sexta-feira, 9 de novembro de 2012

AMPLIADA DAS CEBs DO REGIONAL NORDESTE 3 DA CNBB



Aconteceu nos dias 02 a 04 de novembro, na Diocese de Camaçari-BA, mas precisamente na Paróquia Nossa Senhora da Luz em Simões  Filho - BA, a Ampliada das CEBs do Regional Nordeste 3 da CNBB. Estavam presentes a coordenação, o bispo referencial das CEBs  Dom Ricardo Guerrino Brusati de Caetité-BA, os assessores e delegados das CEBs das dioceses que compõem o nosso regional. 
Na oportunidade, foi aprofundado o tema: Igreja, comunidade de comunidades. Tema da quarta urgência das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (2011-2015). O assessor  foi o Pe. Laudelino Neto, que contou a ajuda do Pe. Ademir Amaral e Paulo Souza, oriundos da Diocese de Ilhéus-BA.
À tarde, houve a avaliação do VI Nordestão que fora realizado na cidade e Diocese de Itabuna-BA.
Durante a Ampliada,  sucedeu a escolha da nova coordenação, que ficou composta por:
  • Coordenador: Tiago Santos de Aragão - Diocese de Ruy Barbosa/BA;
  • Vice Coordenadora: Irenir de Jesus - Arquidiocese de Aracajú/SE;
  • 1ª Secretária: Valdenilza Marques da Silva - Diocese de Bom Jesus da Lapa/BA;
  • 2ª Secretária: Iône Silva dos Santos - Arquidiocese de São Salvador/BA;
  • Tesoureira: Ana Maria dos Santos Santos - Diocese de Ilhéus/BA.
A equipe de Assessores:
  • Mônica Maria Muggler - Diocese de Barra/BA;
  • Pe. José Carlos SDV - Diocese de Irecê/BA;
  • Pe. Luís Miguel - Diocese de Ruy Barbosa/BA;
  • Pe. Paulo Silva - Diocese de Jequié/BA;
  • Pe. Vicente Nascimento - Diocese de Bom Jesus da Lapa/BA.
A próxima Ampliada acontecerá nos dias 22 a 24 de fevereiro de 2013 na Arquidiocese de Feira de Santana-BA.

Vejam as fotos da Ampliada



























quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Sucumbíos: disputa entre dois modelos de Igreja.

