Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos será lançada na próxima quarta-feira, dia 20, no Congresso Nacional. Ideia é criar um fórum paralelo de discussão do tema, após a vitória do deputado e pastor Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara.
Será lançada na próxima quarta-feira, dia 20, a Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos. Após a indicação de Marco Feliciano (PSC-SP) para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM), parlamentares envolvidos com a defesa dos direitos humanos e minorias decidiram criar um novo fórum para a discussão do tema.
A nova frente atuará de forma articulada com os movimentos sociais e a sociedade civil organizada em todos os espaços de negociação e decisão na Câmara dos Deputados. O objetivo é contribuir para o pleno exercício dos direitos de todos.
Além disso, quer manter a prática que vinha sendo implantada, por meio da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, de acolher todos os setores da população que demandem a ação da Casa na defesa de seus direitos humanos e de cidadania. Esses objetivos serão buscados de maneira suprapartidária.
O deputado e pastor Marco Feliciano é acusado por parlamentes e deputados de racismo e de homofobia. Ele já responde a processos no Supremo Tribunal Federal (STF) por episódios anteriores a sua eleição.
terça-feira, 19 de março de 2013
Francisco terá dificuldades para controlar ‘gerontomachoburocracia’ da Cúria Romana
Esse neologismo foi recolhido pelo autor deste artigo durante um Sínodo Mundial de Bispos, realizado no Vaticano, nos anos 80, para rememorar o Concílio Vaticano II (1962/1965) e suas revolucionárias decisões. Na ocasião, houve protestos de feministas contra uma administração difusa e confusa, integrada por homens idosos e que, em sua maioria, burocratizam as decisões.
A maior e a mais evidente dificuldade do papa Francisco, em seu incipiente pontificado, será a de tornar hegemônico o seu poder sobre a Cúria Romana. Em termos políticos, esse governo dentro do governo da Igreja Católica Romana constitui uma ‘gerontomachoburocracia’, ou seja, uma administração difusa e confusa, integrada por pessoas idosas, do sexo masculino e que, em sua maioria, tendem a transformar numa instância burocrática a tomada de decisões e sua execução.
Esse neologismo foi recolhido pelo autor deste artigo ao fazer a cobertura jornalística de um Sínodo Mundial de Bispos, realizado no Vaticano, nos anos 80, para rememorar o Concílio Vaticano II (1962/1965) e suas revolucionárias decisões.
De um momento para outro, naquela ocasião, o Altar da Confissão, na basílica de São Pedro, foi ocupado por feministas norte-americanas que imitavam a celebração de uma missa. Paralelamente, algumas militantes distribuíam um panfleto em que apontavam o Estado do Vaticano, e a Cúria Romana, em particular, como redutos ‘gerontomachoburocráticos’.
O próprio Sínodo, em sua composição, parecia dar razão às feministas, em alguns aspectos: entre os 400 participantes da assembleia sinodal, havia apenas quatro mulheres, entre elas a madre Teresa de Calcutá. Fomos tentar entrevistá-la na porta de saída sobre as suas impressões a respeito dos debates: “O Papa já falou tudo”, respondeu madre Teresa, a religiosa que doou a sua vida aos mais miseráveis entre os mais excluídos.
Parafraseando madre Teresa, seria o caso de perguntar: e o papa Francisco, já falou tudo?
É claro que não. Afora os belos e oportunos gestos de simplicidade e afora os seus sermões em que prega a mensagem de Jesus Cristo misericordioso, o Papa ainda não enfrentou as manobras dos lobbies que manejam a Cúria como se fosse uma propriedade particular, de cunho mafioso.
Em termos de política externa, ainda não se confrontou, por exemplo, com a questão das Ilhas Malvinas, sobre as quais o governo do seu país legitimamente reivindica soberania. O Papa será naturalmente chamado a se pronunciar de forma clara, quando acontecer o momento oportuno.
Mesmo assim, depois de décadas em que as palavras pontifícias praticamente só se escutavam exortações à disciplina, ouvem-se agora pregações em linguagem simples. Elas são acompanhadas por gestos modestos e motivadores do diálogo. Gestos que incluem um ‘bom dia’, ‘um ótimo almoço’ e a dispensa da pompa e da circunstância.
A própria nota em que negou cumplicidade com a ditadura argentina teve um toque diferente. Refere-se às denúncias com o uso do seu nome de batismo e não com o nome de pontífice. Confirma ter sido ouvido pela justiça, como testemunha, no caso da Esma (Escola Mecânica da Armada) e de seu então amigo, o almirante Emilio Massera.
Aponta, sem citar, o jornal ‘Página 12’, de Buenos Aires, como um veículo transmissor de uma campanha ‘anticlerical’. Ao fazer essa denúncia, desperta o corporativismo do clero, como despertaria se se tratasse de pastores, de rabinos ou de militares.
Mesmo assim, não faz uma defesa belicosa. Abre-se para o diálogo. É justamente nessa direção que vários teólogos da libertação, latino-americanos e europeus, propõem que o novo pontificado caminhe, como disseram em programa da tevê GloboNews os teólogos Leonardo Boff e José Eduardo de Oliveira e Silva, da diocese de Osasco/SP, e o jornalista espanhol Juan Árias.
Esse diálogo tem necessariamente como referência fundamental o Concílio Vaticano II e abrange tanto o plano interno quanto o plano externo da Igreja Romana.
Dermi Azevedo
A maior e a mais evidente dificuldade do papa Francisco, em seu incipiente pontificado, será a de tornar hegemônico o seu poder sobre a Cúria Romana. Em termos políticos, esse governo dentro do governo da Igreja Católica Romana constitui uma ‘gerontomachoburocracia’, ou seja, uma administração difusa e confusa, integrada por pessoas idosas, do sexo masculino e que, em sua maioria, tendem a transformar numa instância burocrática a tomada de decisões e sua execução.
Esse neologismo foi recolhido pelo autor deste artigo ao fazer a cobertura jornalística de um Sínodo Mundial de Bispos, realizado no Vaticano, nos anos 80, para rememorar o Concílio Vaticano II (1962/1965) e suas revolucionárias decisões.
De um momento para outro, naquela ocasião, o Altar da Confissão, na basílica de São Pedro, foi ocupado por feministas norte-americanas que imitavam a celebração de uma missa. Paralelamente, algumas militantes distribuíam um panfleto em que apontavam o Estado do Vaticano, e a Cúria Romana, em particular, como redutos ‘gerontomachoburocráticos’.
O próprio Sínodo, em sua composição, parecia dar razão às feministas, em alguns aspectos: entre os 400 participantes da assembleia sinodal, havia apenas quatro mulheres, entre elas a madre Teresa de Calcutá. Fomos tentar entrevistá-la na porta de saída sobre as suas impressões a respeito dos debates: “O Papa já falou tudo”, respondeu madre Teresa, a religiosa que doou a sua vida aos mais miseráveis entre os mais excluídos.
Parafraseando madre Teresa, seria o caso de perguntar: e o papa Francisco, já falou tudo?
É claro que não. Afora os belos e oportunos gestos de simplicidade e afora os seus sermões em que prega a mensagem de Jesus Cristo misericordioso, o Papa ainda não enfrentou as manobras dos lobbies que manejam a Cúria como se fosse uma propriedade particular, de cunho mafioso.
Em termos de política externa, ainda não se confrontou, por exemplo, com a questão das Ilhas Malvinas, sobre as quais o governo do seu país legitimamente reivindica soberania. O Papa será naturalmente chamado a se pronunciar de forma clara, quando acontecer o momento oportuno.
Mesmo assim, depois de décadas em que as palavras pontifícias praticamente só se escutavam exortações à disciplina, ouvem-se agora pregações em linguagem simples. Elas são acompanhadas por gestos modestos e motivadores do diálogo. Gestos que incluem um ‘bom dia’, ‘um ótimo almoço’ e a dispensa da pompa e da circunstância.
A própria nota em que negou cumplicidade com a ditadura argentina teve um toque diferente. Refere-se às denúncias com o uso do seu nome de batismo e não com o nome de pontífice. Confirma ter sido ouvido pela justiça, como testemunha, no caso da Esma (Escola Mecânica da Armada) e de seu então amigo, o almirante Emilio Massera.
Aponta, sem citar, o jornal ‘Página 12’, de Buenos Aires, como um veículo transmissor de uma campanha ‘anticlerical’. Ao fazer essa denúncia, desperta o corporativismo do clero, como despertaria se se tratasse de pastores, de rabinos ou de militares.
Mesmo assim, não faz uma defesa belicosa. Abre-se para o diálogo. É justamente nessa direção que vários teólogos da libertação, latino-americanos e europeus, propõem que o novo pontificado caminhe, como disseram em programa da tevê GloboNews os teólogos Leonardo Boff e José Eduardo de Oliveira e Silva, da diocese de Osasco/SP, e o jornalista espanhol Juan Árias.
Esse diálogo tem necessariamente como referência fundamental o Concílio Vaticano II e abrange tanto o plano interno quanto o plano externo da Igreja Romana.
Dermi Azevedo
Inquietação no mundo católico: o Vaticano emite nota
Porta-voz do Vaticano divulga nota em que nega relações do papa Francisco com a ditadura argentina. “Nenhuma acusação formal e documentada foi feita contra ele. A justiça o ouviu uma vez, apenas como testemunha, e o padre Bergoglio nunca foi suspeito ou acusado, tendo, aliás, fornecido as provas de seu distanciamento desse assunto”, diz o texto.
