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sábado, 8 de janeiro de 2011

CEBs: Comunidades eclesiais de base

Quando um brasileiro chega às paróquias das Filipinas, logo lhe perguntam a respeito do caminho das pequenas comunidades brasileiras; no México, quando se elaboram os planos de pastoral, o ponto de referência são as comunidades eclesiais de base do Brasil.


Entre as forças emergentes da Igreja nestes últimos anos, há a experiência significativa das Comunidades Eclesiais de Base.

São grupos que amadureceram e ganharam sua legitimidade como forças vivas da Igreja num momento particularmente difícil e, ao mesmo tempo, glorioso da Igreja da América Latina.

As Comunidades Eclesiais de Base representam, ainda hoje, um ponto de referência para muitas Igrejas espalhadas pelo mundo todo e adquiriram um estatuto legítimo nos documentos da Igreja oficial.

Hoje, no entanto, nos perguntamos sobre a real consistência dessas comunidades e quais rumos estão trilhando à entrada do terceiro milênio.

O que são as CEBs

1. O nome "CEBs"

Houve um tempo em que não havia muita necessidade de explicar o significado da sigla "CEBs". Fazia parte do imaginário e do vocabulário de muitos cristãos católicos. Suscitava entusiasmos e esperanças, assim como perplexidades e interrogações.
Mas hoje, muitos nem se lembram mais dos difíceis e duros anos da ditadura militar no Brasil e nem participaram do processo de democratização.

Foi naquela época que pipocaram, em todo o país, pequenas comunidades ligadas principalmente à Igreja católica. Querendo ou não, contribuíram de diferentes maneiras para o processo de democratização.

Eram grupos de pessoas que, morando no mesmo bairro ou nos mesmos povoados, se encontravam para refletir e transformar a realidade à luz da Palavra de Deus e das motivações religiosas.

Daí o nome de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Começavam também a reivindicar pequenas melhorias nos bairros, mas, ao mesmo tempo, iniciavam uma caminhada para tomar consciência da situação social e política.

Queriam a transformação da sociedade. Inspiradas no método "Paulo Freire" de alfabetização de adultos, executavam uma metodologia que levasse da conscientização à ação.


O prof. Faustino Luiz Couto Teixeira, especialista sobre o assunto, escreve que "nos anos 70 e início dos 80, falava-se muito no impacto da atuação das CEBs no campo sócio-político, enquanto geradoras de uma nova consciência das camadas populares e fator de grande importância no processo de libertação dos pobres."

Em outras palavras, essas pequenas comunidades cristãs, de 20 a 100 membros, eram consideradas um novo sujeito popular (Petrini, 1984), capaz de reverter a situação de pobreza e apontando para uma nova sociedade mais justa e fraterna.

Depois veio a abertura democrática e o fim da ditadura, houve a crise no Leste europeu e a queda do modelo socialista burocrático; houve a afirmação do capitalismo de corte neoliberal e também mais exclusão e pobreza. Foi na segunda metade dos anos 80 e nos anos 90, que as CEBs tiveram que repensar sua identidade.


Mais especificamente no interior da Igreja Católica, as CEBs queriam rever uma estrutura muito piramidal, de cima para baixo. Incentivadas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), vislumbraram uma maior participação dos leigos e um processo mais participativo de tomada de decisões. Ao redor da imagem de "povo de Deus", que foi caracterizada pelo Concílio, as comunidades sentiram-se parte ativa na construção do Reino de Deus.

Houve quem aplaudisse e quem desqualificasse essa atitude como algo que ameaçasse destruir a estrutura de dois mil anos da Igreja. Falava-se da prioridade do carisma sobre a instituição (L. Boff) e usava-se o método das ciências sociais para analisar a Igreja.

Substituir a tradicional filosofia pelas ciências sociais representava o risco de introduzir a análise marxista dentro da Igreja. Começou-se, então, a falar do perigo comunista na Igreja e muitos ficaram alarmados.

Até o Departamento de Estado Norte Americano pronunciou-se, contundentemente, através de dois documentos chamados "Santa Fé": "a Teologia da Libertação e suas células (as CEBs) representam uma doutrina política disfarçada de crença religiosa, com um significado antipapal e antilivre empresa, destinadas a debilitar a independência da sociedade frente ao controle estatal" (Santa Fé II).