Entrevista especial com Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus

Os Arautos do Evangelho "iniciaram uma campanha que ainda não terminou, campanha que desejou mostrar a Igreja Comunidade, de Sucumbíos, como um pequeno grupo, tentando rotulá-la como seita", dizem os membros da Igreja de São Miguel de Sucumbíos - ISAMIS, do Equador.
Sucumbíos [1], uma das províncias mais pobres do Equador, é conhecida pela ampla extração de petróleo, cerca de duzentos mil barris diários, que contribuem com 50% do PIB do país. No entanto, quase metade da população da região "continua trabalhando no campo. A grande maioria depende de uma economia de subsistência", e a desnutrição afeta 40% da população, dizem Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus à IHU On-Line.
Além das dificuldades econômicas e sociais, Sucumbíos enfrenta um conflito "entre dois modelos de igreja, marcado especialmente pela violência com que se desejou arrasar o modelo de Igreja Comunidade", dizem os membros da Igreja de São Miguel de Sucumbíos - ISAMIS, na entrevista a seguir concedida por e-mail. A ISAMIS surgiu inspirada na proposta do Concílio Vaticano II, e durante 40 anos foi assumida pela Ordem dos Padres Carmelitas Descalços [2]. "Os padres e a Missão Carmelita preocupavam-se com nossos problemas familiares e comunitários. A Igreja não era formada somente por eles, sacerdotes e bispo; éramos todos, e assim nos faziam sentir. Formaram-nos, ensinaram-nos uma fé tão profunda em Jesus, valorizando os dons recebidos por Ele, de maneira que essa fé lançou raízes tão profundas que ninguém nos pode arrancá-la", relatam os moradores da cidade de Nueva Loja, na província de Sucumbíos. De acordo com eles, "a chegada dos Arautos do Evangelho - AE [3] mudou tudo, trouxe a divisão nas famílias, nas comunidades, nos colégios, nos trabalhos, nos governos locais".
Na avaliação de Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus, os conflitos de Sucumbíos são um reflexo das tentativas de "deixar para trás muitos dos conceitos e das práticas e, em geral, o espírito que o Concílio Vaticano II e as Conferências Episcopais Latino-Americanas quiseram introduzir". Na entrevista a seguir, eles esclarecem as origens dos conflitos e mencionam as tentativas de resolvê-lo, desde 2010.
Ruth Elvira Sánchez Rosso foi missionária leiga da ISAMIS durante 17 anos. Hoje atua na paróquia Divino Niño, em Lago Agrio, Sucumbíos, onde realiza um trabalho de combate à violência de mulheres.
Silvio Cumbicus é líder de organizações populares e atua nas Comunidades Eclesiais de Base - CEBs na paróquia Cristo Resucitado, também em Lago Agrio. É coordenador da Pastoral Social da ISAMIS.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Qual é a situação política, econômica e social de Sucumbíos, e como a Igreja dialoga com a realidade da comunidade?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - Em 85% de Sucumbíos há petróleo. Nessa província funcionam trezentos poços que extraem aproximadamente duzentos mil barris diários. As receitas que são geradas constituem mais de 50% do produto interno bruto do Equador. No entanto, apesar da grande importância do petróleo, quase a metade da população continua trabalhando no campo. A grande maioria depende de uma economia de subsistência. Não existe desenvolvimento industrial na região.
Sucumbíos é uma das províncias mais pobres do Equador. A desnutrição chega até 40%, enquanto a mortalidade de crianças menores de um ano ultrapassa 50%. Em toda a província há somente um hospital com 15 leitos para internação de pacientes e seis médicos para cada dez mil habitantes. Cerca de 70% das famílias tem renda que não cobre o valor de uma cesta básica. A todos esses problemas somam-se os provocados pelo narcotráfico e a violência do departamento colombiano vizinho de Putumayo. Nesse mesmo lugar, há uma forte presença de grupos armados pertencentes às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Farc.
Direitos humanos
A questão dos direitos humanos também sempre foi controversa em Sucumbíos: sua conformação de migrantes, a vizinhança com a Colômbia (distante 23 km), uma sociedade em estruturação, e os abusos por parte da polícia e das forças armadas. A Igreja de São Miguel de Sucumbíos - ISAMIS, a partir de 1987, promoveu o Comitê de Direitos Humanos, que logo se converteu na Oficina de Direitos Humanos. Um caso emblemático foi a defesa dos Onze de Putumayo (1993-1996). Também nesse campo, desde 1995 existe um trabalho com meninas e meninos do Lar Infantil em coordenação com órgãos do Estado para reivindicar direitos de proteção. Essa iniciativa foi entregue ao Estado na administração do Delegado Pontifício.
Igreja
A Igreja local fez uma opção de apoio aos refugiados desde o início do Plano Colômbia (2000), responsabilizando-se pela construção e modernização de albergues e acompanhamento para aqueles que chegam. O trabalho foi coordenado com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados - ACNUR, e deu lugar à criação da Pastoral da Mobilidade Humana como um dos serviços da pastoral social. Há vinte anos, por iniciativa do Monsenhor Gonzalo López Marañon, desenvolveu-se a chamada Pastoral de Fronteiras, que permitiu coordenar o trabalho das igrejas presentes no cordão fronteiriço colombo-equatoriano com trabalhos conjuntos, sobre questões como a saúde prisional, as etnias, os direitos humanos e, na última década, a proteção de refugiados ou deslocados pelo conflito.
IHU On-Line - Quais as razões dos conflitos que envolvem a Igreja de Sucumbíos?
Ruth Elvira Sánchez Rosso, Silvio Cumbicus - O conflito de Sucumbíos, no norte do Equador, não é entre Arautos e Carmelitas, como se quis apresentar desde o início. É um conflito entre dois modelos de igreja, marcado especialmente pela violência com que se desejou arrasar o modelo de Igreja como comunidade, e porque o contexto geopolítico e social reúne fatores muito complexos, que serão mencionados adiante.
IHU On-Line - Como foi a atuação dos Padres Carmelitas Descalços em Sucumbíos ao longo das últimas quatro décadas?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - A ação, formação e propósito dos Padres Carmelitas, melhor dizendo, da Missão Carmelita, com as pessoas que, com eles, trabalharam como missionários, foi construir uma igreja de comunidades, com os camponeses e indígenas que iam chegando para colonizar a província, no princípio dos anos 1970 e 1980, buscando melhores condições de vida, trabalho e terra que lhes ofereciam o Estado e as empresas de petróleo. Incentivavam a criação de comunidades, seu monitoramento, seu fortalecimento e sua continuidade com a prática da leitura popular da Bíblia, buscando as luzes que ela dava para melhorar nossas relações e nossa realidade de maneira comunitária e solidária. As pré-cooperativas acompanhavam-nos e estavam presentes em todos os lugares aonde íamos, fazendo os assentamentos da colonização que se iniciava. Com a força que nos dava a oração pessoal e comunitária, a Palavra lida em comunidade, com ajuda e apoio da Missão Carmelita e a solidariedade coletiva, fomos descobrindo o Deus da Vida em nós e na comunidade, e, em seguida, na organização popular, buscando e encontrando soluções para melhorar nossa vida, a organização, nossos relacionamentos e ir atendendo às múltiplas necessidades e nossa nova vida de famílias, comunidades, organizações populares e sociedade civil.
Os Padres Carmelitas eram sempre muito humildes, davam confiança, aceitavam comer o que havia em nossas casas e dormir como fazemos, com muita simplicidade e humildade. Davam liberdade para falar de tudo com eles, respeitando nossas maneiras, valorizando as mulheres e o trabalho que fazíamos. Falavam e praticavam a igualdade, como, por exemplo, trabalhando nas mingas comunitárias, servindo, lavando pratos, fazendo tudo o que era necessário. Todos éramos iguais, e não havia uns mais importantes que outros; todos tínhamos direito de opinar, perguntar, participar e pensar de forma diferente.
Missão carmelita
Os padres e a Missão Carmelita preocupavam-se com nossos problemas familiares e comunitários. A Igreja não era formada somente por eles, sacerdotes e bispo; éramos todos, e assim nos faziam sentir. Formaram-nos, ensinaram-nos uma fé tão profunda em Jesus, valorizando os dons recebidos por Ele, de maneira que essa fé lançou raízes tão profundas que ninguém nos pode arrancá-la. Por isso, apesar de tantas dificuldades e tantas ofensas e calúnias, seguimos e seguiremos sendo fiéis no trabalho por esse Reino de Deus que está na Vida, na solidariedade e no compartilhamento entre os pobres e com os mais pobres. Demos vida à nossa utopia da ISAMIS: "Libertação integral do homem e da mulher a partir dos pobres pela causa do Reino".
