terça-feira, 19 de março de 2013

A geopolítica do segredo


Passadas as primeiras horas do impacto da eleição do Cardeal Bergoglio de Buenos Aires, das emoções primeiras de termos um papa latino-americano, com expressão amável e cordial a vida presente nos convida a refletir.

Apesar de seu valor, os meios de comunicação têm também o poder de amortizar as mentes e de impedir que perguntas críticas aflorem ao pensamento das pessoas. Nesses dois últimos dias que precederam a eleição papal, muitas pessoas no Brasil e no mundo foram tomadas pelas transmissões em direto de Roma. Sem dúvida um acontecimento histórico desses não se repete todos os meses!

Mas, que interesses tiveram as grandes empresas de telecomunicações em transmitir os inúmeros detalhes da escolha do novo Papa? A quem servem os milhões de dólares gastos nas transmissões ininterruptas até a chegada da fumaça branca? Do lado de quem se situam esses interesses? Que interesses tem o Vaticano em abrir as possibilidades para essas transmissões? Essas perguntas talvez inúteis para muitos, continuam a ser significativas para alguns grupos preocupados com o crescimento da consciência humanista de muitos/as de nós.

São em grande parte as empresas de telecomunicações as responsáveis pela manutenção do segredo nas políticas eleitorais do Vaticano. O segredo, os juramentos e as penalidades por não respeitá-los são parte integrante do negócio. Criam impactos e fazem notícia. Não se trata de uma tradição secular sem conseqüências para a vida do mundo, mas de comportamentos que acabam viciando a busca de diálogo entre os grupos ou excluindo grupos de um necessário diálogo.

Nenhuma crítica a esse sistema perverso que continua usando o Espírito Santo para a manutenção de posturas ultraconservadoras revestidas de ares de religiosidade e bondosa submissão é feito. Nenhum espaço para que vozes dissonantes possam se manifestar mesmo com o risco de serem apedrejadas é aberto na oficialidade das transmissões. Uma ou outra vez se percebe uma pequena ponta crítica se esboçando, mas logo é abafada pelo “status quo” imposto pela ideologia dominante.

Do novo papa Francisco se contou que usava transportes públicos, estava próximo dos pobres, fazia sua comida e que a escolha desse nome o assemelhavam ao grande santo de Assis. Foi imediatamente apresentado como uma figura simples, cordial e simpática. Na imprensa católica nada se falou das suspeitas de muitos em relação a sua postura nos tempos da ditadura militar, de suas atuais posturas políticas, de suas posições contrárias ao matrimonio igualitário, ou mesmo contra o aborto legal. Nada se falou de suas conhecidas críticas em relação à teologia da libertação e de seu desinteresse pela teologia feminista. A figura bondosa e sem ostentação eleita pelos cardeais assistidos pelo Espírito Santo encobriu o homem real com suas inúmeras contradições. Hoje os jornais (Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo) delinearam perfis diferentes do novo papa e temos uma percepção mais realista de sua biografia. Além disso, foi possível intuir que sua eleição é sem dúvida parte de uma geopolítica de interesses divididos e de equilíbrio de forças no mundo católico.

Um artigo de Julio C. Gambina da Argenpress publicado via internet ontem (13 de março de 2013) assim como outras informações enviadas por grupos alternativos da Nicarágua, Venezuela, Brasil e, sobretudo da Argentina confirmaram minhas suspeitas. A cátedra de Pedro e o Estado do Vaticano devem mover suas pedras no xadrez mundial para favorecer as forças dos projetos políticos do norte e dos seus aliados do sul. O sul foi de certa maneira co-optado pelo norte. Um chefe político da Igreja, vindo do sul vai equilibrar as pedras do xadrez mundial, bastante movimentadas nos últimos anos pelos governos populares da América latina e pelas lutas de muitos movimentos entre eles os movimentos feministas do continente com reivindicações que atormentam o Vaticano. Se, é no sul que alguma coisa nova está acontecendo politicamente nada melhor do que um papa do sul, um latino-americano para enfrentar esse novo momento político e conservar as tradições da família e da propriedade intactas. Sem dúvida uma afirmação desse tipo quebra o encanto do momento da eleição e a emoção de ver a multidão na Praça de São Pedro irrompendo em aplausos e gritos de alegria diante da figura do papa Francisco. Muitos dirão que essas críticas tiram a beleza de um acontecimento tão emocionante quanto a eleição de um papa. Talvez, mas creio que são críticas necessárias.

A tão badalada preservação da evangelização como prioridade da Igreja parece ser a preservação de uma ordem hierárquica do mundo onde as elites governam e os povos aplaudem nas grandes praças públicas, se emocionam, rezam e cantam para que as bênçãos divinas caiam sobre as cabeças dos novos governantes político-religiosos. O mesmo catecismo com poucas variações continua a ser reproduzido. Não há reflexão, não se despertam as consciências, não se convida ao pensamento, mas a conservação de uma doutrina quase mágica. Por um lado é a sociedade do espetáculo que nos invade para que entremos na disciplina da ordem/desordem contemporânea com certa dose de romantismo e por outro a sociedade assistencialista identificada à evangelização. Sair às ruas para dar de comer aos pobres e rezar com os prisioneiros embora tenha algo de humanitário não resolve o problema da exclusão social presente nos muitos países do mundo.