Dermi Azevedo
As acusações feitas ao papa Francisco têm "caráter anticlerical", afirma uma nota do Vaticano, divulgada nesta sexta-feira (15) pelo porta-voz e padre Frederico Lombardi. Esta é a íntegra da nota:
"A campanha conduzida por uma revista contra Jorge Mario Bergoglio, que remonta vários anos, é bem conhecida. O caráter anticlerical desses ataques, que chega até à calúnia e à difamação das pessoas, é bem conhecida.
As acusações referentes ao Papa atual remontam a uma época em que ele ainda não era bispo, mas simplesmente superior dos jesuítas na Argentina. Referem-se a dois padres presos durante a ditadura e que ele não teria protegido.
Ora, nenhuma acusação formal e documentada foi feita contra ele. A justiça o ouviu uma vez, apenas como testemunha, e o padre Bergoglio nunca foi suspeito ou acusado, tendo, aliás, fornecido as provas de seu distanciamento desse assunto.
Existem, por outra parte, vários depoimentos que demonstram o quanto o padre Bergoglio agiu, naquela época, para salvar pessoas em perigo. É sabido que, depois de se tornar bispo, na elaboração da carta de perdão, d. Bergoglio lamentou as falhas da Igreja diante da ditadura.
As acusações em questão decorrem de uma leitura histórica desse período promovida há anos por meios anticlericais e que não têm razão de ser".
Memória
Na manhã seguinte ao anúncio de um Papa argentino, o jornal ‘Página 12’ sacudiu Buenos Aires com a manchete: ‘!Dios, Mio!’
Na 6ª feira, dois dias depois, como relata o correspondente de CARTA MAIOR, Eduardo Febbro, direto do Vaticano, o porta-voz da Santa Sé reclamou do que classificaria como ‘acusações caluniosas e difamatórias’ envolvendo o passado do Sumo Pontífice.
Em seguida atribui-as a ‘elementos da esquerda anticlerical’.
Alvo: o ‘Página 12’ .
Com ele, seu diretor, o jornalista Horácio Verbitsky, autor de um livro sobre o as suspeitas que ensombrecem a trajetória do cardeal Jorge Mário Bergoglio, durante a ditadura argentina.
A cúpula da Igreja acerta ao qualificar o ‘Página 12’ como ‘de esquerda’ – algo que ostenta e do qual se orgulha praticando um jornalismo analítico, crítico, ancorado em fatos.
Mas erra esfericamente ao espetá-lo como ‘anticlerical’.
O destaque que o jornal dispensa ao tema dos direitos humanos não se restringe ao caso Bergoglio.
Fundado ao final da ditadura, em maio de 1987, o ‘Página 12’ é reconhecido como o grande ponto de encontro da luta pelo direito à memória na Argentina.
Não foi algo premeditado.
No crepúsculo da ditadura militar, um grupo de jornalistas de esquerda vislumbrou a oportunidade de criar um veículo enxuto, no máximo 12 páginas (daí o nome), mas dotado de densa capacidade analítica.
E, sobretudo, radicalmente comprometido com a redemocratização e com os seus desafios.
A receita das 12 páginas baseava-se num cálculo curioso.
Era o máximo que se conseguiria produzir com qualidade naquele momento; e o suficiente para a sociedade reaprender a refletir sobre ela mesma.
A fidelidade a essa diretriz (hoje o total de páginas cresceu e a edição digital tem mais de 500 mil acessos/dia) levou-o, naturalmente, a investigar os crimes da ditadura.
Seu jornalismo tornou-se um acelerador da transição que os interesses favorecidos pelo regime militar gostariam de maquiar.
Não apenas interesses econômicos.
Lá, como cá, existe um núcleo de poderosas empresas de comunicação, alvo agora da ‘Ley de Medios’, no caso da Argentina, que, por interesse financeiro, identidade ideológica ou simples covardia integrou-se ao aparato repressivo.
Usufruiu e desfruta vantagens dessa intimidade. Até hoje. O quase monopólio das comunicações é uma delas – combatida agora pelo governo de lá.
Naturalmente, a pauta dos direitos humanos dispunha de um espaço acanhado e ambíguo nessa engrenagem.
Não por falta de familiaridade com o assunto.
Mais de uma centena de jornalistas foram presos e muitos desapareceram na ditadura argentina.
A principal fábrica de papel de imprensa do país foi praticamente expropriada de seus donos.
Eles estavam presos, foram torturados. E então a transferência de propriedade se deu.
A sociedade compradora tinha como participantes o próprio governo militar e os principais jornais apoiadores do regime. Entre eles o ‘El Clarín’, de oposição frontal ao governo Cristina, atualmente.
O ‘Página 12’ não se deteve diante das conveniências. E vasculhou esses impérios sombrios.
Fez o equivalente em relação aos direitos humanos em outros países. Não raro, com a mesma mordacidade que incomoda agora o Vaticano.
Quando Pinochet morreu em 2006, a manchete indagava: ‘Que terá feito o inferno para merecer isso?’
A condenação do ditador Videla à prisão perpétua, em 2010, mereceu letras garrafais: ‘Deus existe!’
Foi com essa ironia, debochada, às vezes, mas sempre intransigente em defesa dos direitos humano, que o ‘Página 12’ tornou-se um espaço apropriado pelos familiares dos desaparecidos políticos.
Por solicitação de Estela Carlotto, atual dirigente das Abuelas de Plaza de Mayo, passou a publicar, desde 1988, pequenas atualizações da trajetória familiar de vítimas da ditadura.
Os anúncios sugerem uma espécie de prosseguimento da vida dos que foram precoce e violentamente apartados dela.
Filhos que perderam os pais ainda crianças, mencionam os netos que esses avós jamais viram; avós falam dos bisnetos.
O efeito é tocante. Ao se deparar com a foto de um jovem desaparecido, sabe-se que hoje ele poderia estar brincando com os netinhos, filhos dos filho que agora tem a idade com a qual ele morreu.
Em 2007, o ‘Página 12’ recebeu na Espanha o prêmio da Liberdade de Imprensa, instituído pela Casa da América, junto com a Chancelaria espanhola e o governo da Catalunha.
Motivo: a seriedade na defesa dos direitos humanos e o compromisso com o rigor da informação, requisito da liberdade de expressão.
No momento em que pairam sombras sobre o Vaticano, o que deve fazer essa cepa de jornalismo?
O ‘Página 12’ faz o que, em geral, desagrada aos poderes terrenos e celestiais: investiga, pergunta, rememora.
Ao contrário do que sugere o porta-voz da Santa Sé, não se trata de um cacoete anticlerical.
O assunto extravasa o campo religioso e envolve uma questão de interesse político de toda a sociedade.
Trata-se de uma responsabilidade ecumênica e universal, da qual o ‘Página 12’ não abre mão: o dever de todos, sobretudo das autoridades, de zelar e fazer respeitar os direitos humanos e democráticos dos cidadãos.
Sob quaisquer circunstancias; mas principalmente quando são ameaçados. Como na ditadura dos anos 70/80.
Há dúvidas se o passado do cardeal Mario Jorge Bergoglio nesse campo honra o manto santo que agora envolve Francisco, o desenvolto sucessor do atormentado Bento XVI.
As dúvidas estão marmorizadas em um lusco-fusco de pejo, silêncios e versões contrastantes.
É preciso esclarecer.
Há nomes, testemunhos, relatos, datas e um cenário dantesco: os anos de chumbo vividos pela sociedade argentina, entre 1976 e 1983.
O país do então líder dos jesuítas, Mario Jorge Bergoglio, vivia o inferno na terra, sob a ação genocida de uma ditadura cujos atos confirmam a indiferença aterrorizante dos aparatos clandestinos em relação à vida e à dor.
O que se ouve ainda arrepia.
A mesma sensação inspira o rosto endurecido e gasto dos líderes militares, julgados e condenados. Um a um; em grande parte, graças a pressão inquebrantável das denúncias e investigações ecoadas nas edições do 'Página 12'
Em sete anos, o aparato militar montou e azeitou uma máquina de torturar, matar e eclipsar corpos que operou de forma infatigável.
Nessa moenda 30 mil pessoas foram liquidadas ou desapareceram.
Mais de 4 mil e duzentos corpos por ano.
Filhos de militantes de esquerda foram sequestrados, entregues a famílias simpáticas ao regime.
Muitos permanecem nesse limbo.
No dia em que a ‘fumata bianca’ do Vaticano anunciou o ‘habemus papam’ e em seguida emergiu a figura do cardeal argentino, no balcão do Vaticano, Graciela Yorio esmurrou as paredes de seu apartamento, a 11.200 quilômetros de distancia, em Buenos Aires.
O relato está nos jornais argentinos e também na Folha de São Paulo.
A revolta deve-se a uma certeza guardada há 36 anos na memória dessa sexagenária.
Em maio de 1976, seu irmão, padre Orlando Yorio, foi delatado à ditadura sedenta e recém-instalada.
Juntamente com o sacerdote Francisco Jalics, este vivo, na Alemanha— Yorio ficou cinco meses nas mãos dos militares.
Incomunicáveis, na temível Escola Mecânica da Marinha, adaptada para ser a máquina de moer ossos do regime.
