quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Carta das CEBs Ampliada Nacional - janeiro de 2016

Desde as terras vermelhas do norte do Paraná, na cidade de Londrina, os 70 participantes da Ampliada Nacional das CEBs, entre os que destacamos a presença de Dom Orlando Brandes, arcebispo da arquidiocese que nos acolhe, Dom Giovane Pereira de Melo, bispo referencial do Setor CEBs na Comissão para o laicato na CNBB e Dom Manoel João Francisco, que acompanha as CEBs no estado do Paraná, Regional Sul II, celebrada entre os dias 29 a 31 de janeiro de 2016, queremos comunicar os passos dados para avançar no processo de construção conjunta do 14º Intereclesial das CEBs, que será realizado de 23 a 27 de Janeiro de 2018, com o tema “CEBs e os desafios no mundo urbano” e o lema “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex. 3,7).
A discussão sobre a construção do Texto Base foi o ponto de partida do debate entre os membros da Ampliada, aspecto que foi retomado em diferentes momentos do nosso encontro. A partir do método ver, julgar e agir, se pretende elaborar um texto de fácil compreensão que possa ajudar às lideranças das comunidades, partindo do que foi refletido no Seminário, que aconteceu nos dias 27 e 28 de Janeiro e que colocou em nosso meio 8 desafios: moradia, mobilidade, violência, sustentabilidade, trabalho, saúde, educação e tecnologias. O Texto Base quer mostrar a realidade do mundo urbano, seus processos históricos e os desafios que hoje devem ser enfrentados, tudo isso iluminado desde a reflexão bíblico-teológica e concretizado em experiências reais que mostram a historia e realidade das CEBs do Brasil.
Fomos enviados para conhecer diferentes comunidades da arquidiocese, o que nos ajudou a colocar os pés neste chão vermelho, olhar a realidade sócio-eclesial local e nos animar mutuamente com a caminhada de cada um. Nesse sentido fomos impactados pela chacina acontecida nos dias da Ampliada, na cidade de Londrina, sinal da violência que assola o mundo urbano. Também tentamos ser divulgadores entre o povo londrinense do Intereclesial e o que isso pode significar para eles.
O Secretariado do 14º Intereclesial mostrou os passos dados até hoje, partindo da história local e socializando os objetivos, metodologia, equipes, planejamento e os efeitos do projeto, assim como as possíveis fontes de financiamento do nosso encontro.
Igualmente foram encaminhados outros aspectos que formam parte do Intereclesial, como o cartaz, a oração, o cancioneiro, assim como o Seminário de Assessores e diferentes oficinas que serão realizadas. A reunião por grandes regiões foi momento para partilhar a caminhada dos diferentes regionais, organizar calendários conjuntos e distribuir as vagas para o Encontro Latino Americano a ser celebrado no Paraguai em setembro de 2016. A confraternização e partilha na noite cultural ajudou a estreitar os laços de amizade.
Junto com isso foram abordadas diferentes questões ao longo da Ampliada como a pesquisa sobre as CEBs no Brasil, o Projeto Memória e Caminhada, as vagas para o Intereclesial, o acontecido no encontro do Cone Sul, a composição da Ampliada, a comunicação e o site cebsdobrasil.com.br.
Não podemos esquecer os momentos de oração e celebração vividos nestes dias e que nos ajudaram a ver e ouvir os clamores do povo, a partilhar a vida das comunidades londrinenses e trazer para o nosso meio a vida e memória de tantos mártires que deram a vida pelo Reino.
Amem, Axé, Auêre, Aleluia

“Casa comum, nossa responsabilidade”

Esse é  o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica que, em todo o Brasil, será aberta pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) nessa quarta feira, 10 de fevereiro ou, no próximo domingo, o 1o da Quaresma. De fato, desde o ano 2000, essa será a 4a Campanha da Fraternidade Ecumênica. Reúne cinco Igrejas cristãs e diversas organizações interconfessionais. Dessa vez, além das Igrejas, essa Campanha da Fraternidade envolve também a Misereor, organização dos bispos católicos da Alemanha. O tema geral é o cuidado com a Terra, especialmente no que diz respeito ao saneamento básico que inclui o abastecimento de água urbano e rural; a coleta e tratamento de esgoto; o manejo adequado dos resíduos sólidos (lixo) e a drenagem das águas de chuva. Certamente, na realidade que, nesses dias, enfrentamos no Brasil, não podemos esquecer o combate a mosquitos que transmitem doenças que assolam a nossa população e provocam tantos males.  

As estatísticas mostram que, no Brasil, apesar dos esforços do governo nos últimos dez anos, ainda temos um longo caminho a percorrer no cuidado com a terra e com os nossos rios. É difícil compreender como um país que produz até aviões comerciais de grande porte não consegue solucionar os problemas de saneamento nem em cidades centrais como São Paulo e Rio de Janeiro. Os centros metropolitanos de médio e de grande porte enfrentam cada vez mais problemas relacionados à poluição da água.
 
Nas cidades, a maior parte do esgoto residencial e industrial contamina todas as águas superficiais, como rios, lagos, e o próprio oceano. Nos grandes rios brasileiros, ainda se veem esgotos serem jogados in natura.

