sábado, 20 de novembro de 2010

Perspectivas e desafios futuros da Teologia da Libertação

J. B. Libanio

Perspectivas e desafios futuros da Teologia da Libertação - em homenagem a D. Helder Câmara

A teologia da libertação (TdL) tem seus grandes teólogos como G. Gutiérrez, L. Boff e outros. Tem também seus profetas. Entre eles, está a pessoa ímpar de D. Hélder. Por isso, vem muito a calhar que nos escritos em sua homenagem se pense nas perspectivas de futuro daquela teologia da qual ele é um dos maiores símbolos.

Sabemos que uma causa se legitima muito mais pelos símbolos do que pelas letras. As letras escreveram os teólogos. Em símbolos constituíram-se pessoas e eventos. Não se pode pensar em TdL sem que logo não venham à mente pessoas como D. Hélder, Cardeal D. Paulo Evaristo, D. Pedro Casaldáliga, Mons. Oscar Romero, e eventos marcantes como Medellín, Puebla, Encontros Intereclesiais de Comunidades Eclesiais de Base.

As perspectivas e desafios que se anunciam para o futuro em relação à TdL são muitos. Os limites desse artigo obrigam a uma seleção restrita que pretende tocar os mais importantes.

1. Ser utopia na morte das utopias

A relação da TdL com a utopia nunca foi tranqüila. Trouxe-lhe problemas teóricos e práticos. Ela mesma teve que esclarecer para si mesma a tensão entre utopia e escatologia, entre utopias políticas e Reino de Deus.

Defrontava-se no plano político com a clássica problemática teológica do natural e sobrenatural. As utopias brotam na história humana como modelo ideal que os seres humanos querem criar. Conserva um misto de factibilidade humana e de perfeição inatingível. Enquanto algo possível, move-nos à ação a fim de realizá-la. Desperta energias sadias de compromisso, de luta, de heroísmo. Como algo, de certo modo ideal, e concretamente irrealizável na sua totalidade por causa da fragilidade humana, pode provocar fanatismo desvairado. E quando a bandeira utópica vence uma revolução pode-se facilmente confundir o poder alcançado com a obrigação de realizar totalmente a utopia a ferro e fogo. Temos a violência ( ) e os totalitarismos ( ).

A TdL viu-se às voltas com esse problema. De um lado, como teologia, trabalhava com duas coordenadas fundamentais: a realidade do pecado e a impossibilidade da realização plena do Reino na terra. Este tem uma dimensão essencialmente escatológica. Em razão de sua própria natureza de teologia, afirmava essa dupla realidade. O Reino de Deus não é nenhuma utopia concretizável plenamente na terra. O pecado vencido radicalmente por Cristo com sua morte e ressurreição só será totalmente vencido em nós na plenitude final para além da morte. É o lado transcendente da teologia.

No entanto, a teologia quis ser da libertação. E para superar uma concepção essencialista, espiritualista, individualista, desencarnada de salvação, teimou em afirmar a necessidade de libertações históricas como antecipação e concretização imperfeita da salvação plena. Ao incorporar dentro de seu arcabouço teórico a utopia como mediação concreta da escatologia criou um forte pólo de tensão.

Vai acompanhá-la o risco de afirmar de tal modo a libertação histórica, proposta como utopia, a ponto de obnubilar tanto os limites humanos do pecado quanto a realidade transcendente nas suas duas expressões da ação de Deus na história e na sua forma definitiva para além da história.

Nesse caso, ela estaria incorrendo num reducionismo incompatível com a Revelação cristã. Por isso, não pode nunca esquecer de afirmar o lado da gratuidade absoluta do dom da libertação como fonte, como processo e como destino final.

Evidentemente nos seus grandes teólogos ela sempre conseguiu manter a dialética correta, mesmo que insistisse pedagogicamente no pólo da imanência para contrabalançar uma tradição teológica e pastoral transcendentalista de nosso catolicismo latino-americano.

O problema tornou-se mais agudo quando a TdL viu em utopias de corte socialistas mediações mais próximas do Evangelho do que as propostas pelo sistema capitalista vigente. Nesse momento, o fator ideológico dos dois lados funcionou como propulsor de tensões.

