sábado, 11 de agosto de 2012

Origem e objetivo do mês vocacional

Em 1981, durante a 19ª Assembleia Geral da CNBB, os bispos do Brasil decidiram estabelecer o mês de agosto como mês vocacional. Esta decisão fazia parte de uma série de iniciativas que visam dar à Igreja Católica no Brasil novo vigor vocacional. Junto com o mês vocacional os bispos aprovaram a realização do primeiro ano vocacional (1983) e a publicação do Guia Pedagógico de Pastoral Vocacional, um livrinho que, apesar dos anos, continua atual.
Todo esse incremento da animação vocacional fora motivado pela Conferência de Puebla (1979) e pela realização do 2º Congresso Internacional das Vocações, que aconteceu em Roma em 1981. O Brasil, atendendo ao apelo do grande papa João XXIII, tinha começado a planejar a sua ação pastoral ainda durante o período da realização do Concílio Vaticano II. Dentre as prioridades estava a preocupação com as vocações. A experiência brasileira neste campo não tinha sido tão positiva. A chegada do Catolicismo ao nosso país fora marcada pelo clima de cristandade, no espírito da Contrarreforma. Por causa da lei do padroado a Coroa portuguesa, durante o período colonial, determinava como deveriam ser as coisas para a Igreja Católica, inclusive no campo das vocações. A Igreja, por sua vez, no espírito do Concílio de Trento, reduziu a questão vocacional à "Obra das Vocações Sacerdotais” (OVS). Tratava-se simplesmente de uma campanha junto ao povo para rezar pelas vocações dos seminaristas e para ajudar financeiramente os seminários.
Com a chegada do Vaticano II houve uma virada copernicana. A Igreja, especialmente na Constituição Dogmática Lumen Gentium, se percebeu como ekklesía, isto é, como assembleia daqueles e daquelas que foram convocados e reunidos pela Trindade. A partir desta perspectiva, a Igreja Católica no Brasil decidiu mobilizar todas as forças eclesiais despertando nas pessoas a consciência e a convicção de que são vocacionadas à comunhão com a Trindade. Tendo presente a afirmação conciliar de que há uma vocação universal à santidade, para a qual são convocados os filhos e as filhas de Deus, a Igreja em nosso país passou a pensar não somente na vocação do padre, mas também nas demais vocações específicas. Quis contribuir para que as dioceses, paróquias e pequenas comunidades fossem um espaço eclesial concreto onde as pessoas pudessem se perceber como vocacionadas e encontrassem formas de responder a esse chamado. Assistimos, então, a um florescer de comunidades eclesiais de base e de pequenos grupos nos quais as pessoas tinham a oportunidade de se confrontar com a Palavra de Deus e de assumir sua missão na Igreja e na sociedade.
O retorno à vocação universal e a redescoberta de que todas as pessoas são vocacionadas, colocaram em crise muitos padres, muitos frades e muitas freiras. Eles e elas tinham assumido essa forma específica de vocação com a certeza de que tais vocações eram superiores às demais e que valia qualquer sacrifício para permanecer no ministério ordenado e nos conventos. O ensinamento do Vaticano II revelou a fragilidade de tal concepção e muitas pessoas abandonaram o ministério e a vida religiosa por perceberem que para cultivar a santidade não era mais necessário ser padre, frade ou freira. Essa crise, porém, foi importante para solidificar a vocação batismal. Na Europa não se conseguiu perceber que o batismo está na raiz de todas as vocações. Por isso a crise foi mais violenta por lá, afetando não só os que já eram padres, frades e freiras, mas também a entrada de novas vocações. Tal crise perdura até hoje, obrigando a Igreja europeia a "importar vocações” da África e da Ásia.