Escrever sobre a “geopolítica do segredo” em tempos de euforia mediática é como estragar a festa dos vendilhões do Templo felizes com suas barracas cheias de terços, escapulários, vidros de água benta e imagens grandes e pequenas de muitos santos. O problema é que se abrimos o segredo desmancha-se o charme da fumaça branca, se quebra o suspense de um conclave secreto que fecha ao povo católico o acesso às informações às quais temos direito, se desnudam os corpos purpurados com suas histórias tortuosas.

Quebrar o segredo é quebrar a falsidade do sistema político-religioso que governa a Igreja Católica Romana. É tirar as máscaras que nos sustentam para afinal abrir nossos corações para a real interdependência e responsabilidade entre todos nós. Os jogos de poder são cheios de astúcias, ilusões e até de boa fé. Somos capazes de nos impressionar com um gesto público de carinho ou de simpatia sem nos perguntarmos sobre o que de fato constituiu a história dessa pessoa. Nem nos perguntamos sobre as ações de seu passado, de seu presente e suas perspectivas de futuro. É apenas o momento da aparição da figura simpática vestida de branco que nos impressiona. Somos capazes de nos emocionarmos frente a um carinhoso “bona cerra” papal (boa noite) e irmos para cama como crianças bem comportadas abençoadas pelo bondoso papai. Já não somos mais órfãos visto que a orfandade paterna numa sociedade patriarcal é insuportável mesmo por poucos dias.

Nós somos cúmplices da manutenção desses poderes tenebrosos que nos encantam e nos oprimem ao mesmo tempo. Nós, sobretudo os que têm mais lucidez nos processos políticos e religiosos, somos responsáveis pela ilusão que esses poderes criam na vida de milhares de pessoas, sobretudo veiculadas pelos meios de comunicação religiosos. Somos capazes de nos enternecer de tal forma que nos esquecemos dos jogos do poder, das manipulações invisíveis, da arte teatral cultivada e tão importante nessas ocasiões.

Não podemos fazer previsões sobre os rumos do futuro da governança da Igreja Católica Romana. Mas à primeira vista não parece que podemos esperar grandes mudanças nas estruturas e políticas atuais. As mudanças significativas virão se as comunidades cristãs católicas assumirem de fato a direção do presente do cristianismo, ou seja, se elas forem capazes de dizer a partir das necessidades de suas vidas como o Evangelho de Jesus poderá ser traduzido e vivido em nossas vidas hoje.

A geopolítica do segredo tem interesses altíssimos a defender. É parte de um projeto mundial de poder aonde as forças da ordem se vêm ameaçadas pelas revoluções sociais e culturais em curso em nosso mundo. Manter o segredo é justificar que há forças superiores às forças históricas da vida e que estas são mais decisivas que os rumos que podemos dar à nossa luta coletiva por dignidade, pão, justiça e misericórdia em meio aos muitos reveses e tristezas que nos acometem em meio do caminho.

Termino essa breve reflexão na esperança de que possamos não apagar a luz da liberdade que vive em nós e seguirmos bebendo das fontes de nossos sonhos de dignidade com lucidez sem nos impressionarmos com as surpresas que podem parecer grandes novidades. Afinal é apenas mais um papa que inscreve seu nome nessa instituição que apesar de sua história de altos e baixos mereceria ser transformada e repensada para os dias de hoje.

Mudanças podem sempre acontecer e é preciso estar abertos aos pequenos sinais de esperança que irrompem por todos os lados mesmo das instituições as mais anacrônicas de nosso mundo.

14 de Março de 2013.
Ivone Gebara - Adital

A eleição de um novo papa e o Espírito Santo


Depois da louvável atitude do ancião Bento XVI renunciando ao governo da Igreja Católica Romana sucederam-se entrevistas com alguns bispos e sacerdotes nas rádios e televisões de todo o país. Sem dúvida, um acontecimento de tal importância para a Igreja Católica Romana é notícia e leva a previsões, elucubrações de variados tipos, sobretudo de suspeitas, intrigas e conflitos dentro dos muros do Vaticano que teriam apressado a decisão do papa.

No contexto das primeiras notícias, o que chamou a minha atenção foi algo à primeira vista pequeno e insignificante para os analistas que tratam dos assuntos do Vaticano. Trata-se da forma como alguns padres entrevistados ou padres liderando uma programação televisiva, quando perguntados sobre quem seria o novo papa saíssem pela tangente. Apelavam para a inspiração ou vontade do Espírito Santo como aquele do qual dependia a escolha do novo pontífice romano.

Nada de pensar em pessoas concretas para responder a situações mundiais desafiantes, nada de suscitar uma reflexão na comunidade, nada de falar dos problemas atuais da Igreja que a tem levado a um significativo marasmo, nada de ouvir os clamores da comunidade católica por uma democratização significativa das estruturas anacrônicas de sustentação da Igreja institucional. A formação teológica desses padres comunicadores não lhes permite sair de um discurso padrão trivial e abstrato bem conhecido, um discurso que continua fazendo apelo a forças ocultas e de certa forma confirmando seu próprio poder. A contínua referência ao Espírito Santo a partir de um misterioso modelo hierárquico é uma forma de camuflar os reais problemas da Igreja e uma forma de retórica religiosa para não desvendar os conflitos internos que a instituição tem vivido. A teologia do Espírito Santo continua para eles mágica e expressando explicações que já não conseguem mais falar aos corações e às consciências de muitas pessoas que têm apreço pelo legado do Movimento de Jesus de Nazaré. É uma teologia que continua igualmente a provocar a passividade do povo crente frente às muitas dominações inclusive as religiosas. Continuam repetindo fórmulas como se estas satisfizessem a maioria das pessoas.

