segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Reflexão em torno da eleição para a Presidência da República

os Agentes do Secretariado Nacional e dos Secretariados Regionais da Cáritas Brasileira:



Reflexão em torno da eleição para a Presidência da República



Respeitando as convicções políticas de cada um e de cada uma, acho importante chamar a atenção de todos sobre o significado especial da eleição do próximo dia 31 de outubro.

Nesta eleição, está em jogo o futuro da democracia brasileira. Pois corremos o risco de criar um sério precedente, que se confirmado poderá inviabilizar daqui por diante o processo eleitoral brasileiro.

Esta campanha trouxe um fato novo, inesperado e surpreendente: a avalanche de calúnias, difamações, mentiras, deboches, acusações injustas, trapaças, difundidas impunemente pela internet, acobertadas pelo anonimato, fora do alcance da justiça eleitoral e sem nenhuma restrição de qualquer ordem, e todas endereçadas contra uma determinada candidata.

Foi feito um trabalho orquestrado, constante e sistemático, que não teve escrúpulo de inventar mentiras e instrumentalizar a própria religião para encobrir seu intento de destruir uma candidatura.

Se desta vez esta estratégia for vitoriosa, fica seriamente comprometido o processo eleitoral daqui para frente.

O jeito para neutralizar este procedimento antidemocrático é derrotá-lo pelo voto. Não adianta proibir. É preciso mostrar, pelo voto, que ele não vinga.

Eis porque desta vez o voto tem este valor especial. Antes de eleger quem vai assumir a Presidência da República, temos que garantir a democracia.

E podemos fazer isto votando na Dilma. Pois foi ela a vítima desta trama. E por isto ela personifica nossa luta pela democracia.





Convido a fazerem esta reflexão com as pessoas que puderem contactar nestes dias, no respeito e no diálogo que este assunto merece.

Além das preferências pessoais, e da escolha para a Presidência, desta vez está em jogo uma causa maior, que precisa ser bem assumida.



Cordialmente,



l



D. Demétrio Valentini



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REGENERAR A CAMPANHA

D. Demétrio Valentini

Temos pela frente mais uma semana de campanha eleitoral, em segundo turno para a Presidência da República.

Viria bem a propósito uma sugestão: quem sabe nesta semana daria para regenerar a campanha, livrando-a de sua mediocridade, e de muitos equívocos que a caracterizaram até aqui?

Quem sabe, ainda daria para debater propostas concretas de governo para os próximos quatro anos, sem perder de vista, claro, as perspectivas de um projeto de Brasil a longo prazo. Realizar em torno destas propostas uma discussão franca, aberta, aprofundada, procurando garantir a viabilidade de tudo o que cada um pretende fazer.

A discussão poderia ser conduzida pelos dois candidatos, mas poderia se estender aos chefes dos partidos, visando o engajamento dos parlamentares para a formulação e execução dos planos de governo.

Poderia, poderia, poderia!

Mas infelizmente não vai acontecer. Está mais do que evidente que não existe ambiente para isto. A campanha já foi contaminada pelo vírus dos ataques pessoais entre os candidatos, na tentativa de desmerecer o adversário e solapar sua imagem junto aos eleitores.

Seria ingenuidade pensar que nesta última semana a campanha vai melhorar. Os ataques vão continuar, as tentativas de desestabilização também. Nada vai ser alterado. As eleições poderiam ser feitas neste domingo, embora cada lado esteja pensando como aproveitar estes dias que ainda faltam para talvez desferir um golpe mais certeiro que produza um efeito mais evidente, fazendo pender a balança para o seu lado.

Portanto, está anunciada mais uma semana de encenação inútil, de promessas infundadas. Esta campanha passará para a história como a mais suja já realizada no Brasil, levantando grandes apreensões sobre as futuras campanhas, se não forem tomadas em tempo sábias providências, a serem transformadas em leis claras e severas, capazes de coibir os abusos.

Dado que as coisas assim estão, vamos nos alertando para o exercício do discernimento. E´ importante conferir como é composta a pauta dos noticiários televisivos, a capa das revistas, a primeira página dos grandes jornais. Numa aparente e elegante neutralidade, vão desfilando em sequência matérias trazidas à tona e enfileiradas com o único escopo de desfazer a imagem do adversário. Sim, do adversário, porque os grandes meios de comunicação sabem muito bem escolher quem é o seu candidato, e quem é o seu adversário. E não vão poupar nenhum cartucho que julgarem capaz de causar estrago efetivo.

Esta é a realidade política neste país chamado Brasil.

O que fazer? Valorizar ainda mais o voto! E´ com ele que podemos frustrar quem faz da política um meio de conseguir o poder, para colocá-lo a serviço dos seus interesses pessoais e corporativos, instrumentalizando a fé e as instituições eclesiais.

O voto é nossa arma verdadeira. Ele é a pequena pedra que Davi colocou em sua funda, no combate contra o gigante Golias. A verdadeira vitória eleitoral, desta vez, não é em primeiro lugar “ ganhar a eleição”, mas derrotar as trapaças eleitorais. Isto a gente faz demonstrando que votamos, não levados pelas falsas acusações que se propagaram em abundância nesta campanha, mas pela vontade livre de cada eleitor, definida a partir da proposta de governo que cada eleitor achar mais conveniente para todo o povo brasileiro e para o futuro do nosso país.



Bispo de Jales- SP e Presidente Nacional da Caritas Brasileira.