Com a queda do socialismo e com o duplo anúncio da morte da utopia entramos em nova fase em que cabe à TdL outra função. O seu papel diante da propalada morte da utopia é acordar, de modo diferente, para o imorredouro “principio esperança” (E. Bloch) do ser humano em nome da própria fé cristã.

O anúncio da morte da utopia tem duas fontes diferentes. Uma vem do otimismo científico-tecnológico. Com o avanço do progresso e desenvolvimento, acelerado pelas duas tecnologias de ponta, a saber, pela informática e pela engenharia genética, pode-se perguntar se precisamos sonhar utopicamente quando já podemos realizar materialmente os sonhos. A utopia, como vimos, tem uma dimensão de algo inalcançável, ideal. Ora, o ideal já podemos realizar. Portanto, já não é mais ideal e sim real. Morreu a utopia ( ).

A outra fonte de anúncio de sua morte vem do neoliberalismo que suplantou o socialismo, única alternativa existente. Em outros termos, a democracia liberal na sua expressão capitalista realiza definitivamente as possibilidades humanas da sociedade. Agora é questão de aperfeiçoamento, mas não há espaço para outra realidade diferente, a modo de utopia.

É nesse momento que se abre à TdL maravilhosa perspectiva de acordar em nome da fé cristã no coração dos humanos novas utopias. A história humana continua incompleta. Foi terrível a pretensão do comunismo de acreditar que ele pudesse criar a sociedade perfeita, o fim da história. Mais terrível ainda é de pensar que o modelo atual de democracia liberal em casamento monogâmico com o capitalismo também o seja ( ).

O sociólogo português recorda-nos que a “utopia é a exploração de novas possibilidades e vontades humanas por via da oposição da imaginação à necessidade do que existe, só porque existe, em nome de algo radicalmente melhor que a humanidade tem direito de desejar e por que merece a pena lutar ( )”. Só porque o sistema liberal está aí vitorioso não se tem o direito de impedir a humanidade de desejar algo radicalmente melhor.

Nesse momento de morte das utopias aparece mais claramente a grandeza da figura de D. Hélder. Nos anos escuros da repressão militar, mantinha acesa a utopia da liberdade, dos direitos humanos, de um Brasil digno. Calado no país por forças retrógradas, falou no mundo inteiro. Era uma utopia viva, perambulando pelo mundo. Cidadão universal.

A sua retirada de cena pela fragilidade dos anos está a pedir que se continue a cruzada da utopia. Cabe, portanto, à TdL lembrar esse desejo de uma sociedade melhor. E sobretudo afirmar com toda nitidez para quem se deseja uma sociedade melhor. Para os pobres. Recordar a utopia para os pobres e pensada pelos pobres continua sendo relevante missão da TdL. E nessa relação com os pobres ela tem algo a dizer de novo. Houve mudança no panorama da pobreza mundial

2. Estar ao lado dos pobres no mundo neoliberal como sinal profético e de esperança

A TdL começou por causa dos pobres. Erra rotundamente, se não maldosamente, quem pensa ter a TdL sido embalada em seu berço pelo marxismo. Ela vem de outra vertente muito mais antiga e muito mais bela: a paixão de Javé pelo pobre. A seu modo o judeu Marx também bebeu nessa mesma fonte.

Nos inícios insistia-se muito na opção de Javé e de seu Filho Jesus pelos pobres como motivação última, como experiência fundante da TdL ( ). E isso continua até hoje. Porque Deus não mudou. A mensagem e a prática de Jesus permanecem a mesma.

Se houve mudança, vem do lado dos pobres. De fato, nos princípios dessa teologia, os pobres eram vistos como “força histórica” que se fazia presente na Sociedade e na Igreja com seu poder de transformação ( ). Havia muita esperança de que eles, secundados por outras forças comprometidas com eles, transformassem as estruturas políticas e eclesiais numa linha libertadora, de participação popular.

Depois de três décadas que os primeiros escritos de G. Gutiérrez e Medellín, de certo modo, reafirmavam essa consciência, vemos que os pobres estão mais próximos da morte do que da vida. O neoliberalismo, que incorpora os progressos tecnológicos da microeletrônica, da telemática, da informática, está a produzir milhões de desempregados. Pode ser que nos países ricos isso não signifique necessariamente pobreza, mas certamente uma degradação humana, ao obrigar pessoas sadias em idade de trabalho a viver de abonos paternalistas. No entanto, nas classes, países e continentes pobres isso tem produzido mais do que pobreza, miséria, morte.