Daí surge a frase e a realidade da ISAMIS de "Caminhar com os dois pés", de seguir a Palavra de Deus e a organização popular, com a Pastoral da Evangelização e a Pastoral Social, como um só corpo com dois pés, para avançar.
Nós encorajávamos a todos a nos apoiar e a ler a Palavra de Deus para fazer oração e buscar alternativas para nossa realidade, a partir do que dizia a Palavra, para ser, na prática, Igreja Comunidade Ministerial, Participativa, Missioneira de camponeses, indígenas, negros e, depois, urbanos. Eles incentivavam-nos e ajudavam-nos a termos coragem, a acreditar em nós mesmos, a defender nossos direitos.
IHU On-Line - O que mudou depois da chegada dos Arautos do Evangelho - EA em Sucumbíos, Equador?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - A chegada dos Arautos do Evangelho (ou AE) mudou tudo, trouxe a divisão nas famílias, nas comunidades, nos colégios, nos trabalhos, nos governos locais. A Virgem do Cisne, a Churonita, que sempre havíamos venerado, foi substituída pela Virgem de Fátima (a Virgem dos AE); rejeitaram-nos como Ministros e a nossa participação; rejeitaram a solidariedade e a prática da Pastoral de Compartilhar, que usávamos há vários anos; rejeitaram a participação das mulheres, seus conselhos e suas palavras no Sacramento da Confissão, fazendo as mulheres retornar às atitudes de submissão, à opressão e ao abuso machista que levamos anos tentando evidenciar e banir.
Os AE criaram o caos, pois diziam uma coisa e faziam outra. Quiseram arrasar tudo o que nos caracterizava como Igreja Comunidade. Seu argumento para a rejeição da solidariedade é que a atenção para com os empobrecidos é tarefa do Estado. Os AE apoiaram e aliaram-se com pessoas de poder econômico, e daí as pessoas com dinheiro surgiram, pela primeira vez, em nossa província, sem vergonha, como mais importantes. Os AE saíram em 19 de maio de 2011 de Sucumbíos, mas resta um grupo de pessoas que apoiam as suas práticas e seus objetivos.
Quando Roma ordenou a retirada de Monsenhor Gonzalo de maneira desrespeitosa e depreciativa, enviando os AE, fizemos, a partir do mesmo dia 29 de outubro de 2010, um pronunciamento da Igreja de São Miguel de Sucumbíos, o qual lemos na missa de despedida de Monsenhor Gonzalo López Marañon. A recusa em autorizar-nos a lê-lo na breve cerimônia que, de improviso, a pedido de Monsenhor Gonzalo, aceitaram fazer pública depois da transferência de poder no dia seguinte, causou o incidente que deu luz a essa injustiça, e intervenção em nosso vicariato, a qual ainda não terminou.
Apesar de tudo, simultaneamente acatamos a ordem de Roma, acolhendo bem ao Padre Ibarguren e aos 17 AE que chegaram com ele, informando-os, acompanhando-os, mostrando-lhes, dando tempo para que conhecessem, se interessassem e se aproximassem em um momento tão especial como o Advento e o Natal (2010). Convocou-se a primeira Assembleia Diocesana Extraordinária de Pastoral, em 20 de novembro de 2010, que contou, como sempre se havia feito, com delegados, representantes de todas as pastorais, serviços, equipes missioneiras.
Contradições
Sucumbíos tem duas visões e práticas de Igreja e de sociedade opostas, dificilmente compatíveis, refletidas em exemplos como os seguintes.
Razões sociais:
- Relações sociais de igualdade, proximidade e respeito versus relações sociais hierárquicas, distantes e de controle.
- Relações participativas e dialógicas versus relações de autoridade e imposição.
- Relações por amizade, vizinhança, necessidades e objetivo comuns versus relações por interesse econômico, de poder, surgimento de classes sociais.
- Prática em todos os espaços sociais e eclesiais de análise e decisões coletivas versus prioridade para interesses individuais.
Razões eclesiásticas:
- Sacramentos com exigência de prévia evangelização e prática comunitária ao longo de quarenta anos versus sacramentos fáceis e sem preparação, que atrai grupos de gente urbana, chegados em anos mais recentes, e que não têm prática comunitária.
- Plano Pastoral de Conjunto, em comunhão com o Plano Mundial da Igreja Equatoriana, planejado e desenvolvido com critérios comuns a partir da realidade e para repercutir processualmente nela versus ações sem planejamento e com maneiras próprias dos AE, sem relação e sem levar em conta nem respeitar os processos e os planos da Igreja local.
- Sacerdotes simples, carmelitas, incardinados, de outras congregações, acompanhado a partir de seu Ministério e com a força da Palavra de Deus e de processos comunitários para as comunidades e movimentos, caminhando com o povo e suas lutas versus sacerdotes individualistas e impositivos, cumprindo o lema de acabar com a participação de Ministérios, omitindo e evitando explicitamente sinais e rituais como o compartilhar na Eucaristia, com mais de oito anos de tradição e compromisso com resultados na ISAMIS.
- Participação e até mesmo tomada de decisões por leigos; grande acolhida, valorização e reconhecimento das mulheres versus exercício de poder patriarcal e eclesiástico, rejeição, discriminação e exclusão das mulheres.
- Solidariedade versus esmola.
IHU On-Line - Quais setores da sociedade apoiam cada um dos modelos de Igreja?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - A Igreja Comunidade, até 29 de outubro de 2010, era apoiada por todos, por ser aberta e inclusiva: Comunidades Eclesiais de Base - CEBs e Ministérios das diversas pastorais (urbana, negra, indígena e camponesa), movimentos, congregações, diversidade de carismas, leigos.
Por outro lado, os carismáticos com poder econômico, fanáticos religiosos dos carismáticos, um grupo urbano que busca sacramentos fáceis e sem compromissos e os politiqueiros corruptos, que acham que a gente de igreja nunca os apoiou, apoiam os AE.
IHU On-Line - Qual é a situação da Ordem dos Padres Carmelitas Descalços em Sucumbíos?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - A Ordem dos Padres Carmelitas da Província Colômbia-Equador segue disposta a regressar para a ISAMIS, mesmo que com outros sacerdotes, diferentes dos que se viram obrigados a sair pela "suposta razão" de ajudar a diminuir o conflito. No entanto, não podem fazê-lo até que Monsenhor Mietto dê sua aprovação, quando considerá-la oportuna.
Dos seis padres carmelitas de Sucumbíos - como os chamamos -, o Padre Jesús Arroyo, delegado provincial para o Equador, faleceu em 30 de junho de 2012. Os outros padres se encontram em lugares diferentes do Equador, e um está fora do país, fazendo com encorajamento e esperança seu trabalho missionário de evangelização.
IHU On-Line - Por que, depois do jubilamento do Monsenhor Gonzalo López Marañon, escolheu-se um bispo que não deu continuidade à proposta de uma Igreja Comunidade com compromisso social?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - Esse pequeno e esquecido vicariato, talvez por seu isolamento geográfico e de comunicação de muitos anos e a abertura de sua gente à novidade, dada sua condição de migrantes, conseguiu manter-se e fazer valer seu processo de Igreja Comunidade de comunidades, Participativa, Missioneira, sempre em andamento, com planejamento de pastoral de conjunto e critérios comuns, sendo um humilde testemunho do espírito das primeiras comunidades e de paz e convivência social e eclesial por 40 anos.
A Igreja universal vem há anos em um processo de involução que busca deixar para trás muitos dos conceitos e das práticas e, em geral, o espírito que o Concílio Vaticano II e as Conferências Episcopais Latino-Americanas quiseram introduzir. As igrejas que levaram a sério o Concílio - e que promoveram a Igreja Comunidade Povo de Deus, as CEBs e o compromisso social, a participação laica, a leitura da Palavra de Deus, iluminando a realidade, a formação e a consciência crítica, a dignidade de todos, o protagonismo de jovens, mulheres e excluídos, uma forma inserida de vida religiosa, a opção pelos pobres - estão sendo sistematicamente transformadas e gradualmente destruídas.
O legado de João Paulo II
A partir de João Paulo II, começaram a censurar igrejas como a de Riobamba, no Equador, e a fazer mudanças de bispos que desmantelaram as CEBs, ignorando e desconsiderando o trabalho dos Ministérios e dos servidores leigos, como se fez no Brasil, no Peru, na Nicarágua e em El Salvador.
Um dos poucos lugares que mantém, na América, uma diocese ou um vicariato com essa maneira de ser Igreja, como Igreja Comunidade Povo de Deus, comunidade de comunidades, é Sucumbíos, que, pelas mudanças tecnológicas da comunicação, foi se tornando mais conhecida. Sua experiência irritava e irrita outras instâncias que questionam esse modelo.
O envio dos AE pretendia terminar definitivamente com esse modelo, com essa maneira de ser Igreja. Iniciaram uma campanha que ainda não terminou, campanha que desejou mostrar a Igreja Comunidade, de Sucumbíos, como um pequeno grupo, tentando rotulá-la como seita.