‘vírus oportunista’ na campanha eleitoral

Frei Betto: ‘vírus oportunista’ na campanha

Quarta-feira, 27 de outubro de 2010 - 17h38min

por Folha de São Paulo

Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, 66, afirma que a forma
como são abordados religião e aborto nesta campanha está "plantando no
Brasil as sementes de um possível fundamentalismo religioso".

O frade dominicano responsabiliza a própria Igreja Católica por
introduzir um "vírus oportunista" na disputa eleitoral. E define como
"oportunistas desesperados" os bispos da Regional Sul 1 da CNBB (São
Paulo) que assinaram no fim de agosto uma nota, depois tornada
panfleto, recomendando aos fieis não votar em candidatos do PT.

Em entrevista à Folha, o religioso analisa que os temas ganharam
espaço na agenda porque "lidam com o emocional do brasileiro". "Na
América Latina, a porta da razão é o coração, e a chave do coração é a
religião. A religião tem um peso muito grande na concepção de mundo,
de vida, de pessoa, que a população elabora."



Amigo do presidente Lula, de quem foi assessor entre 2003 e 2004 e a
quem depois manteve apoio crítico, e eleitor de Dilma Rousseff, Frei
Betto defende que as políticas sociais do atual governo evitaram
milhões de mortes de crianças e, por isso, discuti-las é mais
importante do que debater o aborto.



Folha - Desde que deixou o cargo de assessor de Lula, o sr. manteve um
apoio crítico ao governo, um certo distanciamento. A pauta religiosa
--ou a forma como ela foi introduzida na campanha-- lhe reaproximou do
governo e do PT?

Frei Betto - Eu nunca me distanciei. Sempre apoiei o governo, embora
fazendo críticas. O governo Lula é o melhor da nossa história
republicana, mas não tão ideal quanto eu gostaria, porque não
promoveu, por exemplo, nenhuma reforma na estrutura social brasileira,
principalmente a reforma agrária.

Mas nunca deixei de dar o meu apoio, embora tenha escrito dois livros
de análise do governo, mostrando os lados positivos e as críticas que
tenho, que foram "A mosca azul" e "O calendário do poder", ambos
publicados pela Rocco. Desde o início do processo eleitoral, embora
seja amigo e admire muito a Marina Silva, no início até pensei que
Dilma venceria com facilidade e que poderia apoiá-la [Marina], mas
depois decidi apoiar a candidata do PT.

Mas você entrou com mais força na campanha por conta da pauta
religiosa, sem a qual talvez não tivesse entrado tanto?

Eu teria entrado de qualquer maneira dando meu apoio, dentro das
minhas limitações. Agora essa pauta me constrange duplamente, como
cidadão e como religioso. Porque numa campanha eleitoral, penso que o
mais importante é discutir o projeto Brasil. Mas como entrou o que
considero um vírus oportunista, o tema do aborto e o tema religioso,
lamentavelmente as duas campanhas tiveram, sobretudo agora no segundo
turno, que ser desviadas para essas questões, que são bastante
pontuais. Não são questões que dizem respeito ao projeto Brasil de
futuro. Ou, em outras palavras: mais do que se posicionar agora na
questão do aborto é se posicionar em relação às políticas sociais que
evitam a morte de milhões de crianças. Nenhuma mulher, nenhuma, mesmo
aquela que aprova a total liberalização do direito ao aborto, é feliz
por fazer um aborto.

Agora o que uma parcela conservadora da Igreja se esquece é que
políticas sociais evitam milhões de abortos. Porque as mulheres,
quando fazem, é por insegurança, frente a um futuro incerto, de
miséria, de seus filhos. Esses 7,5 anos do governo Lula certamente
permitiram que milhares de mulheres que teriam pensado em aborto
assumissem a gravidez. Tiveram seus filhos porque se sentem amparadas
por uma certa distribuição de renda que efetivamente ocorreu no
governo Lula, tirando milhões de pessoas da miséria.



Por que aborto, crença e religião entraram tão fortemente na pauta da campanha?

Porque eles lidam com o emocional do brasileiro. Como o
latino-americano em geral, a primeira visão de mundo que o brasileiro
tem é de conotação religiosa. Sempre digo que, na América Latina, a
porta da razão é o coração, e a chave do coração é a religião. A
religião tem um peso muito grande na concepção de mundo, de vida, de
pessoa, que a população elabora.

Mas não foi a população que levou esse tema [à campanha], foram alguns
oportunistas que, desesperados e querendo desvirtuar a campanha
eleitoral, introduziram esses temas como se eles fossem fundamentais.

O próprio aborto é decorrência, na maior parte, das próprias condições
sociais de uma parcela considerável da população.

Quem são esses oportunistas?

Primeiro os três bispos que assinaram aquela nota contra a Dilma,
diga-se de passagem à revelia da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB). Realmente eles se puseram no palanque, sinalizando
diretamente uma candidata com acusações que considero infundadas,
injustificadas e falsas.

A Dilma, que já defendeu a descriminalização do aborto, recuou em
relação ao tema.

Respeito a posição dela. Agora eu, pessoalmente, como frade, como
religioso, como católico, sou a favor da descriminalização em
determinados casos. Pode colocar aí com todas as letras. Porque
conheço experiências em outros países, como a França, em que a
descriminalização evitou milhões de abortos. Mulheres foram
convencidas a ter o filho dentro de gravidez indesejada. Então todas
as estatísticas comprovam que a descriminalização favorece mais a vida
do que a criminalização. É importante que se diga isso, na minha boca.
Na Itália, que é o país do Vaticano, predominantemente católico, foi
aprovada a descriminalização.