No Brasil, graças à ação da CNBB, a crise não foi tão violenta. Investindo na formação dos leigos e das leigas, na formação de comunidades de base, a Igreja em nosso país se preparava para enfrentá-la. Por isso, a partir do final da década de 1970, se assiste a um florescer progressivo de vocações para a vida religiosa e o ministério ordenado. E se hoje a Igreja no Brasil se sente mais tranquila neste campo deve-se à sua ação audaciosa de enfrentamento da crise. Ação essa que consistiu essencialmente na valorização da vocação batismal dos leigos e das leigas e na formação de pequenas comunidades eclesiais de base, de onde vieram e continuam vindo as atuais vocações para o ministério ordenado e a vida consagrada.
Infelizmente muitos, inclusive bispos, se esquecem disso e ainda continuam acreditando que o milagre da multiplicação de vocações se deve ao atual oba-oba de alguns movimentos. Esquecem que toda casa se constrói sobre um bom alicerce, o qual costuma sempre ficar escondido, mas sem o qual a casa pode cair um dia. O alicerce do atual crescimento de vocações para os ministérios ordenados e a vida consagrada no Brasil foi, sem dúvida alguma, o dinamismo eclesial da nossa Igreja nas décadas de 1960 a 1980. Se este alicerce continuar sendo desmantelado em breve se assistirá a outra crise violenta de vocações, lembrando que, biblicamente falando, a crise não está na quantidade de pessoas chamadas, mas na pouca qualidade da resposta dos escolhidos (Mt 22,14). Alguns sinais parecem apontar nesta direção, como indicam as pesquisas recentemente publicadas por William César Castilho Pereira no seu livro Sofrimento psíquico dos presbíteros (Vozes, 2012).
Portanto, o surgimento do Mês Vocacional no Brasil deve ser visto neste contexto. Ele nasce antes de tudo para fomentar a vocação eclesial da comunidade. Pouco antes, em 1979, Puebla tinha lembrado que a vocação humana possui três dimensões: a humana, a cristã e a específica. Somos chamados antes de tudo a sermos humanos com os demais humanos da terra. Na vivência da vocação humana somos vocacionados por Deus Pai a seguir Jesus Cristo num caminho específico, que descobrimos progressivamente na medida em que vamos vivendo a nossa vocação humana e batismal.
Mais de trinta anos depois corremos o risco de esquecermos estas coisas e de transformarmos o mês vocacional em mais uma dessas atividades que realizamos na Igreja sem saber com que finalidade. Corremos o risco de direcionar o mês vocacional para os problemas dos seminários. Esse momento pode ficar reduzido a mais um simples peditório de dinheiro e de coisas para sustentar seminários, onde seminaristas levam vida de burgueses, não sendo mais capazes de contribuir para o próprio sustento. Desta forma o mês vocacional não estaria mais sendo uma oportunidade de animar a vocação do Povo de Deus, mas apenas uma ocasião de fomentar a famosa Obra das Vocações Sacerdotais. Estaríamos assim retornando a uma eclesiologia anterior ao Concílio Vaticano II.
A celebração do Mês Vocacional só tem sentido na perspectiva em que foi criado. Deve ser um momento para intensificar a permanente catequese vocacional nas comunidades cristãs. Tal catequese visa conscientizar toda a comunidade de que ela forma a ekklesía, ou seja, a assembleia daqueles e daquelas que foram convocados e reunidos pela Trindade para ser povo eleito e para proclamar as maravilhas de Deus (1Pd 2,9). Somente numa comunidade conscientizada de sua identidade vocacional podem surgir autênticas vocações específicas para os diversos serviços, carismas, dons e ministérios. Sem essa catequese e sem essa conscientização teremos apenas recrutamento de rapazes para os seminários. Sem verdadeira catequese vocacional e sem a conscientização dela resultante, das quais o Mês Vocacional é a expressão mais significativa, podemos ter até filas para entrada nos seminários. Mas de pessoas que querem apenas usufruir das vantagens e benesses prometidas pela carreira eclesiástica. E como amava repetir um dos meus professores na Universidade Gregoriana, os piores inimigos da Igreja não são os "heréticos”, mas os carreiristas.