Por isso, parece contraditório celebrar, com tanta força, os cinquenta anos do início do Concílio Vaticano II, e, com tanta força, perseguir e intervir. Essa pequena Igreja local, com as fragilidades de qualquer processo humano, tem uma história de 40 anos, que é encorajada pelo Concílio Vaticano II e pelas Conferências Episcopais Latino-Americanas.
IHU On-Line - Roma tinha conhecimento da Igreja de Sucumbíos?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - Naturalmente, porque não podia ser de outra maneira; nunca se fez nada ocultamente.
IHU On-Line - Como o Vaticano se relacionou com a Igreja de Sucumbíos ou com os Padres Carmelitas durante esses quarenta anos?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - Nunca houve uma manifestação contrária e, por isso, não se entende por que razão nunca se pronunciou antes, se via inconvenientes. Tampouco se entende por que não aceitou a renúncia do Monsenhor Gonzalo, quando ele a apresentou no ano de 2000. Por outro lado, o Vaticano solicitou a Monsenhor Gonzalo que continuasse e que esperasse que o Núncio lhe manifestasse algo. Por quê? Somente sabemos que, em 2005, questionaram a formação dos sacerdotes, e, em 2008, o relato da Visita Ad Limina.
IHU On-Line - Na Carta Aberta divulgada durante o Congresso Continental de Teologia Latino-Americana, realizado em São Leopoldo, RS, Brasil, em outubro de 2012, vocês mencionaram um plano sistemático de destruição da Igreja local. Quais são as razões da ameaça do processo de 40 anos da Igreja Comunidade ministerial, missionária e participativa?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - Esse plano sistemático começou em 2009 com a visita apostólica do Dom Filipo Santoro, então bispo de Petrópolis, Brasil (hoje arcebispo de Taranto, Itália) à subsequente decisão de remover de maneira desrespeitosa nosso bispo, Monsenhor Gonzalo López Marañon, e enviar para substituí-lo os Arautos do Evangelho, congregação ultraconservadora com o mandato de "implantar de maneira diferente todo o trabalho pastoral", com a saída dos Padres Carmelitas. Esse plano continuou com a falta de ações para a reconciliação, e contribuição para o caos que criou a quase ausência do Delegado Pontifício. Seguiu-se, posteriormente, com o envio de vários sacerdotes "colaboradores" com o mesmo mandato dos AE; com a proibição de Monsenhor Gonzalo voltar a Sucumbíos; com o desconhecimento, a exclusão e a perseguição das comunidades, dos ministérios e do clero; com o desrespeito e a desvalorização das instâncias de coordenação e a busca de consenso no âmbito de uma Pastoral de Conjunto, como tem sido a tradição da ISAMIS; com as ameaças e agressões às pessoas e aos símbolos de nossa Igreja e a falta absoluta de vontade de negociar do pequeno grupo pró-Arauto.
IHU On-Line - Qual é a situação do Monseñor Gonzalo, bispo emérito de Sucumbíos?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - Ele tem mantido, como sempre, a fé no Senhor, a força, a paz interior e a paz com todos, e o carinho pela sua querida ISAMIS, a qual consagrou com todo amor quarenta anos de sua vida, e que leva no coração. Fez um jejum de 24 dias entre maio e junho de 2011 em Quito "para sanar feridas e reconciliar Sucumbíos". Depois foi à Espanha, para a Universidade da Mística, fazer um curso de espiritualidade, país em que continua vivendo. Mantém sempre a serenidade e o bom humor de homem de Deus, o que o leva a assumir com o sentido cristão da Páscoa e sua dor normal por estar longe de onde gostaria de estar: Sucumbíos.
IHU On-Line - Qual é a situação eclesiástica de Sucumbíos atualmente?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - A situação é de um sentimento muito forte de divisão. Continuam as difamações e agressões por parte do grupo fanático pró-arauto, o empenho em acusar a Igreja Comunidade Povo de Deus de seita, tudo isso com apoio externo, e estão surgindo igrejas paralelas. O que significa isso? Que segue adiante o plano da Igreja Comunidade, o trabalho daqueles que defendem o trabalho missioneiro, o compromisso social, a opção pelos pobres, o plano global de conjunto pensado e mantido com critérios e linha comuns. E, simultaneamente, o grupo de pró-arautos e os padres "colaboradores", por sua vez, sem proposta pastoral, sem respeitar as instâncias pastorais nem as equipes missioneiras responsáveis pelas paróquias, fazendo uma igreja sacramentária, sem levar em conta processos de evangelização e sem compromisso social.
Continuam as tentativas de desarticular nossas instâncias participativas. Por exemplo, para uma das 16 comunidades da Paróquia da Criança Divina, que se separou da Paróquia na raiz da chegada dos AE, todos os serviços pastorais estão sendo dados pelos padres "colaboradores", e sendo celebrados em uma cancha desportiva, sem nenhuma intenção de reconciliação nem de aproximação, nem diálogo com a paróquia. Continua a renovação carismática, mas especialmente dona Genoveva Altamirano, alguns padres "colaboradores" e alguns politiqueiros agridem, e difamam as pessoas da Igreja Comunidade e encorajam outras pessoas e grupos a fazê-lo.
A proposta de Monsenhor Paolo Mietto, administrador apostólico desde 7 de março de 2012, a de que Sucumbíos voltaria a ser "Casa e Escola de Comunhão", está permanecendo somente em palavras, pois suas decisões, pelas pressões externas que sofre, vão desfavorecendo as instâncias da Igreja Comunidade.
IHU On-Line - Já foi nomeado o novo bispo para o Vicariato Apostólico de São Miguel de Sucumbíos?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - Não. Ainda não.
IHU On-Line - Como estão as negociações?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - Não sabemos nada a respeito. Imaginamos que se manterá a tendência de nomear um bispo que desconheça a tradição de nossa Igreja.
IHU On-Line - Vocês receberam alguma ameaça?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - Paulo Torres, um dos nossos quatro sacerdotes incardinados, recebe ameaças. Ele é acusado de perturbar a comunhão eclesial, mas não citam fatos nem argumentos sobre a questão. Apenas solicitam que deixe a paróquia.
IHU On-Line - Qual é a situação dos sacerdotes incardinados em Sucumbíos?
Ruth Elvira Sánchez Rosso e Silvio Cumbicus - Difamações, ameaças e agressões por parte do grupo que demonstrou um fanatismo religioso, desconhecido em Sucumbíos até a chegada dos AE, chegando a pedir a morte de alguns deles; exclusão por parte do bispo em não levar em conta seus projetos e sugestões nem proporcionar espaços para que se os exponham e debatam, com profundidade e com argumentos, as questões pastorais, catequéticas, litúrgicas que eles rejeitam; o favorecimento, com as decisões e nomeações desses padres "colaboradores", do cancelamento das estruturas de participação; e o caminhar comunitário sobre um planejamento de pastoral conjunta com critérios comuns etc.
NOTAS:
[1] Sucumbíos é uma província do Equador localizada na região geográfica Amazônica. Sua capital é a cidade de Nueva Loja, maior cidade da província. Sucumbíos faz divisa ao sul com as províncias de Napo e Orellana, a oeste com as províncias de Carchi e Imbabura, a sudoeste com a província de Pichincha, a leste com o Peru e ao norte com a Colômbia. É a única província do Equador que faz fronteira com dois países diferentes. Na parte oeste da localizam-se as montanhas orientais dos Andes, onde a maioria dos rios da província nascem. O monte mais importante é o Reventador, um vulcão ativo. A parte leste da província faz parte da Bacia Amazônica, com altas temperaturas. Seu principal rio é chama-se Aguarico. Ele passa próximo a cidade de Nueva Loja e desagua no rio Napo, na fronteira com o Peru. Outros rios importantes são: rio Putumayo, na fronteira com a Colômbia, rio Coca e Napo, ambos no sul da província. O recurso natural mais importante é o petróleo, o que faz de Sucumbíos uma das mais importantes províncias do país.
[2] A Ordem dos Carmelitas Descalços é um ramo da Ordem do Carmo, formado em 1593, que resulta de uma reforma feita ao carisma carmelita elaborada por Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. Este ramo divide-se em três diferentes tipos de família carmelita: os padres ou frades, as freiras contemplativas de clausura monástica e os leigos consagrados.
[3] Arautos do Evangelho são uma associação religiosa privada de fiéis de direito pontifício, a primeira a ser erigida pela Santa Sé no terceiro milênio, o que ocorreu por ocasião da festa litúrgica da Cátedra de São Pedro (22 de fevereiro) em 2001. Estão espalhados por mais de 78 países. Seus membros se propõem a observar a obediência, a pobreza e a castidade, como muitas ordens religiosas como os Franciscanos e os Carmelitas. Foi fundada pelo monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, nascido em São Paulo dia 15/8/1939, filho de mãe italiana e pai espanhol.
Fonte: www.ihu.unisinos.br

