terça-feira, 19 de abril de 2016

Esse impeachment é mentira das elites e cinismo de certos setores da sociedad


A declaração da 54ª Assembleia Geral da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) “sobre o momento nacional”, publicada no último dia 14, começa citando um trecho do diálogo entre Jesus e um mestre de Israel, Nicodemos: “Quem pratica a verdade aproxima-se da luz” (Jo 3,21).
Nicodemos nutria simpatias pela pessoa e mensagem de Jesus, mas às escondidas. Ele vai encontrar Jesus à noite (Jo 3,2), no anonimato das sombras, mas Jesus o desafia a pôr à descoberto os interesses que ele, Nicodemos, defendia.
O termo verdade é associado à luz e, por consequência, à lucidez, à capacidade de pensar a realidade com clareza. Ademais, a verdade exige que os interesses sejam manifestos.
O evangelho emprega, na declinação adequada, o termo grego alétheia (ἀλήθεια). “A” indica negação, “léthe” significa esquecimento.
Portanto, o evangelho assume que a verdade é o não-esquecido, a auto-manifestação da realidade ao conhecimento das pessoas. O contrário seria a aparência, a obscuridade, o esquecimento ou o encobrimento da realidade das coisas.
Pois bem, estamos mergulhados numa crise econômica retroalimentada pela crise política, e vice-versa, numa proporção sem precedentes em nossa história. Por isso, o conselho do evangelho deve nos mover: buscar a luz, não esquecer a realidade, não ficar só com a narrativa da velha mídia.
A sombra da neutralidade também não é uma alternativa aceitável do ponto de vista ético. Em face de questões tão decisivas para a vida do povo, quem não se posicionar, quem não praticar a verdade, será vomitado pela história como um verme (cf. Ap 3,16).
Não podemos esquecer de alguns pontos, sem os quais não podemos pensar com lucidez e compreender a crise em curso. A verdade é o não-esquecido. Pois, então, lembremos:
Em primeiro lugar, não esquecer que há uma crise econômica em escala mundial. Tal crise resulta da natureza corrupta do sistema econômico capitalista. “Esta economia mata”, afirmou o Papa Francisco na Evangelii gaudium (n. 53), em 2014.
O marco jurídico do sistema econômico capitalista legitima a corrupção. Os Panama Papers mostram como ricos do mundo inteiro se valem da estrutura legal do capitalismo para esconder a sua riqueza em paraísos fiscais.
Uma solidariedade sombria os une na malandragem legalizada.
Conforme os papeis vazados recentemente, até mesmo um ex-presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil, o juiz Joaquim Barbosa, valeu-se de uma offshore para fazer negócios “mais vantajosos” no exterior. Tudo dentro da lei.
O dinheiro atravessa fronteiras como o único ente livre e invencível. Um poder impessoal operado por ricos. Implacável, quando o assunto é lucrar em cima dos trabalhadores e explorar a riqueza dos povos.
Em segundo lugar, a nossa sociedade carrega o peso da herança escravagista. Na sala de estar da casa grande, o conforto. No porão da senzala, o sofrimento dos escravos.
A escravidão foi uma instituição total durante quatro séculos da nossa história. A exploração e as desigualdades sociais foram naturalizadas no nosso imaginário. Ainda achamos normal uma pessoa explorar outras.
A nossa classe média, por exemplo, tão engajada na luta contra a corrupção e, ultimamente, contra o mal, nutre uma profunda admiração pelos ricos e opressores, e ela própria explora os trabalhadores no seu dia a dia. Paga mal sua empregada doméstica, o cabelereiro, a manicure, o jardineiro, o garçom. Muitas vezes manifesta desprezo por tudo o que é público.
Em terceiro lugar, não esquecer que o estado brasileiro sempre foi um arranjo para defender os interesses das elites. Não é organizado para defender o bem comum, os interesses econômicos dos pobres.
Até hoje não foi feita a reforma agrária, os povos indígenas são reconhecidos apenas formalmente, os direitos dos trabalhadores estão sob constante ameaça, o capital internacional ronda as riquezas nacionais que ainda restam, os programas sociais são vistos pelos rentistas como um problema ao equilíbrio das contas públicas. Há uma guerra sem trégua contra os pobres.
O Ministério Público, uma instituição de Estado, faz combate seletivo à corrupção. A Polícia Federal investiga todo mundo, como fica demonstrado na profusão de operações que atingem todo o espectro político e o alto baronato econômico. Mas a sistemática do Ministério Público tem sido denunciar apenas o que atinge os setores políticos progressistas do país.
São os órgãos de Estado, ocupados por gente bem nascida, a serviço das elites.
