quinta-feira, 14 de março de 2013
De Che Guevara a Francisco I, a Argentina faz história
A sua escolha por Jorge Mario Bergoglio revela ao menos dois objetivos da Igreja: no plano político, corresponder à realidade sociológica de ser a América Latina um continente de maioria cristã e abrir caminhos para que o indiferentismo religioso não continue em avanço; e, no plano pastoral, buscar recuperar a imagem de uma instituição aberta para a sociedade, sobretudo para a juventude
A Argentina, país que já tem, em sua história, Che Guevara, Eva e Juan Perón, Maradona, Messi e Borges, agora também se torna famosa por ceder à Igreja Católica Romana o seu primeiro Papa latino-americano, com o nome de Francisco I. O jesuíta Jorge Bergoglio, ex-trabalhador químico, na sua primeira apresentação ao povo, na Praça de São Pedro, pediu a todos que orem por ele. Fez-se silêncio na noite chuvosa de Roma.
A sua escolha – embora inesperada – revela pelo menos dois tipos de objetivos sócio-políticos e pastorais, a serem buscados pela Igreja Romana: no plano político, corresponder à realidade sociológica de ser a América Latina um continente de maioria cristã (católica e evangélica) e abrir caminhos para que o indiferentismo religioso não continue em avanço, e, no plano pastoral, buscar recuperar minimamente a imagem de uma instituição aberta para a sociedade, sobretudo para a juventude.
O nome do novo Papa significa muito em termos simbólicos: São Francisco é o maior reformador da história do Cristianismo, seguido de Martinho Lutero. O movimento franciscano foi cooptado (não São Francisco) pelo Papado, como analisou sabiamente Antônio Gramsci. Mas continua a ser um testemunho de que, atingida por escândalos, a instituição eclesiástica muito pouco poderia avançar, se não passar por reformas.
Explicações
O mundo volta-se agora para a Argentina. E o novo Papa deverá, em algum momento, assumir e abençoar as Mães da Praça de Maio, os familiares de presos políticos e desaparecidos políticos, assim como todas as demais vítimas da ditadura militar. A história da Igreja argentina continua manchada pelo sangue de milhares de vítimas da repressão. Os algozes tiveram, com raras exceções, uma grande cooperação de bispos e de padres.
DERMI AZEVEDO - CARTA MAIOR
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Como será a dinâmica das Comunidades Eclesiais de Base de Aratuba, após o retorno do Padre?

Aos 75 anos de vida padre Moacir Cordeiro Leite se despede hoje à noite, às 19 horas, da sua função como pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Cascavel, durante uma Missa presidida pelo arcebispo metropolitano de Fortaleza, dom José Antonio, e concelebrada por vários padres e bispos da Arquidiocese de Fortaleza e de fora, dentre eles dom Plínio José Luz da Silva, atual bispo de Picos, Piauí. Além do clero de Fortaleza, familiares e amigos de padre Moacir participarão da Santa Missa. Logo após a Missa a paróquia de Cascavel oferecerá uma jantar.
Padre Moacir Cordeiro Leite foi pároco durante 11 anos de Cascavel e 32 anos de Aratuba. Foi um importante membro fundador e animador das Comunidades Eclesiais de Base na Arquidiocese de Fortaleza. Tem uma trajetória com uma ardente missão no amor e no serviço à Igreja, povo de Deus, sobretudo aos mais pobres.
Filho de João Ribeiro e Júlia Cordeiro Leite, nasceu no dia 28 de outubro de 1937, em Papara, Município de Maranguape–CE. Foi batizado no sítio Papara, pelo padre Heitor Vieira Cavalcante. Estudos: primeiras letras e primário (atualmente, Ensino Fundamental– 1º Ciclo) na Escola Municipal, em Papara; curso ginasial (atualmente, Ensino Fundamental – 2º Ciclo) no Ginásio Anchieta, em Maranguape; científico (atualmente, Ensino Médio), no Colégio Castelo Branco, da Arquidiocese, concluindo-os em 1955. Passou 1955 e 1956, no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), em Fortaleza. Neste ano começou a participar da Juventude Universitária Católica (JUC) e iniciou o curso de Matemática na Faculdade dos Irmãos Maristas, em Fortaleza. Em 1959, ingressou no Seminário Maior de Fortaleza, para o curso de Filosofia, onde fez o 1° e 2° anos. Fez o 3° ano de Filosofia e todo o curso de Teologia, no Seminário Regional em Olinda–PE. As ordens menores, Subdiaconato e Diaconato, lhe foram conferidos por Dom Antônio de Almeida Lustosa, Arcebispo emérito de Fortaleza, em Carpina e Olinda, em Pernambuco. A ordenação Presbiteral foi-lhe conferida em 6 de janeiro de 1966, na Catedral de Fortaleza (em construção) por Dom José de Medeiros Delgado, Arcebispo de Fortaleza.
