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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Pedro, Bispo. Artigo de Tomás Balduíno

Pedro, Bispo. Artigo de Tomás Balduíno


D. Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás, publicou, em espanhol, um artigo celebrando os 80 anos de vida de D. Pedro Casaldáliga. O artigo foi traduzido para o italiano e publicado pela Agência Adista, 14-04-2008.

Eis o artigo.

É curioso: tenho dificuldade de satisfazer a solicitação de escrever sobre dom Pedro por ocasião de seu octogésimo aniversário. Dou-me conta que estou retardando os trabalhos. Uma das razões é, sem dúvida, a série de viagens que fiz no segundo semestre de 2007 para acompanhar os conflitos pela terra, que se intensificaram com o mega-projeto de desvio das águas do rio São Francisco. Mas, é também e, sobretudo, pelo fato que esta é a primeira vez que me ponho a escrever sobre Pedro, o qual marcou profundamente minha vida de bispo.

Pensei numa aproximação à figura de Pedro ao modo de florzinhas, como na narração da vida de Francisco de Assis. Em fim de contas, escrever sobre a história de um poeta que ao mesmo tempo é bispo é, de certa forma, a mesma coisa.

Conheci Pedro quando já era bispo da prelazia de São Félix do Araguaia, missão confiada pela Santa Sé aos claretianos. Foi numa tensíssima assembléia geral da CNBB (Conferência episcopal brasileira), convocada para Brasília em 1970, em plena ditadura militar, que nos encontramos por primeira vez. Impressionou-me sua vivacidade, fulminante, mas o que me impressionou ainda mais foi que ele estava tão bem informado sobre o que estava acontecendo na sociedade e na Igreja. Senti improvisamente naquele homem a clara e radical identificação com a caminhada – muito perigosa naquele tempo – que uma parte da Igreja do Brasil e da América Latina estava agora iniciando. Ali teve início nossa profunda amizade e nossa profunda comunhão. Considero aquele momento como uma bênção de Deus para mim. Naquela Assembléia foi lido integramente o conto de frei Tito de Alencar sobre as terríveis torturas por ele sofridas no cárcere Tiradentes. Já que a presidência não permitia que se superassem os minutos concedidos a cada intervenção, os bispos tiveram que se alternar para a leitura integral do texto. Foi nossa melhor ocasião de análise.

Bispo por vontade do povo

Aos 8 de agosto de 1971 fui a São Félix a pedido de Pedro para ordenar sacerdote Manoel Luzón, seu companheiro desde o início da missão no Araguaia. A um certo momento, Pedro me chamou à sua sala de trabalho e me mostrou a carta de resposta que recém escrevera ao Núncio, o qual lhe havia comunicado sua eleição a bispo de São Félix. Depois de ter lido a carta, eu lhe disse: “Não entendo, Pedro. Até agora aceitaste ser juridicamente prelado desta igreja. Quando o papa te propõe passar do jurídico ao sacramental, dizes que não queres mais?” Percebi, a partir de minha intervenção, uma mudança de atitude. Convocou subitamente uma reunião com os sacerdotes, as irmãos, os leigos, à minha presença e, malgrado fosse vinculado pelo segredo pontifício, mostrou a todos o conteúdo da carta da Santa Sé e colocou a questão se deveria aceitar ou não tornar-se bispo de São Félix. Encontro belíssimo, e único, de membros maduros e sábios de uma igreja nova. Em cada um daqueles que tomavam a palavra se podia perceber de maneira viva a liberdade, a seriedade e a sinceridade de quantos empenhavam a própria vida na mesma perigosa aventura missionária. No final foi aprovado que Pedro se tornasse bispo de São Félix. Teria podido repetir com toda razão as palavras dos apóstolos “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós...” Por causa desta minha participação ao seu percurso episcopal, Pedro me adotou como “padrinho” e também como seu “bispo auxiliar”. De minha parte me emocionei ao assistir, naquele dia, ao renascimento do antigo e venerável modo popular e evangélico de escolher os grandes bispos e pastores que marcaram a história da nossa Igreja.