O sr. acha que o recuo da Dilma é preço eleitoral a pagar?

Respeito a posição dos candidatos, tanto da Dilma quanto do Serra,
sobre essas questões. Não vou me arvorar em juiz de ninguém. Como
disse, acho que esse é um tema secundário no processo eleitoral e no
projeto Brasil.

Pelo que se supõe, já que não há muita clareza nos candidatos, nem
Dilma nem Serra são favoráveis ao aborto em si, mas ambos parecem
abertos a discutir sua descriminalização. Por que é tão difícil para
ambos debater esse tema com clareza e honestidade?

Porque é um tema que os surpreende. Não é um tema fundamental numa
campanha presidencial. É um vírus oportunista, numa campanha em que
você tem que discutir a infraestrutura do país, os programas sociais,
a questão energética, a preservação ambiental. Entendo que eles se
sintam constrangidos a ter que se calar diante dos temas importantes
para a nação brasileira e entrar num viés que infelizmente está
plantando no Brasil as sementes de um possível fundamentalismo
religioso.

Como o sr. vê a participação direta de bispos, padres e pastores na
campanha, pregando contra ou a favor de um ou outro candidato?

Eu defendo o direito de que qualquer cidadão brasileiro, seja bispo,
seja até o papa, tenha a sua posição e a manifeste. O que considero um
abuso é, em nome de uma instituição como a Igreja, como a CNBB, alguém
se posicionar tentando direcionar o eleitorado. Eu, por exemplo,
posso, como Frei Betto, manifestar a minha preferência eleitoral. Mas
não posso, como a Ordem Dominicana a qual eu pertenço, dizer uma
palavra sobre isso. Considero um abuso.

E a participação de uma diocese da CNBB na produção de panfletos
recomendando fieis a não votarem na Dilma?

É uma posição ultramontana, abusiva, de tentar controlar a consciência
dos fieis através de mentiras, de ilações injustificadas.

O sr. acredita, como aponta o PT, que o PSDB está por trás da produção
dos panfletos?

Não, não posso me posicionar. Só me posiciono naquilo em que tenho
provas e evidências. Prefiro não falar sobre isso.



Quais as diferenças de tratamento do tema aborto nas diferentes religiões?

Ih, meu caro, isso é muito complexo. Agora, na rua... Eu estou na rua,
indo para a PUC [para ato de apoio a Dilma, na última terça à noite].
Para entrar nesse detalhe... Eu escrevi um artigo até para a Folha,
anos atrás, sobre a questão do aborto. É muito delicado analisar as
diferenças. Há nuances. Mesmo dentro da Igreja Católica há diferentes
posições sobre quando é que o feto realmente se transforma num ser
vivo. Não é uma questão fechada na Igreja. Ainda não há, nem do ponto
de vista do papa, uma questão dizendo: o feto é um ser vivo a partir
de tal data. É uma questão em discussão, teologicamente inclusive. São
Tomás de Aquino dizia que 40 dias depois de engravidar. Isso aí
depende muito, é uma questão em aberto.

Em artigo recente na Folha, o sr. disse que conhecia Dilma e que ela é
"pessoa de fé cristã, formada na Igreja Católica". O que diria sobre a
formação e a religiosidade de Serra?

Eu sou amigo do Serra, de muitos anos, desde a época do movimento
estudantil. Nunca soube das suas opções religiosas. Da Dilma sim,
porque fui vizinho dela na infância [em Belo Horizonte], estivemos
juntos no mesmo cárcere aqui em São Paulo, onde ela participou de
celebrações, e também no governo. Não posso de maneira alguma me
posicionar em relação ao Serra. Respeito a religiosidade dele.

Se você me perguntasse antes da campanha sobre a posição religiosa do
Serra, eu diria: não sei. Mas considero uma pessoa muito sensata, que
respeita crenças religiosas, a tolerância religiosa, a liberdade
religiosa. Nesse ponto os dois candidatos coincidem.

O que achou do material de campanha de Serra que destaca a frase
"Jesus é a verdade e a vida" junto a uma foto do candidato?

Não cheguei a ver e duvido que seja material de campanha dele. Como
bom mineiro, fico com pé atrás. Será que é material de campanha, será
que é apócrifo?... Agora mesmo estão distribuindo na internet um
texto, que me enviou hoje o senador [Eduardo] Suplicy, [intitulado]
"13 razões para não votar em Dilma", com a logomarca da Folha, de um
artigo que eu teria publicado na Folha, assinado por mim. Não dá para
dizer que [o santinho] é da campanha dele.

Mas tem foto dele, o número dele [tem inclusive o CNPJ da coligação]...

Bem, espero que a campanha, o comitê dele desminta isso e, se não
desmentir, quem cala, consente.

No mesmo artigo o sr. diz que torturadores praticavam "ateísmo
militante". O sr. não respeita quem não crê em Deus?

Meu caro, eu tenho inúmeros amigos ateus. Nenhum deles tirou do
contexto essa frase. Com essa pergunta você me permite aclarar uma
coisa muito importante: que a pessoa professe ateísmo, tem todo o meu
apoio, é um direito dentro de um mundo secularizado, de plena
liberdade religiosa.