Em quarto lugar, não esquecer que a nossa democracia é sem povo. O povo é chamado só em tempos de eleições. A nossa democracia funciona à base de negociatas entre partidos e algumas corporações. O povo fica de fora.
Recentemente, a proposta dos conselhos populares foi boicotada pelos setores conservadores, sob a alegação de bolivarianismo. E assim, sem a participação mais efetiva do povo, chegamos ao ponto de um condomínio de deputados picaretas conduzir um processo de impedimento da presidente da república.
Em quinto lugar, não esquecer que os meios de comunicação social são monopolizados por algumas famílias. Elas têm o microfone, e o usam para defender os seus próprios interesses econômicos, contra os interesses do povo. Fazem campanha sistemática contra tudo o que pode fortalecer a autoestima do brasileiro.
Quem não se lembra do “não vai ter copa”, da campanha sistemática contra o Fome Zero, depois Bolsa Família, contra a política econômica desenvolvimentista, contra o Pré-Sal, que diziam não existir, o preconceito contra o povo do Nordeste etc.
A mídia é importante numa democracia. Mas, no Brasil, a velha mídia sempre foi golpista e manipuladora.
Em sexto lugar, não esquecer que há uma guerra contra os pobres no âmbito do sistema econômico capitalista mundial. Esse processo de impeachment acontece por razões econômicas. É visto como expressão do combate à corrupção, mas isso é uma mentira das elites, que a classe média comprou, como tem demonstrado o renomado sociólogo Jesse Souza.
O que se quer mesmo é interromper o ciclo de investimentos em programas sociais. Busca-se deter a tendência de defesa dos interesses nacionais, inaugurada pelos setores progressistas da política brasileira.
A coalizão política que está no poder praticou a corrupção. Não há duvida. Tudo deve ser investigado, e os culpados condenados, se ficar provado o mal feito. Mas é evidente que o partido do governo é combatido por outras razões.
Veja se não é verdade! O embate interno segue uma lógica mais ampla, mundial. As jogatinas dos corruptos de Wall Street, nos Estados Unidos, provocaram a crise econômica mundial, em 2008, deixando rastros de morte no mundo inteiro. Mas os corruptos estão todos soltos.
Aqui, os corruptos do caso Banestado, da década de 1990, escândalo que eclodiu em 2003, todos de bico longo e plumagem da cor céu, roubaram quase meio trilhão de reais, em valores atualizados, e não foram sequer denunciados. Atualmente, o povo nem sabe mais do caso.
Até agora ninguém conhece os nomes dos oito mil brasileiros que mantiveram contas secretas na filial do HSBC, na Suíça, embora os suíços tenham entregado a lista às autoridades brasileiras. Também não conhecemos os nomes dos 1.200 brasileiros que constam nos Panama Papers.
Os que roubaram a merenda das crianças em São Paulo, bem como os que pegavam um terço de propina de Furnas, dormem em paz.
Em sétimo lugar, não esquecer que os patrocinadores do impedimento estão aliados aos corruptos. Uma ironia. Mas não só isso. Estão esfregando as mãos com a possibilidade de entregar o poder a gente como Eduardo Cunha e Michel Temer.
Ou seja, o combate à corrupção é uma mentira das elites e um cinismo de certos setores da sociedade brasileira.
Por essas e outras razões, devemos buscar lucidez, praticar a verdade, ao pensar a crise, cuja expressão máxima no momento é o processo de impeachment.
Juristas renomados, como Dalmo Dalari e Fábio Konder Comparato, têm afirmado que esse impeachment é golpe, posto que não ficou demonstrada a prática de crime de responsabilidade da presidente da república, como prevê a Constituição de 1988. Suspeita-se que o processo esteja a serviço de outros interesses.
O PMDB concebeu uma “ponte para o futuro”, que prevê amplas privatizações, sacrifício aos trabalhadores, redução de investimentos em programas sociais etc. É o que se seguiria ao impedimento.
Em face disso, a CNBB declara, no documento supracitado, que “espera o correto procedimento das instâncias competentes, respeitado o ordenamento jurídico do Estado democrático de direito”. Ou seja, os bispos rejeitam qualquer solução que desrespeite a Constituição e se configure como mais um golpe à democracia.
O compromisso com a democracia exige o combate imparcial e sem trégua à corrupção. Como horizonte próximo, exige a rejeição do impedimento.
Estou convencido de que esse impeachment, sem a demonstração de crime de responsabilidade da presidente, é um golpe. Vem para esconder as verdadeiras razões da crise. Jamais poderá ser visto como solução. O povo brasileiro tem pela frente o desafio de resolver problemas complexos.
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terça-feira, 29 de março de 2016