Pedro foi sagrado bispo em 1971, na mesma cidade de São Félix, circundado pelo povo pobre de toda aquela região, a céu aberto, na bela paisagem às margens do tranqüilo Araguaia, onde o rio apresenta em torno de um quilômetro de largura. Era outubro e ainda eram visíveis aquelas encantadoras praias de areia dourada. O sagrador principal foi o grande patriarca do Centro-Oeste, dom Fernando Gomes dos Santos, arcebispo de Goiânia, acompanhado por outros dois sagradores: dom Juvenal Roriz e eu. Antônio Carlos Moura, cerimoniário, teve a feliz idéia de levar embora as nossas mitras. O novo bispo jamais teve mitra nem báculo pastoral, nem anel de ouro ou de prata. Mas, recebeu todos estes elementos inculturados nos símbolos indígenas e camponeses. A mitra era um chapéu de palha, o báculo um remo tapirapé e o anel era eito de tucum, tornando-se, em seu dedo e no de muitos agentes de pastoral, um sinal do empenho pela caminhada da libertação.

Não faltou, como de rigor, a carta pastoral, distribuía no mesmo dia, com o título Uma igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social. Era a época da ditadura militar, sob a presidência do terrível general Emílio Garrastazu Médici, época de total censura, época de celas de tortura. O documento foi para a sociedade e a Igreja como um relâmpago em céu sereno. Mas, seu conteúdo profético fora muito bem pensado, nas incríveis peripécias de sua realização, e havia plena consciência sobre as duras conseqüências que sua publicação haveria de produzir. A carta, do início ao fim, trazia a marca de Pedro, mas recebera a válida e competente colaboração da equipe que trabalhava com ele desde o início de seu trabalho pastoral como prelado.

José de Souza Martins, o grande sociólogo especialista em questões agrárias brasileiras, professor da Universidade de São Paulo, assim se expressou, em 1995, durante a comemoração do vigésimo aniversário da Comissão pastoral da Terra: “Surge um dos mais importantes documentos sociais da história contemporânea do Brasil. Refiro-me à carta pastoral de Dom Pedro Casaldáliga no início dos anos setenta, Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social. Pela primeira vez na história do Brasil se apresenta, num documento público, com uma visão completa e total, o lado perverso do funcionamento do capital. Este documento deixou um sinal não só na história da Igreja, mas também na história social e política do país. Não foi por acaso que ele atraiu sobre a igreja de São Félix do Araguaia toda a ira possível dos representantes desta extrema e tremenda devastação” (in A luta pela terra, Paulus, p. 76).

A ira do poder não tardou a se abater sobre a pequena igreja de São Félix. Mas, não foi imediatamente por causa de deste documento bomba. Ocorreu com a ação do pe. Francisco Jentel em favor dos camponeses de Santa Terezinha, que ele defendia das agressões da empresa Codeara, a qual se declarava a única proprietária da região. Em conseqüência do conflito entre a fazenda, apoiada pela polícia militar, e os habitantes da região, teve início a caça ao pe. Jentel de parte da polícia. Para complicar a situação, aterrissei com o helicóptero em Santa Terezinha, junto ao mesmo Jentel e a Pedro. Não tardou muito a chegar um policial para capturar pe. Jentel. O encontro teve lugar numa encruzilhada: à esquerda se ia ao centro de pastoral, à direita ao cárcere. Pedro se interpôs entre Jentel e aquele elemento bem nutrido da mal-afamada polícia do Mato Grosso. Estupefato, vi então Pedro transfigurar-se de um pequeno mosquito pungente num verdadeiro gigante. Levantou a voz, gritou, gesticulou energicamente e não cedeu sequer um milímetro. O policial, vencido, foi embora dizendo que voltaria com reforços. Entrementes vieram soldados armados de fuzis mandados para vigiar meu helicóptero.

Viemos depois a saber que os reforços teria vindo naquele mesmo dia, de helicóptero, da Barra do Garças. Mas, tiveram que esperar até o dia seguinte. Entrementes, de manhã, uma lancha a motor levou Jentel para longe do cárcere de Santa Terezinha que ele conhecia nos mínimos detalhes e do qual queria fugir a qualquer custo.