Sábado, 23, será realizada uma missa para celebrar a chegada definitiva do Pe. Moacir Cordeiro Leite na Comunidade de Jardim. Uma vez que seu fundador estará novamente tão próximo das lideranças comunitárias, Como será a dinâmica das Comunidades Eclesiais de Base de Aratuba, após o retorno do Padre?
Frei Betto: ‘daqui em diante, haverá sempre pressão para o Papa renunciar’
Adepto da Teologia da Libertação, desautorizada e perseguida por Bento XVI quando prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o escritor Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, vê poucas chances para uma grande reforma na Igreja Católica após a escolha do novo papa. Segundo o religioso, apesar de renunciar, Bento XVI terá grande influência na escolha de seu sucessor, que dificilmente tocará em temas polêmicos da Igreja enquanto o papa renunciante estiver vivo. Na opinião de Frei Betto, a renúncia do Sumo Pontífice pode abrir um importante precedente. “Daqui em diante, haverá sempre pressão para o papa renunciar. Basta desagradar uma das tendências católicas”, previu.
Durante a ditadura militar, Frei Betto foi preso por duas vezes por sua militância em movimentos pastorais e sociais. Foi um dos organizadores das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e, na década de 1970, aproximou-se do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, então líder sindical. No auge da repressão aos sindicatos do ABC paulista, conheceu Dom Cláudio Hummes, um dos cinco cardeais brasileiros que participarão do conclave para a escolha do novo papa. Na época responsável pela diocese de Santo André, Dom Cláudio abriu as portas das igrejas para as assembleias sindicais, proibidas pelo governo.
Em entrevista exclusiva ao Terra, Frei Betto falou sobre a trajetória de Dom Cláudio e os principais desafios que aguardam o futuro papa, que, segundo ele, será jovem e provavelmente europeu. “Será um verdadeiro milagre a eleição de um não europeu”, projetou o escritor. Leia, a seguir, a seguir a íntegra da entrevista.
Terra – Como o senhor recebeu a notícia da renúncia de Bento XVI?
Frei Betto – Surpreso. Foi um gesto de grande humildade. Desagradou os conservadores da Igreja Católica. Daqui em diante haverá sempre pressão para o papa renunciar. Basta desagradar uma das tendências católicas.
Terra – O senhor acredita que a decisão de renunciar ao posto, por parte de Bento XVI, pode propiciar uma mudança de postura da Igreja Católica com relação a temas polêmicos, como o celibato, o homossexualismo, os métodos contraceptivos e as pesquisas com células-tronco?
Frei Betto - Acho duas coisas: será eleito um cardeal com menos de 73 anos. O eleito, ainda que progressista, não tocará em nenhum desses temas enquanto Bento XVI estiver vivo.
Terra – Quais os principais desafios do futuro papa?
Frei Betto – São três: implementar as decisões do Concílio Vaticano II (encontro convocado pelo papa João XXIII, que entre 1962 e 1965 debateu formas de atualizar as doutrinas da Igreja à contemporaneidade); abrir o debate sobre a moral sexual, pois ainda hoje os casais católicos só podem ter relações sexuais se houver intenção explícita de procriação; e dialogar com os avanços da ciência, como células troncos e fertilização de embriões.
Terra – Especula-se que o novo papa possa ser africano ou latino-americano, regiões que concentram boa parte dos católicos no mundo. Algumas analistas, porém, indicam favoritismo a cardeais italianos. Qual o seu palpite?
Frei Betto – Será um europeu. A Igreja é demasiadamente eurocentrada. Será um verdadeiro milagre a eleição de um não europeu.
Terra – Caso o novo papa não seja europeu, que importância isso terá, em sua opinião, nos rumos da Igreja Católica?