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília
 
Fonte: Adital

sábado, 4 de agosto de 2012

CEBs Diocese de Iguatu - CE


Assembleia  interparoquial de CEB’s
Paróquias: São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Acopiara – Diocese de Iguatu
Aconteceu nos dias 27 a 29 de julho, no Centro Pastoral  de Acopiara a Assembléia Interparoquial de CEB’s, iniciando com a presença do Bispo Diocesano Dom João José Costa que está visitando as CEB’s da Diocese. Esta Assembléia  teve  como objetivos:  Animar a caminhada das CEB”s,  aprovar o seu  Regimento Interno  e eleger os Conselhos Paroquiais. Estavam presentes mais de 180 pessoas vindas das 160 comunidades existentes na duas paróquias.
Dia 29 pela manhã  fizemos a caminhada das CEBs, com o Lema:  CEBs ROMEIRAS DO REINO NO  CAMPO  E NA  CIDADE  saindo do Centro Pastoral até a Igreja Matriz Nossa Senhora do Perpétuo Socorro onde os Padres: João Batista e Glauberto presidiram  a Santa Missa.
Louvado seja Deus por este momento de graça em que nossas comunidades puderam experimentar.

Ir. Maria José Paixão
Comunidade Maria, Rainha do Sertão – Distrito Trussu em Acopiara-CE

Igreja Católica e PUC do Peru brigam por nome

LIMA - A Igreja Católica quer reaver o controle sobre a marca PUC no Peru, bem como sobre os bens da universidade que hoje leva os títulos de pontifícia e católica no país. A disputa, que materializa divergências entre a progressista Teologia da Libertação e o conservador Opus Dei, pode extrapolar o eixo Lima-Cidade do Vaticano e ir parar em Haia no Tribunal Internacional.
Berço de boa parte da elite peruana - o presidente Ollanta Humala se formou ali -, a PUC teve entre seus quadros durante anos um dos pais da Teologia da Libertação, Gustavo Gutiérrez. A corrente, atacada pelo Papa Bento XVI quando na Congregação para a Doutrina da Fé - encoraja um engajamento social dos católicos e é vista por opositores como uma versão religiosa do marxismo. A PUC de Lima mantém ainda um programa de estudos de gênero que inclui temas como homossexualidade e abriga professores com posições mais liberais sobre esse e outros temas espinhosos, como o aborto.
O cardeal Juan Luis Cipriani, ligado ao conservador Opus Dei e, no passado, um defensor da repressão do ex-presidente Alberto Fujimori aos rebeldes de esquerda, vem travando há mais de uma década uma disputa com as lideranças da PUC. No último dia 11, venceu uma batalha: o secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone - que chegou a ligar o homossexualismo à pedofilia - decretou que a universidade não pode ser chamada nem de pontifícia nem de católica. Segundo o Vaticano, a universidade modificou seus estatutos "prejudicando gravemente os interesses da Igreja" e não está sendo dirigida de modo "compatível com a disciplina e a moral" católicas.
A Igreja reclama também o direito de aprovar a nomeação do reitor da instituição e de monitorar suas finanças. Além das próprias instalações, a PUC - ou ex-PUC, como diz Luis Gaspar, do Arcebispado de Lima - detém um lucrativo shopping e outros imóveis. Aí é que está a raiz da discórdia, dá a entender o reitor da PUC, Marcial Rubio.
- Há uma tentativa do arcebispado de assumir a administração e, assim, o fundo econômico - disse ao jornal "El Comercio", avaliando mudar o nome.
Como isso não ocorreu, há risco de a disputa se tornar um desentendimento diplomático entre Peru e Vaticano.
- Quando um Estado insiste que o outro não atua de acordo com normativa internacional vigente, pode buscar o Tribunal de Haia, para saber se continua permitido o uso das denominações pontifícia e católica - disse Rubio.