A partir daquele momento iniciou a perseguição geral contra a Prelazia, sob a forma de verdadeira operação de guerra, em 1973. Todos os sacerdotes foram ao cárcere e todos foram espancados. Os agentes de pastoral leigos foram conduzidos a um quartel de Campo Grande e submetidos todos à tortura. O Pe. Jentel, julgado e condenado a dez anos de prisão pelo seu apoio aos camponeses de Santa Terezinha, foi também ele encarcerado em Campo Grande. Pedro, por sua vez, foi mantido preso em sua casa. A certa altura lhe ordenaram que tirasse os óculos, mas não tiveram a coragem de espancá-lo. O maior desafio que eles enfrentamos foram os diversos processos de expulsão feitos contra eles pelo exército. Nossa defesa consistia na denúncia pública destas tentativas, imediatamente difundida pelo jornal O Estado de São Paulo , então em guerra contra a censura oficial. A vantagem era que tais tentativas tinham repercussão internacional, fazendo retroceder o governo. A maior contribuição veio do próprio Paulo VI que chegou a declarar: “Tocar dom Pedro Casaldáliga é como tocar a pessoa do papa”.

Em 1972 encontrei-me com Pedro em Brasília, onde estava ocupado com o processo do pe. Jentel. Tomou-me por um braço e me conduziu a um encontro convocado por dom Ivo Lorscheiter, encontro no qual estava nascendo o Conselho indigenista missionário (Cimi). O relator da história sessão foi dom Sigaud, arcebispo de Diamantina. Saí dali como um dos conselheiros deste instrumento pastoral que revolucionou totalmente a missão indigenista no Brasil, passando a considerar os povos indígenas não mais como um objeto de nossa assistência e de nossa catequese, mas como sujeitos, autores e destinatários da própria história.

Em 1974, por ocasião da assembléia da CNBB em Itaici, dom Pedro propôs a um grupo de bispos um encontro sobre a Amazônia, prioridade da política governamental. Já desde então Pedro via a Amazônia como símbolo de uma realidade muito grande, complexa e conflitiva, de caráter sócio-político-cultural-econômico e religioso, de dimensão nacional e latino-americana. Hoje ela conquistou ainda mais peso, atingindo uma dimensão planetária.

O fruto desta preocupação e desta mobilização de Pedro foi a criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Para nós que nos consideramos co-fundadores, Pedro é o legítimo iniciador, ou, melhor ainda, o pai da CP, concebida a partir da compaixão pelos sofrimentos dos camponeses de sua igreja local. É por isto que ele a chama de “filha”, escrevendo-lhe uma carta de amor pelo seu “jubileu de orvalho e de sangue”. Entre outras coisas, lhe diz:

“Nasceste um pouco amaldiçoada, / quase clandestinamente, / filha da paixão pelos pobres da Terra, / filha do reino dos Céus que é também o Reino da Terra. / Mal vista em casa, odiada fora... / (...) bendita CPT, / pastoral de fronteira, / evangelho de risco, / profecia nos campos e pá na mão e cântico nos lábios / dos Novos Céus e da Nova Terra”.

As incompreensões na Igreja

Como se não bastasse a pressão geral contra ele e contra os seus agentes de pastoral – além da expulsão do pe. Jentel, decidida pelo general presidente Ernesto Geisel, de acordo com a nunciatura e a embaixada francesa – um dos bispos da assembléia episcopal regional do Centro Oeste, dom Juvenal Roriz, iniciou uma campanha entre os bispos para a expulsão de Pedro da nossa regional. Recebeu a notícia da tremenda iniciativa somente no próprio dia da reunião episcopal. Dom Fernando Gomes dos Santos, presidente da Comissão episcopal, propôs a votação sobre este caso no início da sessão. Estava presente dom Ivo Lorscheiter, presidente da CNBB, em visita à regional. Dom Epaminondas, bispo de Anápolis, por pudor, passou uma nota a dom Roriz, solicitando-lhe retirar a proposta da ordem do dia. Dom Juvenal Roriz lha devolveu escrevendo sobre a mesma folha: “Pelo menos sete são contra ele”. Éramos treze bispos. Sua proposta foi rejeitada por onze votos contra e um a favor. Pedro foi expressamente confirmado entre nós, graças, em parte, à presença de dom Ivo.