O delator dos dois religiosos teria sido o cardeal Bergoglio -- o Papa, então com cerca de 40 anos, líder conservador dos jesuítas argentinos.
Essa é a convicção de Graciela, baseada no que ouviu do irmão, falecido em 2000, militante da Teologia da Libertação, como Jalics.
Jalics não se pronunciou. Alegando viagem, emitiu uma nota na Alemanha em que se diz em paz e reconciliado com Bergoglio.
A nota compassiva não nega a dor que leva Graciela ainda a esmurrar paredes.
A estupefação tampouco é apenas dela.
Ainda que setores progressistas argentinos optem por uma certa moderação em público, muitas vozes não se calam.
Estela Carlotto, a dirigente das Abuelas de Mayo, em entrevista ao ‘Página 12’ deste sábado, procura manter a objetividade num relato que adiciona mais nuvens às sombras.
Carlotto afirma que o Cardeal Bergoglio nunca fez um gesto de solidariedade para ajudar a luta mundialmente reconhecida das mães e avós de desaparecidos políticos argentinos.
Poderia, mas não facilitou a reunião do grupo com o Papa. Ao contrário.
O primeiro encontro, em 1980, no Brasil, só aconteceu por interferência de religiosos brasileiros.
As abuelas só seriam recebidas em Roma três anos mais tarde; de novo, graças a contatos alheios ao cardeal Bergoglio.
Prossegue Estela Carlotto.
O cardeal teria sido conivente com o sequestro de pelo menos uma criança nascida na prisão.
Procurado por familiares da desaparecida política, Elena de la Quadra, teria aconselhado: ‘Não busquem mais por essa criança que está em boas mãos’.
E desfechou sentença equivalente em relação às demais.
O ‘Jornal Página 12’ tem sido o principal eco desses relatos e dessa revolta, que muitos relativizam e gostariam de esquecer.
O que o jornal faz ao investigar as dúvidas que pairam sobre Francisco é coerente com o 'manual de redação' sedimentado na prática da democracia argentina nesses 25 anos de existência: não sacrificar a memória ao conforto das conveniências.
Pode soar anticlerical a setores da Igreja que gostariam de esquecer o que já se cometeu neste mundo, em nome de Deus.
Mas é um reducionismo improcedente, que se dissolve na trajetória reconhecidamente qualificada do 'Página 12'.
Na Argentina, graças à persistência de vozes como a de seus jornalistas, a memória deixou de ser o espaço da formalidade.
Hoje ela é vista como um pedaço do futuro. Um mirante poderoso para se entender o presente e superar as forças, e a lógica, que esmagaram a sociedade no passado.
"A campanha conduzida por uma revista contra Jorge Mario Bergoglio, que remonta vários anos, é bem conhecida. O caráter anticlerical desses ataques, que chega até à calúnia e à difamação das pessoas, é bem conhecida.
As acusações referentes ao Papa atual remontam a uma época em que ele ainda não era bispo, mas simplesmente superior dos jesuítas na Argentina. Referem-se a dois padres presos durante a ditadura e que ele não teria protegido.
Ora, nenhuma acusação formal e documentada foi feita contra ele. A justiça o ouviu uma vez, apenas como testemunha, e o padre Bergoglio nunca foi suspeito ou acusado, tendo, aliás, fornecido as provas de seu distanciamento desse assunto.
Existem, por outra parte, vários depoimentos que demonstram o quanto o padre Bergoglio agiu, naquela época, para salvar pessoas em perigo. É sabido que, depois de se tornar bispo, na elaboração da carta de perdão, d. Bergoglio lamentou as falhas da Igreja diante da ditadura.
As acusações em questão decorrem de uma leitura histórica desse período promovida há anos por meios anticlericais e que não têm razão de ser".
Memória
Na manhã seguinte ao anúncio de um Papa argentino, o jornal ‘Página 12’ sacudiu Buenos Aires com a manchete: ‘!Dios, Mio!’
Na 6ª feira, dois dias depois, como relata o correspondente de CARTA MAIOR, Eduardo Febbro, direto do Vaticano, o porta-voz da Santa Sé reclamou do que classificaria como ‘acusações caluniosas e difamatórias’ envolvendo o passado do Sumo Pontífice.
Em seguida atribui-as a ‘elementos da esquerda anticlerical’.
Alvo: o ‘Página 12’ .
Com ele, seu diretor, o jornalista Horácio Verbitsky, autor de um livro sobre o as suspeitas que ensombrecem a trajetória do cardeal Jorge Mário Bergoglio, durante a ditadura argentina.
A cúpula da Igreja acerta ao qualificar o ‘Página 12’ como ‘de esquerda’ – algo que ostenta e do qual se orgulha praticando um jornalismo analítico, crítico, ancorado em fatos.
Mas erra esfericamente ao espetá-lo como ‘anticlerical’.
O destaque que o jornal dispensa ao tema dos direitos humanos não se restringe ao caso Bergoglio.
Fundado ao final da ditadura, em maio de 1987, o ‘Página 12’ é reconhecido como o grande ponto de encontro da luta pelo direito à memória na Argentina.
Não foi algo premeditado.
No crepúsculo da ditadura militar, um grupo de jornalistas de esquerda vislumbrou a oportunidade de criar um veículo enxuto, no máximo 12 páginas (daí o nome), mas dotado de densa capacidade analítica.
E, sobretudo, radicalmente comprometido com a redemocratização e com os seus desafios.
A receita das 12 páginas baseava-se num cálculo curioso.
Era o máximo que se conseguiria produzir com qualidade naquele momento; e o suficiente para a sociedade reaprender a refletir sobre ela mesma.
A fidelidade a essa diretriz (hoje o total de páginas cresceu e a edição digital tem mais de 500 mil acessos/dia) levou-o, naturalmente, a investigar os crimes da ditadura.
Seu jornalismo tornou-se um acelerador da transição que os interesses favorecidos pelo regime militar gostariam de maquiar.
Não apenas interesses econômicos.
Lá, como cá, existe um núcleo de poderosas empresas de comunicação, alvo agora da ‘Ley de Medios’, no caso da Argentina, que, por interesse financeiro, identidade ideológica ou simples covardia integrou-se ao aparato repressivo.
Usufruiu e desfruta vantagens dessa intimidade. Até hoje. O quase monopólio das comunicações é uma delas – combatida agora pelo governo de lá.
Naturalmente, a pauta dos direitos humanos dispunha de um espaço acanhado e ambíguo nessa engrenagem.
Não por falta de familiaridade com o assunto.
Mais de uma centena de jornalistas foram presos e muitos desapareceram na ditadura argentina.
A principal fábrica de papel de imprensa do país foi praticamente expropriada de seus donos.
Eles estavam presos, foram torturados. E então a transferência de propriedade se deu.
A sociedade compradora tinha como participantes o próprio governo militar e os principais jornais apoiadores do regime. Entre eles o ‘El Clarín’, de oposição frontal ao governo Cristina, atualmente.
O ‘Página 12’ não se deteve diante das conveniências. E vasculhou esses impérios sombrios.
Fez o equivalente em relação aos direitos humanos em outros países. Não raro, com a mesma mordacidade que incomoda agora o Vaticano.
Quando Pinochet morreu em 2006, a manchete indagava: ‘Que terá feito o inferno para merecer isso?’
A condenação do ditador Videla à prisão perpétua, em 2010, mereceu letras garrafais: ‘Deus existe!’
Foi com essa ironia, debochada, às vezes, mas sempre intransigente em defesa dos direitos humano, que o ‘Página 12’ tornou-se um espaço apropriado pelos familiares dos desaparecidos políticos.
Por solicitação de Estela Carlotto, atual dirigente das Abuelas de Plaza de Mayo, passou a publicar, desde 1988, pequenas atualizações da trajetória familiar de vítimas da ditadura.
Os anúncios sugerem uma espécie de prosseguimento da vida dos que foram precoce e violentamente apartados dela.
Filhos que perderam os pais ainda crianças, mencionam os netos que esses avós jamais viram; avós falam dos bisnetos.
O efeito é tocante. Ao se deparar com a foto de um jovem desaparecido, sabe-se que hoje ele poderia estar brincando com os netinhos, filhos dos filho que agora tem a idade com a qual ele morreu.
Em 2007, o ‘Página 12’ recebeu na Espanha o prêmio da Liberdade de Imprensa, instituído pela Casa da América, junto com a Chancelaria espanhola e o governo da Catalunha.
Motivo: a seriedade na defesa dos direitos humanos e o compromisso com o rigor da informação, requisito da liberdade de expressão.
No momento em que pairam sombras sobre o Vaticano, o que deve fazer essa cepa de jornalismo?
O ‘Página 12’ faz o que, em geral, desagrada aos poderes terrenos e celestiais: investiga, pergunta, rememora.
Ao contrário do que sugere o porta-voz da Santa Sé, não se trata de um cacoete anticlerical.
O assunto extravasa o campo religioso e envolve uma questão de interesse político de toda a sociedade.
Trata-se de uma responsabilidade ecumênica e universal, da qual o ‘Página 12’ não abre mão: o dever de todos, sobretudo das autoridades, de zelar e fazer respeitar os direitos humanos e democráticos dos cidadãos.
Sob quaisquer circunstancias; mas principalmente quando são ameaçados. Como na ditadura dos anos 70/80.
Há dúvidas se o passado do cardeal Mario Jorge Bergoglio nesse campo honra o manto santo que agora envolve Francisco, o desenvolto sucessor do atormentado Bento XVI.
