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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

''Não poderá haver diálogo com os cristãos se o Islã não se abrir ao pensamento crítico''

Repensar de modo radical a separação entre Estado e Igreja para enfrentar o desafio com o Islã na modernidade. Os cristãos estão sob ataque. Tudo somado, o diálogo com os judeus funciona, mas com os muçulmanos as portas estão fechadas, as tensões prevalecem. Eis o motivo pelo qual deve ser posto em discussão o princípio da religião como assunto privado, defende Daniel Marguerat. "Fiquemos atentos: somos vítimas da laicidade! Hoje, um político europeu frequentemente se envergonha a se proclamar cristão. Porém, o terreno neutro da política não existe".

A reportagem é de Lorenzo Cremonesi, publicada no jornal Corriere della Sera, 04-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Entrevistamos Marguerat à sombra do crescente ataque contra os cristãos no Oriente Médio. Professor de Novo Testamento da Universidade de Lausanne, pastor protestante, exegeta bíblico, autor de obras fundamentais sobre a Igreja das origens, aos 67 anos, ele é também um convicyo defensor do diálogo inter-religioso. Mas de um diálogo, por assim dizer, "armado", em que os cristãos não cheguem desarmados nos seus princípios identitários.

"Uma das poucas consequências positivas do crescimento do fundamentalismo entre os muçulmanos emigrados na Europa e das suas violências no Oriente Médio é que isso irá obrigar os herdeiros da tradição cristã a considerar com mais atenção suas próprias raízes religiosas. Devemos nos valorizar. Esquecemos, dentre muitas coisas, que, no seu nascimento, o cristianismo constituiu um ascensor de promoção social para o convertido: universalizava o conceito de cidadania grego, limitado só a poucos na cidade-Estado, revolucionava o privilégio exclusivista dos judeus, povo eleito, tornando-o acessível a qualquer um".

Desse diálogo com os muçulmanos, porém, ele é o primeiro a se mostrar cético. Marguerat é muitas vezes anfitrião das comunidades cristãs e dos governos no Oriente Médio. "Não fiquei admirado com os ataques contra os cristãos no Iraque. São inevitáveis e anunciados. Aqui, os grupos radicais agridem as igrejas na sua guerra contra a modernidade ocidental. Mas me tocou muito a bomba diante da Basílica de Alexandria. Eu havia estado presente ali recentemente para um ciclo de conferências", diz.

A opinião é inapelável: trata-se de um atentado gravíssimo a um dos pilares de sustentação do Estado, parte integrante da identidade nacional egípcia. E uma tragédia que põe em dúvida a coexistência. A seu ver, nem na Europa é conhecida a força dos coptas. "O governo Mubarak busca a coexistência pacífica com o integralismo muçulmano, não quer tornar conhecido que os coptas representam entre 13% a 18% da população total. Deveriam ser muito mais presentes no governo e na política. Constituem a comunidade cristã mais importante do Oriente Médio. Todos motivos que deveriam alimentar o diálogo religioso. E, pelo contrário, são causas de atrito".

A passagem da violência das ruas à incompreensão teológica é quase automática. Ele declara: "Do lado muçulmano, não vejo nenhuma abertura substancial. De fato, não estão dispostos a se colocar em discussão. Porque diálogo significa justamente isto: escutar o outro, expôr a própria identidade à crítica. Os dois únicos intelectuais que eu conheço que estão prontos a riscos desse tipo vivem em Paris: Ghaleb Bensheikh e Mohammad Arkoun. A sua leitura exegética do Alcorão, incluindo a parte com as suras mais antigas, escrita em Meca, e a parte mais tardia da vida do Profeta em Medina, faz com que estejam empenhados em uma obra de historicização crítica. Defendem que o corpo de Meca é muito mais moderado do que o de Medina, em que os ataques contra judeus e cristãos são virulentos. Isso permite afirmar que, para buscar a harmonia com as outras religiões, é preciso valorizar algumas suras a despeito de outras".

Uma operação que, destaca Marguerat, os expõe à possibilidade de serem agredidos pelos extremistas islâmicos, com o risco de perder a vida. "A verdade é que, no Islã, continua prevalecendo a leitura fundamentalista do Alcorão livro-revelação, indivisível, intocável, por ser palavra de Alá". O resultado é que, embora a concepção muçulmana da divindade seja muito mais semelhante à judaica do que à cristã, desde o fim da Segunda Guerra Mundial e principalmente depois do Concílio Vaticano II, é o diálogo entre cristãos e judeus que decolou.

Os motivos? Dois em particular: o desejo de esclarecer as incompreensões depois das acusações contra a Igreja de ter favorecido o antissemitismo nazista e o fato de que, diferentemente da ênfase muçulmana no valor normativo do rito, judeus e cristãos são interessados pelo estudo dos textos formativos.

Os seus trabalhos mais recentes se inserem no debate sobre a identidade judaica de Cristo. Explica: "Jesus é um judeu que se dirige aos judeus. A sua pregação continua estando inteiramente no interior do Israel do seu tempo. Naqueles anos de fermento em toda a Palestina, havia outros pregadores e aspirantes a messias considerados pelos sacerdotes do Templo como bem mais heréticos do que ele. Jesus firma a sua condenação à morte por desejo dos fariseus quando insiste na questão da pureza, que, a seu ver, não é exterior, mas interior, alcançável por todos. Foi posto na cruz quando pregou a igualdade diante de Deus para todo o indivíduo do seu povo".

A ruptura entre Igreja e Sinagoga chega, ao contrário, muito mais tarde, no final do século II, bem depois da pregação paulina. É então que os Padres da Igreja teorizam sobre a substituição da nova aliança à velha. Tudo isso para indicar como a reflexão teológica com o Islã continua em níveis primitivos. Nada a ver com as sutilezas do diálogo judaico-cristão.

Marguerat é muito claro: as rigidezes doutrinais e dogmáticas da parte muçulmana impedem a aproximação. "Um dos lugares comuns na relação entre as duas fés é que não havia necessidade de muitos aprofundamentos, já que Maomé aceitou o Antigo Testamento e os Evangelhos como parte integrante do processo de preparação ao advento do Islã. Abraão, Jacó, Moisés, até Jesus, nessa leitura, seriam todos profetas com a mesma dignidade. Na verdade, no Alcorão, o cristianismo é, sim, aceito, integrado, mas também distorcido, adoçado, privado das características principais. Jesus não seria filho de Deus e não lhe é reconhecido nem o fato de ter morrido na cruz".

A reportagem é de Lorenzo Cremonesi, publicada no jornal Corriere della Sera, 04-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Fonte: IHU


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