Encontro das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) Nossa Senhora da Piedade - BH

15 de novembro


A Região Episcopal Nossa Senhora da Piedade (Rensp), a coordenação arquidiocesana das CEBs e a Paróquia Bem-Aventurada Dulce dos Pobres, organizam o primeiro Encontro das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), dia 15 de novembro. O evento, que tem como objetivos compartilhar vivências com outras regiões episcopais e refletir sobre o papel das CEBs na Igreja e na sociedade, tem como tema CEBs, Igreja Rede de Comunidades.

 



Programação:

8h
- Acolhida, credenciamento, café e ciranda
8h45 - Apresentação das paróquias
9h - Momento de espiritualidade
9h30 - Assessoria
11h30 - Fila do Povo
11h55 - Encaminhamentos
12h - Almoço
14h - Grupos
15h - Retorno dos grupos
15h30 - Assessor
16h - Celebração Eucarística presidida pelo bispo auxiliar dom  João Justino de Medeiros Silva

O encontro será na Escola Municipal Padre Guilherme Peters - Rua   Coronel  Jorge Dario  S/N - Bairro São Lucas

Mais informações e inscrições pelos telefones 3428.7903 Secretariado das CEBs / Cúria Regional 3423.3731, ou pelo e-mail cebsmineiras@yahoo.com.br .

Uma teologia pública muito viva. Crônica do Congresso Continental de Teologia

"O Congresso Continental de Teologia foi um energético de esperança. Teve muito de saudade, mas também de horizontes abertos para testemunhar que outro mundo é mais que possível", testemunha Vidal Enrique, participante do evento, vindo de São Paulo.