A vitória da teologia da prosperidade


Quando eu era criança, mais de 92% da população brasileira era católica. Minha mãe, mulher de pouco estudo e muita fé, me levou para a primeira comunhão, para as missas dominicais e procissões. Ficou marcado na minha memória uma romaria que fizemos a Congonhas (MG), onde conheci demonstrações de catarse coletiva, além das estátuas de Aleijadinho.  Mas eu não segui os passos do catolicismo. Primeiro, porque não entendia as homilias dos cultos. Segundo, porque o mundo da mística cristã estava muito distante da realidade nua e crua da minha lida diária. A Igreja ajudava pouco.  Existia até uma certa rejeição. Uma brincadeira comum entre os meninos era dizer que "quem chegar por último é mulher do padre" -e era grande o esforço para não ficar para trás. E um pecado: confesso que nossa turma de garotos chegou a praticar bullying contra coroinhas, embora ninguém na época soubesse o significado da palavra. O fato é que a doutrina católica não foi a referência para o destino da maioria dos meus colegas.
Por meio do ensino público e laico, estudei e aprendi com Max Weber que a realidade da minha infância e adolescência era apenas um pequeno retrato do conflito entre o lado sagrado da religião e o processo de dessacralização do mundo. Considerando a teoria do sociólogo alemão, os dados do censo 2010 não surpreendem ao mostrar que o Brasil, embora mais evangélico, está ficando menos sacralizado. O discurso da "opção preferencial pelos pobres" da Igreja Católica não tem sido capaz de evitar o fim do monopólio católico no país. O que se difunde no Brasil é a doutrina de Joãozinho Trinta: "Pobre gosta é de luxo".
A lógica econômica tem prevalecido sobre a dinâmica puramente religiosa. A teologia da prosperidade tem atendido melhor as expectativas de consumo e os interesses egoísticos das diferentes camadas sociais. Como disse o sociólogo Flávio Pierucci em artigo póstumo, a sociedade não precisa mais de um Deus transcendente quando os indivíduos pagam pelos serviços prestados em nome dele e transformam os bens tangíveis em ideal divino. Atualmente, o que se considera sagrado é o consumo.
O crescimento das correntes evangélicas pentecostais no país tem sido compatível com o fato de que o sagrado está cada vez mais comercializado e dessacralizado. É o Brasil cada vez mais desencantado. Isso não significa que não seja espantoso, claro, o ritmo com que a Igreja Católica tem perdido adeptos. E a perda tem sido maior entre as mulheres e os jovens. Em tese, é possível estancar essa sangria. Em 2013, o papa vem ao Brasil para falar especialmente às mulheres e jovens. Será difícil, porém, agradar as mulheres mantendo o sexo feminino excluído da hierarquia eclesiástica. Será difícil atrair jovens proibindo o sexo antes do matrimônio. Será difícil ampliar o número de padres mantendo o celibato religioso -e será quase impossível manter a filiação das pessoas de bom senso enquanto a doutrina católica continuar rejeitando os métodos contraceptivos modernos e proibindo o uso da camisinha, tão importante para evitar doenças sexualmente transmissíveis.
Não será fácil também reverter a debandada do rebanho quando o Vaticano assume na Rio+20 posições anacrônicas, contra os direitos sexuais e reprodutivos. A Igreja Católica pode virar o jogo, mas terá de mudar o discurso e a prática. 

JOSÉ EUSTÁQUIO DINIZ ALVES, 58, doutor em demografia, é professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE

Catolicismo: a decadência do poder

 
O cristianismo nasceu pobre, de um Deus feito gente pobre, difundido por pescadores e outros homens e mulheres dos grupos marginais. Gente de pequenas comunidades, que tinham uma extraordinária novidade para quem quisesse.
Depois, tornou-se a religião do poder romano, como Igreja Católica, e essa metamorfose tem até hoje consequências impagáveis.
A Igreja Católica começou a perder poder religioso com a ruptura de Lutero e poder mundano com o iluminismo. As revoluções burguesas derrubaram os privilégios da nobreza e do clero.
No Brasil e América Latina, o catolicismo chegou como a religião dos conquistadores. As reduções indígenas no Brasil, a apropriação dos templos incas e astecas, o batismo forçado dos negros desembarcados dos navios negreiros, cavaram um fosso entre a religião oficial do clero e o cristianismo vivido pelas massas subalternas. Aqui também houve uma metamorfose, e os pobres recriaram para si um cristianismo, um catolicismo, conforme sua própria imagem e semelhança. A proclamação da República começou subtrair o poder do clero no Brasil. A liberdade religiosa só chegou com a Constituição de 1945 pelas mãos de um ateu, Jorge Amado.
Hoje, o triunfalismo religioso está com os evangélicos pentecostais. Fazem marchas poderosas e ali também é difícil discernir o que é evangelho do que é mercado. Entre eles já começa ter críticas para "voltar ao texto bíblico". Certos setores católicos achavam que, imitando de alguma forma os evangélicos pentecostais, conteriam a sangria nominal religiosa. O resultado já está posto.
As últimas pesquisas indicam que o catolicismo brasileiro, nominal, é da ordem de 64,6% da nossa população. Como na Europa, a tendência é se estabilizar por volta de 40%. Deve crescer o número dos indiferentes diante das igrejas. O fenômeno pentecostal também não terá longo fôlego quando grande parte da população superar sua consciência ingênua diante dos milagreiros da teologia da prosperidade. Quem sabe os evangélicos históricos voltem mesmo ao texto bíblico, a grande contribuição deles ao cristianismo.
O Brasil mais católico continua no Piauí, Ceará, Paraíba, nordeste em geral. O Brasil menos católico está em Rondônia e Rio de Janeiro, onde já é minoria, com cerca de 45% do povo do Estado permanecendo católico.
A perda constante de poder na história não demove certos setores da Igreja Católica que acham ainda que a Igreja é poder. Muitos agem ainda como se vivessem na Idade Média. É perda de tempo e de energia. Além do mais, falta-lhes senso de realidade.
Só resta um poder real aos cristãos, sejam eles de qualquer Igreja: do sal, do fermento, da luz. E vale lembrar a terrível advertência de Jesus: "se o sal perder o seu gosto não serve mais para nada, a não ser para ser lançado fora e pisado pelos homens (Mateus, 5,13)".