É uma graça divina que, no Brasil, ao menos as cinco Igrejas que participam do Conselho Nacional de Igrejas (CONIC) tenham um desafio tão concreto e urgente para ligar com a celebração da Quaresma e da Páscoa. De fato, a responsabilidade pela Terra como causa comum tem de unir dois aspectos: o cuidado ambiental e a ecologia social. Tanto o Conselho Mundial de Igrejas, em seus documentos, como  o papa Francisco, na sua encíclica Laudatum sii, têm insistido: não se pode separar o equilíbrio ambiental e o cuidado com a justiça. Por isso, nessa CF 2016, o lema é a palavra bíblica: “Quero ver a justiça brotar como fonte e o direito correr como riacho que não seca” (Am 5, 24). Essa profecia confirma: O que para Deus é mais importante não é o culto e nem atos de devoção individual e sim que todos cuidem da justiça social e trabalhem para que, no país e no mundo, todos tenham respeitados os seus direitos  individuais, sociais e de saúde. Só assim, as celebrações se tornarão profundas e chegarão aos ouvidos de Deus.

Ao falar em saneamento básico, muita gente dirá que isso é obrigação do governo e que, sobre isso, os cidadãos comuns podem fazer pouco. De fato, em termos estruturais, é verdade: a primeira obrigação é do governo. No entanto, a tarefa dos cidadãos é velar e exigir que os seus direitos sejam respeitados. O trabalho das autoridades deve ser complementado pelo cuidado de toda a população. A limpeza de córregos e rios feita pelas autoridades públicas só funciona se a população colabora e não joga lixo nas ruas. Nessa linha, o texto-base da CF 2016, dirigido aos cristãos de todas as Igrejas e pessoas de boa vontade, sugere várias ações simples e cotidianas.
 
O objetivo é criar uma nova consciência de cuidado com a terra e com a água, assim como uma maior solidariedade social. O texto propõe que as comunidades cristãs estimulem as pessoas a fazerem a coleta seletiva do lixo caseiro e a tratar a rua como espaço coletivo a ser cuidado por todos. Além disso, como gesto comum, nessa Quaresma, pede que evitemos o consumismo. Como, em muitas Igrejas, o jejum é um costume tradicional do tempo da Quaresma, a CF 2016 propõe que façamos um dia de jejum, repartindo com uma família mais pobre o alimento daquele dia. Que essa CFE nos ajude a aprofundar a unidade das Igrejas que Deus quer e pede que vivamos.
 
“Ó Deus da vida, da justiça e do amor, Tu fizeste com ternura o nosso planeta, morada de todas as espécies e povos. Dá-nos assumir, na força da fé e em irmandade ecumênica (com as outras Igrejas cristãs), a corresponsabilidade na construção de um mundo sustentável e justo para todos. No seguimento de Jesus, com a alegria do Evangelho e com a opção pelos pobres. Amém”. (oração da CFE – Texto base, p. 73). 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Missão Continental: valorizar a experiência bonita das CEBs



Cidade do Vaticano (RV) - Amigo ouvinte, nesta edição do quadro “O Brasil na Missão Continental” concluímos a participação do bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora, Dom Armando Bucciol.

A edição passada foi dedicada ao tema da piedade popular, cuja expressão de fé dos nossos povos latino-americanos a Conferência de Aparecida (2007) buscou resgatar e valorizar ulteriormente. Nela, Dom Bucciol ressaltou, entre outras coisas, que “quando evangelizada, a religiosidade popular torna-se uma piedade profundamente cristã”.
Outra riqueza da nossa realidade de Igreja que a Conferência de Aparecida buscou resgatar e valorizar ulteriormente é a experiência bonita das Comunidades Eclesiais de Base. Na edição de hoje Dom Bucciol nos fala sobre esta experiência na realidade eclesial desta Igreja particular do centro-sul da Bahia.
Solidariedade
Entre outras coisas, ele nos diz que nas 21 paróquias de sua diocese existem umas 500 Comunidades Eclesiais de Base e conhecer a maioria delas, onde, apesar dos limites de todo tipo, os fiéis vivem valores extraordinariamente evangélicos de solidariedade, de leitura da Palavra de Deus, de celebração do culto, de preparação para os Sacramentos e de união fraterna.
Qual pastor em visita a essas comunidades, Dom Bucciol diz sentir-se dignificado diante desse contato simples, imediato, de uma fé profunda e de um amor a Cristo e à Virgem Maria.
O bispo de Livramento de Nossa Senhora reconhece na experiência das Comunidades Eclesiais de Base umas das grandes riquezas que da Conferência de Medellín (1968) em diante a Igreja no Brasil – e na América Latina em geral – desenvolveu e que vale a pena cuidar. 

O mundo da gente morre antes da gente

A vida que conhecemos começa a desaparecer lentamente, num movimento silencioso que se infiltra nos dias, junto com aqueles que fizeram da nossa época o que ela é



O drama de quem alcançou a promessa de uma vida longa é a solidão de estar vivo numa vida que já morreu
Há algo de desestabilizador no ato de testemunhar o momento exato em que um imortal morre