“Hoje percebemos cada vez mais claramente o que está em jogo nessa situação: a pobreza significa morte. Morte provocada pela fome, doença ou por métodos repressivos dos que vêem perigar seus privilégios diante de todo esforço de libertação dos oprimidos”, escrevia há uma década G. Gutiérrez ( ). Retomando uma expressão de inspiração de Bartolomeu de las Casas esse mesmo autor repetia que o pobre sofria “Morte antes do tempo” ( ). Mais grave era evidentemente a morte física, pois ela é radical. No entanto, o pobre sofre outras mortes semelhantemente dolorosas como a “morte cultural porque numa situação de opressão se vê destruído tudo o que dá unidade e força aos despossuídos desse mundo” ( ). Destruição, portanto, das pessoas, dos povos, das culturas, das tradições.

A TdL se torna ainda mais atual. Os pobres não só não estão acabando, mas antes crescendo e o campo de sua pobreza se tornando mais visível. Continua impressionando-nos a pobreza material. Permanece ainda flagelo para milhões de habitantes dos Continentes pobres. De vez em quando, ao bater a fome ainda mais escandalosamente à porta dessas regiões, as TV mundiais nos apresentam cenas de caravanas de miseráveis, raquíticos, caminhando em busca de comida e água.

H. Iglesias, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, anuncia um século futuro “fascinante e cruel”. Então G. Gutiérrez se pergunta: para quem é fascinante e para quem é cruel? Nalguns aspectos para todos é fascinante e cruel. A mesma tecnologia que possibilita atravessar os espaços, provoca os terríveis bombardeios, eletronicamente pilotados, sobre vítimas inocentes. O mesmo progresso da ciência da comunicação que conecta os habitantes do mundo inteiro na defesa dos direitos humanos, está na base da ciranda financeira que destrói as economias dos países emergentes.

Mas, em quase todos os sentidos, ele se apresenta cruel para os pobres. A agricultura atrasada de sobrevivência permitia pelo menos que muitos pobres ainda vivessem. A nova agricultura de exportação, a violenta migração rural para as cidades, substituindo a terra pelo asfalto, geram fome absoluta.

Mais: o tipo de desenvolvimento desloca a importância da mão de obra para o conhecimento. O que restara ao pobre eram os seus braços. Estes perdem importância diante do saber que sistematicamente lhes é negado ou transmitido com atraso irrecuperável.

Diante da crueldade do próximo século, quem vai pensar nos pobres? As Igrejas cristãs estão ameaçadas de esquecê-los por causa dos embalos carismáticos. A beleza das cores e dos cantos, a aeróbica litúrgica fascinam cada vez mais multidões e a preocupação social fica relegada ou totalmente esquecida.

De novo, cabe à TdL manter levantada a bandeira dos pobres. Figuras carismáticas, como D. Hélder, saindo da cena pública, deixam enorme vazio para a causa dos pobres. Diminuem os setores sensíveis a eles. Mesmo assim a TdL teima permanecer fiel a essa sua tradição. O discurso se faz repetitivo, porque a realidade da pobreza também o é. É terrível engodo embarcar na moda da novidade quando ficaram para trás problemas antigos sem serem resolvidos. Nada adianta dizer que a onda hoje é outra.

“Aumentou, tanto em termos relativos como absolutos, a população que se encontra em situação de pobreza e de pobreza extrema. O resultado é penoso: mantém-se e até se aprofunda a pobreza” ( ) Enquanto houver pobres, permanece tristemente atual o programa fundamental da TdL.

3. Ser crítica à ideologia da morte da ideologia

Em íntima ligação com os dois temas anteriores, circula uma outra tese. Já não tem sentido falar de ideologia. Se para Marx o conceito de ideologia nasceu ligado à ideologia burguesa, as classes dominantes atuais conseguiram inverter o sentido. Ideologia é socialismo, é alimento da esquerda. Ora bem, com a queda do socialismo, terminou o mundo das ideologias. E como a TdL estava ligada a ele, também foi tragada na mesma voragem.

O neoliberalismo já não é mais ideologia. É realidade insuperável. É ciência. É objetividade. Não funcionam os interesses de grupos, mas a lógica da realidade, da atualidade, do mercado imprescindível. Quem se opõe ao real atual, pertence à era jurássica. Faz parte dos extintos dinossauros.