Roberto Malvezzi, Gogó 

Equipe CPP/CPT do São Francisco. Músico. Filósofo e Teólogo

Quando a Igreja vira circo

Era o mês de julho do ano de 1963 e eu não tinha ainda completado sete anos de idade. Em Araci (Bahia), minha cidade natal, celebrava-se uma festa de arromba: o Jubileu de Ouro do Apostolado da Oração da paróquia. Naquela época Araci era uma cidade pequenina formada apenas por três praças e menos de uma dezena de ruas. O município, com população quase toda rural, não passava de alguns milhares de habitantes. A cidade não tinha pároco e o padre vinha de vez em quando de Serrinha, a paróquia vizinha, situada a 36 quilômetros de distância. A região estava sendo assolada por uma seca que já durava quase três anos. Mesmo assim a festa aconteceu e o povo acorreu numeroso para participar, apesar de todo o sofrimento.
A abertura da festa se deu com a chegada do bispo diocesano de Feira de Santana (BA). Era a primeira vez que eu ia ver um bispo e nem sabia naquela época o que isso significava exatamente. Como toda criança, corri curioso, ao lado de meu pai, para a Praça da Matriz para ver a chegada de Sua Excelência. Fiquei impressionado. Uma figura imponente e vestida solenemente; usava luvas e sapatilhas e carregava atrás de si uma longa cauda, que era mantida suspensa a certa altura do chão por alguns caudatários. Entre esses caudatários estava um jovem seminarista, filho da minha terra e meu parente.
O bispo fez um discurso inflamado, rebuscado de frases em latim. Todos os presentes aplaudiram o "bom pregador", embora quase ninguém tenha entendido nada, especialmente aquelas frases ditas na "língua da missa" que só o sacristão Zequinha, seu ajudante Agenário e a professora Dona Marieta - a mulher que tocava o harmônio da igreja - entendiam um pouco. Depois disso, o bispo deu a bênção do Santíssimo Sacramento, rebuscada com mais latim, o "Tantum Ergo Sacramentum". A festa continuou por uma semana inteira: missas, pregações, confissões, batismos, casamentos e muito foguetório. Depois o bispo voltou para a sede da diocese, os missionários foram embora e o povo retornou para as suas casas. A vida voltou ao normal: luta contra a seca, fome, sede e miséria. "Seja o que Deus quiser", repetia conformado o povo dos pobres.
A abertura da festa se deu com a chegada do bispo diocesano de Feira de Santana (BA). Era a primeira vez que eu ia ver um bispo e nem sabia naquela época o que isso significava exatamente. Como toda criança, corri curioso, ao lado de meu pai, para a Praça da Matriz para ver a chegada de Sua Excelência. Fiquei impressionado. Uma figura imponente e vestida solenemente; usava luvas e sapatilhas e carregava atrás de si uma longa cauda, que era mantida suspensa a certa altura do chão por alguns caudatários. Entre esses caudatários estava um jovem seminarista, filho da minha terra e meu parente.
Quando a festa do Jubileu do Apostolado aconteceu, já tinha sido realizada a abertura do Concílio Vaticano II. Porém, tudo continuava sendo realizado no "velho rojão", como se dizia então. Missa em latim, de costas para o povo e sempre pela manhã; celebração dos sacramentos numa "língua embolada"; o povo sem entender nada. Em minha cidade a primeira missa em português foi celebrada na tarde do dia 1º de janeiro de 1965. O presidente da celebração, um velho frade capuchinho, quase não conseguia pronunciar as palavras em português, de tão acostumado que estava com as velhas fórmulas decoradas em latim.
O tempo passou, entrei para o seminário e passei a conhecer vários bispos. Morei sete anos na Itália. Lá vi cardeais, bispos e padres vestidos com muita solenidade. Mas nunca mais tinha visto um bispo carregando uma cauda e vestido com tanta pompa. João XXIII e Paulo VI tinham simplificado as coisas, expurgando da Igreja e da liturgia os resquícios imperiais que as caracterizavam. O próprio Paulo VI renunciou à tiara e à "sedia gestatória", uma espécie de trono sobre o qual o papa se assentava e era carregado nos ombros de alguns homens. O Concílio Vaticano II renovou a Igreja, simplificou tudo, fazendo com que as comunidades cristãs retornassem à pureza do Evangelho e ao essencial. Pediu que a Igreja renunciasse às glórias mundanas, desse sinal de humildade e abnegação e, como seu Fundador, fosse pobre e estivesse ao lado dos pobres (LG, 8).