A expressão mais perfeita que conheço para explicar a brutalidade do acaso em nossas vidas é ainda a de Joan Didion. Ela disse, em simplicidade exata: “A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente”. Joan, jornalista e escritora americana, escreveu essa frase em seu livroO ano do pensamento mágico, no qual narra a morte repentina do marido e a sua busca para compreender o incompreensível. Nos últimos dias, Renata, a mulher de Eduardo Campos, repetiria aos amigos: “Não estava no script”.
Não poderia estar no script. Poucos homens planejaram a sua carreira política de forma tão meticulosa quanto Eduardo Campos. E então, ele toma café com a família, embarca num avião para dar sequência à sua primeira campanha presidencial, aquela que poderia levá-lo à presidência do Brasil não agora, mas em 2018, e morre. O gesto largo de uma vida interrompido num instante. Antes do final da manhã ele já não está. E os brasileiros de qualquer ideologia, ou sem nenhuma, são atravessados pela tragédia. A do homem perdido, em seu momento de máxima potência, mas também a de ser atingido pela força do incontrolável. Penso que cada um de nós, ou pelo menos a maioria, sentiu a lufada de vento entre as costelas, aquela que está sempre ali, mas fingimos que não existe.
De fato, a morte – repentina ou penosa, como nas doenças prolongadas, precoce ou tardia – é, como sabemos, a única certeza do nosso script. Um dia, simplesmente, já não se está. Como na cena do documentário de João Moreira Salles em que Santiago, o mordomo que dá título ao filme, cita o cineasta Ingmar Bergman: “Somos mortos insepultos, apodrecendo debaixo de um céu cruento e vazio”.
Se fizéssemos um retrato agora, de todos os vivos, teríamos também um obituário: daqui a 100 anos estaremos todos mortos. Olhamos pela janela e todos os que vimos em seu esforço cotidiano, carregando-se para o ponto de ônibus, sintonizando a rádio preferida ao sentar-se no carro, puxando assunto na padaria ou desferindo seu ódio e seu medo em pequenas brutalidades serão finados (palavra de tanto simbolismo), em menor ou maior prazo. Assim como finado será aquele que espia a única paisagem que não muda numa vida humana, a de que, para o indivíduo, o futuro está morto.