Entristece-me o fato de verificar mais uma vez que os religiosos e alguns leigos atuando nos meios de comunicação não percebam que estamos num mundo em que os discursos precisam ser mais assertivos e marcados por referências filosóficas para além da tradicional escolástica. Um referencial humanista os tornaria bem mais compreensivos para o comum das pessoas incluindo-se aqui os não católicos e os não religiosos. A responsabilidade da mídia religiosa é enorme e inclui a importância de mostrar o quanto a história da Igreja depende das relações e interferências de todas as histórias dos países e das pessoas individuais. Já é tempo de sairmos dessa linguagem metafísica abstrata como se um Deus iria se ocupar especialmente de eleger o novo papa prescindindo dos conflitos, desafios, iniqüidades e qualidades humanas. Já é tempo de enfrentarmos um cristianismo que admita o conflito das vontades humanas e que no final de um processo eletivo, nem sempre a escolha feita pode ser considerada a melhor para o conjunto.

Enfrentar a história da Igreja como uma história construída por todos e todas nós é testemunhar respeito por nós mesmas/os e mostrar a responsabilidade que todas e todos que nos consideramos membros da comunidade católica romana temos. A eleição de um novo papa é algo que tem a ver com o conjunto das comunidades católicas espalhadas pelo mundo e não apenas com uma elite idosa minoritária e masculina. Por isso, é preciso ir mais além de um discurso justificativo do poder papal e enfrentar-se aos problemas e desafios reais que estamos vivendo. Sem dúvida, para isso as dificuldades são muitas e enfrentá-las exige novas convicções e o desejo real de promover mudanças que favoreçam a convivência humana.

Preocupa-me mais uma vez que não se discuta de forma mais aberta o fato de o governo da Igreja institucional ser entregue a pessoas idosas que apesar de suas qualidades e sabedoria já não conseguem mais enfrentar com vigor e desenvoltura os desafios que estas funções representam.

Até quando a gerontocracia masculina papal será o doublé da imagem de um Deus branco, idoso e de barbas brancas? Haveria alguma possibilidade de sair desse esquema ou de ao menos começar uma discussão em vista de uma organização futura diferente? Haveria alguma possibilidade de abrir essas discussões nas comunidades cristãs populares que têm o direito à informação e à formação cristã mais ajustada aos nossos tempos?

Sabemos o quanto a força das religiões depende de desafios e comportamentos frutos de convicções capazes de sustentar a vida de muitos grupos. Entretanto, as convicções religiosas não podem se reduzir a uma visão estática das tradições e nem a uma visão deliberadamente ingênua das relações humanas. As convicções religiosas igualmente não podem ser reduzidas a onda de devoções as mais variadas que se propagam através dos meios de comunicação. E mais, não podemos continuar tratando o povo como ignorante e incapaz de perguntas inteligentes e astutas em relação à Igreja. Entretanto, os padres comunicadores acreditam tratar com pessoas passivas e entre elas estão muitos jovens que desenvolvem um culto romântico em torno da figura do papa.

Os religiosos mantêm essa situação muitas vezes cômoda por ignorância ou por avidez de poder. Provar a interferência divina nas escolhas que a Igreja Católica hierárquica, prescindindo da vontade das comunidades cristãs espalhadas pelo mundo é um exemplo flagrante dessa situação. É como se quisessem reafirmar erroneamente que a Igreja é em primeiro lugar o clero e as autoridades cardinalícias às quais é dado o poder de eleger o novo papa e que esta é a vontade de Deus. Aos milhares de fiéis cabe apenas rezar para que o Espírito Santo escolha o melhor e esperar até que a fumaça branca anuncie uma vez mais o "habemus papam”. De maneira hábil sempre estão tentando fazer os fiéis escapar da história real, de sua responsabilidade coletiva e apelar para forças superiores que dirijam a história e a Igreja.

É pena que esses formadores de opinião pública estejam ainda vivendo num mundo teologicamente e talvez até historicamente pré-moderno em que o sagrado parece se separar do mundo real e pousar numa esfera superior de poderes à qual apenas alguns poucos têm acesso quase direto. É desolador ver como a consciência crítica em relação às suas próprias crenças infantis não tenha sido acordada em beneficio próprio e em benefício da comunidade cristã. Parece até que acentuamos os muitos obscurantismos religiosos presentes em todas as épocas enquanto o Evangelho de Jesus continuamente convoca para a responsabilidade comum de uns em relação aos outros.

Sabendo das muitas dificuldades enfrentadas pelo papa Bento XVI durante seu curto ministério papal, as empresas de comunicação católica apenas ressaltam suas qualidades, sua doação à Igreja, sua inteligência teológica, seu pensamento vigoroso como se quisessem mais uma vez esconder os limites de sua personalidade e de sua postura política não apenas como pontífice, mas também por muitos anos, como presidente da Congregação da Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício. Não permitem que as contradições humanas do homem Joseph Ratzinger apareçam e que sua intransigência legalista e o tratamento punitivo que caracterizaram, em parte, sua pessoa sejam lembrados. Falam desde sua eleição, sobretudo de um papado de transição. Sem dúvida de transição, mas de transição para que?