As dúvidas estão marmorizadas em um lusco-fusco de pejo, silêncios e versões contrastantes.
É preciso esclarecer.
Há nomes, testemunhos, relatos, datas e um cenário dantesco: os anos de chumbo vividos pela sociedade argentina, entre 1976 e 1983.
O país do então líder dos jesuítas, Mario Jorge Bergoglio, vivia o inferno na terra, sob a ação genocida de uma ditadura cujos atos confirmam a indiferença aterrorizante dos aparatos clandestinos em relação à vida e à dor.
O que se ouve ainda arrepia.
A mesma sensação inspira o rosto endurecido e gasto dos líderes militares, julgados e condenados. Um a um; em grande parte, graças a pressão inquebrantável das denúncias e investigações ecoadas nas edições do 'Página 12'
Em sete anos, o aparato militar montou e azeitou uma máquina de torturar, matar e eclipsar corpos que operou de forma infatigável.
Nessa moenda 30 mil pessoas foram liquidadas ou desapareceram.
Mais de 4 mil e duzentos corpos por ano.
Filhos de militantes de esquerda foram sequestrados, entregues a famílias simpáticas ao regime.
Muitos permanecem nesse limbo.
No dia em que a ‘fumata bianca’ do Vaticano anunciou o ‘habemus papam’ e em seguida emergiu a figura do cardeal argentino, no balcão do Vaticano, Graciela Yorio esmurrou as paredes de seu apartamento, a 11.200 quilômetros de distancia, em Buenos Aires.
O relato está nos jornais argentinos e também na Folha de São Paulo.
A revolta deve-se a uma certeza guardada há 36 anos na memória dessa sexagenária.
Em maio de 1976, seu irmão, padre Orlando Yorio, foi delatado à ditadura sedenta e recém-instalada.
Juntamente com o sacerdote Francisco Jalics, este vivo, na Alemanha— Yorio ficou cinco meses nas mãos dos militares.
Incomunicáveis, na temível Escola Mecânica da Marinha, adaptada para ser a máquina de moer ossos do regime.
O delator dos dois religiosos teria sido o cardeal Bergoglio -- o Papa, então com cerca de 40 anos, líder conservador dos jesuítas argentinos.
Essa é a convicção de Graciela, baseada no que ouviu do irmão, falecido em 2000, militante da Teologia da Libertação, como Jalics.
Jalics não se pronunciou. Alegando viagem, emitiu uma nota na Alemanha em que se diz em paz e reconciliado com Bergoglio.
A nota compassiva não nega a dor que leva Graciela ainda a esmurrar paredes.
A estupefação tampouco é apenas dela.
Ainda que setores progressistas argentinos optem por uma certa moderação em público, muitas vozes não se calam.
Estela Carlotto, a dirigente das Abuelas de Mayo, em entrevista ao ‘Página 12’ deste sábado, procura manter a objetividade num relato que adiciona mais nuvens às sombras.
Carlotto afirma que o Cardeal Bergoglio nunca fez um gesto de solidariedade para ajudar a luta mundialmente reconhecida das mães e avós de desaparecidos políticos argentinos.
Poderia, mas não facilitou a reunião do grupo com o Papa. Ao contrário.
O primeiro encontro, em 1980, no Brasil, só aconteceu por interferência de religiosos brasileiros.
As abuelas só seriam recebidas em Roma três anos mais tarde; de novo, graças a contatos alheios ao cardeal Bergoglio.
Prossegue Estela Carlotto.
O cardeal teria sido conivente com o sequestro de pelo menos uma criança nascida na prisão.
Procurado por familiares da desaparecida política, Elena de la Quadra, teria aconselhado: ‘Não busquem mais por essa criança que está em boas mãos’.
E desfechou sentença equivalente em relação às demais.
O ‘Jornal Página 12’ tem sido o principal eco desses relatos e dessa revolta, que muitos relativizam e gostariam de esquecer.
O que o jornal faz ao investigar as dúvidas que pairam sobre Francisco é coerente com o 'manual de redação' sedimentado na prática da democracia argentina nesses 25 anos de existência: não sacrificar a memória ao conforto das conveniências.
Pode soar anticlerical a setores da Igreja que gostariam de esquecer o que já se cometeu neste mundo, em nome de Deus.
Mas é um reducionismo improcedente, que se dissolve na trajetória reconhecidamente qualificada do 'Página 12'.
Na Argentina, graças à persistência de vozes como a de seus jornalistas, a memória deixou de ser o espaço da formalidade.
Hoje ela é vista como um pedaço do futuro. Um mirante poderoso para se entender o presente e superar as forças, e a lógica, que esmagaram a sociedade no passado.
Teologia da libertação acabou?
Sua presença na vida da Igreja quase não se faz sentir, mas o espírito de contestação que a animava tem raízes profundas na história do cristianismo - e continua a atrair católicos no Terceiro Mundo.
Entre os anos 1960 e o início dos 1980, ela arrebatou a imaginação da Igreja Católica. Padres e fiéis do mundo inteiro, em especial na América Latina, viram na Teologia da Libertação a resposta que o momento histórico e a piedade cristã exigiam: uma Igreja militante, voltada ao serviço dos pobres e dos oprimidos políticos, com forte influência da prática marxista. Quando a onda das ditaduras acabou e se instalou em Roma um papa fervorosamente anticomunista, João Paulo II, o movimento começou a ser confrontado pela hierarquia católica. Seus principais expoentes foram silenciados - entre eles o teólogo brasileiro Leonardo Boff o movimento foi contido e, lentamente, refluiu. Quando o Muro de Berlim veio abaixo, em 1990, derrubando com ele os regimes socialistas, o grande alento ideológico da Teologia da Libertação também desapareceu. Agora, quase 25 anos depois, com a entronização de um novo papa, o movimento parece ter ficado definitivamente para trás. No artigo que segue, o filósofo Luiz Felipe Pondé responde à pergunta essencial: a Teologia da Libertação acabou ou ainda está viva?
A Teologia da Libertação acabou? Sim e não. Sim, porque ela não é mais a Teologia "oficial" da América Latina. Grande parte de seus expoentes está em idade avançada ou fora do debate teórico e prático (pastoral) do magistério da Igreja. Além disso, ela sofreu duras críticas do oficialato do Vaticano desde os anos 1980. Sua origem se deu em meio ao nascimento dos movimentos políticos, na cidade e no campo, nos anos 1960 na América Latina, e varreu grande parte do continente, principalmente do Brasil até o México.
Muitos padres e freiras se envolveram em lutas contra regimes totalitários nesses países, como no Brasil, na Nicarágua e em El Salvador. O papel da Teologia da Libertação ao lado da luta pela liberdade política no continente é inegável. Mas, se essa origem e realidade política foram de grande valor histórico, foram também sua maldição.
Não, a Teologia da Libertação não acabou, porque continua impregnada na formação e nas aspirações de grande parte do clero e daqueles que aderem à Igreja nos países em desenvolvimento, justamente aqueles em que o catolicismo ainda tem alguma vitalidade. A razão de a Teologia da Libertação permanecer viva de alguma forma é simples, e o próprio cardeal Joseph Ratzinger (futuro papa Bento XVI) reconhecia essa razão em seus textos dos anos 1980: a Teologia da Libertação parte de um dos centros da experiência bíblica, o profetismo hebraico. Ele tem um forte apelo ético, social e político, eixo central da Teologia. Deus não é apenas místico, é também revolucionário. Ou revolucionário místico. Essa seria a melhor forma de descrever o modo como a Teologia da Libertação compreende seu Deus.
O cristianismo descende do profetismo hebraico. Tal vertente se caracteriza pelo afastamento do judaísmo antigo de sua primeira fase organizada, conhecida como "judaísmo do templo", marcado por uma forte associação da casta política à casta sacerdotal. Dito de outra forma, a elite política e a elite religiosa eram a mesma ou muito próximas.
Tal fato sempre é corriqueiro na história das religiões. No caso do cristianismo, ele sempre teve uma dupla face: um amor pela instituição do poder (foi o herdeiro do espólio do Império Romano) e um mal-estar com esse mesmo poder. O advento da Teologia da Libertação repete, assim, uma velha vocação do cristianismo: sentir-se mal com os poderes do mundo.
No mundo do hebraísmo antigo, os profetas iniciam então uma dupla "campanha": contra o abuso das elites e contra o relaxamento da observação dos mandamentos de Deus por parte tanto da elite quanto do "povo". Os profetas da ira do Deus de Israel acusaram a elite israelita de ser gananciosa, hipócrita e egoísta. Os termos não variariam muito se falássemos de nossa própria elite.
Variando de intensidade e modos de expressão, os profetas trazem a marca do descontentamento de Deus com Israel e avisam ao povo que Deus não quer sacrifícios, mas sim que cuidem dos doentes, dos órfãos, das viúvas e dos pobres. Dito de forma sintética: Deus quer um "projeto social" para seu povo. Ele não toleraria acúmulos absurdos de riqueza e mentiras. Ele olha o coração do homem e vê ali o mal, pouco importa se ele cumpre sua cota de animais mortos em sacrifícios.
Esse fenômeno ficou conhecido, por intermédio do grande sociólogo alemão Max Weber, como "desencantamento do mundo" ou, mais especificamente, desmagificação. Acostumados com uma religião praticada pelos sacrifícios de animais e rituais "mágicos", os antigos conheceram na figura do profetismo hebraico o nascimento de uma religião ética e política. Deus se preocupa mais com nossos atos e menos, ou não apenas, com nossos ritos.