A verdade, que talvez nem todos percebam, é que se morre aos poucos. Não apenas pela frase clássica de que começamos a morrer ao nascer. De que cada dia seguinte arrasta o cadáver do dia anterior. De que cada amanhã é um dia a mais – mas porque é um dia a menos. Ao entrevistar os que envelheceram, descubro-os surpreendidos pelo drama menos nítido, aquele se infiltra lentamente nos interstícios dos dias: o de que o mundo da gente morre antes da gente.
Esse é o susto de quem alcançou a promessa da nossa época, a de uma vida longa. A de morrer só, mesmo quando cercado por filhos e netos. Só, porque aqueles que sabiam dele, aqueles que compartilharam o mesmo tempo, morreram antes. Aqueles que conheceram o menino, o levaram embora ao partir. Os que o viram jovem carregaram a sua juventude em lembranças que desapareceram porque já não há quem delas possa lembrar. Só, porque um certo modo de estar no mundo acabou antes. A solidão de estar vivo numa vida que já morreu.
Pouco antes de lançar O ano do pensamento mágico, Joan Didion perdeu a única filha. Depois do marido, a filha. Era a dor não nomeável da inversão da lógica, a de sepultar aquela que deveria sepultá-la. Mas era algo ainda além, o de se tornar a mulher que restou. Seu livro seguinte, Noites Azuis, fala dessa condição, a de ter sobrado viva ao envelhecer. A de se descobrir só e frágil, atenta aos degraus para não cair. Para mim, é um livro melhor do que o primeiro, mas diz de algo ainda mais duro do que a perda do companheiro de uma vida. Talvez tenha feito menos sucesso por falar dessa dor insuportável, em que viver mais do que os seus afetos é ter de viver a morte que ultrapassa a morte.
Pensava que essa era uma condição restrita à velhice. A surpresa final de que o melhor cenário, o de viver mais, era também o de perder mais. Mas descobri que esse morrer começa muito antes. E de forma ainda mais insidiosa. Esses meses de 2014 têm nos mostrado isso com uma força talvez maior. É uma coincidência, claro, não uma confluência escrita nas estrelas ou em qualquer profecia. O mundo da gente, em especial das gentes com mais de 40 anos, porque é nessa altura que sentimos que já temos um passado e o futuro é uma segunda metade incerta, tem morrido muito. E rápido, às vezes um sobressalto por dia, às vezes dois.
Cada um tem seu susto. Acho que o meu foi com Nico Nicolaiewsky, que levava junto com ele momentos em que fui completamente feliz – e são tão raras as vezes em que somos completamente felizes – assistindo aTangos &Tragédias no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Morreu cinco dias depois de Eduardo Coutinho e Philip Seymour Hoffman, dois gigantes. Cada um com sua tragédia, abriram um buraco na paisagem do mundo. Depois, José Wilker um dia não acordou. E não haveria Vadinho para me assombrar.
Não parou mais. De repente o mundo já não tinha mais Gabriel García Márquez, Jair Rodrigues, Alan Resnais, Paco de Lucia, Shirley Temple, Luciano do Valle, Nadine Gordimer, Paulo Goulart, Bellini, James Garner, Rose Marie Muraro, Max Nunes, Plinio de Arruda Sampaio, Lauren Bacall. No espaço de seis dias de julho, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna desapareceram. Rubem Alves, que desfazia anos nos aniversários e dizia que “a hora para comer morangos é sempre agora”. De repente o mundo já não tinha Vange Leonel. Como é possível? Eu a tinha lido no Twitter um instante atrás. E Nicolau Sevcenko se foi horas depois de Eduardo Campos.
Nenhuma dessas pessoas convivia comigo, eu não frequentava a casa de nenhuma. A maioria delas nunca sequer vi. De fato, o que delas vive em mim independe de sua existência física. Algumas são apenas flashes de um cotidiano em que por décadas elas apareceram, seja em novelas, na narrativa de um jogo de futebol, num debate político. Outras, me constituem. Seus livros e músicas não têm idade, nos filmes ainda são jovens e belas. Concretamente, deveria fazer tão pouca diferença estarem ou não aqui, na miudeza dos dias, numa rotina que de qualquer modo não faria parte da minha, quanto Sófocles, que morreu mais de dois mil e quatrocentos anos atrás, ou Shakespeare ou Beethoven ou Picasso. Ou Machado de Assis. Ou mesmo Garrincha. Estes, que conseguiram transcender sua vida ao proporcionar transcendência pela grandeza de sua obra, para as sucessivas gerações, ao infinito, são imortais. É um fato, todo mundo sabe, mas descubro que não é bem assim.
Qual é a diferença de Gabriel García Márquez estar vivo ou morto, se a chance de eu tomar um café com ele era remota e sempre vou ter meu O amor nos tempos do cólera na estante, para que ele possa reviver em mim? O que percebo é que há uma diferença. Há algo de melancólico, desestabilizador, em testemunhar o momento exato em que um imortal morre.
Suspeito que, naquele momento-limite em que a vida se extingue, a permanência da obra faça pouca diferença. Talvez o imortal que morre trocasse toda a sua imortalidade por dividir uma última vez uma garrafa de vinho com o melhor amigo ou por mais uma noite de amor lambuzado com a mulher que ama ou apenas para ler o jornal na mesa da cozinha no café da manhã. Talvez o imortal fique mortal demais nessa hora, fique parecido demais com todos os outros. Como disse Woody Allen: “Não quero atingir a imortalidade através de minha obra. Quero atingi-la não morrendo”. E desde então temo me confrontar com seu obituário numa manchete na internet.