ONU CONDENA GOLPISMO CONTRA DILMA



Por Altamiro Borges

Na entrevista concedida aos jornalistas estrangeiros na última quinta-feira (24), a presidenta Dilma Rousseff voltou a afirmar que está em curso um “golpe” no Brasil – palavra que deixa incomodados os golpistas escancarados e enrustidos da mídia e do Judiciário. Ela também insinuou que a ofensiva teria um viés machista. “A oposição me pede que eu renuncie. Por quê? Por que sou uma mulher fraca? Não, não sou uma mulher fraca. Minha vida não foi isso. Pedem que eu renuncie para evitar tirarem uma presidente eleita, de forma ilegal, indevida e criminosa. Pensam que eu devo estar muito afetada, que devo estar completamente desestruturada, muito pressionada. Mas não estou assim, não sou assim”, afirmou, altaneira.


No mesmo dia, a sua crítica ao machismo foi reforçada por uma nota emitida pela ONU Mulheres, que condena “a violência política de ordem sexista contra a Presidenta da República, Dilma Rousseff”. Reproduzo a nota na íntegra:

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A ONU Mulheres observa com preocupação o contexto político brasileiro e apela publicamente à salvaguarda do Estado Democrático e de Direito.

Aos poderes da República, a ONU Mulheres conclama a preservação da legalidade, como condição máxima das garantias estabelecidas na Constituição Federal de 1988 e nos tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil é signatário.

À sociedade brasileira, a ONU Mulheres pede serenidade nas manifestações e não-violência frente aos debates públicos necessários para a condução democrática dos rumos políticos do país. O debate saudável entre opiniões divergentes deve ser parte intrínseca da prática cidadã em uma democracia.

Nos últimos 30 anos, a democracia e a estabilidade política no Brasil tornaram reais direitos humanos, individuais e coletivos. São, sobretudo, base para políticas públicas – entre elas as de eliminação das desigualdades de gênero e raça – determinantes para a construção de uma sociedade inclusiva e equitativa.

Como defensora dos direitos de mulheres e meninas no mundo, a ONU Mulheres condena todas as formas de violência contra as mulheres, inclusive a violência política de ordem sexista contra a Presidenta da República, Dilma Rousseff. Nenhuma discordância política ou protesto pode abrir margem e/ou justificar a banalização da violência de gênero – prática patriarcal e misógina que invalida a dignidade humana.

Que o legado da democracia brasileira, considerado referência no mundo e especialmente na América Latina e Caribe, seja guia para as soluções da crise política.

Nadine Gasman

Representante da ONU Mulheres Brasil.

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A nota da sessão feminina da ONU é plenamente justificável. A “violência de ordem sexista” contra a presidenta Dilma esta presente, de forma repugnante e cada vez mais agressiva, nos protestos de rua, nas redes sociais e na mídia golpista. Neste feriado de Páscoa, diante da sede da nefasta Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), na Avenida Paulista, alguns fascistas mirins promoveram a “malhação” de Dilma e destilaram os seus preconceitos machistas – chamando-a de “vadia”, “vagabunda”, “puta”. Já na semana passada, alguns maníacos – que deveriam ser investigados, julgados e presos – difundiram a hashtag #lulaperdeuodedonaxotadadilma, que chegou ao topo do twitter. O crime mereceu uma nota de repúdio da União Brasileira de Mulheres (UBM), que reproduzo abaixo:

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Nota de repúdio à violência moral contra a presidenta Dilma e o ex-presidente Lula

A União Brasileira de Mulheres repudia veementemente o uso da tag “#lulaperdeuodedonaxotadadilma” utilizada pelo deprimente programa “Pânico na TV” e replicada por internautas desprovidos de qualquer senso de civilidade.