2. Surgimento das CEBs: um pouco de história

É difícil estabelecer com precisão o momento exato do surgimento da primeira CEB no Brasil. Pe. Fernando Altemeyer Jr. diz que "é como o filho de pobre: nasce num dia, mas fica registrado num outro." Em geral, registra-se a origem no começo dos anos 60, sob influxo da experiência de catequese popular na Barra do Piraí (1956) ou do Movimento da diocese de Natal, ou ainda do Movimento de Educação de Base.
O contexto sócio-cultural e eclesial brasileiro contribuiu para a eclosão das CEBs. Não se pode negar a influência do esforço da Ação Católica na questão da cidadania, os esforços de renovação pastoral do Movimento para um Mundo Melhor e dos Planos de pastoral da CNBB - Plano de Emergência e Plano de Pastoral de Conjunto - e também a rearticulação da pastoral popular após o golpe militar de 1964. Alguns falam da gênese remota das CEBs nas experiências de iniciativa leiga do catolicismo popular que teve sua marca original até a segunda metade do século XIX.
Todas essas influências não explicam completamente a gênese das CEBs no Brasil. Faustino Teixeira diz que é necessário mencionar também os movimentos mais amplos de renovação eclesial, iniciados no início do século XX e sancionados pelo Concílio Vaticano II. Parece que o elemento detonador das CEBs no Brasil foi exatamente a experiência única e marcante do Vaticano II. Este Concílio revelou seu potencial pastoral em sua abertura para o mundo e para a história e, ao mesmo tempo, sua densidade de reflexão, postulando a imagem da igreja como sendo o povo de Deus a caminho. As CEBs resgataram esses filões através da releitura que a Conferência de Medellin (1968) e Puebla (1979) fizeram na América Latina. Medellin preencheu o imaginário eclesial com a temática da Libertação e Puebla com a evangélica opção pelos pobres. Alfredo Bosi fala que "as Cebs são uma alternativa feliz de enraizar os valores da fé cristã num momento histórico determinado", depois que a Ação Católica foi desmontada nos ano 60.

3. Traços característicos das CEBs

Mesmo que se tenha certa dificuldade em encontrar traços homogêneos e constantes em todas as CEBs, há alguns elementos que, em geral, podem ser detectados.
Um elemento é a territorialidade, isto é, as pessoas de uma comunidade estão situadas num território geográfico específico. É muito fácil que se conheçam e que estabeleçam relações e contatos. "Base" significa propriamente essa concentração de pessoas num povoado ou num bairro. As experiências históricas mostram que, muitas vezes, foram essas comunidades que ajudaram a reivindicar serviços básicos, como água, luz e esgoto, e a reorganizar a vida do bairro.
A leitura e a reflexão sobre a Palavra de Deus é outro traço característico das CEBs. Muitas comunidades começaram como reuniões bíblicas que iluminavam a vida das pessoas. À medida em que a vida comunitária se organizava foi introduzido também o culto dominical ou a celebração da Eucaristia.
A participação e a discussão dos problemas em forma de assembléia caracterizou muitas Comunidades de Base. A metodologia participativa inclui a colaboração de todos na discussão, na solução e no encaminhamento concreto do problema. Se, por exemplo, o tema é o desemprego, há no final um compromisso concreto que é assumido por todos: preparam-se cestas com alimentos básicos que são distribuídas aos desempregados. Esse espírito desencadeou a emergência de ministérios leigos que foram se multiplicando a partir das exigências da comunidade: há ministros da Palavra, ministros da Eucaristia, ministros da pastoral da moradia, do trabalho, do menor. Muitos serviços englobam mulheres e homens em clubes e pequenas organizações: hortas comunitárias, clubes de mães, alfabetização de adultos e, muitas vezes, grupos de sustentação dos movimentos populares. Esses serviços destacam o compromisso das CEBs com os mais pobres e a relação conseqüente entre fé professada e vida concreta. É propriamente o compromisso com as camadas mais desfavorecidas da população que tornaram as CEBs profundamente ativas no campo social. O pobre não é visto como problema, mas como solução no processo de construir uma nova sociedade.
Por fim, o horizonte para o qual as CEBs se deslocam é a prática concreta de Jesus e o sonho de rea-lizar o Reino de Deus. Termos co-mo justiça, fraternidade, solidariedade, compromisso e caminhada revelam, de um lado, o seguimento de Jesus e, de outro, a vontade de implantar concretamente o Reino de Deus.

CEBs e estrutura da Igreja

"Está muito difícil! Na Igreja Católica, infelizmente, os leigos são ainda pouco considerados. A estrutura da Igreja é ainda muito piramidal. Como pe. Libânio diz, devemos resgatar a experiência do primeiro milênio que pode servir para o terceiro. Sim, porque a Igreja do segundo milênio foi uma Igreja feudal e piramidal. O leigo não pode ser sempre o funcionário do padre. Pense, por exemplo, na questão missionária: numa igreja toda ministerial, toda a Igreja seria missionária. Mas, até hoje ainda a missionariedade específica está ainda muito concentrada nas congregações religiosas."