De certo modo, é assim que o mundo da gente começa a morrer antes da gente. Não apenas pela perda dos nossos afetos de perto, mas também pelo filme que Philip Seymour Hoffman não fará ou pelo livro que Ariano Suassuna não escreverá enquanto dividimos com ele o mesmo tempo histórico. Ou simplesmente por nenhum deles poder dizer mais nada de comezinho ou mesmo fazer alguma besteira, qualquer coisa de humano. Deles ficaremos só com o que foi grande, mesmo a bobagem terá de ser relevante para merecer permanecer na biografia. Ao mesmo tempo em que a morte os devolve de imediato à condição humana, os tira para sempre dela. E logo o boteco de João Ubaldo já não terá cheiro.
A primeira vez que senti a infiltração de algo irreversível no meu mundo foi a morte de Marlon Brando, dez anos atrás. A morte ainda não me bafejava como hoje, mas passei alguns dias prostrada por alguém que para mim já tinha nascido imortal. Percebi então que fazia diferença lembrar dele berrando “Steeeeeeeela” em Um bonde chamado desejo e, ao mesmo tempo, poder mencionar qualquer coisa boba como: “Nossa, como ele está gordo agora”. De repente, ele não podia mais engordar nem nos espantar com sua existência descuidada. Só restaria grandioso. E, portanto, fora da vida. (Da nossa vida.)
Marlon Brando, como García Márquez, como Ariano Suassuna, como tantos agora, não se sabiam meus, mas eram. Ao me deixarem, morro um pouco. Uma versão de nós morre sempre que morre alguém que amamos e que nos ama, porque essa pessoa leva com ela o seu olhar sobre nós, que é único. Uma parte de nós também morre quando não podemos mais compartilhar a mesma época com quem fez do nosso mundo o que ele é. E agora, fico esperando a cada momento uma nova notícia, porque sei que elas não mais deixarão de chegar.
Tive uma reação estranha ao saber da morte de Robin Williams. Quantos anos ele tinha?, perguntei primeiro. Sessenta e três. E me senti apunhalada com a resposta. Muito cedo, muito cedo. De que morreu? Parece que foi suicídio. E me senti de imediato aliviada. Pode parecer surpreendente, mas meu alívio se deu porque de que alguma maneira era uma escolha. Não era coração, não era câncer, não era AVC, não era avião. Por mais terrível que seja o ato de interromper a vida, ele pressupõe, em alguma medida, uma potência e um controle.
Ao mesmo tempo em que a morte devolve aqueles que admiramos à condição humana, os tira dela para sempre
Pode-se argumentar que uma depressão ou um desespero impede a escolha, mas acho que essa não é toda a verdade. Nossas escolhas nunca são consumadas em condições ideais nem nosso arbítrio é totalmente livre. Só conseguimos fazer escolhas determinadas pelas circunstâncias do que vivemos e do que somos naquele momento. Por mais que nos surpreenda a escuridão do homem que nos deu tanta alegria, de algum modo ele elegeu a hora de morrer. O que para muitos foi razão para aumentar a dor pela sua morte, porque ela poderia ter sido evitada, para mim foi alívio por ele não ter sua vida interrompida à revelia. De algum modo, me soaria mais insuportável se Robin Williams tivesse morrido tão cedo por um infarto ou um acidente.
Acredito mais na interpretação do jornalista americano Lee Siegel, quando ele diz que “talvez tenha sido a empatia que o matou – e não seu desespero com o diagnóstico recente de Parkinson”. A capacidade de Robin Williams para vestir a pele do outro, de todos os outros, levada por ele a patamares quase insuperáveis. “Sua necessidade passional de se transformar em todos que ele encontrava, qualquer que fosse sua origem étnica ou social – como se com isso pudesse vencer sua solitária e irreversível finitude humana.” Há algum tempo o lento morrer do seu mundo o assombrava, segundo os mais próximos Robin parecia incapaz de superar o desaparecimento do amigo e do homem que o inspirou, o comediante Jonathan Winters, que se foi em abril.
Seus fãs, as pessoas cuja vida a sua vida tornou melhor, deixaram flores nos lugares em que viveram seus personagens. Um banco de praça em que gravou cenas de O Gênio Indomável, com Matt Damon. A casa em que foi Ms. Doubtfire, a babá. Era ali que ele morria para nunca morrer. Era ali que ele jamais deixaria de estar. Não há lugar para a morte. Como haveria lugar para a morte? Mas é preciso dar um lugar à morte para que a vida possa continuar. É para isso que criamos nossos cemitérios dentro ou fora de nós. Em geral, mais dentro do que fora. A vida é também carregar os mortos no último lugar em que podem viver, em nossas memórias. E aos poucos nos tornamos um cemitério cada vez mais habitado por aqueles que só vivem em nós.
A morte de Robin Williams, Gabriel García Márquez, Ariano Suassuna e de tantos levou um pouco de mim. Minha morte levará um pouco deles e de tantos, como a lembrança das lágrimas que chorei ao ver Sociedade dos poetas mortos ou a imagem de Aureliano Buendía que só eu tinha ou a minha pedra do reino. Morro um pouco com cada um deles porque vivi um pouco com cada um deles.
É essa a morte silenciosa que vai se alastrando pelos dias. Conto meus imortais ainda vivos, os de longe e os de perto. Digo seus nomes, como se os invocando. Peço que não se apressem, que não me deixem só, que não me deixem sem saber de mim. O acaso, a vida que muda num instante, me assusta tanto quanto esse meu mundo que morre devagar. É essa a brisa quase imperceptível que adivinho soprando nos meus ossos. Muitas vezes finjo que não a escuto. Mas ela continua ali, intermitente, sussurrando para eu não esquecer de viver.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Site: elianebrum.com Email:elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