Gostaria que a atitude louvável de renúncia de Bento XVI pudesse ser vivida como um momento privilegiado para convidar as comunidades católicas a repensar suas estruturas de governo e os privilégios medievais que esta estrutura ainda oferece. Estes privilégios tanto do ponto de vista econômico quanto político e sócio cultural mantêm o papado e o Vaticano como um Estado masculino à parte. Mas um Estado masculino com representação diplomática influente e servido por milhares de mulheres através do mundo nas diferentes instâncias de sua organização. Esse fato nos convida igualmente a pensar sobre o tipo de relações sociais de gênero que esse Estado continua mantendo na história social e política da atualidade.

As estruturas pré-modernas que ainda mantém esse poder religioso precisam ser confrontadas com os anseios democráticos de nossos povos na busca de novas formas de organização que se coadunem melhor com os tempos e grupos plurais de hoje. Precisam ser confrontadas com as lutas das mulheres, das minorias e maiorias raciais, de pessoas de diferentes orientações sexuais e escolhas, de pensadores, de cientistas e de trabalhadores das mais distintas profissões. Precisam ser retrabalhadas na linha de um diálogo maior e mais profícuo com outros credos religiosos e sabedorias espalhadas pelo mundo.

E para terminar, quero voltar ao Espírito Santo, a esse vento que sopra em cada uma/um de nós, a esse sopro em nós e maior do que nós que nos aproxima e nos faz interdependentes de todos os viventes. Um sopro de muitas formas, cores, sabores e intensidades. Sopro de compaixão e ternura, sopro de igualdade e diferença. Este sopro não pode mais ser usado para justificar e manter estruturas privilegiadas de poder e tradições mais antigas ou medievais como se fossem uma lei ou uma norma indiscutível e imutável. O vento, o ar, o espírito sopra onde quer e ninguém deve se atrever a querer ser ainda uma vez seu proprietário. O espírito é a força que nos aproxima uns dos outros, é a atração que permite que nos reconheçamos como semelhantes e diferentes, como amigas e amigos e que juntos/as busquemos caminhos de convivência, de paz e justiça.

Esses caminhos do espírito são os que nos permitem reagir às forças opressoras que nascem de nossa própria humanidade, os que nos levam a denunciar as forças que impedem a circulação da seiva da vida, os que nos levam a des-cobrir os segredos ocultos dos poderosos. Por isso, o espírito se mostra em ações de misericórdia, em pão partilhado, em poder partilhado, em cura das feridas, em reforma agrária, em comércio justo, em armas transformadas em arados, enfim, em vida em abundância para todas/os. Esse parece ser o poder do espírito em nós, poder que necessita ser acordado a cada novo momento de nossa história e ser acordado por nós, entre nós e para nós.

Fevereiro 2013.
Ivone Gebara - Adital

O que se diz do novo papa



1. Desde a sua primeira aparição na varanda central da basílica de São Pedro, o papa Francisco dá a impressão de um bom sacerdote: simples, comunicativo, disciplinado, discreto, sensível. Os comentaristas de primeira hora reforçaram essa impressão e contaram diversos episódios de sua vida. Por exemplo, quando preparou sua viagem a Roma para receber o chapéu cardinalício, diversas pessoas se ofereceram para acompanhá-lo e ele respondeu que era melhor dedicar o dinheiro das passagens a alguma obra de caridade. Comentou-se também que ele costuma se deslocar em Buenos Aires de ônibus ou metrô. Seus colaboradores se mostraram unânimes em reforçar a imagem de bom sacerdote, homem simples e comunicativo. Muitos comentaram que a escolha do nome Francisco, simplesmente Francisco (sem o número um), sinaliza sua sensibilidade pelo pobre, em seguimento a São Francisco de Assis, na Idade Média.
2. Mas, enquanto assistia a esses comentários, uma palavra de Dom Helder não me largava: ‘quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que são pobres, me chamam de comunista’. Será que o papa Francisco vai perguntar qual a causa da pobreza no mundo de hoje? Aí me lembrei da diferença entre sacerdote e profeta, tal qual aparece, por exemplo, na carta aos Hebreus. Aí se escreve que o sacerdote é caridoso, mas o profeta combate as causas da pobreza. E, segundo dita carta, nisso vai toda a diferença entre o antigo e o novo testamento, entre sacerdócio e profecia.
3. O cristianismo nasceu do profetismo hebraico. Na história de Israel, tal qual é relatada na bíblia, operam duas instâncias, os sacerdotes e os profetas. Os primeiros ajudam os reis, administradores e autoridades e geral a manter a lei e a boa ordem. Eles colaboram para que a sociedade funcione bem. Mas os profetas criticam a própria autoridade dos reis e mostram que a chamada ordem social é na realidade uma desordem, pois está fundamentada na injustiça. É uma sociedade onde uns exploram outros. Os profetas acusam os sacerdotes de divulgar uma falsa imagem de Deus, como se ele fosse o fundamento da sociedade como tal. Os primeiros textos cristãos são proféticos e traçam uma oposição clara entre sacerdócio e profecia.
5. Minha primeira impressão do papa é que temos agora um bom sacerdote, mas não um profeta. Um papa na linha de João Paulo II, que sempre se comportou em bom sacerdote, mas não na linha de João XIII, o profeta do concílio Vaticano II. Quando esse papa, poucos meses depois de ser eleito papa, convocou um concílio, ele falou em ‘aggiornamento’, um termo que não significa simplesmente adequação entre a igreja católica e o mundo moderno, mas (de forma mais profunda) adequação entre a igreja católica e sua original inspiração profética.
6. Mas, de repente, o papa Francisco pode se revelar um profeta. Sempre acontece algo de novo, sempre há surpresas e novas possibilidades se abrem.
7. Finalmente quero assinalar que os grandes meios de comunicação aproveitaram mais uma vez da oportunidade para declarar que o papa não adere à teologia da libertação porque essa teologia seria ‘marxista’.Ora, o papa deve ser bastante inteligente para entender que diversas categorias marxistas entraram definitivamente na análise sociológica da sociedade, universalmente usada por cientistas sociais. Hoje, falar em sociedade de classes, por exemplo, não significa ser comunista. Dizer que vivemos sob a ditadura do mercado não é ser comunista. Há manifesto equívoco (ou mesmo perversão) em chamar a teologia da libertação de marxista. Na realidade, a teologia da libertação é profética. Insere-se na primordial inspiração do cristianismo, expressa por Jesus, que é o profetismo.


