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domingo, 19 de dezembro de 2010

A Igreja dos pobres hoje e amanhã

O dia 11 de setembro foi um marco na história Esse dia foi o ocaso da revolução, o ocaso dos
movimentos populares de libertação, a extinção da esperança dos pobres e oprimidos, o ocaso de
Cristãos pelo Socialismo e uma advertência para a teologia da libertação que acabava de nascer e já nascia condenada.

No dia 11 de setembro – o primeiro 11 de setembro – muitos sentiram isso.
Mas era difícil aceitar. Muitos se negaram a aceitar o que sabiam ser inelutável.

Depois do 11 de setembro, os movimentos de revolução social foram destruídos pouco a pouco.
Houve uma nova esperança na década dos 80 com os acontecimentos de Nicarágua e El Salvador.

Mas era apenas o canto do cisne. Também isso sabíamos, no fundo de nós mesmos,
mas não queríamos aceitar. Houve aquela triste ilusão da volta da democracia. Que democracia!
A democracia com os mesmos de sempre lá em cima, doravante livres do medo sofrido na geração anterior.

Foi o triunfo do capitalismo na sua forma extrema de neoliberalismo. Foi um maremoto, uma avalancha. Em poucos anos os movimentos populares foram arrasados, os sindicatos reduzidos a nada e a classe dos camponeses tradicionais expulsa para as favelas das cidades. Na década dos 90 o neoliberalismo atingiu o auge e apareceu como indestrutível, como a fase final da história, doravante sem competidor possível.

A cultura individualista do capitalismo norte-americano invadiu o mundo inteiro, inundou América latina. Nessa cultura tudo está centrado no bem-estar do indivíduo. O que triunfa são as terapias que garantem a saúde física e psíquica, as dinâmicas de auto-ajuda, de desenvolvimento harmonioso do corpo, das sensações, das emoções, dos sentimentos. Felicidade, harmonia, equilíbrio, saúde, juventude eterna, beleza, triunfo são as novas palavras de ordem. 95% das publicações referem-se ao bem restar físico e psíquico. A publicidade oferece milhares de objetos que garantem a felicidade e a plena realização de si. Os valores são as férias, as viagens, o sexo,
as comidas, o sonho das praias encantadas.

A religião ocupa um lugar importante na nova cultura. A religião também oferece receitas e modelos de bem-estar e de felicidade. Trata-se de uma religião “light” na linha do New Age, uma religião sem exigência e com puras promessas de felicidade.

Não de felicidade no céu, mas de felicidade no imediato, felicidade sensível, feita de emoções agradáveis. Karl Marx foi substituído por Paulo Coelho, como símbolo da época. Doravante a religião interessou e o socialismoaborreceu.

A Igreja seguiu o movimento da sociedade. A nova geração, que não tinha conhecido as esperanças, os movimentos dos anos 50 que desembocaram nas revoluções das 60, entraram na nova cultura sem complexo porque era a cultura em que tinham nascido. O resto era história antiga, lamentação dos velhos sobre o tempo passado.

Na fase anterior muitos tinham feito opção pelos pobres por causa da sua força histórica. Uma vez desaparecida a força histórica sobraram apenas aqueles que como João XXIII tinham feito opção pelos pobres pela sua fraqueza, e estavam dispostos a compartilhar essa fraqueza.

Não foram muitos os candidatos, mas subsistiu uma minoria fiel que não abandonou a bandeira de Vaticano II e de João XXIII.

Mas agora os sinais mudam de novo. No limiar do novo milênio a sociedade neoliberal entra em crise, e está consciente de entrar em crise. Houve um novo 11 de setembro que poderia permanecer também como marco histórico : o sinal do declínio da sociedade ocidental liderada pelos Estados Unidos.

Há sinais de uma revolta das massas dos excluídos do Terceiro Mundo lideradas por novas elites, que se manifestam tanto dentro do próprio primeiro mundo como no terceiro mundo. Tudo indica que entre os jovens e adolescentes que agora manifestam contra o imperialismo dos Estados Unidos vão aparecer novas lideranças. Que vão promover novos movimentos populares provavelmente bem diferentes dos anteriores.

A Igreja seguirá ? Podemos presumir que sim. No meio dos jovens seminaristas angélicos que os atuais métodos de formação pretendem orientar para dirigir uma Igreja feliz e bem protegida, podem surgir lideres sociais com vocação revolucionária.

Como sempre os formadores não sabem o que estão formando e podem descobrir que o resultado da sua ação deu exatamente o contrário daquilo que queriam.

Quando os povos se organizarem em novas lutas, mundiais desta vez, haverá cristãos e católicos no meio deles, haverá sacerdotes e também possivelmente alguns bispos porque os núncios também podem errar na escolha dos bispos.

Estas novidades poderiam aparecer bem antes do previsto. Poderiam questionar toda essa procura da felicidade doce e suave que se buscou na ternura de um Jesus feito à medida de um amor “light”. Poderiam relegar Paulo Coelho aos fundos das bibliotecas e condenar à reciclagem do papel toda essa literatura cor de rosa de um amor desencarnado.

José Comblin, teólogo. João Pessoa/PB, Brasil

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