter dificuldades para entrar no país. Outro problema que surgiu nos últimos três anos são as manifestações xenofóbicas contra trabalhadores estrangeiros com ataques e mortes. Durante a Copa do Mundo, a determinação era de que todos deveriam ser bem recebidos, porém deveriam voltar para casa assim que o campeonato terminasse. O temor era de que as manifestações de xenofobia voltassem tão logo acabasse o evento. De fato, as primeiras manifestações aconteceram na mesma noite do encerramento do Mundial, mas pararam por aí. Existe um esforço para conscientizar as pessoas a aceitarem os estrangeiros que não vêm para tirar postos de trabalho de ninguém, mas para ajudar as suas famílias, assim como muitos sul-africanos saíram do país depois de 1994, com a queda de um sistema.

Quais foram os ganhos do país com a organização da Copa do Mundo?
Imediatamente após o Mundial, o país enfrentou uma onda de xenofobia, uma greve geral de trabalhadores e duas novas leis sobre os meios de comunicação. Uma prevê que qualquer autoridade pode determinar que uma informação seja confidencial e não possa ser publicada por motivo de segurança nacional. Temos medo que isso sirva para ocultar a corrupção, que é muito alta. A Copa foi um momento de magia, pois foi capaz de unir o povo de todas as raças em torno de uma seleção. O grande ganho foi mostrar que África do Sul era capaz de realizar o evento e a segurança funcionou. O povo não ficou decepcionado quando a seleção não passou da primeira fase e passou a torcer por Gana. O que fica é uma memória positiva, o que faz com que os turistas voltem a visitar o país. O desafio é saber como manter os estádios e o que vai acontecer com a África do Sul quando morrer Mandela, que tem ainda muita influência e é respeitado.

Jaime Carlos Patias, imc, diretor da revista Missões.

Publicada na revista Missões, N. 04 - Maio 2011.


Fonte: Revista Missões

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