Eduardo Hoornaert
Padre casado, belga, com mais de 5O anos de Brasil, historiador e teólogo, mais de 20 livros publicados. Mora em Salvador. Dedica-se agora ao estudo das origens do cristianismo

quinta-feira, 14 de março de 2013

O colapso de sua teologia: razão maior da renúncia de Bento XVI?

Nutro séria suspeita de que o fracasso e colapso do edifício teológico de Bento XVI lhe tirou “o necessário vigor do corpo e do espírito” a ponto de, como confessa, “sentir incapacidade de exercer seu ministério”. Cativo de sua própria teologia, não lhe restou outra alternativa senão honestamente renunciar.

É sempre arriscado nomear um teólogo para a função de papa. Ele pode fazer de sua teologia particular a teologia universal da Igreja e impô-la a todo o mundo. Suspeito que esse foi o caso de Bento XVI, primeiramente enquanto cardeal, nomeado prefeito da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Inquisição) e depois papa. Tal fato não goza de legitimidade e se transforma em fonte de condenações injustas. Efetivamente, condenou mais de cem teólogos e teólogas por não se enquadrarem em sua leitura teológica da Igreja e do mundo.

Razões de saúde e o sentimento de impotência face à gravidade da crise na Igreja o levaram a renunciar. Mas não só. No texto de sua renúncia dá conta da “diminuição de vigor do corpo e do espírito” e de “sua incapacidade” de enfrentar as questões que dificultavam o exercício de sua missão. Por detrás desta formulação, estimo que se oculta a razão mais profunda de sua renúncia: a percepção do colapso de sua teologia e do fracasso do modelo de Igreja que quis implementar. Uma monarquia absolutista não é tão absoluta a ponto de dobrar a inércia de envelhecidas estruturas curiais.

As teses centrais de sua teologia sempre foram problemáticas para a comunidade teológica. Três delas acabaram refutadas pelos fatos: o conceito de Igreja como “pequeno mundo reconciliado”; a Cidade dos Homens só ganha valor diante de Deus passando pela mediação da Cidade de Deus; e o famoso “subsistit” que significa: só na Igreja Católica subsiste a verdadeira Igreja de Cristo; todas as demais Igrejas não podem ser designadas igrejas. Esta compreensão estreita de uma inteligência aguda mas refém de si mesma não tinha a força intrínseca suficiente e a adesão para ser implementada. Bento XVI teria reconhecido o colapso e coerentemente renunciado? Há razões para esta hipótese.

O papa emérito teve em Santo Agostinho seu mestre e inspirarador, objeto aliás de algumas conversas pessoais com ele. De Agostinho assumiu a perspectiva de base, começando com sua exdrúxula teoria do pecado original (se transmite pelo ato sexual da geração). Isso faz com que toda a humanidade seja uma “massa condenada”. Mas dentro dela, Deus por Cristo, instaurou uma célula salvadora, representada pela Igreja. Ela é “um pequeno mundo reconciliado” que tem a representação (Vertretung) do resto da humanidade perdida. Não é necessário que tenha muitos membros. Bastam poucos, contanto que sejam puros e santos. Ratzinger incorporou esta visão. Completou-a com a seguinte reflexão: a Igreja é constituída por Cristo e os Doze Apóstolos. Por isso é apostólica. Ela é apenas este pequeno grupo. Desconsidera os discípulos, as mulheres e as massas que seguiam Jesus. Para ele não contam. São atingidas pela representação (Vertretung) que “o pequeno mundo reconciliado” assume. Esse modelo eclesiológico não dá conta do vasto mundo globalizado. Quis então fazer da Europa “o mundo reconciliado” para reconquistar a humanidade. Fracassou porque o projeto não foi assumido por ninguém e até posto a ridículo.

A segunda tese tirada também de Santo Agostinho é sua leitura da história: o confronto entre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Na Cidade de Deus está a graça e a salvação: ela é o único pedágio que dá acesso à salvação. A Cidade dos Homens é construída pelo esforço humano. Mas como já é contaminado, todo o seu humanismo e demais valores não conseguem salvar porque não passaram pela mediação da Cidade de Deus (Igreja). Por isso que ela é eivada de relativismos. Consequentemente o cardeal Ratzinger condena duramente a teologia da libertação, porque esta buscava a libertação pelos pobres mesmos, feitos sujeitos autônomos de sua história. Mas como não se articula com a Cidade de Deus e sua célula, a Igreja, é insuficiente e vã.