Agora, a minha concepção de Deus é que Deus se manifesta no ser
humano. Então toda vez que alguém viola o ser humano, violenta,
oprime, está realizando o ateísmo militante. Ateus que reivindicam o
fim dos crucifixos em lugares públicos, o nome de Deus na Constituição
- isso não é ateísmo militante, isso é laicismo, que eu apoio. O
ateísmo militante para mim é profanar o templo vivo de Deus, que é o
ser humano.

Tiraram do contexto, não entenderam...

É que houve queixas de ateus em relação àquele trecho do seu artigo,
tido como discriminatório...

Podem ter se sentido ofendidos por não terem percebido isso. Para mim
o ateísmo militante é você negar Deus lá onde, na concepção cristã,
ele se manifesta, que é no ser humano. Você professar o ateísmo é um
direito que eu defendo ardorosamente. Agora, você não pode é chutar a
santa, como fez aquele pastor na Record. Ou seja, eu posso ser ateu,
como eu sou cristão, mas eu não digo que a fé do muçulmano é um
embuste ou que a fé do espírita é uma fantasia. Isso é um desrespeito.

O sr. relatou no artigo que encontrou Dilma no presídio Tiradentes [em
São Paulo] e que lá fizeram orações. Como foram esses encontros?

Ela estava presa na ala feminina, eu na ala masculina e, como
religioso, eu tinha direito de, aos domingos, passar para a ala
feminina para fazer celebrações. E ela participava. O diretor do
presídio autorizava isso.

O sr. já comparou o Bolsa Família a uma "esmola permanente"...

[interrompendo] Não, eu não usei essa expressão. Eu sempre falei que o
Bolsa Família é um programa assistencialista e o Fome Zero era um
programa emancipatório. Nunca chamei de esmola não. Se saiu isso aí,
puseram na minha boca.

Deixa eu buscar aqui o contexto exato...

Quero ver o contexto. Dito assim como você falou agora eu não falei isso não.

Vou achar aqui o texto, espera aí.

Bem, mas não importa o que eu disse. Eu te digo agora o seguinte: o
Bolsa Família é um programa compensatório e o Fome Zero era um
programa emancipatório.

Você falou o seguinte [numa entrevista à Folha em 2007]: "Até hoje o
Bolsa Família não tem porta de saída. O governo inteiro sabe qual é,
mas não tem coragem: é a reforma agrária, a única maneira de 11
milhões de famílias passarem a produzir a própria renda e ficarem
independentes, emancipadas do poder público. Você não pode fazer
política social para manter as pessoas sob uma esmola permanente. Nem
por isso considero o Bolsa Família negativo, devo dizer isso. O
problema é que não pode se perenizar".

Ótimo que você pegou o texto, muito bem, é isso mesmo. Veja bem, não
vamos tirar de contexto não.

O que o sr. pensa do Bolsa Família hoje?

Isso que eu te falei: é um programa compensatório. Eu gostaria que
voltasse o Fome Zero, que tem um caráter emancipatório, tinha porta de
saída para as famílias. E o Bolsa Família, embora seja positivo, até
hoje não encontrou a porta de saída, o que eu lamento.

O sr. continua a ser um defensor inconteste do regime cubano? Ainda é
amigo de Fidel?

Não, veja bem. A sua afirmação... Não põe na minha boca o que você
acabou de falar. Eu sou solidário à Revolução Cubana. Eu faço um
trabalho em Cuba há muitos anos, de reaproximação da Igreja e do
Estado. Estou muito agradecido a Deus e feliz por poder ajudar esse
processo, que resultou recentemente na liberação de vários presos
políticos.

O sr. participou diretamente desse processo, dessa última libertação?

Indiretamente sim. Mas não é ainda o momento de eu entrar em detalhes.

O sr. acha que essa tendência de abertura do regime é inexorável?

Sim, claro, tem que haver mudanças. Cuba está preocupada em se
adaptar. Mas nada disso indica a volta ao capitalismo.

Sobre o desrespeito aos direitos humanos em Cuba, ainda há presos políticos...

Meu caro, ninguém desrespeita mais os direitos humanos no mundo do que
os Estados Unidos. E fala-se pouco, lamentavelmente. Basta ver o que
os Estados Unidos fazem em Guantánamo.

Cuba ocupa o 51º no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, que é
insuspeito. O Brasil, o 75º.

A mais religiosa de todas as campanhas

- José Maria Mayrink
A mais religiosa de todas as campanhas


Por pressão principalmente das igrejas, questões como o aborto e a união estável homossexual ganharam este ano relevância nunca vista em eleições anteriores
José Maria Mayrink , de O Estado de S.Paulo