Naquela tarde do domingo 7 de Outubro começava o Congresso Continental de Teologia na Unisinos, em São Leopoldo (RS).
Estávamos acolhidos na casa de uma família amiga. O churrasco era aquele gaúcho com outros pratos mais caprichados de sabores locais para os que chegávamos de Colômbia, Argentina, dalgumas comunidades solidárias da Europa e do nordeste brasileiro. Num momento descontraído veio a pergunta: viemos a este congresso para o enterro da Teologia da Libertação -TdL? De modo oficial ninguém tinha nos convidado para essa cerimônia. Certo que algumas autoridades eclesiásticas e da situação conservadora tinham se empenhado a partir dos anos 80 em marginalizar e até torturar tal TdL.
O que vimos já na abertura do Congresso era algo bem diferente: 750 pessoas na expectativa e na alegria de se encontrar, chegando de tantos lugares de nossa América; alguns representantes de outros continentes, de outras confissões religiosas, uns 20 bispos, pessoal das comunidades, das pastorais sociais e do mundo indígena, da reflexão teológica, algumas irmãs com hábito, uns 70 ou 80 jovens ...
Os responsáveis das conferências centrais eram os mais veteranos. Aqueles que Leonardo Boff tratou na brincadeira como “dinossauros”. Foi na hora de convidar os representantes desta teologia para uma fotografia histórica de lembrança. Mas a espécie, pelo que deu para ver, está se reproduzindo e a TdL vai resistir a outras inclemências e temporais. A presença constante de Dom Jose Maria Pires, 94 anos, bispo emérito da Paraíba, trouxe-nos a memória viva do Vaticano II onde ele foi padre conciliar.
No início do Congresso nos encantou, e de modo muito colorido, a jovem teóloga irmã Geraldina Céspedes. Vive na Guatemala numa área militarizada perto dos barrancos na periferia da capital. Costurando em paralelo com a TdL, foi nos desfiando a parábola das mulheres que tecem suas peças maravilhosas entre o silêncio e a conversa de comadres. Podem trabalhar onze técnicas diferentes apalpando nos teares fios e cores, fios-guia e até o fio vermelho ou de ouro. Neste podemos tatear e imaginar o sangue de nossos mártires. Mantemos assim a trama básica de nossa própria vida e a do Jesus histórico. Esta é a realidade que vivenciamos e carregamos.
Como contraponto e de conteúdo denso, veio o testemunho teológico de Jon Sobrino, radicado na pequena república de El Salvador. Iniciou sua fala com a trajetória da sua vida. Chegava debilitado. Testemunha sobrevivente do massacre contra esses povos de América Central e, em concreto, do martírio de seus companheiros jesuítas e de duas mulheres trabalhadoras que os acompanhavam.  Em tempos criticados como relativistas Sobrino insiste que “absoluto é o Senhor e co-absoluto os seus  - e os nossos -  pobres”.
Nesta linha básica de pensamento trabalhamos durante o congresso com exposições e depoimentos de afamados e mais novas/os pensadores da libertação. As perspectivas eram variadas: econômica, social, ecumênica, religiosa e ecológica. Gostamos do diálogo e da harmonia de nossa teologia com outras reflexões emergentes nos continentes africano e asiático. Nas conferências da manhã, e nos paneis e oficinas da tarde, seguimos o método consagrado de nossa pastoral: Ver, julgar, agir e celebrar. Ação católica específica, JOC, Pastoral Operária e outras pastorais sociais marcaram o ritmo e os passos deste congresso. Partimos da realidade vivida e da sensibilidade com os pobres, seus sofrimentos e esperanças. Mantem-se viva a pergunta: o que significa ser seguidores de Jesus libertador nesta situação?
Gustavo Gutierrez, peruano, um dos iniciadores desta reflexão teológica há 40 anos, se fez presente por teleconferência. Combinava, de modo simples e evangélico, os capítulos 5 e 25 de Mateus para nos lembrar que a bem-aventurança e a caminhada dos pobres estão contempladas naquele critério de acolher/ser acolhidos como Jesus que está ao nosso lado: faminto, preso, sofrido e amante da justiça. Gustavo resumia a graça e o compromisso da TdL no grito confiante: “Cerca de Dios, cerca de los pobres!”. O Documento de Aparecida, n.393 já tinha confirmado que o relacionado com os pobres refere-se a Cristo. Aprofundando nesta espiritualidade, os jovens encerravam nosso encontro com o compromisso de “não somente pensar Deus, mas sentir e vivenciar o nosso Deus”. O mesmo Gustavo tinha lembrado com emoção às novas gerações de teólogos que estudem com vigor, sejam profundos; bem próximos das comunidades inseridas no mundo e dispostos até dar a sua vida pelos pobres.
Numa etapa de menos ataques à TdL e numa atitude menos defensiva, seguimos no processo normal de autocrítica, cobrindo os espaços que não eram tão visíveis nas etapas anteriores: a ecologia, a inculturação, os migrantes e refugiados, as novas gerações, as relações de gênero, os povos originários e afrodescendentes, os novos rostos da exclusão...
Victor Codina, veterano teólogo na Bolívia, nos animava, no mesmo sentido, a sermos menos paternalistas e prepotentes, sempre a favor da gratuidade e do afeto, com maior plasticidade e superando moralismos e ingenuidades.
Nas explicações incisivas do teólogo galego Andrés Torres Queiruga não faltou a perspectiva da secularização, como valor da autonomia do temporal. Também teve que escutar o outro lado e algumas críticas a partir da cultura e da religião de nossos povos latino-americanos. Podemos viver uma espiritualidade de libertação de modo diferente daquela do hemisfério norte.
Algumas teólogas de México e Colômbia, Chico Whitaker, Pedro Ribeiro de Oliveira, Oscar Beozzo relacionavam a fé e a espiritualidade com as pastorais sociais, os movimentos e a realidade histórica das últimas décadas.
Recolhemos a contribuição pedagógica de Paulo Freire para os nossos trabalhos. Agenor Brighenti, Carlos Mendoza e Luiz Carlos Susin aprofundaram em aspectos renovados da TdL. Contamos com o apoio de Carlos Mesters e Francisco Orofino para uma leitura popular da Bíblia. Esta raiz bíblica do Povo de Deus merecia ter sido mais cuidada; ela sustenta a espiritualidade e o compromisso da TdL.
Jung Mo Sung, na sua visão crítica, nos alertava sobre a inércia de reflexões que não consideram a ideologia e a sedução do modelo capitalista, a força religiosa e até sacramental do mercado individualista com os sonhos do povo consumidor.
Leonardo Boff na caminhada integral da libertação e nas suas últimas visões eco-dinâmicas sobre Terra e Vida, em contato com os melhores cientistas nessas áreas, resumia nossa atitude como de “razão cordial”, superando lógicas anteriores mais fechadas.
Era o final do Congresso no mesmo dia 11/10 quando se inaugurou o Concílio Vaticano II há 50 anos. As contribuições e os desafios para nossa TdL foram muito bem recolhidos na palestra final de João Batista Libânio. Entre parábolas e anedotas foi mais uma conversa viva que encantou mentes e corações. Nosso desafio é concertar a barca mesmo perplexos e dentro da tempestade. Nem por isso vamos deixar de preparar a festa e o bolo entre todos.