Trata-se de manifestação escandalosa de misoginia e escárnio sobre a condição de mulher da presidenta Dilma, associada à mutilação sofrida pelo operário ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A polarização política no seio da sociedade brasileira tem servido aos propósitos mais nefastos de disseminação de valores fascistas no país. Episódios de crescente violência política, física e moral, inicialmente, contra dirigentes ligados à esquerda, e hoje contra qualquer cidadão que se posicione favoravelmente a estas lideranças, vêm se proliferando perigosamente, esvaziando o debate político e promovendo o mais despudorado ódio de classe. Esta tag é mais uma demonstração deste fenômeno que, entrelaçado ao machismo estruturante da sociedade, explode em mais um episódio de violência machista contra a presidenta da República.

Esta agressão moral rasteira entra na espiral da campanha golpista de difamação de Dilma e Lula. Não admitiremos a despolitização do debate e a agressão moral em estado bruto sob o frágil verniz do “humor”, como fazem os irresponsáveis e proto-fascistas do programa Pânico na TV. A UBM reitera seu compromisso com o bom debate, politizado, com a democracia e com o Brasil. Respeitem a presidenta e todas as mulheres!

Fascistas, machistas não passarão! Não vai ter golpe!

22 de março de 2016

União Brasileira de Mulheres

quinta-feira, 17 de março de 2016

Dia do Consumidor: você tem o direito de saber e de ser ouvido


 15 - mar - 2016
Nossas escolhas, como consumidores cidadãos, podem mudar o mundo. Mas o que realmente sabemos sobre os produtos que compramos?
Em 15 de março de 1962 o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, discursou diante de seu Congresso sobre alguns conceitos simples que deveriam sempre permear as relações de consumo. Para ele, todo consumidor deveria ter direito a segurança, informação, escolha e à ser ouvido. Tal discurso repercutiu tanto que se transformou em um dos marcos na luta pelo direitos de defesa do consumidor. Alguns anos depois, em 1985, a ONU escolheu a data para celebrar o Dia Mundial do Direito do Consumidor.
Mas passados 54 anos, os conceitos apresentados por Kennedy, e previstos também no Código de Defesa do Consumidor brasileiro, de 1990, ainda estão longe de ser alcançados, especialmente quando se trata de transparência da informação. O que vemos atualmente são ataques sistemáticos aos mecanismos que nos garantem o direito de acesso a informação. E assim, acabamos sem saber o que estamos comprando. Escolher de forma mais responsável tem sido uma tarefa cada vez mais difícil de cumprir.
Atualmente nenhuma rede de supermercados do Brasil consegue garantir a origem de 100% da carne que vende. (© Zé Gabriel / Greenpeace)
Um exemplo disso é o caso da Lista Suja do Trabalho Escravo. Publicada voluntariamente pelo Ministério do Trabalho e Emprego desde 2003, a lista era atualizada a cada seis meses, com os nomes de empresas e empregadores flagrados usando mão de obra análoga a de escravo. Mas graças a uma ação movida pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) – setor que geralmente lidera no número de flagrantes de trabalho escravo, ao lado de pecuária – a lista foi bloqueada no Natal de 2014 e continua assim até hoje.
Desde então, a única ferramenta disponível para consulta dos consumidores tem sido a “Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo'', obtida regularmente via Lei de Acesso a Informação pela ONG Repórter Brasil e a InPACTO que reúne empresas e organizações que assinaram o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. A quem interessa manter em sigilo o nome de empresas que usam trabalho escravo? Não aos consumidores, certamente.
A rotulagem de transgênicos também é emblemática. Em 2003 o Brasil foi um dos pioneiros ao exigir que os produtos fabricados a partir de insumos alterados geneticamente, os chamados Transgênicos, tivessem um aviso na embalagem – o símbolo “T” dentro de um triângulo amarelo. Mas a lei vem sofrendo forte ataque no Congresso. Apoiado pela poderosa bancada ruralista, um projeto de lei que flexibiliza a exigência já foi aprovado na Câmara e segue em pauta no Senado.
Há ainda o Cadastro Ambiental Rural (CAR) que, quando completo, trará informações sobre todas as áreas produtivas do Brasil. O prazo para o cadastramento encerra em duas semanas, com apenas 66% dos imóveis rurais inscritos até agora. Seus dados, entretanto, não estarão disponíveis publicamente, impedindo qualquer forma de controle social sobre informações que influenciam a vida de toda a sociedade.
O grande problema com o acesso à informação, pelo menos para governos e empresas, é que consumidores informados têm poder de fazer escolhas mais responsáveis para suas famílias e para o ambiente.
Pense em tudo o que o consumidor poderia fazer caso tivesse todas as informações de que necessita. Ele poderia, por exemplo, escolher não comprar carne vinda de frigoríficos que desmatam e escravizam na Amazônia. Mas hoje, essa informação não é clara e o produto que compramos no supermercado pode estar contaminado com a devastação da floresta.
Além disso, o consumidor não exije o suficiente. Uma pesquisa inédita divulgada pelo Instituto Data Popular e o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), mostra que, embora os consumidores conheçam seus direitos, estes são pouco reclamados. As razões de não reclamar são diferentes para serviços públicos e serviços privados, mas em geral a população não acredita que sua voz será ouvida, que seu problema será resolvido, além do tempo e do custo de levar queixas adiante
O direito de escolha do consumidor é limitado e ao jogarmos toda a responsabilidade sobre ele, tiramos o foco de quem tem de fato capacidade e responsabilidade de mudar a forma e conteúdo de tudo que chega até nós: empresas e governos.
Mas o consumidor pode, sim, fazer sua parte, exigindo seus direitos. Juntos, temos mais poder do que imaginamos para virar esse jogo, ao cobrarmos de empresas e governos nosso direito de saber mais sobre a origem do que estamos comprando.
Neste Dia Mundial do Consumidor, te desejamos que seu direito de saber seja respeitado.
A floresta agradece.
Fonte: GreenPeace