Por menos que tenham pesado nos resultados das eleições - um dado a ser ainda analisado - temas religiosos tumultuaram a campanha para a Presidência da República. A religião, que em outras ocasiões entrou no debate por iniciativa do episcopado católico, subiu ao palanque e invadiu a internet em 2010 por pressão de cristãos de várias igrejas, com a introdução de questões como o aborto e a união estável de homossexuais. Bispos e pastores encamparam a discussão, mas a sugestão partiu das bases, para forçar os principais candidatos, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), a se definirem. Na quinta-feira, Bento XVI endossou indiretamente essa posição, falando a bispos brasileiros em Roma, aos quais aconselhou orientar os eleitores a rejeitar pelo voto candidatos e partidos favoráveis ao aborto e à eutanásia.
"Esse discurso do papa é uma ingerência direta nos negócios do Brasil, o presidente Lula deveria reclamar com o Vaticano", reagiu Reginaldo Prandi, professor aposentado do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP). Ao analisar a introdução do tema religioso nas eleições, ele afirma que "as igrejas puseram o aborto na campanha e os marqueteiros caíram na esparrela, acolhendo uma questão que não é assunto para presidente da República, mas para deputados, em eleições proporcionais". Para o sociólogo, "o catolicismo perdeu a noção de consciência social e apelou para temas morais, como o aborto e a união homossexual, porque não tem o que dizer".
Prandi achou ridículo Dilma e Serra terem ido a Aparecida, por ocasião da festa da Padroeira do Brasil, "porque candidato não tem de pedir a bênção de bispo nem da Santa". Para o sociólogo, "religião não é uma aliada confiável nessas circunstâncias e, como existem várias religiões, os presidenciáveis devem ter irritado os evangélicos, que baniram a devoção a Nossa Senhora de suas vidas". Ao analisar os números do primeiro turno, Prandi chega à conclusão de que o debate em torno de temas religiosos não foi a causa, mas um elemento desestabilizador para Dilma não ter vencido em 3 de outubro. "A religião tumultuou a campanha, e isso foi interessante", observou.
"A religião sempre teve importância nas eleições, sobretudo a Igreja Católica, mas este ano surgiu um fato novo, o ativismo religioso de grupos ou segmentos que, ao defender a vida e condenar o aborto, vetaram candidatos e partidos, recomendando aos fiéis que não votassem neles", disse a socióloga Maria das Dores Campos Machado, professora da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Chama a atenção, diz, a ênfase dada a um tema moral, em contraste com campanhas passadas, quando as preocupações eram a pobreza, a fome e a justiça social, plataformas dos militantes das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), que estavam nas origens do PT.
O debate sobre aborto, na avaliação de Maria das Dores, levou a uma queda de braço que não se via nas últimas décadas, não só entre bispos da Igreja Católica, mas também entre líderes evangélicos. "Essa discussão é nociva, porque me parece marcada pelo fisiologismo e pela troca de favores", adverte. "As igrejas se dividem e disputam espaço no plano regional, ao declarar apoio pragmático a um candidato."
Fundamentalismo. Outro sociólogo, Luiz Alberto Gomez de Souza, diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Cândido Mendes, no Rio, acha que houve uma valorização excessiva do tema religioso e uma instrumentalização dessa questão por grupos fundamentalistas. "Nunca houve, em eleições anteriores, essa polarização que se viu agora, nem mesmo quando a Igreja Católica condenava candidatos favoráveis ao divórcio, como o senador Nelson Carneiro (autor e defensor do projeto)", observou o sociólogo. Em sua avaliação, foi negativo cobrar dos candidatos uma definição pessoal em relação ao aborto, porque "no mundo moderno e leigo em que vivemos, isso é fazer confusão entre fé e política".
É diferente a opinião do presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Geraldo Lyrio Rocha. Ao falar sobre a polêmica criada pelo bispo de Guarulhos, d. Luiz Gonzaga Bergonzini, e outros bispos que recomendaram aos eleitores não votar em Dilma, ele declarou, em Brasília, que o aborto não poderia ter ficado fora do debate eleitoral. A CNBB não citou nomes de candidatos, preferindo aconselhar os católicos a escolher pessoas comprometidas com a defesa de valores éticos, entre eles a defesa da vida, mas reconheceu o direito de um bispo se pronunciar da maneira que quiser, em sua diocese.
"D. Geraldo Lyrio tomou uma posição equilibrada, de acordo com a tradição do episcopado de não apoiar ou vetar candidatos, mas de falar em princípios", elogiou o padre José Oscar Beozzo, historiador e teólogo. Mesmo quando o cardeal Joaquim Arcoverde, arcebispo do Rio, tentou, sem sucesso, criar um partido em 1915, a Igreja limitou-se a dar orientação geral. Em 1933, a Liga Eleitoral Católica apoiou a instituição do voto feminino, então restrito às viúvas e às desquitadas, e fez campanha pelo alistamento de eleitores, arregimentados à porta dos templos. Em 1946, os bispos combateram comunistas e divorcistas, sem citar nomes.
A novidade da campanha de 2010, segundo Beozzo, foi ter entrado em cena um lobby contra o aborto, "fazendo dele a questão única por influência dos movimentos Pro Vida e Opus Dei, como se fosse essa a posição oficial da Igreja". Esse equívoco provocou um racha no episcopado, como não se via desde 1968, "quando um grupo de bispos pediu ao presidente Costa e Silva que interviesse na CNBB para banir os comunistas do episcopado". Em vez de vetar candidatos supostamente favoráveis ao aborto, sugere o teólogo, os bispos deveriam dar aos fiéis a liberdade de tomar posição de acordo com sua consciência.