A terceira é uma interpretação pessoal que dá do Concílio Vaticano II quando fala da Igreja de Cristo. A primeira elaboração conciliar dizia que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo. As discussões, visando o ecumenismo, substituíram o é pelo subsiste para dar lugar a que outras Igrejas cristãs, a seu modo, realizassem também a Igreja de Cristo. Essa interpretação, sustentada na minha tese doutoral, mereceu uma explícita condenação do cardeal Ratzinger no seu famoso documento Dominus Jesus (2000). Afirma que susbsiste vem de "subsistência", que só pode ser uma e se dá na Igreja Católica. As demais Igrejas possuem “somente” elementos eclesiais. Esse “somente” é um acréscimo arbitrário que fez ao texto oficial do Concílio. Tanto eu quanto outros notáveis teólogos mostramos que este sentido essencialista não existe no latim. O sentido é sempre concreto: “ganhar corpo”, “realizar-se objetivamente”. Esse era o “sensus Patrum” o sentido dos Padres conciliares.

Estas três teses centrais foram refutadas pelos fatos: dentro do “pequeno mundo reconciliado” há demasiados pedófilos, até entre cardeais, e ladrões de dinheiros do Banco Vaticano. A segunda, de que a Cidade dos Homens não tem densidade salvadoradiante de Deus, labora num equívoco ao restringir a ação da Cidade de Deus apenas ao campo da Igreja. Dentro da Cidade dos Homens, se encontra também a Cidade de Deus, não sob a forma de consciência religiosa mas sob a forma de ética e de valores humanitários. O Concílio Vaticano II garantiu a autonomia das realidades terrestres (outro nome para secularização), que tem valor independentemente da Igreja. Contam para Deus. A Cidade de Deus (Igreja) se realiza pela fé explícita, pela celebração e pelos sacramentos. A Cidade dos Homens pela ética e pela política.

A terceira de que somente a Igreja Católica é a única e exclusiva Igreja de Cristo e, ainda mais, que fora dela não há salvação, tese medieval ressuscitada pelo cardeal Ratzinger, foi simplesmente ignorada como ofensiva às demais Igrejas. Ao invés do “fora da Igreja não há salvação” se introduziu no discurso dos papas e dos teólogos “o universal oferecimento da salvação a todos os seres humanos e ao mundo”.

Nutro séria suspeita de que tal fracasso e colapso de seu edifício teológico lhe tirou “o necessário vigor do corpo e do espírito” a ponto de, como confessa, “sentir incapacidade de exercer seu ministério”. Cativo de sua própria teologia, não lhe restou outra alternativa senão honestamente renunciar.

* Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é também escritor

Papa da América do Sul, não obrigado

O jornalista argentino Martín Granovsky, do Página/12, escreveu este texto antes de o Vaticano anunciar que o novo Papa é o cardeal Jorge Mario Bergoglio. Em tons proféticos, ele adverte sobre o risco da indicação de um papa latino-americano, em função do conservadorismo dos nomes então cogitados. “Os cardeais do Brasil e da Argentina são conservadores que dedicaram parte de seus esforços a questionar os processos políticos de reforma social nos dois principais países da região”.

Como antes ocorreu com o argentino Leonardo Sandri, agora o brasileiro Odilo Scherer aparece como um dos cardeais a quem a nobreza vaticana poderia eleger Papa. Perdão, mas não se trata de futebol. Nenhum orgulho nacional está em jogo. E tampouco um orgulho sulamericano. Muito pelo contrário: a pior coisa que poderia acontecer para a América do Sul seria a eleição de um papa daqui. Mais ainda quando se leva em conta que os cardeais do Brasil e da Argentina são conservadores que, nos últimos anos, dedicaram parte de seus esforços a questionar os processos políticos de reforma social nos dois principais países da região.

No Brasil, os bispos recebem o tratamento de Dom. O gaúcho Dom Odilo Scherer nasceu em 21 de setembro de 1949, no Estado do Rio Grande do Sul. Tem 63 anos. É um dos cardeais ordenados por Bento XVI em 2007, o mesmo ano em que foi designado arcebispo de São Paulo. Sua nomeação consolidou o deslocamento dos franciscanos das direções das dioceses brasileiras. Um deles foi Aloisio Lorscheider, ungido bispo em 1962 pelo papa João XXIII e cardeal em 1976 pelo papa Paulo VI, os dois pontífices do Vaticano II que se reuniu entre 1962 e 1965 para modernizar a Igreja.

Outro franciscano foi Paulo Evaristo Arns, bispo e cardeal por decisão de Paulo VI. Aposentado e em oração, aos 91 anos, Arns está completando quatro décadas como cardeal. Obviamente não integrou o pelotão de eleitores porque já passou há muito dos 80. Dom Paulo foi dirigente da organização Tortura Nunca Mais, do Brasil. Frei Betto, um dos fundadores das Comunidades Eclesiais de Base, contou que entre os devotos de Cristo e São Francisco de Assis, esteve sempre Luiz Inácio Lula da Silva. Leonardo Boff, o teólogo condenado ao silêncio pela Congregação para a Doutrina da Fé (a antiga Inquisição), costuma se definir como “católico, apostólico e franciscano”, porque “romano” refere-se a um lugar e não tem relação alguma com o espírito do cristianismo.

Ao contrário de bispos como Dom Aloisio, Dom Paulo e o célebre Dom Helder Câmara, Dom Odilo não foi de modo algum próximo à Teologia da Libertação nem esteve com os cristãos das comunidades de base que, junto com militantes de esquerda e dirigentes sindicais, foram uma das vertentes fundadoras do Partido dos Trabalhadores, em 1980. Ao invés disso, Scherer representou o castigo com que a Santa Sé de João Paulo II e Bento XVI quis domesticar a hierarquia eclesiástica brasileira.