quarta-feira, 9 de março de 2016

CEBs: Memória e Caminhada

PUC Minas Gerais 

Centro de Memória recebe documentação das Comunidades Eclesiais de Base


O Centro de Memória e de Pesquisa Histórica (CMPH) acaba de receber 76 caixas de documentação e publicações referentes ao Projeto Memória e Caminhada, acervo relativo aos registros materiais e simbólicos das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

O conjunto documental foi formado por instâncias da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que sentiu a necessidade de agrupar as diferentes formas de registros a respeito das CEBs, uma das mais expressivas ações da Igreja Católica no Brasil decorrentes do Concílio Vaticano II.

O CMPH da PUC Minas foi considerado pelos formadores do acervo como a instituição qualificada para ser a sua guardiã e depositária definitiva. Após o tratamento técnico, a importante documentação será disponibilizada para consulta.

12.02.2016 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Carta das CEBs Ampliada Nacional - janeiro de 2016

Desde as terras vermelhas do norte do Paraná, na cidade de Londrina, os 70 participantes da Ampliada Nacional das CEBs, entre os que destacamos a presença de Dom Orlando Brandes, arcebispo da arquidiocese que nos acolhe, Dom Giovane Pereira de Melo, bispo referencial do Setor CEBs na Comissão para o laicato na CNBB e Dom Manoel João Francisco, que acompanha as CEBs no estado do Paraná, Regional Sul II, celebrada entre os dias 29 a 31 de janeiro de 2016, queremos comunicar os passos dados para avançar no processo de construção conjunta do 14º Intereclesial das CEBs, que será realizado de 23 a 27 de Janeiro de 2018, com o tema “CEBs e os desafios no mundo urbano” e o lema “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex. 3,7).
A discussão sobre a construção do Texto Base foi o ponto de partida do debate entre os membros da Ampliada, aspecto que foi retomado em diferentes momentos do nosso encontro. A partir do método ver, julgar e agir, se pretende elaborar um texto de fácil compreensão que possa ajudar às lideranças das comunidades, partindo do que foi refletido no Seminário, que aconteceu nos dias 27 e 28 de Janeiro e que colocou em nosso meio 8 desafios: moradia, mobilidade, violência, sustentabilidade, trabalho, saúde, educação e tecnologias. O Texto Base quer mostrar a realidade do mundo urbano, seus processos históricos e os desafios que hoje devem ser enfrentados, tudo isso iluminado desde a reflexão bíblico-teológica e concretizado em experiências reais que mostram a historia e realidade das CEBs do Brasil.
Fomos enviados para conhecer diferentes comunidades da arquidiocese, o que nos ajudou a colocar os pés neste chão vermelho, olhar a realidade sócio-eclesial local e nos animar mutuamente com a caminhada de cada um. Nesse sentido fomos impactados pela chacina acontecida nos dias da Ampliada, na cidade de Londrina, sinal da violência que assola o mundo urbano. Também tentamos ser divulgadores entre o povo londrinense do Intereclesial e o que isso pode significar para eles.