2º Encontro Nacional de CEBs Guatemala

2º Encuentro Nacional de CEBs Guatemala. Material preparatorio
Del 11 al 14 de Noviembre de 2010 se celebrara el 2º Encuentro Nacional de CEBs Guatemala, en la Parroquia Jesús Nipalakin, Ciudad Quetzal, GUATEMALA. Compartimos el material preparatorio: El Relanzamiento en acción (Incidir en la vida del pueblo) en el cual retomamos los compromisos del Ier. Encuentro Nacional de CEBs en el año 2007 y las conclusiones del II Encuentro Regional de CEBs realizado en Honduras en julio de 2010. Esperando que sea de ayuda. Atte: Equipo Coordinador del Encuentro Nacional

Dois eventos no mesmo caminho - Marcelo Barros

Dois eventos no mesmo caminho - Marcelo Barros
Sexta-feira, 29 de outubro de 2010 - 9h14min - por Brasil de Fato
Neste próximo domingo, as comunidades cristãs serão chamadas a viver dois eventos que, aparentemente, nada têm em comum, mas, o calendário os uniu no mesmo 31 de outubro. O primeiro evento é o segundo turno das eleições para presidente da República. O segundo acontecimento é que este dia do segundo turno eleitoral coincide com o "dia da reforma", aniversário do início do movimento evangélico. Segundo a tradição, no dia 31 de outubro de 1517 Martinho Lutero pregou na porta da catedral de Wintenberg (Alemanha) as 95 teses sobre a necessidade de uma profunda reforma na Igreja cristã.

De fato, somente cinco séculos depois, no Concílio Vaticano II (de 1962 a 1965) e, mais tarde, em uma declaração comum com a Federação Luterana Mundial (1999), a hierarquia católico-romana reconheceu o acerto das principais afirmações de Lutero: a primazia da Bíblia como fonte da fé cristã, a salvação pela graça de Deus através do dom da fé e o sacerdócio real de todas as pessoas batizadas. Apesar dessas afirmações feitas em comum, as Igrejas continuam divididas. Até hoje, cada grupo cristão ainda é tentado a pensar a sua missão apenas em função de si mesmo. O aniversário da reforma começa a chamar a atenção não somente de cristãos evangélicos, mas também de católicos. Em algumas cidades do país, o dia 31 de outubro começa até a ser feriado municipal.

Neste ano, a coincidência do segundo turno destas eleições no dia do aniversário da reforma protestante pode nos ajudar a perceber que estes dois acontecimentos são como uma só estação na mesma estrada.

No século XVI, Lutero, Calvino e outros reformadores propuseram à Igreja uma reforma que a ajudasse a voltar ao espírito do evangelho.: uma Igreja mais simples, mais comunitária e aberta à participação ativa dos leigos e disposta a se renovar espiritualmente para ser como o ensaio de uma humanidade renovada. Lutero dizia que esta reforma da Igreja deve ser permanente e contínua. Hoje, quase cinco séculos depois, homens e mulheres que pertencem às várias Igrejas cristãs sentem a urgência de uma nova reforma da Igreja e do mundo, como também cada pessoa é chamada a se converter e se renovar interiormente.

Ao dar o seu voto neste segundo turno das eleições presidenciais, a maioria do povo brasileiro também está dizendo que quer uma mudança social e política para o país. Não uma volta ao passado do qual já nos libertamos, mas um passo adiante no caminho de uma sociedade mais justa e participativa. Esta mudança não depende só e principalmente do governo, por mais importante que este seja. É necessário desenvolvermos um modelo democrático que não consista só em votarmos em nossos representantes a cada quatro anos, mas possibilite que todo o povo participe verdadeiramente dos destinos do país. Para presidente da República, é preciso escolhermos a pessoa que for mais aberta e disponível para não somente aceitar, mas incentivar esta participação da sociedade civil no processo do país.

Para os cristãos, a fé não é apenas um sentimento individual. Ela deve nos levar a uma postura social e política que se expressa em uma atitude de cidadania. Não existe verdadeira vida de fé se não se busca criar uma sociedade mais justa e igualitária. Por isso, as pessoas cristãs devem não somente votar de acordo com a sua consciência, mas a partir do interesse dos mais empobrecidos e para que o regime social e político favoreça a realização do projeto divino no mundo e no país. Não se trata de servir apenas a interesses eclesiásticos, mas de construir um mundo renovado de fraternidade entre as pessoas e de comunhão com a natureza.

Dom Eurico dos Santos Veloso: CEBs, o meio mais coerente e eficaz de ser cristão

Dom Eurico dos Santos Veloso: CEBs, o meio mais coerente e eficaz de ser cristão

Muita gente se pergunta pela atualidade das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), isto é, se ainda tem sentido, na sociedade contemporânea, falar e, sobretudo, fazer uma experiência de CEBs. A partir desta indagação, intuí alguns palpites que partilho com quem continua trabalhando para manter acesa a lamparina (cf. Lc 11,33-36).

Começo, propositadamente, com uma provocação que vem sendo usada para descaracterizar ou, pelo menos, relativizar a presença e missão das CEBs em nossos dias, a saber, a sociedade globalizada.

Muita gente acredita e divulga que na forma de organização social atual, com a primazia do mercado e, com ele, as relações subordinadas ao capital e ao lucro, ou o avanço tecnológico que impõe conhecimento e informação, e tudo o que daí decorre, não haja mais lugar para a construção de comunidades ou a realização de um projeto autenticamente comunitário.
Ou seja, na sociedade, tal como está aí, hoje, seria utópico pensar e apostar na força da união, do “um por todos e todos por um”, pois a lei da competição defende que é cada um por si mesmo e ponto. Uma teoria que, é bem verdade, no contexto do capitalismo neoliberal faz sentido e expressa o sentimento comum daquelas pessoas que assimilaram e introjetaram a ideologia dominante. O mais interessante, porém, é que quem continua atento e fiel aos “sinais dos tempos” e lugares, pode usar o mesmo argumento do neoliberalismo e da globalização para contestar esta posição conservadora que não representa mais que a manutenção do status quo.