Na celebração final, como Via Lucis, caminho de luz, respondíamos: “Porque por tua santa Ressurreição remiste o mundo”. Com símbolos bem elementares: cântaro de barro com água, jornais, megafone acompanhamos estações por uma Igreja samaritana, aberta, pobre, missionária e profética.
Surpreendeu-nos o mapa-mundi virado: quando o sul é o nosso norte. Uma mulher experiente passou a chama de um círio maior para outras velas de mãos mais jovens.
Foi muito oportuna a expressão de boa parte do Congresso na língua espanhola pois contamos com uma boa participação de representantes de outros países de A.L. e Caribe. E com o testemunho de resistência da Igreja/Assembleia de Sucumbios, Equador, com suas declarações de base e seu estande na entrada do anfiteatro. Profunda e simples foi a mistura de som, imagens e silêncio na hora da primeira celebração com que abríamos a jornada.
Nesses dias não faltaram intercâmbios, reconhecimentos, abraços e gratidão aos simples funcionários ao nosso serviço; à organização e aos apoios recebidos. De modo especial, à Companhia de Jesus com seu Instituto Humanitas Unisinos - IHU que teve que enfrentar vários desafios, imaginamos, para acolher este Congresso.
O Congresso foi um energético de esperança. Teve muito de saudade, mas também de horizontes abertos para testemunhar que outro mundo é mais que possível. Sobretudo quando as comunidades com sua teologia fazem vivo o projeto do Senhor, o seu Reinado com os pobres da terra. E já está acontecendo porque “o espírito se derrama na carne, nossos jovens tem visões e nossos velhos se animam com sonhos”, Joel 3,1-2.

A recepção do Vaticano II na América Latina

A recepção do Vaticano II na América Latina

Leonardo Boff: um teólogo brasileiro conhecido no exterior.


O Concílio Vaticano II (1962-1965) foi a resposta tardia, mas verdadeira, quinhentos anos depois, à Reforma protestante do século XVI. Esta clamava por reformas na Cabeça (hierarquia) e nos membros (cristandade). E nunca viera. Finalmente os tempos maduraram e ela veio. Por isso o Concílio representa uma ruptura do curso que a Igreja Católica vinha percorrendo por séculos.

Era uma Igreja transformada em fortaleza sitiada, defendendo-se de tudo o que vinha do mundo moderno, da ciência, da técnica e das conquistas civilizatórias como a democracia, os direitos humanos e a separação entre Igreja e  Estado. O Papa Pio XII (+1958) foi  o último representante do sonho medieval da Igreja que havia se transformado num verdadeiro pesadelo coletivo e um corpo estranho dentro do mundo atual.

Mas uma lufada de ar fresco veio de um Papa ancião do qual  não se esperava nada: João XXIII (+1963). Ele abriu portas e janelas da Igreja. Disse: ela não pode ser um museu respeitável; ela tem que ser a casa de todos, arejada e agradável para se viver.

Recepção 

Em primeiro lugar o Concílio Vaticano II representou, na linguagem cunhada pelo Papa XXIII, um "aggionamento", quer dizer, uma atualização e uma reconstrução de sua  auto compreensão, de suas instituições, de sua linguagem  de seus ritos e do tipo de presença no mundo.

Não se trata aqui de sumariar os elementos principais introduzidos pelo Concílio. Interessa-nos como este "aggiornamento" foi acolhido e traduzido pela Igreja latino-americana. A esse processo se chama de recepção que nunca é uma mera adaptação ou aplicação das decisões oficiais, mas uma releitura e um refazimento das intuições conciliares dentro do contexto latino-americano, bem diferente daquele europeu no qual se elaboram todos os documentos. Enfatizaremos apenas alguns pontos essenciais à moda de uma leitura de cego que capta só o que é relevante.

O primeiro, sem dúvida, foi a profunda mudança de atmosfera eclesial: antes predominava a Grande Disciplina, a uniformização romana e o ar sombrio e severo da vida eclesial. As Igrejas da América Latina, da África e da Ásia eram Igrejas-espelho da Igreja Romana. De repente começaram a sentir-se  Igrejas-fonte. Podiam se inculturar e criar linguagens novas. Por isso, agora se irradia alegria, entusiasmo e coragem de criar. Finalmente a Igreja Católica encontrou seu lugar dentro o mundo de hoje participando de suas alegrias e tristezas, de suas busca e avanços.

Visão social 

Em segundo lugar na América Latina se processou uma redefinição do lugar social da Igreja. O Vaticano II foi um Concílio universal, mas na perspectiva dos países centrais e ricos. Isso se nota no seu documento pastoral, o mais aberto, a Gaudium et Spes no qual se definiu a Igreja dentro do mundo moderno. A Igreja latino-americana olha em volta e se dá conta do submundo da periferia e da opressão. A Igreja deve se deslocar do centro humano para as periferias sub-humanas. Se aqui vigora opressão, sua missão deve ser de libertação e de transformação. Valorizaram-se as palavras do Papa João XXIII um mês antes do Concílio: “a Igreja é de todos, mas principalmente quer ser uma Igreja dos pobres”.

Esta viragem se traduziu em Medellín (1968) na opção solidária e preferencial pelos pobres, contra a pobreza e em prol da vida e da liberdade. Ela ganhou centralidade em Puebla (1979) e se consolidou depois como a marca registrada da Igreja latino-americana.

Em terceiro lugar é a concretização da Igreja como Povo de Deus. O Vaticano II colocou esta categoria antes daquela da Hierarquia. Para a Igreja latino-americana povo de Deus não é uma metáfora; a grande maioria do povo é cristão e católico, logo é Povo de Deus, gemendo sob a opressão como outrora no Egito. Dai nasce a dimensão de libertação que a Igreja assume oficialmente em todos os documentos de Medellín (1968) até Aparecida (2009). Este visão da Igreja-povo-de-Deus ensejou algo original da América Latina: as Comunidades Eclesiais de Base, entendidas como a Igreja na base e a Igreja da libertação.

Em quarto lugar, o Concílio entendeu a Palavra de Deus, contida nas Escrituras, como a alma da vida eclesial, especialmente, da reflexão teológica. Isso foi traduzido na América Latina pela leitura popular da Bíblia e pelos milhares e milhares de círculos bíblicos. Neles os cristãos comparam a página da vida com a página das Escrituras e tiram conclusões práticas, na linha da comunhão, da participação  e da libertação.

Direitos Humanos 

Em quinto lugar o Concílio se abriu aos direitos humanos. Na América Latina foram traduzidos como direitos dos pobres e por isso, antes de tudo, direito à vida, ao trabalho, à saúde e à educação. A partir dos direitos dos pobres, se entendem os demais direitos.

Em sexto lugar, o Concílio acolheu o ecumenismo e o diálogo com as demais religiões. Na América Latina o ecumenismo não visa tanto a convergência nas doutrinas, mas a convergência nas práticas: todas as Igrejas juntas se empenham pela libertação dos oprimidos. É um ecumenismo de missão.

Por fim dialoga com as religiões vendo nelas a presença do Espírito que chega antes  do missionário e por isso devem ser respeitadas com  seus valores.