O SACRAMENTO DA CANECA



Há uma caneca de alumínio. Daquele antigo, bom e brilhante. O cabo é roto. Mas lhe confere um ar de antiguidade. Nela beberam os 11 filhos de pequenos a grandes. Ela acompanhou a família nas muitas mudanças. Da roça para a vila. Da vila para a cidade. Da cidade para a metrópole. Houve nascimentos. Houve mortes. Ela participou de tudo. Veio sempre junto. É a continuidade do mistério da vida na diferença de situações vitais e mortais. Ela permanece. Sempre brilhante e antiga. Creio que quando entrou em casa já devia ser velha. Dessa velhice que é mocidade porque gera é dá vida. Peça central da cozinha.
Sempre que se bebe nela não se bebe água. Mas o frescor, a doçura, a familiaridade, a história familiar, a reminiscência da crianã sôfrega que sacia a sede. Pode ser qualquer água. Nesta caneca, ela é sempre fresca e boa. Na casa de todos que matam a sede bebem desta cxaneca. Como num rito todos exclamam: Como é bom beber desta caneca! Como a água aqui é boa! E trata-se da água que, pelos jornais, vem mal tratada. Vem do rio imundo da cidade. Cheia de cloro. Mas por causa da caneca a água se torna boa, saudável, fresca e doce.
O filho regressa. Percorrei o mundo. Estudou. Chega. Beija a mãe. Abraça os irmãos. Matam-se saudades sofridas. As palavras são poucas. Os olhares longos e minuciosos. É preciso antes beber o outro para amá-lo. Os olhos que bebem falam a linguagem do coração. Só depois do olhar, a boca fala das superficialidades: Como você ficou gordo! Você ainda é bonito! Como ficou adulto! O olhar não fala nada disso. Ele fala o inefável do amor. Só a luz entende. “Mamãe, estou com sede! Quero beber da velha caneca!”
E o filho tomou de tantas águas. A acqua di San Pellegrino. As águas da Alemanha, da Inglaterra, da França, a boa água da Grécia. Água das fontes cristalinas dos Alpes, do Tirol, das fontes romanas, a água de S. Francisco. Água de Ouro-Fino, de Teresópolis, de Petrópolis. Tantas águas… Mas nenhuma é como essa. Bebe uma caneca. Não para matar a sede do corpo. Esta as tantas águas matam. Mas a sede do arquétipo familiar, a sede dos penates paternos, a sede fraternal, arqueológica, das raízes donde vem a seiva da vida humana. Esta sede só a caneca pode matar. Bebe uma primeira caneca. Sofregamente. Terminou com um suspiro longo, como quem mergulhou e veio à tona. Depois bebe outra. Lentamente. É para degustar o mistério que a caneca contém e significa.
Por que a água da caneca é boa e doce, saudável e fresca? Porque a caneca é um sacramento. A caneca-sacramento confere à água da bondade, doçura, frescor e saúde.