CEBs e outras forças da Igreja

"As Cebs aprenderam às duras penas que elas não eram o único modelo eclesial. Num tempo, elas tinham uma certa vaidade como qualquer movimento novo. As CEBs são uma estrutura de base da Igreja, mas não a única maneira de a Igreja se expressar. Hoje, elas estão mais maduras e dialogam com outros movimentos dentro da Igreja, incluídos os carismáticos. Antes havia um certo leninismo, para usar uma expressão forte, um leninismo eclesiástico. Às vezes, brinco com grupos de CEBs e digo, deixando-os nervosos, 'sem carismáticos a Igreja não pode viver, porque sem carisma a Igreja perde o Espírito.' Mas também sem CEBs, a Igreja perde seu valor. É interessante ver que as CEBs nunca tiveram problemas com experiências e movimentos leigos como a Legião de Maria, o Apostolado de Oração e com os Vicentinos. Como as CEBs, esses movimentos souberam integrar o catolicismo popular. Agora, com os carismáticos, a diferença está na metodologia da prática social. Mas, também com eles estamos dialogando."

CEBs e ecumenismo

"Eu acho que este é um campo minado e pouco trabalhado pelos agentes das CEBs e por lideranças, quer leigos quer religiosos e padres. Todos são muito mal preparados para o diálogo ecumênico. É claro que ecumenismo é, antes de tudo, uma graça do Espírito Santo. É preciso rezar muito, ouvir muito, tentar compreender, mas precisa também competência, saber que luterano não é metodista; saber que um pastor pentecostal de uma Igreja de missão não é a mesma coisa que um pastor de uma Igreja pentecostal neodenominacional. Não é somente questão de semântica, é necessário saber que existem identidades protestantes diversificadas. Precisamos de mais cursos, mas também de mais encontros ecumênicos. Pense que os protestantes que chegaram ao Sul do Brasil eram considerados traidores de Cristo: isso ainda está enraizado na mentalidade católica. A Igreja tem muito mais jeito para se aproximar dos judeus do que tratar com quem crê em Cristo. No Brasil, faltaria também uma outra coisa que é o diálogo inter-religioso com os não-cristãos."

CEBs e América Latina

"Houve mais consciência de uma abertura latino-americana, até a década de 90. Hoje, por vários motivos, entre os quais, paradoxalmente, o modelo neoliberal com sua vertente de globalização idealista, de um lado, fala-se de universalismos e, de outro, aprofundam-se, com radicalidade, os localismos. Cada um se sente mais fechado no seu mundinho. Nós somos menos latino-americanos do que fomos anteriormente. Considere, por exemplo, o problema com a Argentina que vê o Brasil como inimigo, cada vez que sobe um pouco o valor do dólar. Isso cria tensões. Nós precisamos restaurar a aliança latino-americana num novo modelo. Quem sabe, menos política e mais alternativas econômicas e culturais."

CEBs e massa

"CEBs e massa popular é um tema bastante difícil na vida das comunidades. Eu chego à conclusão de que Jesus nunca se negou a trabalhar com um pequeno grupo de doze pessoas como referência, até pedagógica. Ele cuidou desse grupo. Era o seu grupo. Ao mesmo tempo, porém, nunca se omitiu de atender a massa que o rodeava. Aqui está a questão. Devem ser reforçados os pequenos grupos como sendo o fermento e não se omitir de comunicar e atender os anseios das massas, mesmo com os meios de comunicação.

CEBs e dimensão universal da missão

"Há algumas experiências significativas das CEBs que precisam ser contadas. José Marins (e sua equipe) é um daqueles que contribuiu para globalizar as CEBs. Ele leva e traz. Age localmente e pensa globalmente. Ele contribui para criar uma catolicidade das CEBs. Outro fato de abertura das CEBs é representado pelos encontros regionais, como aquele que aconteceu entre Argentina, Paraguai, Brasil e Uruguai. Há também missionários das CEBs em outros lugares do mundo, como Luís Fernando, um brasileiro e negro, em Moçambique. Tudo isso vai criando pontes e contatos."

Sugestão para os Institutos missionários

"Eu peço aos Institutos Missionários que mantenham aberta a perspectiva do leigo missionário. Acho que vocês, revistas missionárias, têm que falar isso milhões de vezes até o pessoal acreditar. Isso também significa mudar as estruturas dos Institutos missionários e torná-los mais ágeis em relação à presença dos leigos. Outra sugestão é que vocês mantenham as revistas missionárias. Eu confesso que minha vocação tem muito a ver com as leituras missionárias que fiz e que faço. Sinto-me reforçado em saber que há missionários na Papua Nova Guiné que são promotores de vida em lugares difíceis. Publiquem testemunhos e exemplos de missionários. O exemplo vale muito mais do que mil palavras."

Fonte: PIME


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