Por fim cabe reconhecer: a América Latina foi o Continente onde mais se tomou a sério o Vaticano II e mais transformação trouxe, projetando a Igreja dos pobres como desafio para a Igreja universal e para   todas as consciências humanitárias.

Leonardo Boff

Em defesa dos povos indigenas = MT



29º Encontro Diocesano de CEBs – Campina das Missões



CEBs5cAconteceu sábado e domingo  dias 27 e28 de outubro, na Paróquia Nossa Senhora do Bom Conselho, do município de Campina das Missões o 29º Encontro Diocesano de CEBs da Diocese de Santo ângelo. O tema do encontro foi: "Comunidade a serviço da Vida" e o lema: "Cebs na vivência do Jubileu".(...)  Enfim, nossa gratidão em nome do coordenador Diocesano de CEBs, Pe. Aloísio Ruedell, a toda equipe diocesana, aos assessores - Dinarte Belatto, Waldir Bohn Gass, Irmãs Lourdes Dill e Nair Frey, e ao nosso Bispo referencial da CEBs no Rio Grande do Sul, Dom  José Clemente Weber.

CEBS12cFoto 2: Jovens participantes das CEBs - Campina
Já diz a canção: "em cada vagão que une é sinal que a CEBs vai sempre crescer".  E foi neste 29º Encontro Diocesano de CEBs que vimos centenas de mulheres, homens, jovens, crianças, idosos, padres, irmãs, bispo, enfim, todos que estiveram neste encontro. Seja participando ou trabalhando na organização mostraram que faça chuva ou faça sol somos comunidades unidas que apesar dos problemas, angustias e sofrimentos, a alegria, animação, dinamismo, discussão, reflexão e o amor pela vida da comunidade é nosso jeito de ser cristão!
Agradecemos a presença dos participantes de 19 paróquias de nossa Diocese que fizeram acontecer este encontro. Queremos também de forma especial agradecer todas as pessoas, famílias, comunidades e ao Pároco Pe. Dércio Luiz Heck da Paróquia Nossa Senhora do Bom Conselho que com muito amor e dedicação acolheram este encontro. Enfim, nossa gratidão em nome do coordenador Diocesano de CEBs, Pe. Aloísio Ruedell, a toda equipe diocesana, aos assessores - Dinarte Belatto, Waldir Bohn Gass, Irmãs Lourdes Dill e Nair Frey, e ao nosso Bispo referencial da CEBs no Rio Grande do Sul, Dom José Clemente Weber.
Gratos por termos esta oportunidade de acolher o 29º Encontro Diocesano de Cebs, queremos juntos nos empenhar na realização dos compromissos assumidos.


Carta do 29º ENCONTRO DIOCESANO DE COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE - CEBs
"Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância"(Jo 10, 10).

         Nós, 280 participantes e organizadores do 29º Encontro de CEBs, o Bispo D. José Clemente Weber, 10 padres, 4 religiosas e expressivo número de jovens, reunidos na  Paróquia Nossa Senhora do Bom Conselho de Campina das Missões, nos dias 27 e 28 de outubro de 2012, refletindo sobre o tema Comunidade a serviço da vida  e à luz do lema CEBs na vivência do jubileu,  saudamos fraternalmente a todas as nossas 40 Paróquias e mais de mil comunidades  da amada Diocese de Santo Ângelo.
        O encontro foi um momento especial de júbilo e louvor das CEBs pelos 50 anos de nossa Diocese e do Concílio Vaticano II que renovou profundamente a Igreja, seu modo de inserção no mundo, abrindo espaços de ação e de participação ativa dos leigos(as).
Partindo das sínteses das Paróquias e da importante contribuição dos assessores - Prof. Dinarte Belatto, Waldir Bohn Gass, Irmãs Lourdes Maria Staud Dill e Nair Frey - percebemos que o capitalismo, com seus frutos e projetos de morte, continua avassalador, trazendo reflexos sensíveis no seio de nossas comunidades, marcadas pela falta de compromisso das pessoas com a vida.
Compartilhamos nossas angústias e dores, nossas esperanças e alegrias. Sentimo-nos reconvocados por Jesus de Nazaré e pela força criadora do seu Espírito libertador, fortalecidos pela experiência das primeiras comunidades cristãs e das comunidades missioneiras, a renovar nossa disposição de seguir, nos passos de Jesus, o projeto do Reino de Deus de justiça e paz.
Reafirmamos o compromisso como CEBs proféticas e missionárias, comunidades a serviço da vida em nossa Igreja que celebra o seu jubileu:
·         Viver a Palavra de Deus em nossas famílias e comunidades, através da oração e de uma espiritualidade mais comprometida com ações solidárias;
·         Participar nas pastorais e suas articulações com persistência e esperança, com enfoque especial na Juventude;
·         Incentivar a formação permanente de toda comunidade em sua dimensão espiritual, missionária, política e formas alternativas de convivência fraterna;
·         Manter as lâmpadas acesas, mesmo que os holofotes do capitalismo tentem apagar em nossas comunidades o amor, a solidariedade, a esperança, o serviço gratuito e a alegria;
·         Cuidar cada vez mais da vida do planeta e do meio ambiente, evitando a poluição das águas o uso indiscriminado de agrotóxicos, o inadequado destino do lixo e saneamento básico, incentivando energias renováveis;
·         Lutar por uma reforma política e por políticas públicas voltadas à permanência dos jovens no campo, evitando assim o desemprego, o êxodo rural e a drogadição;
·         Utilizar mais e melhor os MCS, especialmente as rádios comunitárias, como forma de divulgar projetos alternativos;
·         Uma participação ativa nos conselhos municipais.
            No final da tarde deste primeiro dia de estudos e reflexões celebramos com as comunidades e fomos acolhidos em seus lares.
O segundo dia foi essencialmente celebrativo, com destaque à celebração da Eucaristia com a comunidade local e ao Dia Nacional da Juventude. Tomamos conhecimento da caminhada das CEBs em nível estadual e nacional. Realizamos atividades de integração e apresentações artísticas, avaliações e encaminhamentos, sendo, enfim, enviados para nossas comunidades, lembrados de um sábio provérbio africano:
 "Gente simples, fazendo coisas pequenas, em lugares pouco importantes, consegue mudanças extraordinárias e muda a face da Terra".
            Viva nossa Diocese em seus 50 anos e viva o 29º Encontro Diocesano de CEBs!