Frei Betto – Não importa a origem geográfica do novo papa, e sim sua cabeça teológica e política.
Terra – Qual o perfil ideal de um candidato a papa no contexto atual?
Frei Betto – Menos de 70 anos, poliglota, disposto a abrir a Igreja ao debate dos temas polêmicos.
Terra – O senhor conviveu com Dom Cláudio Hummes quando ele era responsável pela Diocese de Santo André. Quais as principais características que contam a favor de Dom Cláudio em uma eventual indicação a papa?
Frei Betto – Seria um excelente papa, pois tem sensibilidade social, não teme os assuntos polêmicos, sabe dialogar, entende esse mundo pós-moderno. O problema é que o principal cabo eleitoral do conclave, Bento XVI, não tem simpatia por ele.
Terra – Em 2005, Dom Cláudio era apontado como um dos favoritos para substituir João Paulo II, mas acabou preterido por Bento XVI. O senhor acredita que ele pode ter alguma influência maior no conclave que se aproxima?
Frei Betto – A influência maior será do papa renunciante que, com certeza, soprará aos cardeais quem ele considera capaz de assumir o leme da barca de Pedro. E Dom Cláudio e Ratzinger não coincidem em suas posições.
Terra – Como foi a relação de Dom Cláudio com o movimento sindicalista na década de 70?
Frei Betto – Exemplar. Apoiou o movimento sindical, recusou o pedido da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) de servir de intermediário entre o capital e o trabalho, abriu as igrejas do ABC às assembleias operárias depois que o sindicato foi ocupado pela polícia.
Terra – Em entrevista concedida à revista Época em 2005, o senhor lembra que Dom Cláudio foi a primeira pessoa para quem telefonou para avisá-lo de que Luiz Inácio Lula da Silva havia sido preso. Como foi este episódio? Dom Cláudio intercedeu?
Frei Betto – Eu estava na casa do Lula, como amigo e segurança improvisado, na manhã em que ele foi preso. Liguei para Dom Cláudio, que, imediatamente, agiu em defesa de Lula e dos sindicalistas presos.
Terra – Como é a sua relação com Dom Cláudio atualmente? Vocês seguem em contato?
Frei Betto – Tenho grande apreço por ele, mas há tempos não nos vemos.
Terra – Bento XVI foi um ferrenho opositor da Teologia da Libertação. O senhor acredita que agora, com sua saída, os ideais de Gustavo Gutiérrez e Leonardo Boff ganham novo fôlego na Igreja?
Frei Betto – Tudo depende do novo papa.
Terra – Por fim, qual a importância de Dom Cláudio para a Igreja Católica? E para o Brasil?
Frei Betto - Foi sempre um bispo sensível às questões operárias, ao mundo do trabalho, dentro da linha de opção pelos pobres. Foi bispo de Santo André, arcebispo de Fortaleza, cardeal de São Paulo, prefeito, em Roma, da Congregação dos Bispos. Tem tudo para ser um excelente papa. Pior para a Igreja se não eleger um homem como ele.
Durante a ditadura militar, Frei Betto foi preso por duas vezes por sua militância em movimentos pastorais e sociais. Foi um dos organizadores das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e, na década de 1970, aproximou-se do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, então líder sindical. No auge da repressão aos sindicatos do ABC paulista, conheceu Dom Cláudio Hummes, um dos cinco cardeais brasileiros que participarão do conclave para a escolha do novo papa. Na época responsável pela diocese de Santo André, Dom Cláudio abriu as portas das igrejas para as assembleias sindicais, proibidas pelo governo.
Em entrevista exclusiva ao Terra, Frei Betto falou sobre a trajetória de Dom Cláudio e os principais desafios que aguardam o futuro papa, que, segundo ele, será jovem e provavelmente europeu. “Será um verdadeiro milagre a eleição de um não europeu”, projetou o escritor. Leia, a seguir, a seguir a íntegra da entrevista.
Terra – Como o senhor recebeu a notícia da renúncia de Bento XVI?
Frei Betto – Surpreso. Foi um gesto de grande humildade. Desagradou os conservadores da Igreja Católica. Daqui em diante haverá sempre pressão para o papa renunciar. Basta desagradar uma das tendências católicas.