O atual sistema social supõe e impõe critérios e estilos de vida frontalmente opostos ao cristianismo que, desde sua origem, sustenta que ser cristão passa pela adesão ao espírito comunitário (cf. At 2,42-47; 4,32-37; 5,12-16) ou, se preferirmos, a fé cristã, que é obrigatoriamente mediada por relações de amor e fraternidade (cf. 1Jo 4,12) só pode ser experimentada em comunidade, e nunca fora dela (cf. Jo 20,19-29). A sociedade globalizada postula intimismo, individualismo, consumismo, competição, lucro e tudo o que submete a vida humana e ecológica à soberania do mercado; a relação de comunidade (comum-unidade) se estabelece, em contrapartida, pela abertura, diálogo, respeito, comunhão, participação, solidariedade, partilha, e tudo quanto define as relações interpessoais que, mesmo reconhecendo e valorizando a individualidade (cada pessoa), sobrepõe o “nós” comunitário ao “eu” egoísta ou individualista; o “nós” comunitário está impregnado da dimensão do todo, preocupando-se e ocupando-se do bem comum; o “eu” egoísta, por natureza, “ensimesmado”, concebe e constrói as relações, tendo em vista o eventual proveito que delas poderá tirar.

Toda esta desafiadora conjuntura exige respostas rápidas e eficazes para enfrentar, combater e substituir as relações mercantilistas, tipicamente neoliberais, por relações humanas, mais fraternas e solidárias, que assumam como ponto alto do seu compromisso o cuidado e a defesa da vida humana e ecológica. Ora, para realizar este grande “mutirão pela vida”, a única alternativa viável é a construção de comunidades e/ou grupos que, amando-se e apoiando-se, se solidarizem e, solidarizando-se, se protejam e colaborem para proteger e defender a dignidade, a vida e o bem comum, patrimônios indeléveis da humanidade.

É claro que, na prática, a tarefa não é fácil. Na realidade urbana, por exemplo, as pessoas recebem muito mais informação e são mais contaminadas pela mídia elitista e globalizada. Situações como as de condomínio fechados, com porteiros eletrônicos, câmeras internas etc., serão, com certeza, um dos maiores desafios para “fazer comunidade” e evangelizar a cidade. Não obstante, já vemos despontar em regiões urbanas experiências de condomínios, ou parte deles, que se abrem para encontros semanais de círculos bíblicos, onde se realiza a profecia de Jesus: pobres evangelizando ricos. Agentes de pastoral, em geral, de classe média baixa para pobre, que vão aos prédios semanalmente para colaborar com os moradores na leitura orante da Bíblia, com o velho conhecido objetivo de transformar a realidade à luz da Palavra de Deus. Eu mesmo sou testemunha, a partir das Visitas Pastorais, de Paróquias, na área urbana da Arquidiocese de Juiz de Fora, que acreditam e alimentam o espírito de pequenas comunidades, com círculos bíblicos, em encontros periódicos que se realizam em garagens, varandas ou até mesmo em baixo de uma árvore.

Um exemplo que ilustra esta presença das CEBs, fermento da nova sociedade e inserida no novo contexto social é um de nossos jovens da periferia, de família que vive abaixo da linha da pobreza, mas que conhece e trabalha a Bíblia em linguagem popular como ninguém. Em um dos encontros que assessorou, conheceu uma dessas madames de condomínio fechado, que se encantou com sua fala. Chamou-o ao término do encontro e lhe perguntou se, caso ela organizasse um grupo em seu condomínio, ele estaria disposto a uma primeira conversa com o pessoal. O rapaz respondeu que sim e, de fato, foi a primeira vez. Todos gostaram e pediram que fosse uma segunda, e assim o grupo engrenou. Com o passar do tempo, os participantes descobriram quem era o jovem que os servia com a reflexão da Palavra: pobre e sem condições sequer de manter seus estudos. A partir daí a Palavra se torna luz que brilha na ação organizada e solidária do grupo (cf. Mt 5,16) e hoje, com a contribuição de todos os seus membros, o jovem tem garantido seu direito de estudar. Alguém poderia alegar: mas neste caso a solidariedade aparece como uma opção individualista que resolve apenas um problema pessoal e não comunitário ou coletivo. Seria, se o mesmo grupo não tivesse se mobilizado e assumido o plebiscito contra a privatização da Vale do Rio Doce, na semana da Pátria de setembro de 2007. Ou seja, a reflexão deu origem à construção da experiência comunitária, levando o grupo de classe média a assumir, à luz da Palavra de Deus, uma opção de classe: opção pelos pobres na solidariedade com o jovem, e opção pela classe popular na luta pelos direitos de todos. Conjugados, estes são os elementos constitutivos das CEBs.

Respondendo ao novo contexto social, a V Conferência do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho) questiona a atual estrutura paroquial que já não responde aos grandes desafios dos tempos modernos (cf. DA - Documento de Aparecida 173), e lança o apelo para transformar a paróquia em uma “rede de comunidades e grupos” (DA 172). Claro está que a Paróquia não é uma CEB, mas uma rede de comunidades missionárias, donde a importância de sua “setorização em unidades territoriais menores... que permitam maior proximidade com as pessoas e grupos que vivem na região” (DA 372). Por isso, reconhece nas CEBs verdadeiras “escolas” (DA 178) que “demonstram seu compromisso evangelizador e missionário entre os mais simples e afastados, e são expressão visível da opção preferencial pelos pobres. São fonte e semente de variados serviços e ministérios a favor da vida na sociedade e na Igreja” (DA 179).