É, justamente, nesse viés que surgem as profecias acerca da vinda do Messias, responsável pela realização plena deste mundo ético desejado por Deus. Jesus é visto como esse Messias pelos judeus que fundarão a seita do Galileu.
Por isso tudo, a Teologia da Libertação é reconhecida pelo teólogo Ratzinger como justa e correta em sua raiz cristã, na medida em que parte de um anseio que marca o cristianismo em sua matriz: uma crítica ao esvaziamento ético do judaísmo oficial e uma defesa da atenção com os mais "fracos". Nisso, a Teologia da Libertação é absolutamente correta, em seu pressuposto de "opção pelos desfavorecidos" e de recusa à ordem injusta do mundo.
Há, todavia, um erro sério nela, e esse erro é responsável pelas várias críticas que ela recebeu ao longo dos últimos, grosso modo, 35 anos: sua associação com a hermenêutica marxista e sua contaminação com a política partidária. O pecado da Teologia da Libertação foi se apaixonar pelas práticas políticas da esquerda latino-americana.
A posição de Ratzinger define a atitude institucional da Igreja diante da Teologia da Libertação, na medida em que ele era representante da guarda da doutrina reta para a Igreja. Ele afirma que a confusão que a Teologia da Libertação fez ao assumir o materialismo histórico de Marx como ferramenta de interpretação da história da salvação implicaria uma evidente eliminação do componente confessional em favor da prática político-partidária. O resultado é que os teólogos "progressistas" acabaram por assumir o proletariado como o novo "povo de Deus", em detrimento da totalidade da humanidade.
O marxismo necessariamente leria a história da salvação como luta de classes, enquanto o cristianismo deveria ler essa história da salvação como um caminho de inserção do amor de Deus no mundo. A salvação no cristianismo é uma história da "caridade" (amor de Deus), e não uma história do "justo ódio", defendido pelos revolucionários marxistas.
Para a Igreja, a história da salvação passa, no plano humano, aquele que está a nosso alcance, pela transformação espiritual do homem, e não pela aceitação das demandas de uma prática política, muitas vezes violenta. Resumindo, a Teologia da Libertação acabaria por escolher Barrabás, o herói político judeu, em lugar de Jesus, o homem-Deus que era contra toda forma de partidarismo militante violento.
O correto carisma profético cristão se perde numa plataforma política que não precisa da Teologia para realizar sua revolução, e os padres se transformariam em pregadores da revolução. O próximo passo seria uma Igreja de padres ateus.
O "reinocentrismo" (termo usado para criticar os excessos políticos da Teologia da Libertação) é precisamente este passo em falso: em nome da justiça social, o clero latino-americano estaria disposto a negociar o caráter confessional da Igreja. A práxis política a levaria a negociar tudo pelo reino de Deus justo no mundo, mesmo que sem Deus.
Outro pecado da Teologia latino-americana de esquerda, diretamente ligado ao anterior, é sua tendência a atenuar a identidade católica em favor de um "respeito" maior por outras identidades, como as "espiritualidades" indígena ou africana. A causa evidente desse "relativismo do diálogo" é a identificação de grupos, como índios ou negros, como vítimas históricas da catequese católica colonial, em associação com os interesses das coroas portuguesa e brasVieira. Esses grupos são, portanto, objeto de atenção prioritária por parte daqueles que escolhem os desfavorecidos como o novo "povo de Deus". O "reinocentrismo" político convive bem com esse relativismo e, por isso, se associa ao viés político dominante em sua história.
Talvez o efeito mais nefasto da Teologia da Libertação aos olhos da Igreja seja o esvaziamento "moderno" (porque em sintonia com os estudos históricos do protestantismo liberal alemão do século XIX) que ela correria o risco de fazer da divindade de Cristo, tornando-o apenas mais um "libertador", aos moldes de um Che Guevara, palatável a gregos e troianos e, portanto, mais à mão em meio à diversidade cultural do continente. Ainda que nunca tenha sido um postulado da Teologia da Libertação, essa proposta de desdivinização de Cristo, a acentuação de sua "humanidade", a fim de torná-lo menos "autoritário", poderia estar no horizonte dos desdobramentos indesejáveis desta revolução de Jesus.
Por último, mas não menos importante, vale a pena citar a tendência da Teologia latino-americana de esquerda a se aproximar de espiritualidades "nova era", somando ao Deus bíblico atributos de um culto da natureza e sua "deusa", tornando o cristianismo mais ecologicamente correto e, ao mesmo tempo, mais próximo de modos pagãos de crença. Um exemplo desse viés é a"feminilização de Deus" (reduzindo seu caráter "patriarcal"), fazendo Dele um trunfo na mão das feministas católicas. Um risco concreto e temido pelo magistério da Igreja é que movimentos feministas como "católicas pelo direito de decidir" acabem por se aproximar da defesa do aborto na América Latina.
Se a Teologia da Libertação está acuada em sua natureza de flerte com a política de esquerda e seus "amores pela modernidade", ao mesmo tempo ela carrega em si a marca de uma justa opção bíblica por um cristianismo ético, social e político. Esse clamor continua operando na escolha de muitos jovens por uma vida religiosa na América Latina e na África, porque, nesses países, a agonia social é evidente. Se ela está "proibida", permanece viva como visão correta do papel do cristianismo e continua encantando inúmeras vocações. Ao contrário da Igreja dos países ricos, no Terceiro Mundo a Igreja ainda detém certa imagem de não ser apenas um reduto de políticos, escândalos financeiros e abusos sexuais. A Teologia da Libertação, mesmo combalida, convive bem com a imagem de uma Igreja moderna, aberta às demandas de um mundo em agonia e em transformação crescente.
É difícil dizer que a Teologia da Libertação tenha acabado definitivamente, porque ela está impregnada de uma das faces mais essenciais do cristianismo: a ideia de um Deus ético, crítico dos abusos do poder e sensível à infelicidade dos aflitos do mundo.
Entre os anos 1960 e o início dos 1980, ela arrebatou a imaginação da Igreja Católica. Padres e fiéis do mundo inteiro, em especial na América Latina, viram na Teologia da Libertação a resposta que o momento histórico e a piedade cristã exigiam: uma Igreja militante, voltada ao serviço dos pobres e dos oprimidos políticos, com forte influência da prática marxista. Quando a onda das ditaduras acabou e se instalou em Roma um papa fervorosamente anticomunista, João Paulo II, o movimento começou a ser confrontado pela hierarquia católica. Seus principais expoentes foram silenciados - entre eles o teólogo brasileiro Leonardo Boff o movimento foi contido e, lentamente, refluiu. Quando o Muro de Berlim veio abaixo, em 1990, derrubando com ele os regimes socialistas, o grande alento ideológico da Teologia da Libertação também desapareceu. Agora, quase 25 anos depois, com a entronização de um novo papa, o movimento parece ter ficado definitivamente para trás. No artigo que segue, o filósofo Luiz Felipe Pondé responde à pergunta essencial: a Teologia da Libertação acabou ou ainda está viva?
A Teologia da Libertação acabou? Sim e não. Sim, porque ela não é mais a Teologia "oficial" da América Latina. Grande parte de seus expoentes está em idade avançada ou fora do debate teórico e prático (pastoral) do magistério da Igreja. Além disso, ela sofreu duras críticas do oficialato do Vaticano desde os anos 1980. Sua origem se deu em meio ao nascimento dos movimentos políticos, na cidade e no campo, nos anos 1960 na América Latina, e varreu grande parte do continente, principalmente do Brasil até o México.
Muitos padres e freiras se envolveram em lutas contra regimes totalitários nesses países, como no Brasil, na Nicarágua e em El Salvador. O papel da Teologia da Libertação ao lado da luta pela liberdade política no continente é inegável. Mas, se essa origem e realidade política foram de grande valor histórico, foram também sua maldição.
Não, a Teologia da Libertação não acabou, porque continua impregnada na formação e nas aspirações de grande parte do clero e daqueles que aderem à Igreja nos países em desenvolvimento, justamente aqueles em que o catolicismo ainda tem alguma vitalidade. A razão de a Teologia da Libertação permanecer viva de alguma forma é simples, e o próprio cardeal Joseph Ratzinger (futuro papa Bento XVI) reconhecia essa razão em seus textos dos anos 1980: a Teologia da Libertação parte de um dos centros da experiência bíblica, o profetismo hebraico. Ele tem um forte apelo ético, social e político, eixo central da Teologia. Deus não é apenas místico, é também revolucionário. Ou revolucionário místico. Essa seria a melhor forma de descrever o modo como a Teologia da Libertação compreende seu Deus.
O cristianismo descende do profetismo hebraico. Tal vertente se caracteriza pelo afastamento do judaísmo antigo de sua primeira fase organizada, conhecida como "judaísmo do templo", marcado por uma forte associação da casta política à casta sacerdotal. Dito de outra forma, a elite política e a elite religiosa eram a mesma ou muito próximas.
Tal fato sempre é corriqueiro na história das religiões. No caso do cristianismo, ele sempre teve uma dupla face: um amor pela instituição do poder (foi o herdeiro do espólio do Império Romano) e um mal-estar com esse mesmo poder. O advento da Teologia da Libertação repete, assim, uma velha vocação do cristianismo: sentir-se mal com os poderes do mundo.