Terra – O senhor acredita que a decisão de renunciar ao posto, por parte de Bento XVI, pode propiciar uma mudança de postura da Igreja Católica com relação a temas polêmicos, como o celibato, o homossexualismo, os métodos contraceptivos e as pesquisas com células-tronco?
Frei Betto - Acho duas coisas: será eleito um cardeal com menos de 73 anos. O eleito, ainda que progressista, não tocará em nenhum desses temas enquanto Bento XVI estiver vivo.
Terra – Quais os principais desafios do futuro papa?
Frei Betto – São três: implementar as decisões do Concílio Vaticano II (encontro convocado pelo papa João XXIII, que entre 1962 e 1965 debateu formas de atualizar as doutrinas da Igreja à contemporaneidade); abrir o debate sobre a moral sexual, pois ainda hoje os casais católicos só podem ter relações sexuais se houver intenção explícita de procriação; e dialogar com os avanços da ciência, como células troncos e fertilização de embriões.
Terra – Especula-se que o novo papa possa ser africano ou latino-americano, regiões que concentram boa parte dos católicos no mundo. Algumas analistas, porém, indicam favoritismo a cardeais italianos. Qual o seu palpite?
Frei Betto – Será um europeu. A Igreja é demasiadamente eurocentrada. Será um verdadeiro milagre a eleição de um não europeu.
Terra – Caso o novo papa não seja europeu, que importância isso terá, em sua opinião, nos rumos da Igreja Católica?
Frei Betto – Não importa a origem geográfica do novo papa, e sim sua cabeça teológica e política.
Terra – Qual o perfil ideal de um candidato a papa no contexto atual?
Frei Betto – Menos de 70 anos, poliglota, disposto a abrir a Igreja ao debate dos temas polêmicos.
Terra – O senhor conviveu com Dom Cláudio Hummes quando ele era responsável pela Diocese de Santo André. Quais as principais características que contam a favor de Dom Cláudio em uma eventual indicação a papa?
Frei Betto – Seria um excelente papa, pois tem sensibilidade social, não teme os assuntos polêmicos, sabe dialogar, entende esse mundo pós-moderno. O problema é que o principal cabo eleitoral do conclave, Bento XVI, não tem simpatia por ele.
Terra – Em 2005, Dom Cláudio era apontado como um dos favoritos para substituir João Paulo II, mas acabou preterido por Bento XVI. O senhor acredita que ele pode ter alguma influência maior no conclave que se aproxima?
Frei Betto – A influência maior será do papa renunciante que, com certeza, soprará aos cardeais quem ele considera capaz de assumir o leme da barca de Pedro. E Dom Cláudio e Ratzinger não coincidem em suas posições.
Terra – Como foi a relação de Dom Cláudio com o movimento sindicalista na década de 70?
Frei Betto – Exemplar. Apoiou o movimento sindical, recusou o pedido da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) de servir de intermediário entre o capital e o trabalho, abriu as igrejas do ABC às assembleias operárias depois que o sindicato foi ocupado pela polícia.
Terra – Em entrevista concedida à revista Época em 2005, o senhor lembra que Dom Cláudio foi a primeira pessoa para quem telefonou para avisá-lo de que Luiz Inácio Lula da Silva havia sido preso. Como foi este episódio? Dom Cláudio intercedeu?
Frei Betto – Eu estava na casa do Lula, como amigo e segurança improvisado, na manhã em que ele foi preso. Liguei para Dom Cláudio, que, imediatamente, agiu em defesa de Lula e dos sindicalistas presos.
Terra – Como é a sua relação com Dom Cláudio atualmente? Vocês seguem em contato?
Frei Betto – Tenho grande apreço por ele, mas há tempos não nos vemos.
Terra – Bento XVI foi um ferrenho opositor da Teologia da Libertação. O senhor acredita que agora, com sua saída, os ideais de Gustavo Gutiérrez e Leonardo Boff ganham novo fôlego na Igreja?
Frei Betto – Tudo depende do novo papa.
Terra – Por fim, qual a importância de Dom Cláudio para a Igreja Católica? E para o Brasil?
Frei Betto - Foi sempre um bispo sensível às questões operárias, ao mundo do trabalho, dentro da linha de opção pelos pobres. Foi bispo de Santo André, arcebispo de Fortaleza, cardeal de São Paulo, prefeito, em Roma, da Congregação dos Bispos. Tem tudo para ser um excelente papa. Pior para a Igreja se não eleger um homem como ele.