Em 2005, a morte de João Paulo II e a escolha do sucessor coincidiu com o ano mais crítico do primeiro governo Lula, que havia assumido no dia 10 de janeiro de 2003. Em abril de 2005, ainda não havia emergido o escândalo do chamado “mensalão”, que provocou inclusive a renúncia do chefe da Casa Civil de Lula, José Dirceu. Mas Lula estava na metade do seu primeiro mandato e a oposição preparava argumentos e candidatos para a campanha de 2006. O Partido da Socialdemocracia Brasileira, o PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), terminou indicando Geraldo Alckmin, então governador de São Paulo, cargo que hoje ocupa pela terceira vez. Alckmin é um membro destacado da Opus Dei, a instituição criada por José María Escrivá de Balaguer, um admirador do ditador espanhol Francisco Franco, que na década de 1960 incorporou membros da Opus na gestão econômica e financeira do Estado.

Em 1958, Escrivá disse a Franco: “Ainda que afastado de toda atividade política, não pude deixar de me alegrar, como sacerdote e como espanhol, de que a voz autorizada do chefe do Estado proclame que a Nação espanhola considera como questão de honra o acatamento da Lei de Deus segundo a doutrina da Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana, a única e verdade e fé inseparável da consciência nacional que inspirará sua legislação. Na fidelidade à tradição católica de nosso povo se encontrará sempre, junto com a benção divina para as pessoas constituídas em autoridade, a melhor garantia de acerto nos atos de governo, e na segurança de uma justa e duradoura paz no seio da comunidade nacional”.

Em 2010, o indicado pelo PSDB para ser derrotado pelo PT foi José Serra, o mesmo candidato derrotado por Lula em 2002. Conseguirá Alckmin outro turno como desafiante da provável candidata à reeleição Dilma Rousseff, em 2014? O governador tem a mão suas cabalas. No Palácio dos bandeirantes, sede do governo estadual, há uma cópia da primeira edição do livro “Camino”, de Escrivá de Balaguer, com uma dedicatória estampada depois da frase “Victoria”. A vitória a que se refere o livro é a matança de republicanos por parte do bando nacional na Guerra Civil Espanhola, travada entre 1936 e 1939.

Encarregado da maior diocese católica da América do Sul, Scherer é um conservador que admira Joseph Ratzinger. Em 2007, enquanto preparava a viagem de Bento XVI ao Brasil, o país com maior número de católicos do mundo, defendeu as posições doutrinárias da hierarquia vaticana sobre a vida cotidiana desta maneira: “Entendo as dificuldades que existem em compreender a posição do Papa em um mundo controvertido, de diversidade de pensamento, de opiniões, pluralidade, mas não é competência da Igreja mudar o Evangelho”.

Scherer estava sintonizado com a posição do Papa. Na coletiva de imprensa concedida dentro do avião, durante sua viagem ao Brasil, Ratzinger justificou a excomunhão em caso de responsabilidade por aborto, com fundamento no Direito Canônico, e se mostrou preocupado com a expansão evangélica cristã no Brasil. Disse que por um lado respondia a “uma difundida sede de Deus” e, por outro, á busca de atender “a quem se apresenta e promete soluções para os problemas de sua vida cotidiana”. Sobre a Teologia da Libertação, condenada por ele desde que chefiava a Inquisição, Ratzinger disse que “com a mudança da situação política, mudou também profundamente a situação da teologia da Libertação e agora é evidente que esses milenarismos fáceis, que prometem no imediato, como consequência da revolução, as condições completas para uma vida justa, estavam equivocados”.

Em sua visita, Ratzinger condenou o aborto, apoiado então de maneira indireta pelo ministro da Saúde de Lula, José Gomes Temporão, que propôs a convocação de um plebiscito. Ainda que não tenha convocado esse plebiscito nem enviado um projeto ao Congresso, Lula comemorou a visita de Bento XVI lançando, duas semanas depois da partida do Papa do Brasil, um grande plano de entrega de contraconceptivos para os pobres.

Pressionado pelo crescimento dos evangélicos, Scherer oscilou desde 2003 entre criticar os governos do PT por uma suposta desatenção em relação aos problemas sociais e, ao mesmo tempo, não cair no questionamento selvagem porque a maioria dos fieis, em especial dos setores mais vulneráveis, vota no PT.

Até agora a História revela que os papas não trazem surpresas. Como pontífices não terminam sendo diferentes do que pensavam e atuavam enquanto eram bispos ou cardeais. Assim ocorreu com o progressista João XXIII, com o centrista Paulo VI, com o conservador João Paulo II sob quem floresceram os negócios do Banco Ambrosiano e com o ortodoxo Benedito XVI, braço direito de Karol Wojytila para questões doutrinárias.

Se esta comprovação histórica se mantiver, e para além de como seja ordenado o novo papa, é possível imaginar que um maior nível de ativismo na direção da América Latina se guiaria por preceitos rígidos, opostos a uma maior separação entre a Igreja e o Estado e reativos à perda de influência política da hierarquia da Igreja em bolsões importantes do poder.

Todas essas questões são independentes de como cada um exerce sua religiosidade ou seu ateísmo, e inclusive de como a exercem aqueles que têm vocação de experimentá-la coletivamente. O problema não é a religião, mas sim sua relação com o Estado.