No mundo do hebraísmo antigo, os profetas iniciam então uma dupla "campanha": contra o abuso das elites e contra o relaxamento da observação dos mandamentos de Deus por parte tanto da elite quanto do "povo". Os profetas da ira do Deus de Israel acusaram a elite israelita de ser gananciosa, hipócrita e egoísta. Os termos não variariam muito se falássemos de nossa própria elite.
Variando de intensidade e modos de expressão, os profetas trazem a marca do descontentamento de Deus com Israel e avisam ao povo que Deus não quer sacrifícios, mas sim que cuidem dos doentes, dos órfãos, das viúvas e dos pobres. Dito de forma sintética: Deus quer um "projeto social" para seu povo. Ele não toleraria acúmulos absurdos de riqueza e mentiras. Ele olha o coração do homem e vê ali o mal, pouco importa se ele cumpre sua cota de animais mortos em sacrifícios.
Esse fenômeno ficou conhecido, por intermédio do grande sociólogo alemão Max Weber, como "desencantamento do mundo" ou, mais especificamente, desmagificação. Acostumados com uma religião praticada pelos sacrifícios de animais e rituais "mágicos", os antigos conheceram na figura do profetismo hebraico o nascimento de uma religião ética e política. Deus se preocupa mais com nossos atos e menos, ou não apenas, com nossos ritos.
É, justamente, nesse viés que surgem as profecias acerca da vinda do Messias, responsável pela realização plena deste mundo ético desejado por Deus. Jesus é visto como esse Messias pelos judeus que fundarão a seita do Galileu.
Por isso tudo, a Teologia da Libertação é reconhecida pelo teólogo Ratzinger como justa e correta em sua raiz cristã, na medida em que parte de um anseio que marca o cristianismo em sua matriz: uma crítica ao esvaziamento ético do judaísmo oficial e uma defesa da atenção com os mais "fracos". Nisso, a Teologia da Libertação é absolutamente correta, em seu pressuposto de "opção pelos desfavorecidos" e de recusa à ordem injusta do mundo.
Há, todavia, um erro sério nela, e esse erro é responsável pelas várias críticas que ela recebeu ao longo dos últimos, grosso modo, 35 anos: sua associação com a hermenêutica marxista e sua contaminação com a política partidária. O pecado da Teologia da Libertação foi se apaixonar pelas práticas políticas da esquerda latino-americana.
A posição de Ratzinger define a atitude institucional da Igreja diante da Teologia da Libertação, na medida em que ele era representante da guarda da doutrina reta para a Igreja. Ele afirma que a confusão que a Teologia da Libertação fez ao assumir o materialismo histórico de Marx como ferramenta de interpretação da história da salvação implicaria uma evidente eliminação do componente confessional em favor da prática político-partidária. O resultado é que os teólogos "progressistas" acabaram por assumir o proletariado como o novo "povo de Deus", em detrimento da totalidade da humanidade.
O marxismo necessariamente leria a história da salvação como luta de classes, enquanto o cristianismo deveria ler essa história da salvação como um caminho de inserção do amor de Deus no mundo. A salvação no cristianismo é uma história da "caridade" (amor de Deus), e não uma história do "justo ódio", defendido pelos revolucionários marxistas.
Para a Igreja, a história da salvação passa, no plano humano, aquele que está a nosso alcance, pela transformação espiritual do homem, e não pela aceitação das demandas de uma prática política, muitas vezes violenta. Resumindo, a Teologia da Libertação acabaria por escolher Barrabás, o herói político judeu, em lugar de Jesus, o homem-Deus que era contra toda forma de partidarismo militante violento.
O correto carisma profético cristão se perde numa plataforma política que não precisa da Teologia para realizar sua revolução, e os padres se transformariam em pregadores da revolução. O próximo passo seria uma Igreja de padres ateus.
O "reinocentrismo" (termo usado para criticar os excessos políticos da Teologia da Libertação) é precisamente este passo em falso: em nome da justiça social, o clero latino-americano estaria disposto a negociar o caráter confessional da Igreja. A práxis política a levaria a negociar tudo pelo reino de Deus justo no mundo, mesmo que sem Deus.
Outro pecado da Teologia latino-americana de esquerda, diretamente ligado ao anterior, é sua tendência a atenuar a identidade católica em favor de um "respeito" maior por outras identidades, como as "espiritualidades" indígena ou africana. A causa evidente desse "relativismo do diálogo" é a identificação de grupos, como índios ou negros, como vítimas históricas da catequese católica colonial, em associação com os interesses das coroas portuguesa e brasVieira. Esses grupos são, portanto, objeto de atenção prioritária por parte daqueles que escolhem os desfavorecidos como o novo "povo de Deus". O "reinocentrismo" político convive bem com esse relativismo e, por isso, se associa ao viés político dominante em sua história.
Talvez o efeito mais nefasto da Teologia da Libertação aos olhos da Igreja seja o esvaziamento "moderno" (porque em sintonia com os estudos históricos do protestantismo liberal alemão do século XIX) que ela correria o risco de fazer da divindade de Cristo, tornando-o apenas mais um "libertador", aos moldes de um Che Guevara, palatável a gregos e troianos e, portanto, mais à mão em meio à diversidade cultural do continente. Ainda que nunca tenha sido um postulado da Teologia da Libertação, essa proposta de desdivinização de Cristo, a acentuação de sua "humanidade", a fim de torná-lo menos "autoritário", poderia estar no horizonte dos desdobramentos indesejáveis desta revolução de Jesus.
Por último, mas não menos importante, vale a pena citar a tendência da Teologia latino-americana de esquerda a se aproximar de espiritualidades "nova era", somando ao Deus bíblico atributos de um culto da natureza e sua "deusa", tornando o cristianismo mais ecologicamente correto e, ao mesmo tempo, mais próximo de modos pagãos de crença. Um exemplo desse viés é a"feminilização de Deus" (reduzindo seu caráter "patriarcal"), fazendo Dele um trunfo na mão das feministas católicas. Um risco concreto e temido pelo magistério da Igreja é que movimentos feministas como "católicas pelo direito de decidir" acabem por se aproximar da defesa do aborto na América Latina.
Se a Teologia da Libertação está acuada em sua natureza de flerte com a política de esquerda e seus "amores pela modernidade", ao mesmo tempo ela carrega em si a marca de uma justa opção bíblica por um cristianismo ético, social e político. Esse clamor continua operando na escolha de muitos jovens por uma vida religiosa na América Latina e na África, porque, nesses países, a agonia social é evidente. Se ela está "proibida", permanece viva como visão correta do papel do cristianismo e continua encantando inúmeras vocações. Ao contrário da Igreja dos países ricos, no Terceiro Mundo a Igreja ainda detém certa imagem de não ser apenas um reduto de políticos, escândalos financeiros e abusos sexuais. A Teologia da Libertação, mesmo combalida, convive bem com a imagem de uma Igreja moderna, aberta às demandas de um mundo em agonia e em transformação crescente.
É difícil dizer que a Teologia da Libertação tenha acabado definitivamente, porque ela está impregnada de uma das faces mais essenciais do cristianismo: a ideia de um Deus ético, crítico dos abusos do poder e sensível à infelicidade dos aflitos do mundo.
A Teologia da Libertação Palestina
Christopher J. Katulka
Naim Ateek acredita que não se pode tomar a Bíblia literalmente. Ele
tem um problema especial com a Torá (o Pentateuco), que considera um “texto
sionista”, e com os livros de Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, e 1 e 2 Reis -- os
quais confirmam que Deus deu a terra de Israel ao povo judeu. Ele fala de paz e
de não-violência, mas não pede desculpas pelo terrorismo palestino.
De fato, muito da sua retórica com relação a Israel é indistinguível
daquela de um palestino muçulmano. Mas Naim Ateek não é muçulmano. Na verdade,
ele é um cristão palestino altamente respeitado, educado nos EUA, e ordenado
sacerdote episcopal. Com a idade de 75 anos, ele é presidente e diretor do
Centro Ecumênico de Teologia da Libertação em Jerusalém, também denominado
Sabeel Center (em árabe, “o caminho”), o qual ele ajudou a fundar nos anos
1990.
![]() |
| Naim Ateek, líder cristão palestino que defende uma Teologia da Libertação Palestina |
Crendo que seu povo não pode aceitar a “perigosa teologia” dos
cristãos sionistas,[1] o Dr. Ateek ajudou a desenvolver a Teologia da Libertação
Palestina (TLP), a qual ele e o Sabeel Center dizem proporcionar uma maneira
relevante de interpretar as Escrituras para os crentes árabes, que precisam de
uma dose saudável de encorajamento por morarem em Israel. Hoje, a TLP é a
principal doutrina dos cristãos palestinos, enraizando-os e fundamentando-os em
uma forma de Teologia da Substituição altamente politizada.
