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quarta-feira, 14 de julho de 2010

A vergonha da fome

A vergonha da fome

Entrevista a Pe. Martinho Lenz: A vergonha da fome
REVISTA MISSÕES



MISÉRIA E FOME têm solução. O padre Martinho Lenz, secretário-executivo do Mutirão para Superação da Miséria e da Fome, organizado pela CNBB, dá pistas deste caminho.

O Brasil que recebeu o papa Bento XVI e foi sede da V Conferência do CELAM e Caribe é o maior país católico do mundo. Ao mesmo tempo, aparece como um campeão da desigualdade social, título que envergonha e desafia a fé do católico consciente. Longe das preocupações com a perda de fiéis para outras denominações, setores da Igreja Católica pedem mais atenção ao mandamento novo de Jesus: "amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos... " (Jo 13, 34-35). É questão de credibilidade.

Nessa linha, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil criou o Mutirão para a Superação da Miséria e da Fome que foi aprovado na sua 40ª Assembléia Geral, em abril de 2002 (Doc. 69 da CNBB), e lançado em todo país na festa de Corpus Christi daquele ano. É uma iniciativa de caráter ecumênico, em colaboração com outras entidades da sociedade civil e de governos. O Mutirão quer dar uma resposta ao imperativo do Evangelho: "Dai-lhes vós mesmos de comer" (Mc 6, 37); e "eu tive fome e me destes de comer" (Mt 25, 35). Fundamento ético é a afirmação da alimentação adequada como um direito humano básico. Para o padre Martinho Lenz, 68, catarinense, sacerdote jesuíta, a miséria e a fome têm solução. Com doutorado em Sociologia pela Universidade Gregoriana de Roma, o nosso entrevistado é assessor da CNBB, como secretário-executivo do Mutirão.

Padre Martinho, por que um Mutirão para a superação da miséria e da fome?

O motivo foi a indignação de um bom número de bispos, inconformados com o escândalo de um Brasil rico em recursos naturais e gente de valor, com milhões de pessoas vivendo na mais triste miséria. Saber que a fome e a desnutrição têm solução, mas que a solução não ocorre por falta de decisão política e de organização do povo. Em resposta a essa inquietação, a Conferência dos Bispos do Brasil, comemorando seus 50 anos de existência em 2002, resolveu marcar essa data lançando um Mutirão para superar a fome e a miséria. O Mutirão foi assumido pelas Diretrizes Gerais da CNBB (2003-2007) e pelo Projeto Nacional de Evangelização - Queremos Ver Jesus: Caminho, Verdade e Vida (2004-2007).

Qual o principal objetivo do Mutirão?

Ele é uma forma de mobilização local, uma convocação para agir. Nosso objetivo maior é resgatar a dignidade vilipendiada de pessoas que passam fome crônica ou que se alimentam no lixo dos outros. O objetivo do mutirão é provocar uma grande mudança de mentalidade. Não dá para continuar desperdiçando, quando há gente passando fome.

Quais as ações que o Mutirão desenvolve no momento? Quais os resultados?

Atualmente, o Mutirão leva adiante um programa de Seminários Regionais. Em março e abril deste ano realizamos três Seminários: em Cuiabá, na Maranhão e em Manaus. Nesses Seminários, que reúnem umas 50 ou 60 pessoas, se realizam oficinas mostrando experiências bem sucedidas na região. Chamamos as entidades do governo que trabalham no combate à fome para conhecer seus programas e saber deles como a sociedade pode se valer dessas políticas e como pode colaborar. E ainda cultivamos a mística do Mutirão, que é o espírito do bom samaritano, que não fica apenas nas boas intenções.

Acha que a humanidade se habituou a aceitar a fome como mal inevitável?

O drama da fome é um drama oculto. A pessoa faminta sofre um estigma e por isso, esconde sua fome. A pessoa é vista como um preguiçoso, como um incompetente. E, na maior parte dos casos, isto não é verdade. A pobreza é produzida por políticas econômicas desastrosas, pela corrupção e pela ganância desmedida de uns poucos.

Como conciliar políticas públicas de segurança alimentar e distribuição de alimentos, com geração de renda e trabalho?

Políticas de assistência social são necessárias, porque o alimento é um direito e quem tem fome, tem pressa. Mas é preciso ensinar a pescar e cuidar que haja peixe no rio. Por outro lado, é preciso estimular as pessoas a buscarem saídas, a acreditar. Paulo Freire nos anima a exercer a pedagogia dos sonhos possíveis, a fazer o povo acreditar em si, a unir-se e aprender as boas experiências que já estão acontecendo. Um levantamento feito pela Cáritas Brasileira mostrou a existência de 15.000 empreendimentos de economia solidária, de cooperativa de artesãos à produção de alimentos e à reciclagem do lixo.

Que avaliação o senhor faz do Programa Fome Zero implementado pelo governo Lula?


Esse programa tem o mérito de colocar o combate à fome na agenda política. Um sucesso é o Bolsa-Família, que hoje assegura a 11,1 milhões de famílias um mínimo de renda para poder garantir o pão de cada dia. Mas, o que anda devagar são os programas estruturais, que visam tirar o povo da pobreza extrema e da dependência. Às vezes é por falta de recursos ou por falta de cooperação entre estados e municípios. Outras, pelo isolamento das elites, que não querem abrir mão de privilégios nem partilhar suas terras e outros bens. O vírus do egoísmo e do individualismo é um grande inimigo de soluções mais amplas.

A fome e a miséria têm alguma relação com a falta de uma reforma agrária eficaz e com a distribuição de renda no país?

Tem tudo a ver. Uma reforma agrária bem feita pode gerar trabalho e renda para milhares de famílias e garantir a segurança alimentar não só das próprias famílias dos agricultores, mas das populações locais e da região. O agricultor bem orientado e assistido é também um gerente da defesa do meio ambiente e da boa gestão do território. A renda no Brasil sofre uma concentração escandalosa e a diferença entre ricos e pobres em nosso país é uma das mais altas do mundo. Por que? Falta de uma política de educação de qualidade para todos, política de juros altos e de isenção dos lucros do capital especulativo. São exemplos de políticas que acentuam essa má distribuição de renda e de oportunidades.

Em julho acontece mais uma Conferência de Segurança Alimentar e Nutricional. O que o senhor espera desse evento?


O objetivo dessa III Conferência, que se realiza de 3 a 6 de julho em Fortaleza, é buscar mecanismos para pôr em prática a lei de Segurança Alimentar e Nutricional, que foi aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente Lula em 15 de setembro de 2006. Prevê a construção de um Sistema de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN) no Brasil. A fome será debelada no dia em que mudarmos de mentalidade e colocarmos como meta para o país o crescimento com justiça social, a produção com melhor distribuição de renda. A Igreja, com esse programa, quer contribuir para criar a vontade de mudar essa situação, com uma nova visão, baseada nos valores da partilha e da solidariedade e indo à frente com o bom exemplo. Recentemente lançamos um DVD, "Alimento dom de Deus, direito de todos", mostrando que uma outra economia e outra sociedade não só são possíveis, mas já estão acontecendo. Quero concluir citando o profeta Isaías. No capítulo 58 de seu livro, ele revela um caminho de felicidade na prática da solidariedade com o pobre e o faminto: "Se partilhas com o faminto o que mais gostas de comer, a tua luz brilhará..."(Is 58, 6).

(Publicado na Revista Missões, n.05 - Junho 2007): www.revistamissoes.org.br

Por Jaime Carlos Patias, imc
Mestre em Comunicação e diretor da revista Missões

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