O Secretariado do 14º Intereclesial mostrou os passos dados até hoje, partindo da história local e socializando os objetivos, metodologia, equipes, planejamento e os efeitos do projeto, assim como as possíveis fontes de financiamento do nosso encontro.
Igualmente foram encaminhados outros aspectos que formam parte do Intereclesial, como o cartaz, a oração, o cancioneiro, assim como o Seminário de Assessores e diferentes oficinas que serão realizadas. A reunião por grandes regiões foi momento para partilhar a caminhada dos diferentes regionais, organizar calendários conjuntos e distribuir as vagas para o Encontro Latino Americano a ser celebrado no Paraguai em setembro de 2016. A confraternização e partilha na noite cultural ajudou a estreitar os laços de amizade.
Junto com isso foram abordadas diferentes questões ao longo da Ampliada como a pesquisa sobre as CEBs no Brasil, o Projeto Memória e Caminhada, as vagas para o Intereclesial, o acontecido no encontro do Cone Sul, a composição da Ampliada, a comunicação e o site cebsdobrasil.com.br.
Não podemos esquecer os momentos de oração e celebração vividos nestes dias e que nos ajudaram a ver e ouvir os clamores do povo, a partilhar a vida das comunidades londrinenses e trazer para o nosso meio a vida e memória de tantos mártires que deram a vida pelo Reino.
Amem, Axé, Auêre, Aleluia

“Casa comum, nossa responsabilidade”

Esse é  o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica que, em todo o Brasil, será aberta pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) nessa quarta feira, 10 de fevereiro ou, no próximo domingo, o 1o da Quaresma. De fato, desde o ano 2000, essa será a 4a Campanha da Fraternidade Ecumênica. Reúne cinco Igrejas cristãs e diversas organizações interconfessionais. Dessa vez, além das Igrejas, essa Campanha da Fraternidade envolve também a Misereor, organização dos bispos católicos da Alemanha. O tema geral é o cuidado com a Terra, especialmente no que diz respeito ao saneamento básico que inclui o abastecimento de água urbano e rural; a coleta e tratamento de esgoto; o manejo adequado dos resíduos sólidos (lixo) e a drenagem das águas de chuva. Certamente, na realidade que, nesses dias, enfrentamos no Brasil, não podemos esquecer o combate a mosquitos que transmitem doenças que assolam a nossa população e provocam tantos males.  

As estatísticas mostram que, no Brasil, apesar dos esforços do governo nos últimos dez anos, ainda temos um longo caminho a percorrer no cuidado com a terra e com os nossos rios. É difícil compreender como um país que produz até aviões comerciais de grande porte não consegue solucionar os problemas de saneamento nem em cidades centrais como São Paulo e Rio de Janeiro. Os centros metropolitanos de médio e de grande porte enfrentam cada vez mais problemas relacionados à poluição da água.
 
Nas cidades, a maior parte do esgoto residencial e industrial contamina todas as águas superficiais, como rios, lagos, e o próprio oceano. Nos grandes rios brasileiros, ainda se veem esgotos serem jogados in natura.