As CEBs nos tempos atuais se justificam e se impõem como o meio mais coerente e eficaz de ser cristão, pois na atual conjuntura de empobrecimento e exclusão das massas, não há outro caminho, para a sobrevivência dos pobres, que não sejam comunidades humanas, humanizadas, fraternas e solidárias, que têm a missão de acolher e cuidar de todos, no mesmo espírito de Atos dos Apóstolos.

Dom Eurico dos Santos Veloso, arcebispo emérito de Juiz de Fora-MG.

O Papa e a política, - por Dom Luiz Carlos Eccel

O Papa e a política, por Dom Luiz Carlos Eccel

Já havia lido o discurso do Papa Bento XVI, aos Bispos do Maranhão, em visita ad limina apostolorum. Muito interessante o discurso do Papa. Ele não pode deixar de cumprir sua missão de Pastor Universal, exortando o Povo de Deus, especialmente no que diz respeito à defesa da VIDA.

Por Dom Luiz Carlos Eccel
Sexta-feira, 29 de outubro de 2010



O Santo Padre foi muito oportuno e feliz nas suas colocações, porque o Estado Brasileiro é laico, mas seu povo é religioso, e isto precisa ser respeitado. Quando digo que o povo é religioso é porque está disposto a fazer a Vontade de Deus e não somente dizer: Senhor, Senhor..., como às vezes se pretende, de maneira especial dentro da própria Igreja. Existem facções sociais, políticas e religiosas especializadas em fazer lavagem cerebral, deixando as pessoas sem convicções, mas com obsessões, e com a consciência invencivelmente errônea. Ficam semelhantes aos grãos de pipoca que levados ao fogo não estouram, e com mais fogo, mais duros ficam. Tornam-se donas da “verdade”. Estão até manipulando o texto do Papa, para justificar a sede do poder. (cf. http://www.releituras.com/rubemalves_pipoca.asp)

É a Vontade de Deus que nos salva e não a nossa, e sobre isto precisamos sempre nos exortar mutuamente, como diz o Apóstolo São Paulo. Portanto, que nossa fé seja sempre vivificada pela mútua exortação. Pode ocorrer de nos esquecermos que somos todos peregrinos caminhando para a Casa do Pai, e quando lá chegarmos, poderemos ouvir de Jesus o seguinte: “Afastai-vos de mim, vos que praticastes a injustiça, a maldade” (Lc13,27). Creio que ninguém vai querer ouvir isto naquela hora. Seu passaporte está em dia? Pode ter certeza de que a eternidade existe... Assim, busquemos alimentar nossa fé, sem esquecer, como diz o Papa, que ela deve implicar na política. A fé sem obras é morta, diz a Escritura Sagrada. E uma das obras que deve provir da fé, é o nosso voto consciente em pessoas que vão governar para o bem comum, respeitando a vida em todas as suas etapas e dimensões.

No mesmo dia em que li o discurso do Papa, assistindo ao telejornal, à noite, escutei o pronunciamento da candidata e do candidato à presidência do Brasil a respeito do discurso do Papa. Ambos concordaram com as Palavras do Papa, dizendo que é missão dele exortar para uma vida coerente com os valores da fé e da moral, e que as palavras do Papa valem para todas as pessoas de fé, no mundo inteiro.

O Papa falou, também, que o voto deve estar a serviço da construção de uma sociedade justa e fraterna, defensora vida.
Como Bispo da Igreja Católica, e como cidadão brasileiro, fico feliz por saber que nosso Presidente tem defendido a vida, e sempre se pronunciou contra o aborto. Nesses últimos anos o Brasil tem crescido e melhorado em todos os aspectos, de maneira especial no respeito à vida e a valorização da dignidade humana. Esta é a Vontade de Deus! E as pessoas, em plena posse de suas faculdades mentais, vão reconhecer esta verdade.

Nosso país está em pleno desenvolvimento e assim queremos continuar e, depois de 500 anos, nosso povo quer eleger, pela primeira vez, uma mulher que tem compromisso com a vida e provou isso com sua própria vida. Como? Ela não fugiu para o exterior durante a ditadura, mas a enfrentou com garra e, por isso, foi presa e torturada. Ela queria um país livre, e que todas as pessoas pudessem viver sem medo de serem felizes, vencendo a mentira e o ódio com a verdade e o amor, servindo aos ideais de liberdade e justiça, com sua própria vida. Disse Jesus: “Ninguém tem maior amor do aquele que dá a própria vida pelos irmãos” (Jo 15,13).

Obrigado Santo Padre por suas sábias palavras! A Dilma é a resposta para as nossas inquietações a respeito da vida. Quem sofreu nos porões da ditadura, não mata. Mas teve gente que matou a vida no seu ventre para fugir da ditadura, e portanto não deveria se comportar como os fariseus, que jogam pedras, sabendo-se pecadores. E Jesus disse: “Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la, e quem entregar sua vida por causa de mim, vai salvá-la”(Mt 10,39)

Vamos fazer o nosso Brasil avançar ainda mais, com Dilma, que já provou ser coerente, competente e comprometida com a VIDA. O dragão devastador não pode voltar ao poder.
Deus abençoe os leitores e eleitores, governos e governados. Saúde e paz a todos (as)!
Tudo o que você me desejar, eu lhe desejo cem vezes mais. Obrigado.

Caçador, 28 de outubro de 2010

Dom Luiz Carlos Eccel
Bispo Diocesano de Caçador