 A liturgia deixou de ser uma atividade exclusiva de padres para ser ação de todo o povo de Deus, o qual, por força do batismo, tem o direito e o dever de participar ativamente das celebrações (SC, 14). Pude ver então um dinamismo extraordinário nas comunidades cristãs, com o povo participando ativamente da liturgia. Dava gosto ver uma celebração e perceber as pessoas participando de muitos momentos. Os cantos litúrgicos eram entoados entusiasticamente por todas as pessoas presentes à celebração. As celebrações litúrgicas deixaram de ser ações privadas e realmente se converteram em celebrações da Igreja (ekklesía), passando, de fato, a pertencer ao "povo santo reunido" (SC, 26).
Mas o tempo passou, o Concílio foi sendo esquecido e "aposentado" e muita coisa "mofa" começou a voltar. Inclusive, para minha surpresa, as caudas dos bispos e cardeais e seus caudatários. E a coisa tem se complicado mais ainda porque a pós-modernidade chegou e atingiu de cheio as religiões, como nota sabiamente Bauman em seu livro O mal- estar-estar da pós-modernidade (Rio de Janeiro: Zahar). Além disso, a pós-modernidade, segundo David Lyon no seu livro sobre o assunto (São Paulo: Paulus), foi se infiltrando também no cristianismo, o qual se tornou um item de consumo, embora "delicadamente embalado". Assim sendo, as propostas cristãs foram se transformando em mercadorias, que podem ser compradas ou rejeitadas de acordo com os caprichos ou gostos consumistas de cada um. As lideranças, especialmente alguns padres, sucumbiram à sedução da tirania das imagens que passaram a serem usadas para seduzir as pessoas, especialmente as mais vulneráveis. Desta forma, tornaram-se profissionais do espetáculo e se utilizam disso para vender suas mercadorias religiosas e seus "kits de salvação", enchendo seus bolsos. As celebrações litúrgicas também foram transformadas em espetáculo, no qual alguns fazem o show, enquanto o povo permanece mudo e inerte.
Qual o resultado disso? Gilberto Dupas, citando Debord, em seu livro Ética e poder na sociedade da informação (São Paulo: Unesp, 2011) responde de maneira magistral: o espetáculo é "o herdeiro da grande fraqueza do projeto filosófico ocidental". De fato, "como a filosofia jamais conseguiu superar a teologia, o espetáculo é a reconstrução material da fantasia religiosa, a realização técnica do exílio, a cisão consumada do interior do homem. O espetáculo funciona ‘quase como uma forma de reconstrução material da ilusão religiosa. Ela já não remete para o céu, mas abriga dentro de si sua recusa absoluta, seu paraíso ilusório'" (p. 52).
Aplicando à Igreja e à liturgia o que disse Dupas, podemos afirmar que o espetáculo faz da Igreja um circo. Quando certos padres, e "presbiretes", viram palhaços, "cuspidores de fogo na Igreja", transformam celebrações litúrgicas em shows. Buscam na verdade minutos de glória fugaz para si, tratam a assembleia dos fiéis como uma massa de dementes e desvirtuam o espírito do Vaticano II. Com isso causam a alienação do fiel, o qual vira um mero expectador, levando-o a não mais participar plena e ativamente das celebrações e nem compreender e assumir a própria existência: a ser apenas um repetidor mecânico dos gestos de um padre animador de programa de auditório. Com isso o padre pop star não "remete as pessoas para o céu", mas as empurra para um "paraíso ilusório" revestido de pura fantasia.
Quando a Igreja vira circo ela se enfraquece porque deixa de contar com pessoas adultas na fé. Passa a ser uma Igreja infantil formada por "crianças" que são jogadas para cá e para lá pela artimanha de pregadores astutos (Ef 4,14). Na Igreja-circo as pessoas passam a acreditar em qualquer coisa, a multiplicar objetos e kits de salvação e a fetichizar tudo. A comunidade cristã não cresce e nem se dinamiza porque é alimentada pelo obscurantismo. Na Igreja-espetáculo, diferentemente do que se pensa, a incerteza passa a ser a regra e não há crescimento "sob todos os aspectos em direção a Cristo, que é a Cabeça" (Ef 4,15). Não existe mais uma fé sólida porque tudo está revestido de fragilidade em razão da debilidade dos espetáculos religiosos e da superposição de "mercadorias religiosas" propostas pelos animadores dos shows religiosos. A atenção dos fiéis não se volta mais para a pessoa de Jesus Cristo, mas para o fanático e obsessivo pregador de bobagens. A Boa Nova é substituída por outro evangelho (Gl 1,6) e o deus pregado é o "deus do ventre" (Fl 3,19), ou seja, a glória, o orgulho, a vaidade e o exibicionismo desses animadores de missas shows e de programas religiosos baratos e vazios.
José Lisboa Moreira de Oliveira Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

