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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O Natal e o pobre

Embora paganizado por muitos, o Natal nos oferece, cada ano, uma extraordinária riqueza espiritual. Desvirtuado por falsas comemorações, continua sendo uma fonte de lições autênticas e bênçãos abundantes. “Mesmo quem não se professa crente pode sentir nesta celebração cristã anual algo de extraordinário e de transcendente, algo de íntimo que fala ao coração. É a festa que canta o dom da vida” (Bento XVI, Audiência Geral, 17 de dezembro de 2008).

Os homens se revoltam e deturpam o plano de Deus, contudo jamais O atingem. Morrem, e Ele permanece. E subsistem aqueles que lhe são fiéis. Assim, nos festejos natalinos, em meio às distorções, perdura inalterada a beleza do Nascimento de Cristo e seu profundo significado para a Humanidade.

A simples apresentação da gruta de Belém, multiplicada em nossos presépios, o conhecimento do fato histórico e suas circunstâncias, fazem avultar a existência de uma pobreza extrema. “E deu à luz seu filho primogênito e, envolvido em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7).

Em nossos dias, sob outras roupagens, repete-se o ocorrido há mais de dois mil anos. Atualmente, o pobre tornou-se mercadoria de alto preço, pois a miséria é utilizada para justificar muitas posições sócio-políticas e ideológicas. Não dar abrigo ao Menino e aproveitar dessa forma o desvalido encobre, em ambos os casos, o desrespeito à Mensagem do Natal.

Fala-se, com insistência, em opção por “uma Igreja dos pobres”. A expressão é ambígua. Se ela é tomada no sentido de um paradigma – eles, como sinal divino, os preferidos do Senhor – está absolutamente correta. No entanto, não é raro a sua manipulação para propagar um conceito classista na comunidade eclesial, alheio a mais lídima concepção do cristianismo.

Assim, a preferência pelo empobrecido é, no fundo, a aversão ao rico, a escolha de um determinado sistema econômico que leva a propagar, até subliminarmente, uma luta de classes, o oposto à comunhão pregada pelo Salvador.

O injustiçado vem a ser um instrumento para atingir objetivos nada evangélicos. Manipula-se até a Sagrada Escritura: o Êxodo, por exemplo, é interpretado à luz de uma ideologia alheia à pureza da Revelação.

A defesa do oprimido serve, por vezes, para forjar uma pregação e atitudes contrárias aos ensinamentos do Presépio.

A caridade que atende o necessitado é julgada com desconfiança, pois seu exercício protela a mudança de estruturas. No entanto, constitui um crime deixar alguém ficar na miséria para o apressamento de uma “revolução” que levaria a uma utópica igualdade futura. E a isso procura-se rotular com o nome de “autenticidade cristã” ou “cristianismo social”.

O mesmo acontece com uma certa defesa dos direitos humanos quando se circunscreve a interesses bem definidos e escusos. Os demais são entregues ao esquecimento, geralmente pobres e sem rendimento em favor de propósitos ideológicos. E a lista poderia continuar. Sempre subjaz uma hipocrisia.

O Natal, o quadro do Presépio, faz refletir. Diante da gruta, vamos nos despir de uma roupagem fingida e verificar se nós aderimos realmente à sua Doutrina e nos conservamos fiéis à Mensagem evangélica. Ou se, pelo contrário, talvez em boa fé, estamos sendo utilizados para outros objetivos.

Quando falamos em pobre, lutamos em nome de Cristo, por seus preferidos ou emprestamos a essa causa santa outros propósitos alheios ao Menino de Belém?

Reagimos contra o emprego do Natal como simples propaganda comercial. Combatemos o consumismo que leva ao paradoxo de uma multidão que padece fome e uma minoria que esbanja fortunas. Ao condenar essa diferença, muitos se esquecem que também estão profanando o Recém-nascido, quando utilizam a pobreza como mercadoria válida para propagar suas idéias.

O Presépio nos prega uma radical opção, uma fidelidade que exige muito de nós, inclusive o sacrifício da popularidade.

Recordemos as palavras do Santo Padre Bento XVI: “Para procurar abrir o coração a esta verdade que ilumina toda a existência humana, é necessário humilhar a mente e reconhecer o limite da nossa inteligência. Na gruta de Belém, Deus mostra-se-nos como humilde "menino" para derrotar esta nossa soberba. Talvez nos teríamos rendido mais facilmente diante do poder, diante da sabedoria; mas Ele não quer a nossa rendição; pelo contrário, faz apelo ao nosso coração e à nossa livre decisão de aceitar o seu amor. Fez-se pequeno para nos libertar daquela humana pretensão de grandeza, que brota da soberba; encarnou-se livremente para nos tornar deveras livres, livres para o amar” (idem).

O Nascimento de Cristo é resultado do cumprimento integral de uma missão recebida: tem início no Presépio a Redenção. Nestes dias, vamo-nos questionar sobre nossa obediência às lições que emanam da manjedoura de Belém. Assim, teremos um Natal de paz, tranquilidade, rico das bênçãos do Senhor.

Cardeal Dom Eugenio Sales

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