sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A música que liberta

Músicas progressistas da Igreja Católica

A Teologia da Libertação animou a caminhada da Igreja Católica da América Latina a partir da década de 60. Diante do contexto de dominação social, cultural, política e econômica da América Latina por parte da Europa e dos EUA, a Igreja entendeu a necessidade de uma prática libertadora e de uma evangelização que levasse em conta a realidade do excluído, promovendo vida em plenitude. É a Teologia da Libertação que anima e ilumina, ainda hoje, a vida nas CEB’s (Comunidades Eclesiais de Base), nas pastorais da juventude e nas pastorais sociais.


Nesse contexto a música ocupa um lugar importante como manifestação de fé e clamor a Deus. Ela expressa o jeito de pensar, sentir e agir. Os cantos inspirados na Teologia da Libertação se distinguem dos que animam uma Igreja mais conservadora ou a dita “renovada”. São cantos que falam do pobre, do índio, do negro, e de todos aqueles que de algum modo estão postos à margem. Louva o Deus libertador, que toma partido do oprimido contra o opressor. Fala da fé encarnada na realidade, da luta da América Latina, ou como diz a canção “A fé do homem nordestino, que busca um destino, um pedaço de chão, a luta do povo oprimido que abre caminhos, transforma a nação”, (Ofertório do Povo /Zé Vicente).

As músicas da RCC (Renovação Carismática Católica), geralmente, conduzem a uma oração subjetiva, com forte apelo emocional, como na música do Pe. Marcelo Rossi, “Espírito, enche a minha vida, enche-me com teu poder, pois em ti eu quero ser...”. Ao contrário, as músicas mais progressistas expressam uma fé que transpõe as barreiras do individual. São orações que desafiam os fiéis para a construção de um projeto coletivo. Exaltam a união, a resistência popular e a solidariedade de Deus com os que sofrem. “No banquete da festa de uns poucos, só rico se sentou, nosso Deus fica ao lado dos pobres, colhendo o que sobrou” (Pão de Igualdade/Vaz Castilho).

Em muitos lugares as músicas que animam as celebrações nas CEBss causam estranhamento e críticas. Isso porque a Teologia da Libertação vem perdendo força e espaço para os movimentos pentecostais na Igreja Católica. As pessoas vão à Igreja para buscar alívio para as próprias angústias. E o que elas encontram é, justamente, um consolo individual, um sossego que acomoda e que não convoca para a construção de uma sociedade mais justa.

No entanto, ainda existem muitos que, corajosamente, continuam a professar uma fé encarnada na realidade, que liberta e não aliena. E esses cantaram sempre ao “Pai-Nosso revolucionário, parceiro dos pobres, Deus dos oprimidos”. (Pai Nosso dos Mártires/Cirineu Kubn).

Vânia Correia

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