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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

José Márcio, o guardião dos bichos e das pessoas maltratadas na Amazônia














O corredor ecológico em Namirauá, criado pelo saudoso biólogo paraense, se tornou o melhor local para viver para aqueles que já lá viviam.

"José Márcio Ayres, Guardião da Amazônia" (Edição da Autora, São Paulo, 144 páginas) é um livro raro. Bonito como produto gráfico, sua rica iconografia mostra o personagem em atividade, ora pesquisando, ora fotografando. Suas fotos são lindas e os fotos que fizeram dele, no meio de pessoas e macacos, selvas e cidades, emocionantes

O texto, da jornalista e historiadora Rose Silveira, conduz o leitor pela trajetória movimentada do biólogo paraense José Márcio, desde seus estudos iniciais sobre primatas até desembocar numa nova visão da convivência do homem com a natureza na Amazônia.

É um trabalho sentimental e rigoroso, na medida do biografado, homem cheio de sentimentos e exigente no seu ofício. Um dos heróis da Amazônia dos nossos dias, com seus dias encurtados pela selvageria da doença que o atacou, sem lhe dar a possibilidade de vitória.

José Márcio perdeu a batalha pela vida, mas seu pai, o médico Manuel Ayres, e sua prima, Ana Rita Alves, devolveram-lhe os trunfos e o reconhecimento público com este livro. Para ser lido e guardado - na estante e no coração. Como parte da homenagem a José Márcio, reproduzo o prefácio que escrevi para o livro.

O primeiro dos "grandes projetos", de um ciclo que mudou em profundidade e em definitivo a feição da Amazônia, mantida em seus traços básicos até então, entrou em operação em Oriximiná, no extremo oeste do Pará, em 1979. Nesse ano começou ali a extração de bauxita pela Mineração Rio do Norte, empresa formada pela então estatal Companhia Vale do Rio Doce em sociedade com um grupo de multinacionais do cartel do alumínio.

Para que a MRN, hoje uma das maiores produtoras mundiais, se estabelecesse com suas minas enormes, foi criada uma reserva biológica do outro lado do rio Trombetas, onde a mineradora instalou seu terminal portuário. Era a contrafação aos danos ambientais que a companhia praticaria, como quase destruir o belo lago Batata com os rejeitos de bauxita e lançar no espaço o pó vermelho da secagem do minério.

Pureza ecológica absoluta

A reserva protegeria a tartaruga, que integrava então uma lista de animais ameaçados de extinção na Amazônia. O IBDF (atual Ibama) manteria fiscalização permanente sobre as praias nas quais o animal procriava, enquanto estimularia a substituição da pesca indiscriminada e predatória pela criação racional. Manteria os hábitos de consumo da população sem pôr em risco a espécie. Para que o empreendimento fosse aprovado, porém, Brasília exigiu que todas as pessoas que morassem no interior da reserva fossem remanejadas.

Não importava que o local fosse habitado há dezenas de anos (mais de um século) por descendentes dos escravos negros, fugidos do cativeiro para formar os seus quilombos. Nem que eles, mesmo pescando tartarugas para vender ou comer, estivessem perfeitamente integrados ao ambiente. O radicalismo era total, a pureza ecológica absoluta. Ou era para afastar qualquer força de resistência - e contraste - ao "grande projeto" que se estabelecia na região?

Vocação para a pesquisa veio cedo

A manutenção dos quilombolas exigiu uma luta de vários anos e a demonstração de que sua presença era compatível com a unidade de conservação. Mesmo assim, os danos já haviam sido causados e certo desvio cientificista se consolidara; de que a natureza só seria mantida, em sua exuberância original, se o homem fosse colocado a distância. Um purismo escolástico que causa ainda prejuízos aos esforços para harmonizar a presença humana nos domínios da natureza.

José Márcio Ayres, o personagem deste livro, se consolidou como um dos mais importantes cientistas já nascidos no Pará (e na Amazônia) sem nunca padecer desse mal. Ele parecia seguir a carreira convencional do pesquisador que se dedica obsessivamente a um tema e o aprofunda a minudências rococós, desligando-se do mundo em volta. Ele, pelo contrário, sempre esteve com os olhos abertos para tudo que tivesse vida ao seu redor, sobretudo para os outros humanos.