Ativismo Político
A Teologia da Libertação em si não tem nada de novo. Nos anos 1960
ela veio à tona na América Latina, promovida pela Igreja Católica Romana para
incentivar os assolados pela pobreza a reagirem contra o plano de
desenvolvimento econômico do presidente John F. Kennedy para a América Latina, o
qual, conforme acreditava a igreja, iria causar maior injustiça.[2]
Os proponentes da Teologia da Libertação incentivavam o ativismo
político contra aqueles que buscavam preservar o sistema de classes. Os líderes
do movimento na América Latina manipulavam a mensagem do Evangelho para
significar libertação da injustiça política, social e econômica. Como resultado,
a teologia se espalhou por todas as denominações cristãs tradicionais e tem sido
tipicamente rotulada de uma forma cristã de marxismo.[3]
A Teologia da Libertação inspirou a formação de movimentos sociais e
políticos. Nos últimos 20 anos, ela tem emergido como a principal teologia dos
cristãos palestinos em Israel porque enfoca a libertação dos desamparados e dos
oprimidos.[4]
A questão mais importante contra a qual os cristãos palestinos lutam
é a interpretação literal da Bíblia. Antes da criação do Estado de Israel, em
1948, a maioria considerava o Antigo Testamento crucial para as Escrituras. Ele
permanecia como uma testemunha e um guia da vinda de Jesus Cristo. Contudo,
depois de 1948, os cristãos árabes abandonaram a leitura e pregação do Antigo
Testamento porque ele é “sionista” demais para o gosto deles. Em vez de
reconhecerem a fidelidade de Deus ao verem as promessas da Aliança Abraâmica
serem cumpridas diante dos seus olhos, muitos acharam o Antigo Testamento
repugnante e ofensivo.
O Dr. Ateek e o Sabeel Center têm usado a dispensa do Antigo
Testamento como uma oportunidade de propagar a TLP, que deseja “dessionistizar”
a Bíblia a fim de promover um programa anti-Israel.[5] De fato, a definição que
o Sabeel dá à TLP se refere a Jesus como tendo vivido “sob a ocupação” e tenta
juntar pessoas para “se posicionarem em solidariedade com o povo
palestino”:
A Teologia da Libertação Palestina é um movimento ecumênico de
pessoas comuns da sociedade, enraizado na interpretação bíblica cristã e nutrida
pelas esperanças, sonhos e lutas do povo palestino. (...) Em uma situação em que
a justiça tem sido há muito tempo negligenciada, a Teologia da Libertação
Palestina abre novos horizontes de entendimento para a busca de uma paz justa e
para a reconciliação proclamada no Evangelho de Jesus Cristo. Ao aprender de
Jesus -- sua vida sob a ocupação e sua resposta à injustiça -- esta teologia
espera conectar o verdadeiro significado da fé cristã com a vida diária de todos
aqueles que sofrem debaixo de ocupação, violência, discriminação e violação dos
direitos humanos. Além disso, este esforço teológico que está desabrochando
promove uma conscientização internacional mais acurada sobre a atual situação
política e encoraja os cristãos de todo o mundo a trabalharem pela justiça e a
permanecerem firmes em solidariedade com o povo palestino.[6]
Acabe e Nabote
O fundamento bíblico usado para a TLP é o relato sobre o rei Acabe e
Nabote, que está em 1 Reis 21. Geralmente, a Teologia da Libertação usa o êxodo
dos israelitas do Egito para estabelecer sua mensagem de liberdade da opressão
política. Mas, para os palestinos, o Êxodo é demasiadamente pró-Israel.
Portanto, o Dr. Ateek ensina como Acabe, rei de Israel, e sua malvada esposa,
Jezabel, assassinaram Nabote por causa da terra que este possuía e como o Senhor
enviou-lhes o profeta Elias para pronunciar o julgamento sobre eles. A morte
deles finalmente proporcionou a justiça divina que Nabote merecia.
A interpretação que o Dr. Ateek faz de 1 Reis 21 retrata o rei Acabe
como sendo o moderno Estado de Israel, roubando a terra dos palestinos, que são
protagonizados como o determinado Nabote. Ele prega que está chegando o dia em
que Deus julgará Israel pelo que Ateek diz ser o abuso contra os árabes, e a
justiça divina prevalecerá para aqueles que sofreram nas mãos dos israelenses
sionistas.
Para o Dr. Ateek, Nabote é a história de todos os cristãos
palestinos. Ele disse: “A morte e o despojamento de Nabote e sua família de suas
terras têm sido realizados novamente milhares de vezes desde a criação do Estado
de Israel”.[7] Ateek tinha onze anos quando sua família perdeu sua casa em
Beth-Shean na Guerra da Independência em 1948. Hoje, ele diz que os cristãos já
não precisam mais reconhecer as profecias do Antigo Testamento relativas ao
retorno do povo judeu à terra porque, na sua visão, elas revelam um entendimento
sobre Deus que contradiz a mensagem de Jesus no Novo Testamento.[8] Ele afirma,
usando uma nova e relevante interpretação das Escrituras, que: “a Bíblia pode
ser reivindicada pelos cristãos palestinos”.[9]
Um Muro de Separação
À medida que a TLP avançava para se tornar a principal teologia dos
cristãos palestinos, ela construiu um muro de separação entre os crentes -- algo
que Jesus morreu para remover (Ef 2). Com isso, é crescente a tensão entre as
igrejas israelenses e palestinas.
Meno Kalisher, pastor da Assembléia de Jerusalém, disse em recente
entrevista: “Sempre que nosso grupo de jovens promove atividades de comunhão com
outras igrejas que incluem os cristãos palestinos, eles imediatamente ouvem como
Israel é o problema e o opressor do povo palestino. Como resultado disto, nossos
jovens perderam o desejo de terem comunhão com os cristãos palestinos, o que é
tremendamente triste”.
Infelizmente, embora o Dr. Ateek e o Sabeel Center afirmem se basear
em princípios cristãos, a retórica deles não é nada diferente daquela dos
palestinos muçulmanos, que incitam a violência contra Israel. Na verdade, em sua
busca pela paz, Ateek não pede desculpas pelo terrorismo palestino, tampouco
responsabiliza os palestinos muçulmanos pelos maus tratos aos cristãos
palestinos.[10] Ironicamente, os árabes muçulmanos consideram os árabes cristãos
fracos e medíocres.
Embora o Dr. Ateek e o Sabeel Center afirmem que a TLP oferece aos
cristãos palestinos uma maneira nova de ler as Escrituras, a verdade é que não
há nada de novo sobre ela; TLP é Teologia da Substituição. Shelley
Neese, vice-presidente de The Jerusalem Connection Report,
escreveu:
A Teologia da Substituição ensina que a Igreja substituiu os judeus
como beneficiária das alianças de Deus. A TLP vai um passo adiante, dizendo que,
para começar, os judeus jamais ocuparam um lugar de favor especial. Em alguns
casos, ela apaga Israel completamente da Bíblia. Muitas igrejas palestinas que
ensinam a TLP mudaram os Salmos, removendo todas as referências a “Israel” ou a
“Sião”.[11]
A TLP desdenha ostensivamente as promessas eternas de Deus ao povo
judeu ao manipular as Escrituras para se encaixarem em suas necessidades. Neese
afirmou:
[A TLP] é um instrumento perigoso de propaganda política, astutamente
empregado pelo Sabeel para minar o direito que Israel tem à terra. Enquanto
isso, essa teologia anti-semita, dirigida politicamente, e vazia do Evangelho,
se esconde atrás de uma fachada de paz, justiça e amor.[12]
No final, diz Meno Kalisher, quem sairá perdendo serão os próprios
cristãos palestinos. “Devido à sua teologia, eles consideram Israel um inimigo e
perdem as bênçãos que Deus poderia lhes proporcionar”. (Israel My Glory — www.foi.org — www.Beth-Shalom.com.br)
Christopher J. Katulka é representante de The Friends of Israel em
Dallas, Texas (EUA).
Notas:
1. Naim Stifan
Ateek, Justice and Only Justice: A Palestinian Theology of Liberation [Justiça e
Somente Justiça: Uma Teologia da Libertação Palestina] (Maryknoll, NY: Orbis,
1989), 64-65.
2. Ian Linden,
Liberation Theology: Coming of Age? [Teologia da Libertação: Atingindo a
Maioridade?] (London: Catholic Institute for
International Relations, 1997), 3.
3. Phillip Berryman, Liberation
Theology [Teologia da Libertação] (Philadelphia, PA: Temple University Press,
1987), 138-39.
4. Shelley Neese,
“Palestinian Liberation Theology” [A Teologia da Libertação Palestina], The
Jerusalem Connection, www.thejerusalemconnection.us/ news-archive/2007/03/27/ palestinian- liberationtheology.html? pfstyle=wp.
5.
Ibid.
6.“Palestinian
Liberation Theology” [A Teologia da Libertação Palestina] Sabeel Center, www.sabeel.org/ourstory.php.
7. Ateek, 87.
8. Ibid., 82.
9. Ibid., 86.
10. Neese.
11. Ibid.
12.
Ibid.
Publicado na revista Notícias de Israel — www.Beth-Shalom.com.br
CEBs Porto Velho
Encontro das Comunidades Eclesiais reúne 900 pessoas em Porto Velho
Evento é prévia para o 13º encontro nacional das comunidades de base. Arquidiocese de Porto Velho possui cerca de 800 capelas.
Cerca de 900 pessoas participaram, neste fim de semana, na Paróquia São Cristóvão, do Encontro das Comunidades Eclesiais, em Porto Velho . O evento é preparatório para o 13º encontro nacional das comunidades de base, que será realizado em janeiro de 2014, na cidade de Juazeiro do Norte (CE).