É uma graça divina que, no Brasil, ao menos as cinco Igrejas que participam do Conselho Nacional de Igrejas (CONIC) tenham um desafio tão concreto e urgente para ligar com a celebração da Quaresma e da Páscoa. De fato, a responsabilidade pela Terra como causa comum tem de unir dois aspectos: o cuidado ambiental e a ecologia social. Tanto o Conselho Mundial de Igrejas, em seus documentos, como  o papa Francisco, na sua encíclica Laudatum sii, têm insistido: não se pode separar o equilíbrio ambiental e o cuidado com a justiça. Por isso, nessa CF 2016, o lema é a palavra bíblica: “Quero ver a justiça brotar como fonte e o direito correr como riacho que não seca” (Am 5, 24). Essa profecia confirma: O que para Deus é mais importante não é o culto e nem atos de devoção individual e sim que todos cuidem da justiça social e trabalhem para que, no país e no mundo, todos tenham respeitados os seus direitos  individuais, sociais e de saúde. Só assim, as celebrações se tornarão profundas e chegarão aos ouvidos de Deus.

Ao falar em saneamento básico, muita gente dirá que isso é obrigação do governo e que, sobre isso, os cidadãos comuns podem fazer pouco. De fato, em termos estruturais, é verdade: a primeira obrigação é do governo. No entanto, a tarefa dos cidadãos é velar e exigir que os seus direitos sejam respeitados. O trabalho das autoridades deve ser complementado pelo cuidado de toda a população. A limpeza de córregos e rios feita pelas autoridades públicas só funciona se a população colabora e não joga lixo nas ruas. Nessa linha, o texto-base da CF 2016, dirigido aos cristãos de todas as Igrejas e pessoas de boa vontade, sugere várias ações simples e cotidianas.
 
O objetivo é criar uma nova consciência de cuidado com a terra e com a água, assim como uma maior solidariedade social. O texto propõe que as comunidades cristãs estimulem as pessoas a fazerem a coleta seletiva do lixo caseiro e a tratar a rua como espaço coletivo a ser cuidado por todos. Além disso, como gesto comum, nessa Quaresma, pede que evitemos o consumismo. Como, em muitas Igrejas, o jejum é um costume tradicional do tempo da Quaresma, a CF 2016 propõe que façamos um dia de jejum, repartindo com uma família mais pobre o alimento daquele dia. Que essa CFE nos ajude a aprofundar a unidade das Igrejas que Deus quer e pede que vivamos.
 
“Ó Deus da vida, da justiça e do amor, Tu fizeste com ternura o nosso planeta, morada de todas as espécies e povos. Dá-nos assumir, na força da fé e em irmandade ecumênica (com as outras Igrejas cristãs), a corresponsabilidade na construção de um mundo sustentável e justo para todos. No seguimento de Jesus, com a alegria do Evangelho e com a opção pelos pobres. Amém”. (oração da CFE – Texto base, p. 73). 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Missão Continental: valorizar a experiência bonita das CEBs



Cidade do Vaticano (RV) - Amigo ouvinte, nesta edição do quadro “O Brasil na Missão Continental” concluímos a participação do bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora, Dom Armando Bucciol.

A edição passada foi dedicada ao tema da piedade popular, cuja expressão de fé dos nossos povos latino-americanos a Conferência de Aparecida (2007) buscou resgatar e valorizar ulteriormente. Nela, Dom Bucciol ressaltou, entre outras coisas, que “quando evangelizada, a religiosidade popular torna-se uma piedade profundamente cristã”.
Outra riqueza da nossa realidade de Igreja que a Conferência de Aparecida buscou resgatar e valorizar ulteriormente é a experiência bonita das Comunidades Eclesiais de Base. Na edição de hoje Dom Bucciol nos fala sobre esta experiência na realidade eclesial desta Igreja particular do centro-sul da Bahia.
Solidariedade
Entre outras coisas, ele nos diz que nas 21 paróquias de sua diocese existem umas 500 Comunidades Eclesiais de Base e conhecer a maioria delas, onde, apesar dos limites de todo tipo, os fiéis vivem valores extraordinariamente evangélicos de solidariedade, de leitura da Palavra de Deus, de celebração do culto, de preparação para os Sacramentos e de união fraterna.
Qual pastor em visita a essas comunidades, Dom Bucciol diz sentir-se dignificado diante desse contato simples, imediato, de uma fé profunda e de um amor a Cristo e à Virgem Maria.
O bispo de Livramento de Nossa Senhora reconhece na experiência das Comunidades Eclesiais de Base umas das grandes riquezas que da Conferência de Medellín (1968) em diante a Igreja no Brasil – e na América Latina em geral – desenvolveu e que vale a pena cuidar.