Sua vocação para a observação, o estudo, a pesquisa - e, sobretudo, a pesquisa de campo - se manifestaram logo cedo como vocação, fecundada no útero de uma família de inteligências privilegiadas e alta sensibilidade humana. Nele, esse acervo familiar se multiplicou e se adensou de tal forma que, ao concentrar o foco do seu interesse acadêmico numa espécie de primata, depois de ter lidado com vários tipos de macacos, ele descobriu que podia favorecer o animal e o homem.

A ambos cederia o conhecimento elaborado e refinado que acumulou em alguns dos principais centros de formação científica, numa partilha natural e fraterna, com um objetivo único: manter a rica diversidade de vida da Amazônia, com seus cinco milhões de seres vivos (20% do total que existe sobre a Terra), incluindo a espécie mais complexa dessa rede, o homem, que não seria nunca mandado embora.

Márcio serviu de exemplo para outros pesquisadores que chegaram a Mamirauá, no Amazonas, com resíduos (ou pedaços inteiros) de arrogância, que costuma marcar aqueles que sabem mais ou têm mais títulos (nem sempre as duas coisas andam juntas). Ele ensinou muito, mas aprendeu ainda mais no contato com os nativos, cujo conhecimento resultou não de centros urbanos de saber ou de alguns anos de aprendizado e observação, mas de décadas e décadas de existência, de gerações e gerações passadas.

Criador do maior corredor ecológico amazônico

Com seu jeito simples, vivo e solidário, Márcio conseguiu a difícil confiança dessa gente isolada - e geralmente maltratada. Mais ainda: demonstrou-lhes que a existência de uma unidade de conservação em seu reduto não os inibiria nem provocaria maldades, como aquela que sofreram os quilombolas do Trombetas. Eles ganhariam se juntassem suas práticas empíricas às observações e sugestões dos cientistas. Ganhariam mais, inclusive, em dinheiro e na ampliação do principal dos estoques de recursos naturais que lhes garante a existência, o peixe.

A história da criação das duas unidades de conservação, Mamirauá e Anamã, com 3,4 milhões de hectares, gestadas no corpo do governo federal e nascidas na administração estadual amazonense, está contada neste livro. É uma história modelar, exemplar, inspiradora.

Com paciência e jeito, mas também com a determinação daqueles que sabem o que fazem (e o bem que fazem), José Márcio criou o maior - e, a rigor, o único - corredor ecológico amazônico em Mamirauá, que se tornou o melhor local para viver para aqueles que já lá viviam.

Não se trata apenas de um título, de um experimento ou de uma utopia: é um centro de vida que difere das frentes pioneiras abertas na Amazônia para saquear a Amazônia, enclaves de um bem que, transformado em mercadoria, é lançado além-mar, deixando aqui apenas as sobras do banquete.

Na Amazônia Central Márcio lançou sementes tão boas que elas continuaram a germinar enquanto ele padecia as dores do câncer, durante uma enfermidade de dois anos que o manteve distante da sua base física, e não foram interrompidas por sua morte, em 2003, aos 49 anos de idade. Mamirauá continuou a crescer, a vencer desafios, a avançar na escritura de uma história mais favorável à harmonia entre homem e natureza, sem a qual a devastação colonial, que se expande feroz, não parará de transferir para fora o melhor da riqueza explorada (e dissipada para sempre).

Márcio deixou uma novidade benfazeja para todos aqueles que acreditam que há lugar para o homem na Amazônia, desde que ele descubra (usando ciência de ponta, inclusive estrangeira, sem medo ou preconceito, e o empirismo nativo, sem egocentrismo e arrogância) o que lhe cabe fazer nesse lugar para não fazê-lo desaparecer, dessa maneira eliminando a fonte da riqueza.

Mais do que um guardião da Amazônia, José Márcio Ayres foi um patrono da Amazônia que, em vez de humilhar e envergonhar a civilização, lhe deu o valor de bem do planeta com marca brasileira digna e boa, como foi este grande amazônida.


Lúcio Flávio Pinto

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