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terça-feira, 3 de maio de 2011

Martírio da cana conta com financiamento público


Investimento estatal em usinas sucroalcooleiras financiam desenvolvimento do setor no Sergipe

“Não tem foto dele não. Ele não gostava de foto. Mas se você quiser, tem uma que a gente tirou do celular no velório. Dá pra ver bem o rosto dele no caixão”, afirma Benedita Alves. De gravata preta, camisa de linho branca, envolto por pétalas amareladas, o bigode ralo é uma tentativa inútil de disfarçar os 17 anos de Diego Alves dos Santos, morto na manhã de terça-feira, 29 de março, quando o ônibus que o transportava para o corte de cana na usina Taquarí colidiu com uma carreta nas imediações do município sergipano de Capela.

Na varanda de sua casa, à beira dos canaviais que rodeiam o pequeno povoado de Bota Fogo, divisa dos municípios de Coruripe e Pindorama no sul de Alagoas, Benedita lembra que aquela não fora a primeira vez que seu sobrinho viajou para cortar cana no estado vizinho. “Sempre que termina a moagem nas usinas daqui, o José Cícero empreiteiro convoca o pessoal do povoado para trabalhar em Sergipe. Antes do acidente, o Diego já tinha passado uma semana inteira cortando cana por aquelas bandas”, revelou Benedita.

Na madrugada daquela terça, Diego e mais 24 conterrâneos partiram de Bota Fogo rumo a mais uma jornada de trabalho. A poucos quilômetros de seu destino final, o motorista do ônibus perdeu o controle do veículo e bateu de frente com um caminhão carregado de coque, um derivado do petróleo utilizado na fabricação de cimento. Além de Diego, os dois motoristas e mais um cortador morreram. Maxwell Santos, de 17 anos, teve um dos braços amputado e continua internado no Hospital de Urgência de Sergipe(Huse).

“Até agora ninguém da usina procurou a gente”, informou Benedita. Por tratar-se de um menor de idade sem carteira assinada, ela não tem esperanças de que a Usina Taquarí assuma a responsabilidade sobre o acidente – o que em outras palavras significaria admitir que possui trabalho clandestino em seus canaviais.

Novas usinas

Diego Alves começou a trabalhar nos canaviais em 2008, mesmo ano de inauguração da Usina Taquarí. Enquanto o jovem alagoano desferia seus primeiros golpes de facão, recebendo menos de R$ 4,00 por tonelada de cana cortada, o Grupo Samam investia R$ 68 milhões para pôr em funcionamento no povoado Miranda, município de Capela, “das mais modernas usinas de álcool do Nordeste, com 10 mil tarefas de terra tomadas pelo plantio de cana-de-açúcar, tendo capacidade de moagem de 500 mil toneladas e produção de 30 milhões de litros de álcool por safra”, segundo informações do site oficial da empresa.

A Samam (Sociedade Anônima Aguiar Menezes)foi criada há mais de 80 anos pelo empresário Manuel Aguiar Menezes. Ao longo do século passado, o Senhor Manelito, como ficou conhecido na sociedade sergipana, transformou pequena empresa de ferragens, louças e vidros em uma holdingcom faturamento anual de mais de R$ 360 milhões e que abrange mais de 20 empresasatuantes nas áreas de de carros, caminhões e tratores, agronegócio, indústria, clínicas hospitalares, ária serviços em geral. O grupo é comandado por seus netos Henrique e Manelito Menezes e tem na caçula Taquarí a sua mais nova galinha dos ovos de ouro. A expectativa é que já em 2012 a usina alcance seu ápice de funcionamento, chegando à marca de 40 milhões de litros de álcool por safra.

Dinheiro público

O que poucos sabem, todavia, é que boa parte dos R$ 68 milhões investidos na construção da Taquarí não saíram efetivamente dos bolsos dos presidentes da Samam. Na verdade, a empreitada foi financiada pelo governo de Sergipe, através do Banese – Banco Estadual de Sergipe. Além do financiamento público, a Taquarí foi contemplada com uma redução de 90% no recolhimento do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) durante um prazo de 15 anos.

“Meu otimismo é ancorado não só na forte demanda pelo álcool combustível, mas também na certeza de incentivos fiscais concedidos pelo governo do estado. O incentivo fiscal do governo foi crucial. Caso não recebêssemos esse apoio, seria completamente inviável criar o empreendimento”, afirmou o presidente Manelito Menezes, quando da inauguração da usina.

Mesma vantagem foi dada a Carlos Vasconcelos, presidente da Agroindustrial Campo Lindo. Instalada no município de Nossa Senhora das Dores no mesmo ano de 2008 e com capacidade para produzir 700 mil litros de etanol por dia, 80% dos R$ 120 milhões gastos na construção da Usina Campo Lindo foram financiados pelo BNB – Banco do Nordeste do Brasil.

A instalação das usinas de Campo Lindo e Taquarí são exemplos concretos de um novo ciclo de recuperação da atividade canavieira em Sergipe, segundo Ricardo Lacerda, professor de economia da UFS (Universidade Federal de Sergipe) e assessor econômico do governo estadual. “Desde 2004, impulsionada pela expansão da frota nacional de veículos bicombustíveis e pela trajetória ascendente do preço do açúcar no mundo, a atividade canavieira de Sergipe iniciou um ciclo de recuperação que veio a ser consolidado nos últimos anos com a implantação das usinas de Campo Lindo e Taquarí. Ainda que a produção de cana-de-açúcar de Sergipe represente apenas 3,7% do total do Nordeste, esse ciclo recente confirmou um novo espaço para atividade canavieira no Estado”, opina Lacerda. Em 2009, por exemplo, a produção sergipana atingiu 2,7 milhões de toneladas, 98% maior que a safra de 1996.

Charles Souto

de Coruripe/AL e Aracaju/SE


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