É um discurso bem traçado e se apóia sobre fatos inelutáveis. Quem duvida de que assim é a situação? Quem pode pôr em questão os discursos de pessoas tão capazes com cursos nas melhores universidades do mundo?

A morte da ideologia é a pior das ideologias. E a TdL sempre teve muita sensibilidade pelo jogo ideológico. Ela participou intensamente dele nos seus inícios. Teve que elaborar com clareza a relação ideologia e fé para não sucumbir a uma ideologização que lhe comprometesse a fé, nem para estar tão alheia a toda ideologia que sua reflexão sobre a fé se perdesse no anódino, no vago, no abstrato, no irreal. “Fé sem ideologia é morta”, repetia em suas palestras e trabalhou em seus escritos o gigante da teologia da América Latina, J. L. Segundo ( ).

Aliás, esse teólogo reflete sobre uma frase de d. Hélder amplamente divulgada na imprensa por ocasião do Congresso Eucarístico de Filadélfia. A frase soava: “Quem tem Jesus Cristo não precisa de Marx”. Além disso, respondendo a um questionário do boletim do CELAM, o mesmo D. Hélder afirmava: “Com o evangelho, com as encíclicas sociais, com o Vaticano II, com Medellín não necessitamos apelar a nenhuma ideologia que nos anime em nosso compromisso sagrado de alentar a promoção humana”( ).

Essas frases de d. Hélder refletem precisamente o clima que se vivia contra a TdL, ao classificá-la como ideológica. Na verdade, ela não é ideológica no sentido anti-teológico. Não parte de opções políticas e estratégicas e depois justifica-as com citações da Escritura e argumentos teológicos. Essa maneira grotesca de ideologizar a fé nunca entrou no seu programa teológico. É por demais primitivo pensar uma teologia a serviço de uma ideologia já existente, prévia, assumida.

Nem também ela oferece como motivação para a opção pelos pobres alguma ideologia, mas fundamentalmente a própria Palavra de Deus. É a opção de Deus pelos pobres, é a prática de Jesus, é a sua mensagem que estão na base de toda a TdL, da fé cristã.

A TdL reconhece que cumpre um papel ideológico. Ao orientar as mentes humanas, como diz o Concílio Vaticano II, “para soluções plenamente humanas” (Gaudium et Spes n. 11), ela entra em sintonia com os projetos políticos, sociais, ideológicos que naquele momento e na medida em que se alinham nas mesmas soluções. Ora bem, muitas forças de esquerda visavam à libertação dos pobres em nítido confronto com poderes conservadores e até reacionários que se opunham a ela, porque significava para eles a perda de privilégios. A TdL postou-se ao lado dessas forças.

Diferenciava-se, porém, de uma pura opção ideológica porque a sua reflexão se nutria da fé que, em muitos elementos, questionava práticas e mediações escolhidas por essas mesmas ideologias. Era um caminhar junto, mas com críticas, com tensões, sabendo de onde vinha e para onde queria ir. Nunca havia uma coincidência total. Trajetos em comuns. Mas divergências de instrumentos, de atalhos.

Aqui também aparece a relevância da figura de D. Hélder. Metido no jogo duro das ideologias conflitantes em nosso país e Continente, exerceu papel ideológico único, sem identificar-se totalmente com nenhuma ideologia. Era símbolo do protesto e da crítica a toda ideologia que violava os direitos humanos. Unia-se às forças ideológicas que naquele momento cerravam fileira na mesma causa. Reforçava-as e minava a Ideologia da segurança nacional que imperava na América Latina e que legitimava e justificava aberrações inumanas. Paladino que lutou contra ela e sofreu as conseqüências em si e em seus amigos.

Diante do marasmo atual da “morte das ideologias”, a TdL denuncia e anuncia. Denuncia o engodo do anúncio da morte das ideologias. O neoliberalismo é uma ideologia horrivelmente viva a destruir vidas, futuros, sonhos, projetos, utopias. Ao querer ser a realização da utopia humana da liberdade, transformou-se numa ideologia tirana, ceifando a liberdade de bilhões de seres humanos, ao negar-lhes a base material de viver e praticar a liberdade.