Dom Sigaud, arcebispo de Diamantina, acusou publicamente dom Pedro e a mim de sermos “comunistas”. Isto, naturalmente, teve grande repercussão na imprensa. Era a ocasião, servida num prato de prata, para que a mídia falasse de divisões no seio da Igreja. De nossa parte, tratando-se de um bispo ligado à TFP(Tradição, família, propriedade), movimento integralista da elite empresarial e latifundiária de São Paulo, decidimos não responder à acusação. Não obstante isso, o núncio apostólico, Sebastiano Baggio, tomou como pretexto a denúncia e solicitou de Roma uma visita apostólica às nossas duas igrejas, a de São Félix do Araguaia e a de Goiás. O visitador foi dom José Freire Falcão. Nem eu, nem Pedro, jamais viemos a saber da conclusão destas visitas e se o motivo real da Santa Sé para agir de modo agressivo contra as nossas igrejas fosse na realidade uma questão de comunismo. Em conseqüência de tudo isso decidimos enviar uma carta conjunta ao Paulo VI. Confiamos o documento a Paulo Evaristo Arns, recomendando-lhe que a consignasse diretamente ao papa. Confiou-nos sucessivamente que a consignou a uma terceira pessoa. O resultado é que jamais obtivemos resposta. Sinal de que o papa jamais recebeu esta carta, ou que, talvez, jamais soubesse desta visita apostólica.

Pedro sempre preferia o pullman para as suas viagens, incluídas as mais longas. Porém, certa ocasião teve que caminhar por horas a pé, de noite, pela estrada dita “da fera”, entre Goiás e São Miguel do Araguaia. Não foi por escolha. Viajava em pullman direto a São Miguel. Percebendo problemas intestinais, disse algo ao motorista e desceu do pullman. O motorista pensava que fosse alguém do lugar e partiu. No mesmo pullman viajava pe. Geraldo Rosania, vigiando pela segurança do bispo, mas dormia profundamente. Ao amanhecer, Pedro, exausto, encontrou barracas de bóias-frias e foi por eles acolhido. Eis agora a minha leitura daquele contratempo: Pedro estava retornando de um encontro do regional ao qual chegara com atraso porque havia levado seu apoio a um grupo de camponeses ameaçados. Dom Miguel Mundo, bispo auxiliar de Jataí e secretário do regional, havia dirigido uma repreensão pública a Pedro porque chegara com atraso. Pedro não se defendera. De minha parte, não dera importância ao caso. Mas, posso garantir que o episódio havia golpeado profundamente Pedro, que empreendera a viagem de retorno sofrendo em nível físico as conseqüências daquela agressão injusta e anti-evangélica.

Durante o pontificado de João Paulo II, foi praticamente ordenado a Pedro que cumprisse a visita ad limina. Em Roma, na Congregação para a Doutrina da Fé, teve que justificar-se ante o cardeal Ratzinger e outros sobre dois pontos: com respeito às suas viagens anuais à América Central, quando percorria regiões e dioceses suscitando mal-estar nos respectivos bispos, e com respeito às suas críticas às visitas ad limina. Pedro nos contou que jamais se sentira com tanta presença de espírito como naquele dia. De início, percebendo que iriam diretamente ao ponto, sugeriu de se começar com uma prece. Creio que esta prática tenha sido ali introduzida desde então. Continuo pensando no testemunho do nosso irmão ante aquele tribunal que fora o da Santa Inquisição. Creio que a missão do bispo se tenha voltado, em primeiro lugar, aos pequenos e aos pobres de sua igreja, mas não exclua a ação profética ad intra, também às mais altas instâncias eclesiásticas, inclusive ao papa. Deus seja louvado!