Por Leonardo Boff em Os Sacramentos da vida e a vida dos sacramentos.
FONTE: BLOG A VISÃO DE UM SEMINARISTA

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

CEBs: memória, desafios, prospectivas, em tempos de Francisco…



CEBs: memória, desafios, prospectivas, em tempos de Francisco…



Há poucos dias, ao rememorar dois anos da realização do XIII Encontro Intereclesial das CEBs, em Juazeiro – CE, foi compartilhado um texto de autoria de Pe. Vileci Vidal, coordenador do mesmo Encontro, a título de memória. Tal iniciativa nos instiga à exploração de várias possibilidades de reflexão. Uma delas – que aqui trato de apenas enunciar: empreender um exercício retroprospectivo da caminhada das CEBs, em tempos de Francisco, Bispo de Roma, após quarenta anos desde a realização do primeiro Intereclesial, em Vitória – ES, em 1974, e após meio século desde o encerramento do Concílio Vaticano II e da celebração do Pacto das Catacumbas (1965) e da realização da Conferência Episcopal Latinoamericana de Medellín (1968).
Quem se propõe a um exercício do gênero – aqui apenas enunciado, vale reiterar -, deve estar pronto, não apenas a reconhecer avanços significativos feitos, desde então, mas sobretudo a ousar reconhecer insuficiências, desafios e apelos prospectivos que o Espírito nos propõe como novas tarefas, bem como a empenhar-nos em alternativas de enfrentamento e superação desses desafios, a curto, médio e longo prazos, sempre a partir de balizas referenciais de certo consenso.
1. Valores a não perdermos de vista
Principalmente em épocas de grave risco de amnésia e de ininterrupto bombardeio de sedutores modismos, vale refrescar a memória acerca de alguns desses valores referenciais, priorizados na caminhada das CEBs:
– Ao longo da caminhada das CEBs, tem sido saudável – seja do ponto de vista teológico como do ponto de vista político-pedagógico – assumir as atividades das CEBs mais como tarefas a serviço do Reino de Deus e Sua justiça do que como atividades diocesanas ou paroquiais, ainda que uma coisa não exclua necessariamente a outra, desde que as últimas se ponham a serviço do primeiro, e não como realidades “auto-referenciadas” (para usar uma expressão frequente nas reflexões do Papa Francisco). Nem a paróquia, nem a diocese, nem a(s) Igreja(s) existem em função de si mesmas, à maneira de uma instituição cuja meta máxima seja a autopreservação, e cujos ministros atuem como meros funcionários exclusivamente voltados para a “sua” instituição. Somos chamados a ser cada dia mais vigilantes e autocríticos quanto a este risco real, se queremos ser fiéis ao Seguimento de Jesus e do Reino por Ele anunciado e inaugurado: “Entre vocês, não seja assim!” (cf. Mc 10, 42-45).
– Com base na primazia do Reino de Deus e, portanto, do seguimento de Jesus, é que se tem encarado as CEBs, não apenas como “um novo jeito de ser Igreja”, mas também (o que, na prática, tem sido bem menos evidente) como “um jeito de toda a Igreja ser”. Isto merece, sim, ser aprofundado. Nesse sentido, até do ponto de vista da atual conjuntura eclesial, sopram ventos favoráveis, em tempos de Francisco. Ao redigir essas linhas, me vêm à lembrança mais de três décadas de perseguição à “Igreja na Base”, em pontificados precedentes. No auge dessa crise, eis que, num de tantos encontros de pastorais sociais, onde se encontravam leigos, leigas, religiosas, religiosos, padres, o próprio bispo diocesano, eis que Pe. José Comblin, ao dizer sua mensagem, referia-se às CEBs como o futuro da Igreja. Para além do seu tormentoso presente, elas portavam sementes vivas e vivificantes do Reino de Deus. A despeito das hesitações e medos de setores da hierarquia, as CEBs são espaços de exemplar convivência eclesial: nelas se fazem presentes e atuantes, como irmãos e irmãs, lado a lado, leigas, leigos, religiosas, religiosos, diáconos, padres, bispos, papa… O que, então, estaria por trás de tal desconfiança? Um recôndito desejo de controle, de manutenção de monopólio?
– Outro princípio que se tem revelado salutar, no enfrentamento da desejável diversidade de carismas dos membros da Igreja, é o chamado “sensus fidelium”, o sentimento expresso pela maioria dos membros eclesiais, de modo a constituir um saudável contraponto à sanha imperial ou à “mentalidade principesca” não raro ainda presente em setores hierárquicos, inclusive entre figuras bem-intencionadas, receosas de ser a Igreja tomada por gente sem confiança. Até que ponto nesse extremado zelo de ortodoxia institucional não incide certa pretensão a uma apropriação de interpretação da vontade do Espírito Santo, em Sua ação no mundo e na(s) Igreja(s)?
– Fala-se muito no legado do Concílio Vaticano II, inclusive no princípio da colegialidade, mas, na vida cotidiana, isto acaba, por vezes, letra morta, preferindo-se manter a segurança e o controle interno, refletindo, antes, a posição privilegiada de quem comanda.
– Em virtude de sua vocação transformadora, inspirada na incessante busca de “um novo céu e uma nova terra”, as CEBs se movem numa dupla e bem articulada perspectiva de renovação da(s) Igreja(s) e de renovação da(s) sociedade(s).
Ao buscar reavivar alguns princípios de referência para os protagonistas das CEBs (e de outros segmentos eclesiais similares), não nos esquecemos também de tomar em consideração as contradições e insuficiências, na observância dos mesmos. Isto não invalida nem deslegitima os sensíveis avanços ético-políticos desse período.
2. Conquistas acumuladas, graças (também) à vigência desses valores
Ao longo de meio século de caminhada (convém lembrar que o surgimento das CEBs remonta aos anos 60, bem antes do primeiro Encontro Intereclesial (Vitória – ES, 1974). Desde então temos observado significativas conquistas, tanto do ponto de vista intra-eclesial quanto do ponto de vista de sua inserção no tecido societal. Examinemos, de passagem, cada uma dessas dimensões (intra-eclesial e societal).
A) Ao interno da Igreja, temos conseguido, sobretudo desde o Vaticano II e, ainda com mais força, após Medellín, expressivas conquistas que vale a pena rememorar resumidamente:
· Na concepção de Igreja-Povo de Deus, firmando a consciência da dimensão comunitária do conviver eclesial, a contrapor-se a práticas e concepções centradas no controle hierarquizante , as CEBs foram firmando-se como pequenas comunidades de cristãos (católicos e de outras Igrejas- irmãs), sob o impulso do Espírito Santo, a fermentar o tecido social, com suas práticas inovadoras de solidariedade, de partilha, de serviço à causa libertadora dos pobres, ao sentimento de igualdade fraterna e de justiça social.
· A criação e a animação de pequenos núcleos de cristãos, no campo e na cidade, desejosos de aprofundar a vivência de sua fé, à luz do Evangelho, buscando ser “fermento na massa”, razão por que tanto priorizam o trabalho nos abençoados círculos bíblicos.
· Na animação desses pequenos núcleos, inclusive por meio dos círculos bíblicos, os membros das CEBs empenhavam-se em renovar a Igreja e o mundo, a partir do seu próprio testemunho de discípulos-missionários do Reino de Deus, cônscios de que a busca de Liberdade para a qual se sentiam vocacionados, só se viabilizava igualmente por caminhos de Liberdade. Nada de se pretender uma Igreja nova ou um mundo novo, sem que as respectivas sementes não estivessem fazendo o seu trabalho, já agora, em suas vidas, ainda que de forma embrionária.