A Argentina, por exemplo, introduziu na reforma constitucional de 1994 a possibilidade de que um presidente possa não ser católico, mas manteve o artigo segundo: “O governo federal sustenta o culto católico apostólico romano”.

Desde 2003, a ampliação de critérios para o registro de cultos na Chancelaria, tendeu a equilibrar o peso terreno da hierarquia católica argentina, e o mesmo fizeram medidas como a Lei do Matrimônio Igualitário, de 2010. Ao mesmo tempo, o debate sobre o aborto livre, seguro e gratuito, chegou à Câmara de Deputados. Mas os subsídios educativos continuam e, no dia a dia, o ministro da Saúde, Juan Manzur, tem sensivelmente menos entusiasmo pela realização e difusão de campanhas sobre contraconceptivos do que seu antecessor no cargo, Ginés González García.

Um papa latino-americano como o brasileiro Odilo Scherer ou como o argentino Leonardo Sandri, ex-auxiliar do secretário de Estado, Angelo Sodano, virtual primeiro ministro de João Paulo II, não soam como a melhor ajuda para separar a Igreja, ou as igrejas, do Estado e tampouco parecem ser sinais de estímulos para as mudanças que estão ocorrendo nos dois maiores países da América do Sul desde 2003.

Oxalá que nenhum cardeal da América latina chegue a Papa.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Cardeal argentino é escolhido papa!

Cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio é escolhido Papa e terá o nome de Francisco. Anúncio foi feito nesta quarta-feira (13) na Cidade do Vaticano. Ele não era considerado um dos favoritos. É o primeiro papa latino-americano e o primeiro jesuíta. De posições conservadores, contra o aborto e o casamento igualitário, é acusado em processos judiciais por compactuar com violações aos direitos humanos na ditadura argentina (1976-1983).

O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi escolhido Papa e terá o nome de Francisco. O anúncio foi feito nesta quarta-feira (13) na Cidade do Vaticano. Arcebispo de Buenos Aires, ele não era considerado um dos favoritos. É o primeiro papa latino-americano e o primeiro jesuíta da história a assumir o posto.

Segundo reportagem publicada por Martín Granovsky na Carta Maior, Bergoglio é um homem de posições conservadoras. Na Argentina, é 'inimigo' do outro cardeal argentino presente no conclave, Leonardo Sandri.

Justo Laguna, bispo de Morón falecido em 2011, contava que depois da morte de João Paulo II, quando seu sucessor estava sendo eleito, Sandri lhe disse: “É melhor rezar para São José para que este não seja papa”. Ele se referia a Bergoglio.

Ainda conforme o relato de Granovsky, jornalista do diário argentino 'Página 12', Bergoglio vive em conflito há anos com o governo Kirchner, desde que o então presidente Néstor não o escolheu como interlocutor privilegiado para as decisões de Estado. De posições conservadoras, Bergoglio é contrário à legalização do abordo e ao matrimônio igualitário.

Outra reportagm  publicada por Carta Maior, de Oscar Guisoni, informa que Bergoglio é um homem citado em vários processos judiciais por sua cumplicidade com a ditadura militar argentina (1976-1983), e que conseguiu evitar seu próprio julgamento por conta de influências e argúcias de advogados.

CNBB E O NOVO PAPA




Nota oficial da CNBB
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou a seguinte nota oficial sobre o novo papa:

"Bendito o que vem em nome do Senhor!" (Sl 118,26)

Tomada pela alegria e espírito de comunhão com a Igreja presente em todo o mundo, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB eleva a Deus sua prece de louvor e gratidão pela eleição do novo Sucessor de Pedro, Sua Santidade Francisco I.

O tempo e as circunstâncias que antecederam a eleição de Francisco I ajudaram a Igreja a viver intensamente a espiritualidade quaresmal, rumo à vitória de Cristo celebrada na Páscoa que se aproxima. O momento é de agradecer a bondade de Deus pela bênção de um novo Papa que vem para guiar os fieis católicos na santidade, ensiná-los no amor e servi-los na humildade.

A eleição de Francisco I revigora a Igreja na sua missão de "fazer discípulos entre todas as nações", conforme o mandato de Jesus (cf. Mt 28,16). Ao dizer "Sim" a este sublime e exigente serviço, Sua Santidade se coloca como Pedro diante de Cristo, confirmando-Lhe seu amor incondicional para, em resposta, ouvir: "Cuida das minhas ovelhas" (cf. Jo 21,17).

Nascido no Continente da Esperança, Sua Santidade traz para o Ministério Petrino a experiência evangelizadora da Igreja latino-americana e caribenha.

A expectativa com que o mundo acompanhou a escolha do Sucessor de Pedro revela o quanto a Igreja pode colaborar com as Nações na construção da paz, da justiça, da igualdade e da solidariedade.

Ao novo Papa não faltará a assistência e a força do Espírito Santo para cumprir esta missão e aprofundar na Igreja o dom do diálogo, em uma sociedade marcada pela pluralidade e pela diversidade, e o compromisso com a vida de todos, a partir dos mais pobres, como nos ensina Jesus Cristo.

Ao saudá-lo no amor de Cristo que nos une e na missão da Igreja que nos irmana, asseguramos-lhe a obediência, o respeito e as orações das comunidades da Igreja no Brasil, para que seja frutuoso o seu Ministério Petrino.

Com toda Igreja, confiamos sua vida e seu pontificado à proteção da Virgem Maria, mãe de Deus e mãe da Igreja.

Bem-vindo Francisco I! A Igreja no Brasil o abraça com amor!"