Bispos “vermelhos”

Mas, não é tudo tão grave e repleto de tensão na vida de um bispo. Por solicitação dos índios tapirapé, transportei mais de uma vez de avião araras domesticadas pelos índios rikbatsa do rio Juruena. Atravessava todo o estado de Mato Grosso em direção Leste-Oeste. Numa daquelas viagens dei uma passagem a Pedro, que se dirigia à sua Prelazia. Uma volta grande, mas compensada pela beleza extremamente variada do panorama. Pedro teve uma inspiração: uma crônica daquela viagem agradabilíssima intitulada “Um helicóptero vermelho, carregado com doze araras vermelhas e conduzido por dois bispos da mesma cor”. Escurecia e notei no horizonte, na nossa direção, uma formação de um temporal que bloqueava nossa trajetória. E de longe despontou uma boa pista de uma grande fazenda. Aproximei-me e aterrissamos. Veio o administrador, um conhecido de Pedro. “Sois afortunados – disse -; o patrão está com sua família no Rio, para o carnaval. A casa é toda para vocês”. Assim, depois de nos termos alimentado, pudemos gozar do conforto de um leito matrimonial para cada um.

Chegou para Pedro o momento de renunciar ao cargo de bispo de São Félix. Sua preocupação e a de muitos de nós dizia respeito à continuidade da caminhada pastoral. Isto o angustiava, principalmente por causa da demora da nunciatura, prejudicando sua saúde, cada vez mais frágil. Tanto mais que naquele período ele estava empenhado na solidariedade com os xavantes, decididos a recuperar o próprio antigo território. Pedro viu-se novamente circundado de atenção por causa da explícita a ameaça de morte contra ele.

O núncio apostólico solicitou a um bispo que fosse à prelazia para pedir informações a Pedro com respeito aos seus projetos de partida de São Félix. A repercussão desta proposta foi em geral negativa. Um grupo de bispos enviou uma carta à nunciatura pedindo que prestasse contas daquilo que teria podido existir por trás desta ação e afirmando o direito do bispo emérito de escolher livremente a própria residência, como é garantido pela lei canônica. A assembléia da prelazia reagiu. A imprensa no Brasil e no exterior se encarregou de dar eco à questão. Preocupava-nos a possibilidade que a proposta relativa à partida de Pedro fosse a condição posta por algum candidato à prelazia. Por isso, na chegada de dom Leonardo vimos o sinal do amor do Pai por Pedro e por sua igreja. Além disso, desde o primeiro telefonema que trocaram, Pedro percebeu que a chegada de Leonardo seria uma bênção. Em meu modo de ver, Pedro já estaria morto se tivesse prevalecido o outro projeto. Leonardo quis habitar na mesma casa de Pedro, continuar a mesma caminhada. Na cerimônia de posse de Leonardo, diante de uma grande multidão, após a leitura das bulas, pensei nas palavras de São Paulo à comunidade, na qual diz que esta é a verdadeira carta de apresentação e o sinal de sua legitimidade como apóstolo. Ali, naquele povoado, estava derramando de modo absoluto o Espírito do Senhor e, através deste Espírito, o povo reconhecia instintivamente seu novo pastor.

Certo dia Pedro chegou a me dizer que agora não era mais bispo. Do mesmo modo pelo qual eu, em 1971, estive em desacordo com ele quando estava para renunciar ao episcopado no momento de passar do jurídico ao sacramental, assim também nesta ocasião discordei de sua eclesiologia, a qual reduz este sacramento ao espaço e ao tempo da jurisdição. Seja como for, agradeço ao Senhor por ter nos dado Pedro como bispo. Ele era destinado a este ministério desde o ventre de sua mãe. Viveu-o e vive-o hoje na radicalidade evangélica e na simplicidade, na pobreza e na coerência, na doação até o martírio e na mística, numa obstinada esperança e numa vibrante poesia. Pensando nos bispos que o Deus de misericórdia enviou ao nosso continente latino-americano nos tempos pentecostais do Vaticano II e de Medellín, como Leônidas Proaño, Oscar Romero, Manuel Larrain, Hélder Câmara e outros, pode-se afirmar que dom Pedro Casaldáliga se encontra na companhia deles. Sua ação em nossos dias tem sido tão ampla e profunda que muitas coisas na sociedade e na Igreja trazem o sinal de sua presença. Por isso, podemos com toda razão colocá-lo ao lado dos grandes bispos que assinalaram a história da nossa Igreja.

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