A TdL anuncia a necessidade de levantar novas bandeiras no nível da utopia, como vimos acima, e no nível da ideologia, agenciando os meios concretos de sua realização. Dê-se o nome que quiser, chamando-a de ecossocialismo, de nova esquerda, de comunitarismo, etc. Vê-se já no horizonte o surgir de nova ideologia contrapondo-se à reinante. E nesse jogo a TdL tem o duplo papel de inspiração e reserva crítica.

4. Pensar os novos problemas: religioso, étnico, ecológico, de gênero.

O campo da TdL tinha-se restringido, nas primeiras décadas, à preocupação com as estruturas sócio-econômicas, tão alarmante era a situação. Hoje não está melhor. Antes se agravou, como vimos. No entanto, percebemos que a gravidade de tal momento envolve outras dimensões igualmente importantes para o processo de libertação.

Já aludimos acima ao surto religioso num contexto antes negativo. Substitutivo da utopia da libertação dos pobres. Entretanto, seria uma leitura míope fixar-se unicamente nesse risco e não perceber-lhe a força propulsora e profunda.

Não é aqui o lugar de entrar na amplitude desse fenômeno ( ). Sob o ângulo da TdL, ele significa uma revisão teórica e uma autocrítica. Ela reconhece que descuidou os aspectos existenciais, sobretudo ligados ao mundo da afetividade e da sensibilidade religiosa. Precisamente esse universo explode nas atuais manifestações. Toca a ela então, sem perder as opções e os traços programáticos fundamentais, incorporar essa dimensão afetiva, festiva, religiosa. O binômio que vem sendo desenvolvido pela TdL é “mística e militância” ( ). Com o termo militância, quer-se manter-se fiel à sua genuína e primigênia tradição. “Mística” introduz já o novo acento de uma espiritualidade mais jovial, alegre, festiva.

O último Encontro Intereclesial de Comunidades Eclesiais de Base, reunido em S. Luís do Maranhão, já revelava um novo tipo de comunidade que tinha assimilado esse lado religioso e festivo diferentemente das antigas CEBs mais duramente militantes ( ).

A realidade religiosa torna-se, por um outro lado, desafio novo à TdL. Descobre-se a Igreja já não mais como religião única no Continente, mas como uma no seio de um pluralismo de denominações religiosas com que é chamada a dialogar ( ). E nesse encontro inter-religioso, cabe à TdL papel único, devido à sua sensibilidade e tradição, de entabular diálogo com as tradições religiosas afro-americanas e indígenas. A TdL está a fazer uma dupla abertura religiosa e étnica. Desafio maravilhoso que está sendo enfrentado pela teologia negra ( ) e por experiências religiosas de diálogo com as religiões afro ( ) e com as tradições indígenas ( ).

A TdL cansara-se de tanto martelar sobre as injustiças sociais, sobre as estruturas sociais de opressão. Trabalhara sobretudo com instrumentais de análise que visavam a conhecer as causas sócio-econômicas e políticas da pobreza, da dominação. A sociedade e a história estavam no centro de suas considerações.

Atualmente, por obra do pioneiro L. Boff, ela tenta articular o “grito dos pobres” de dentro de seu cativeiro com o “grito da terra” que não é menos maltratada e machucada pela fúria desenvolvimentista do projeto conquistador e dominador da modernidade. Esse teólogo coloca como propósito fundamental de uma de suas obras “articular o grito do oprimido com o grito da Terra” ( ).

Nesse empreendimento teológico, não está em questão simplesmente uma leitura de fé Do cosmos no sentido contemplativo, conservativo em crítica radical a uma leitura deturpada do imperativo divino ao homem para dominar a terra. Embora já haja aqui alguma novidade, o ponto mais importante consiste na busca de uma nova mentalidade e consciência da relação do ser humano com o cosmos. Trata-se da “ecologia profunda” com suas repercussões sobre a teologia. Há, portanto, uma ampliação do conceito de libertação e de seu sujeito. Verdadeira reviravolta cosmogênica ( ).

Até então, o processo de libertação era pensado em função do sujeito histórico dos pobres enquanto força transformadora da sociedade. Nessa virada cultural, o ser humano é considerado em aliança com todo o cosmos ( ). Não se pode pensar sua salvação sem a do cosmos e, de modo especial, a da Terra. Ela é o pobre que, se morrer, morreremos todos juntos.

