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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Marina em meio ao “jogo verde"

Marina em meio ao “jogo verde”

Sexta-feira, 29 de outubro de 2010 - 9h21min

por Eduardo Sales de Lima - Brasil de Fato


Marina Silva se disse neutra, assim como o Partido Verde (PV), para o segundo turno. Tal consonância, à primeira vista, pode esconder o que algumas personalidades políticas compreendem como um abismo programático entre a ex-candidata à presidência e a maioria dos quadros do partido.

A ex-candidata à presidência da república pelo PV cresceu surpreendentemente dias antes das eleições no primeiro turno, obtendo voto de 19,6 milhões de eleitores por todo o Brasil. Para Roberto Malvezzi, assessor da CPT, muita gente, seja à direita ou à esquerda, subestimou os votos concedidos à Marina, atribuindo seu crescimento a votos conservadores e evangélicos. O voto em Marina, segundo Malvezzi, refletiu mais que isso; representou o descontentamento de muitos brasileiros em relação ao desrespeito ao meio ambiente, sobretudo no que se refere a grandes obras como a Transposição do Rio São Francisco e o projeto de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. "O governo Lula avalia mal a questão ambiental. Serra, então, nem sei se avalia", afirma.

Pois bem. Marina conquistou maior legitimidade, com os 19,33% dos votos válidos no primeiro turno e seu apoio se tornou objeto de desejo, tanto do lado petista quanto dos tucanos.

Poucos dias após a realização do primeiro turno, um de seus principais assessores, Pedro Ivo Batista, acenou fortemente com a possibilidade de Marina apoiar a candidatura de Dilma Rousseff. "O PT, por enquanto, de forma correta, procurou e tem buscado fazer uma conversa mais programática. Isso é positivo", declarou à Radioagência Notícias do Planalto.

Mas o apoio não ocorreu. Marina e seu partido declararam "independência" e liberaram seus militantes. "Imagino que os conflitos dentro do governo Lula enfrentados por Marina foram monstruosos. Ela não teria saído dali por razões desimportantes. Então, há que se considerar a decisão dela numa perspectiva de história, não só agora, no segundo turno. Ela tem consciência que trouxe para o Brasil uma variante que outros jamais trariam. Marina sabe que o futuro passa por essa dimensão (ambiental) e quer preservar sua independência para cobrar de quem quer que chegue ao poder", afirma Roberto Malvezzi.

Mas não é assim que vê o deputado estadual reeleito no Rio de Janeiro, Marcelo Freixo (Psol). Para ele, a atitude de Marina Silva foi "equivocada". "Acho que ela, como figura pública, tinha que se posicionar. Não existe a tecla independência. A pessoa que é pública não pode não se posicionar; eu acho ruim", critica.

Para João Batista Lemos, do PCdoB, a atitude da candidata derrotada à presidência da república contribuiu para o que chama de "diversionismo" dentro do contexto eleitoral. Segundo ele, tanto no primeiro quanto no segundo turno, a atuação da candidata de Marina tem confundido a luta política no país. "Primeiro, ela serviu à ofensiva midiática porque teve sua candidatura insuflada pela direita para Serra ir ao segundo turno. Agora, no segundo turno, sua neutralidade se insere nesse processo pessoal dela; porque seria muito mais coerente ela indicar o voto na Dilma", defende.

Tucanos verdes?

O comportamento dos "verdes" no segundo turno desvela um entrave programático para o próprio partido e para Marina Silva no futuro. Isso porque a neutralidade oficial de Marina e do partido não foi seguida por seus quadros, uma mistura de tendências ideológicas representada tanto por um punhado de figuras mais progressistas, como o próprio Pedro Ivo Batista, ex-militante petista e coordenador da Rede Ecossocialista, como por um considerável contingente de quadros próximos a governos do PSDB, como Fernando Gabeira, apoiador público à candidatura de José Serra no Rio de Janeiro. "O PV se aliou ao PSDB em vários estados. Agora, se o PV vai negociar cargos, caso ganhe ou José Serra ou Dilma, isso o tempo vai dizer", lembra deputado estadual fluminense Marcelo Freixo (Psol).

"A Marina, que tem a ilusão de construir um outro projeto político, manteve a independência; mas não é o caso do partido. Na grande maioria, os quadros do PV nos estados estão aderindo à candidatura Serra. O PV real, que está nos governos estaduais, esse posiciona majoritariamente a favor de Serra", destaca Valério Arcary.

Roberto Malvezzi, da coordenação nacional da CPT, acredita que o PV "não é um partido com cara definida". "Conheço pessoas muito boas que estão ali pela causa ambiental há muitos anos. Mas sei também que há ali um jogo de vaidades muito grande", afirma Malvezzi.

Segundo ele, o partido de Marina pode ter medido a questão do apoio no segundo turno "do ponto de vista eleitoreiro e de acumulação de força política", mas Marina, não."Com todos seus paradoxos que eu mesmo comento sempre, tem uma ética, tem valores, dignidade, e quer ver triunfar nesse país o bom senso e um novo paradigma de civilização", elogia. Ao mesmo tempo, Malvezzi é reticente em relação aos possíveis objetivos de Marina: "Não sei se vai conseguir, às vezes ela está muito fechada em um pequeno grupo de assessores".

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