CEBs da diocese de Guanhães MG, estudam Evangelho de Marcos

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Aos 28 de julho, sábado, no salão da igreja catedral, em Guanhães (MG), aproximadamente 50 membros dos grupos de reflexão da paróquia São Miguel e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da diocese de Guanhães reuniram-se para estudo bíblico do Evangelho de Marcos. Os participantes tomaram o roteiro preparado pelo Grupo Ruah de Aprofundamento Bíblico do CEBI-MG O Evangelho de Marcos: um roteiro de viagem tendo Jesus como guia. O encontro para estudos bíblicos iniciou às 10h30 e terminou às15h, com participação efetiva de todos.
Segundo padre José Martins Rocha, assessor das CEBs e pároco da paróquia Nossa Senhora das Dores, em Dores de Guanhães (MG), este encontro acontece todos os anos em preparação para o Mês da Bíblia, comemorado sempre no mês de setembro. “Como o tema do Mês da Bíblia deste ano será o Evangelho de Marcos, proporcionamos aos agentes das CEBs uma reflexão acerca do evangelista e sua obra”, disse o assessor.
Durante todo o dia, Sondes Ventura e Mariza Pimenta, do núcleo de animação bíblica da paróquia São Miguel, conduziram o curso. Segundo Dona Sondes, houve muita aceitação para realização deste encontro. “Normalmente, no 4º sábado do mês, temos encontro com as comunidades rurais da paróquia São Miguel. Na oportunidade, os agentes das CEBs da Diocese foram convidados para participar conosco”, comentou. Como nos outros encontros, padre Saint-Clair Ferreira Filho, pároco da paróquia São Miguel, se fez presente e desta vez enfatizou o real sentido da vinda do bispo eleito, dom Jeremias Antônio de Jesus, para a Diocese e convidou a todos a participarem da posse no dia 19 de agosto, às 10h, em Guanhães.
Segundo Mariza Pimenta, neste ano, o estudo bíblico na paróquia São Miguel acontecerá de 10 a 15 de setembro.