· Os avanços alcançados tiveram muito que ver com o jeito de organização dessas comunidades, sob vários aspectos, tais como: zelar pela horizontalidade das relações entre seus membros – leigas, leigos, religiosos, religiosas, diáconos, padres, bispos… A este propósito, não é à toa que os espaços de reuniões e encontros tinham a forma de círculo; a efetiva participação dos seus membros nas decisões tomadas; a forma colegiada de coordenação, e por tempo determinado, sem se permitir que a equipe coordenadora se apossasse da comunidade, eternizando-se na coordenação; a prática da cotização para assegurar a realização das atividades que requeressem despesas, sem precisarem de apelar a “doações” comprometedoras; a seriedade com que se assumiam as tarefas de formação; o costume de não se deixar controlar pela assessoria, razão por que muito se estimavam o rodízio e a forma horizontal de se fazer assessoria; o cuidado em não se cultuar uma pessoa ou um pequeno grupo, mas, antes, primar pelo incentivo ao exercício de uma profecia coletiva (um povo de profetas e profetisas); o zelo por cantos capazes de traduzir os valores correspondentes; o cuidado de não confundir as tarefas próprias de CEBs com a agenda da paróquia, entre tantos outros pontos.
B) No âmbito societal, vamos, igualmente, perceber a densidade e o potencial transformador da contribuição das CEBs, na perspectiva de ousarem caminhos alternativos, do ponto de vista ético-político que tiveram efetiva e reconhecida influência na gênese de movimentos populares, sindicais e políticos, em especial a partir do final dos anos 70 e começos dos anos 80. Que práticas principais das CEBs e de semelhantes organizações eclesiais conhecidas como “Igreja na Base” podem ser destacadas, como decisivas na configuração organizativa e formativa daqueles movimentos e forças sociais de transformação? Eis algumas:
– o trabalho de nucleação, tão característico das organizações de base de nossa sociedade, em fins dos anos 70 e começos dos anos 80, deve muito ao jeito das CEBS (e de organizações eclesiais similares), de se organizarem. Núcleos eram uma referência emblemática, na gênese desses movimentos de caráter transformador;
– a forma circular que tomavam as reuniões e os encontros, conferindo um sentido de horizontalidade e de promoção do protagonismo de todos, constituía uma espécie de antídoto contra a tendência de esquerdas ortodoxas, centradas no poder do chefe ou de um pequeno grupo mandante, ao mesmo tempo em que se contrapunha à tendência ao culto do indivíduo, em prol do protagonismo da base, do conjunto dos sujeitos em ação;
– a coordenação dos núcleos se exercia de forma colegiada, em equipe – e equipe com tempo determinado, de modo a assegurar vez na coordenação a quem era da base, e de retornar à base quem tivesse assumido um período de coordenação;
– a cultura do ofício de delegado, delegada: alguém escolhido coletivamente para representar o núcleo, não ia por conta própria, a representar a si mesmo, mas tinha a incumbência de levar para a respectiva instância a posição do coletivo, função pela qual devia prestar contas à assembléia, após o retorno dessa ou naquela instância;
– a rotatividade de dirigentes e coordenadores, também, característica do jeito organizativo das CEBs, teve forte influência nas organizações de base de nossa sociedade, do período considerado;
– o hábito de autofinanciamento de suas atividades, igualmente, teve influência nas mesmas organizações de base. Isto evitava dependência de instâncias poderosas, as quais, uma vez “ajudando” aquelas organizações de base, sentiam-se no direito de extrair vantagens diretas ou indiretas. Havia uma forte consciência do dito popular, segundo o qual: “Quem come do meu pirão, prova do meu cinturão”, risco a evitar!
– revelava-se igualmente salutar a diversificação de tarefas, a serem assumidas por todos, cada um, cada uma, à sua vez. Estimulava-se que, dentro do possível, todos pudessem assumir diferentes tarefas, de modo a evitar os privilégios concedidos aos “especialistas”, como se fossem os únicos que pudessem dar conta dessa ou daquela tarefa. Em princípio, todos fazem de tudo: trabalhos manuais e trabalhos intelectuais;
– seja no dia-a-dia, seja nos intereclesiais, o foco do processo organizativo, quanto aos compromissos em relação ao âmbito social, era o engajamento na busca de construção da nova sociedade, e não de um “novo Estado”, razão por que se mantinha um saudável distanciamento crítico frente às instâncias do Estado, algo que se foi perdendo perigosamente, como se vê atualmente;
– o cultivo prazeroso de uma espiritualidade incarnada de compromisso e de testemunho evangélico, exercitada tanto de modo coletivo, quanto de modo individual: a oração constitui verdadeiro alimento e reabastecimento para o enfrentamento dos desafios cotidianos. Esta dimensão também influiu positivamente nas organizações de base de nossa sociedade, à medida que adotavam a prática da mística (aqui, já num sentido laical, alguns chamam de “mística revolucionária”).
3. Apelos prospectivos
Diante desse denso legado, somados a velhos desafios, despontam alguns, de novo tipo, em relação aos quais submeto, fraternalmente, à nossa reflexão comum algumas considerações, em forma de perguntas. E o faço, com humildade, buscando dialogar, especialmente, com quem pensa diferente de mim, e de quem espero sinceramente seguir aprendendo.
– Especialmente pelo seu caráter celebrativo, seguem sendo uma bênção os Intereclesiais e os encontros preparativos. Diante das cada vez mais complexas exigências organizativas contemporâneas, será que, aos Intereclesiais e encontros preparatórios, não se requer um acompanhamento mais orgânico das atividades rotineiras das CEBs, em suas distintas instâncias organizativas?
– Reconhecendo e exaltando a fecundidade dos vários espaços formativos (encontros, seminários, etc.), será que, sozinhos, eles se acham mesmo à altura dos velhos e novos desafios? Ao me/nos fazer tal pergunta, penso em uma série de condições do processo formativo contínuo, tais como
– os atuais espaços formativos têm sido normalmente acompanhados presencialmente pelo conjunto da base ou, em geral, são destinados a membros da coordenação?
– Sabemos a crescente complexidade própria de uma “mudança de época”, com desdobramentos também na esfera formativa. Nesse contexto, já não bastam os conteúdos até aqui trabalhados. Há imperiosa urgência de se articular diferentes dimensões – econômica, política, cultural, religiosa… -, de modo a permitir um contínuo exercício da memória histórica (dos feitos sócio-históricos e da caminhada eclesial), das diversas dimensões das relações humanas – de gênero, de espacialidade, geracional, étnica, política, cultural, espiritualidade, bíblico-teológica, pastoral, subjetividade, ecológica, cósmica, etc., etc., etc. Em que espaços são trabalhadas, de modo articulado, tais dimensões? Quem as acompanha, enquanto equipe formadora?
– E quanto aos formadores e formadoras, têm tido o ininterrupto cuidado com sua prória reeducação permanente? Qual o perfil de nossos assessores e assessoras? Tem havido renovação?
– Do ponto de vista do acompanhamento ético-político da caminhada das CEBs (e da “Igreja na Base”), será que não se faz urgente um amplo exercício de autocrítica frente à qualidade dos laços tecidos com o poder? Será que, a despeito de tantos sinais preventivos, não se tem ido com sede demais ao pote das instâncias políticas e governamentais, sem a necessária vigilância crítica, fundamental ao exercício da profecia, independentemente do tempo e do lugar e frente a não importa que tipo de poder?
– Não será hora de, em vez de seguirmos apostando no que não tem dado certo, ousar ensaiar passos alternativos, na busca de construção de um novo mundo, inspirados em práticas e concepções e caminhos que já experimentamos, com o compromisso de fazè-lo, a partir dos desafios da atualidade?
– Após décadas de duras adversidades ao interno da própria Igreja, não é chegada a hora de as CEBs potencializarem seu protagonismo, nas pegadas do Papa Francisco, assumindo como prioridade também sua as reiteradas inquietações do Bispo de Roma, tão bem expressas, inclusive, em três dos seus escritos: a Exortação Apostólica “Evanelii Gaudium”, a Encíclica “Laudato si´ e seus discursos dirigidos aos movimentos populares, em Roma e em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), que devem ser profundamente estudados e debatidos, como uma de suas tarefas organizativas e formativas?

Por Alder Júlio Ferreira Calado em 14 de Janeiro de 2016

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