No fundo dessa nova relação da fé com o mundo, está uma nova cosmologia que vê o universo como uma rede imensa e complexa de relações em todas as direções e de todas as formas. L. Boff afirma já numa perspectiva teológica: “Esta visão sustenta que o universo é constituído por uma imensa teia de relações de tal forma que cada um vive pelo outro, para o outro e com o outro; que o ser humano é um nó de relações voltadas para todas as direções; e que a própria Divindade se revela como uma Realidade panrelacional”( ).

Entram em jogo também a nova física quântica, a teoria da relatividade, o princípio de indeterminação de Heisenberg. Matéria e energia são intercambiáveis segundo a clássica fórmula de Einstein: e = mc2. E a partir daí a TdL pode avançar mais sua reflexão. A sua tradicional abertura para o pobre amplia-se. “Se tudo é relação”, prossegue a citação de L. Boff, “e nada existe fora da relação, então, a lei mais universal é a sinergia, a sintropia, o inter-retro-relacionamento, a colaboração, a solidariedade cósmica a a comunhão e fraternidade/sororidade universais” ( ). Temas tão ocorrentes na TdL.

Fechando esse pequeno círculo de desafios escolhidos entre muitos, a TdL é chamada a enfrentar, como o já está fazendo, a nova compreensão de gênero. Não se trata, sem mais, simplesmente do feminismo, ou da relação do homem e da mulher, mas, de novo, de uma nova mentalidade que entende todas as realidades a partir das dimensões masculina e feminina aí presentes.

Se na virada cosmogênica estava a cosmologia, a física quântica, aqui vicejam, em grande parte, as intuições de C. Jung. O corte entre homem e mulher, visto quase sempre pela diferença biológica, dá espaço para a descoberta das dimensões do feminino e do masculino, ambos presentes tanto no homem como na mulher, posto em medidas diversas.

A TdL, como todo o processo libertador, tinha sido extremamente machista, patriarcal. A mulher, tão presente nas Igrejas da base, na mudança epocal da Igreja tradicional para a da libertação, não tinha tido o peso suficiente e proporcional na compreensão mesma e na produção da teologia e muito menos ainda nas estruturas eclesiais. Nisso a Igreja das bases e a TdL não se tinham distinguido muito das outras formas eclesiais e teológicas, devedoras a ancestrais tradições machistas.

“A mulher rompeu o silêncio”, assim escrevem teólogas quando do II Encontro sobre a produção teológica feminina ( ). São evidentemente as teólogas da libertação que rasgam esse novo caminho ( ). Fazem questão de dizer que não se trata de uma teologia da mulher, nem simplesmente de temas mais relacionados com ela, mas de afrontar todos os temas teológicos a partir da ótica feminina. Evidentemente que podem trabalhar com mais facilidade campos que lhe são mais afins, como a piedade mariana no mundo popular, as figuras femininas na Escritura ( ), máxime a de Maria ( ), a dominação e libertação da mulher, especialmente a pobre e negra, seu papel na Igreja, o tema do corpo. Sentem também muito mais proximidade com o mistério ( ), com a dimensão sapiencial, simbólica, celebrativa, espiritual, poética da vida, e, também da teologia.

Conclusão

Recordar a longa e belíssima vida de D. Hélder é um estímulo para que se prossiga no mesmo esforço teológico que ele nos seus anos de combate incansavelmente animara e incentivara. A TdL é-lhe altamente devedora. Suas idéias criativas, sua coragem destemida, seu heroísmo inquebrantável nas refregas com as forças conservadoras do sistema militar foram luz e força para aqueles que se dedicavam mais às lides da reflexão teológica.

As oposições à TdL foram ferrenhas, mas não conseguiram quebrá-la em grande parte por causa da autoridade moral e mundial de homens como D. Hélder. Eles lhe deram credibilidade e legitimidade de tal modo que personagens de menor porte não conseguiram desfazê-la. A TdL é-lhe, portanto, imensamente devedora pelas intuições criativas que lhe forneceu e pelo apoio externo que lhe dispensou.

[publicado em: Z. Rocha, Helder, o Dom, Petrópolis, Vozes, 1999, p.137-147]

30. M. Clara Bingemer, org., O mistério de Deus na mulher, Rio, Iser, 1990
Fonte: http://www.jblibanio.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=62

Jornada Missionária das CEBs - Diocese de Osasco

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