A arquidiocese da capital reúne cerca de 800 capelas, chamadas comunidades eclesiais de base, além de mais de 11 municípios. A arquidiocese de Porto Velho vai eleger 40 representantes entre padres, seminaristas e leigos para o 13º Intereclasial.
"Nós tivemos um momento bonito a partir do evengélio das bem aventuranças, Jesus Cristo ilumina a realidade das comunidades", disse o arcebispo de Porto Velho, dom Esmeraldo Barreto de Farias.
A geopolítica do segredo
Passadas as primeiras horas do impacto da eleição do Cardeal
Bergoglio de Buenos Aires, das emoções primeiras de termos um papa
latino-americano, com expressão amável e cordial a vida presente nos convida a
refletir.
Apesar de seu valor, os meios de comunicação têm também o
poder de amortizar as mentes e de impedir que perguntas críticas aflorem ao
pensamento das pessoas. Nesses dois últimos dias que precederam a eleição
papal, muitas pessoas no Brasil e no mundo foram tomadas pelas transmissões em
direto de Roma. Sem dúvida um acontecimento histórico desses não se repete
todos os meses!
Mas, que interesses tiveram as grandes empresas de
telecomunicações em transmitir os inúmeros detalhes da escolha do novo Papa? A
quem servem os milhões de dólares gastos nas transmissões ininterruptas até a
chegada da fumaça branca? Do lado de quem se situam esses interesses? Que
interesses tem o Vaticano em abrir as possibilidades para essas transmissões?
Essas perguntas talvez inúteis para muitos, continuam a ser significativas para
alguns grupos preocupados com o crescimento da consciência humanista de
muitos/as de nós.
São em grande parte as empresas de telecomunicações as
responsáveis pela manutenção do segredo nas políticas eleitorais do Vaticano. O
segredo, os juramentos e as penalidades por não respeitá-los são parte
integrante do negócio. Criam impactos e fazem notícia. Não se trata de uma
tradição secular sem conseqüências para a vida do mundo, mas de comportamentos
que acabam viciando a busca de diálogo entre os grupos ou excluindo grupos de
um necessário diálogo.
Nenhuma crítica a esse sistema perverso que continua usando
o Espírito Santo para a manutenção de posturas ultraconservadoras revestidas de
ares de religiosidade e bondosa submissão é feito. Nenhum espaço para que vozes
dissonantes possam se manifestar mesmo com o risco de serem apedrejadas é
aberto na oficialidade das transmissões. Uma ou outra vez se percebe uma
pequena ponta crítica se esboçando, mas logo é abafada pelo “status quo”
imposto pela ideologia dominante.
Do novo papa Francisco se contou que usava transportes
públicos, estava próximo dos pobres, fazia sua comida e que a escolha desse
nome o assemelhavam ao grande santo de Assis. Foi imediatamente apresentado
como uma figura simples, cordial e simpática. Na imprensa católica nada se
falou das suspeitas de muitos em relação a sua postura nos tempos da ditadura
militar, de suas atuais posturas políticas, de suas posições contrárias ao
matrimonio igualitário, ou mesmo contra o aborto legal. Nada se falou de suas
conhecidas críticas em relação à teologia da libertação e de seu desinteresse
pela teologia feminista. A figura bondosa e sem ostentação eleita pelos
cardeais assistidos pelo Espírito Santo encobriu o homem real com suas inúmeras
contradições. Hoje os jornais (Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo)
delinearam perfis diferentes do novo papa e temos uma percepção mais realista
de sua biografia. Além disso, foi possível intuir que sua eleição é sem dúvida
parte de uma geopolítica de interesses divididos e de equilíbrio de forças no
mundo católico.
Um artigo de Julio C. Gambina da Argenpress publicado via
internet ontem (13 de março de 2013) assim como outras informações enviadas por
grupos alternativos da Nicarágua, Venezuela, Brasil e, sobretudo da Argentina
confirmaram minhas suspeitas. A cátedra de Pedro e o Estado do Vaticano devem
mover suas pedras no xadrez mundial para favorecer as forças dos projetos
políticos do norte e dos seus aliados do sul. O sul foi de certa maneira
co-optado pelo norte. Um chefe político da Igreja, vindo do sul vai equilibrar as pedras do xadrez
mundial, bastante movimentadas nos últimos anos pelos governos populares da
América latina e pelas lutas de muitos movimentos entre eles os movimentos
feministas do continente com reivindicações que atormentam o Vaticano. Se, é no
sul que alguma coisa nova está acontecendo politicamente nada melhor do que um
papa do sul, um latino-americano para enfrentar esse novo momento político e
conservar as tradições da família e da propriedade intactas. Sem dúvida uma
afirmação desse tipo quebra o encanto do momento da eleição e a emoção de ver a
multidão na Praça de São Pedro irrompendo em aplausos e gritos de alegria
diante da figura do papa Francisco. Muitos dirão que essas críticas tiram a
beleza de um acontecimento tão emocionante quanto a eleição de um papa. Talvez,
mas creio que são críticas necessárias.
A tão badalada preservação da evangelização como prioridade
da Igreja parece ser a preservação de uma ordem hierárquica do mundo onde as
elites governam e os povos aplaudem nas grandes praças públicas, se emocionam,
rezam e cantam para que as bênçãos divinas caiam sobre as cabeças dos novos
governantes político-religiosos. O mesmo catecismo com poucas variações
continua a ser reproduzido. Não há reflexão, não se despertam as consciências,
não se convida ao pensamento, mas a conservação de uma doutrina quase mágica.
Por um lado é a sociedade do espetáculo que nos invade para que entremos na
disciplina da ordem/desordem contemporânea com certa dose de romantismo e por
outro a sociedade assistencialista identificada à evangelização. Sair às ruas
para dar de comer aos pobres e rezar com os prisioneiros embora tenha algo de
humanitário não resolve o problema da exclusão social presente nos muitos
países do mundo.
Escrever sobre a “geopolítica do segredo” em tempos de
euforia mediática é como estragar a festa dos vendilhões do Templo felizes com
suas barracas cheias de terços, escapulários, vidros de água benta e imagens
grandes e pequenas de muitos santos. O problema é que se abrimos o segredo
desmancha-se o charme da fumaça branca, se quebra o suspense de um conclave
secreto que fecha ao povo católico o acesso às informações às quais temos
direito, se desnudam os corpos purpurados com suas histórias tortuosas.
Quebrar o segredo é quebrar a falsidade do sistema
político-religioso que governa a Igreja Católica Romana. É tirar as máscaras
que nos sustentam para afinal abrir nossos corações para a real
interdependência e responsabilidade entre todos nós. Os jogos de poder são
cheios de astúcias, ilusões e até de boa fé. Somos capazes de nos impressionar
com um gesto público de carinho ou de simpatia sem nos perguntarmos sobre o que
de fato constituiu a história dessa pessoa. Nem nos perguntamos sobre as ações
de seu passado, de seu presente e suas perspectivas de futuro. É apenas o
momento da aparição da figura simpática vestida de branco que nos impressiona.
Somos capazes de nos emocionarmos frente a um carinhoso “bona cerra” papal (boa
noite) e irmos para cama como crianças bem comportadas abençoadas pelo bondoso
papai. Já não somos mais órfãos visto que a orfandade paterna numa sociedade
patriarcal é insuportável mesmo por poucos dias.
Nós somos cúmplices da manutenção desses poderes tenebrosos
que nos encantam e nos oprimem ao mesmo tempo. Nós, sobretudo os que têm mais
lucidez nos processos políticos e religiosos, somos responsáveis pela ilusão
que esses poderes criam na vida de milhares de pessoas, sobretudo veiculadas
pelos meios de comunicação religiosos. Somos capazes de nos enternecer de tal
forma que nos esquecemos dos jogos do poder, das manipulações invisíveis, da
arte teatral cultivada e tão importante nessas ocasiões.
Não podemos fazer previsões sobre os rumos do futuro da
governança da Igreja Católica Romana. Mas à primeira vista não parece que
podemos esperar grandes mudanças nas estruturas e políticas atuais. As mudanças
significativas virão se as comunidades cristãs católicas assumirem de fato a
direção do presente do cristianismo, ou seja, se elas forem capazes de dizer a
partir das necessidades de suas vidas como o Evangelho de Jesus poderá ser
traduzido e vivido em nossas vidas hoje.
A geopolítica do segredo tem interesses altíssimos a
defender. É parte de um projeto mundial de poder aonde as forças da ordem se
vêm ameaçadas pelas revoluções sociais e culturais em curso em nosso mundo.
Manter o segredo é justificar que há forças superiores às forças históricas da
vida e que estas são mais decisivas que os rumos que podemos dar à nossa luta
coletiva por dignidade, pão, justiça e misericórdia em meio aos muitos reveses
e tristezas que nos acometem em meio do caminho.
Termino essa breve reflexão na esperança de que possamos não
apagar a luz da liberdade que vive em nós e seguirmos bebendo das fontes de
nossos sonhos de dignidade com lucidez sem nos impressionarmos com as surpresas
que podem parecer grandes novidades. Afinal é apenas mais um papa que inscreve
seu nome nessa instituição que apesar de sua história de altos e baixos
mereceria ser transformada e repensada para os dias de hoje.
Mudanças podem sempre acontecer e é preciso estar abertos
aos pequenos sinais de esperança que irrompem por todos os lados mesmo das
instituições as mais anacrônicas de nosso mundo.
14 de Março de 2013.
Ivone Gebara - Adital
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