Colaboração com a ditadura preocupa igrejas cristãs
Um grupo de cientistas sociais, políticos e líderes eclesiásticos investiga a colaboração de padres, bispos, pastores e leigos com a repressão política na ditadura. Entre os identificados, estão o ex-arcebispo de Belém (PA), d. Alberto Gaudêncio Ramos, d. Geraldo Sigaud, de Diamantina (MG), e d. Antônio de Castro Meyer (foto), de Campos (RJ), um dos fundadores da TFP.
As Igrejas Cristãs que atuam no Brasil de forma ecumênica deverão dispor ainda este ano de informações sobre a colaboração de padres, bispos, pastores e leigos com a repressão política durante a ditadura de 1964. Um grupo de pesquisa, integrado por cientistas sociais e políticos, além de líderes eclesiásticos, já está dando os primeiros para realizar essa tarefa.
Antes mesmo de serem iniciados os trabalhos, já foram identificados foram identificados vários colaboradores, entre os quais três arcebispos já falecidos. São eles o ex-arcebispo de Belém (PA), d. Alberto Gaudêncio Ramos e seus colegas, da corrente tradicionalista da Igreja, d. Geraldo Sigaud, de Diamantina (MG), e d. Antônio de Castro Meyer de Campos (RJ), um dos fundadores, ao lado de Plinio Corrêa de Oliveira, da organização de extrema-direita Tradição, Família e Propriedade, a TFP.
D. Alberto era uma das principais fontes de denúncias contra os seus colegas e subordinados, na Igreja Católica da Amazônia. Já d. Sigaud liderou uma campanha contra seu colega d. Pedro Casaldáliga, de São Félix do Araguaia e contra d. Tomás Balduíno, da ordem dominicana, de Goiás Velho/GO. Com base em dossiês preparados por Sigaud e Meyer, o governo militar decidiu expulsar Casaldáliga do Brasil. Para a ditadura, d. Pedro, por ser catalão, estava proibido de denunciar problemas brasileiros, como o fez em uma carta em que denunciava o caráter escravocrata do latifúndio na região amazônica.
A ameaça de expulsar Casaldáliga provocou uma discreta, mas objetiva e imediata reação do papa Paulo VI. Em reunião com seu staff, declarou que pela primeira vez na história da diplomacia do Vaticano, a Igreja poderia romper as suas relações com o Brasil. À ameaça abortou, de acordo com o relato do ex-cardeal arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns.
D. Eugênio
Entre as personalidades da Igreja permanentemente vigiadas por colaboradores da repressão está também incluído o ex-cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, d. Eugênio de Araújo Sales. Investigações oficiosas em andamento, feitas por organizações de Direitos Humanos, indicam que d. Eugênio era espionado por assessores do seu próprio staff. A mesma espionagem atingiu um outro arcebispo de Natal/RN, d. Nivaldo Monte.
Ele promoveu, nos anos 70, uma reunião reservada com o governador do Rio Grande do Norte José Cortez Pereira e o clero arquidiocesano. No dia seguinte, foi convidado a comparecer ao comando do então IV Exército (atual Comando Militar do Nordeste), em Recife, onde foi questionado sobre vários itens de sua palestra para o clero sobre a situação socioeconômica do seu Estado.
Deops
Outro ponto a ser levado ao grupo de trabalho das igrejas é o funcionamento informal e ilegal, durante a ditadura de uma "delegacia" no Deops paulista, no centro paulistano, dedicada especialmente às denúncias de clérigos e de pastores contra seus colegas.
Entre os colaboradores dessa "delegacia" – chefiada pelo delegado Alcides Cintra Bueno – estava o jornalista Lenildo Tabosa Pessoa, do jornal "O Estado de S. Paulo". Formado em Filosofia e em Teologia na Universidade Gregoriana de Roma, Lenildo dispunha da formação adequada para participar, até mesmo, no interrogatório de integrantes das pastorais católicas, presos pela repressão...
*Dermi Azevedo é jornalista e cientista político
A 'nova' igreja de Dom Sérgio Castriani
Arcebispo revela que está estudando Manaus e diz que ação pastoral será para ver a 'cidade invisível' e ouvir as pessoas
Dom Sérgio é o sexto arcebispo metropolitano de Manaus desde 1952. Ele assume, no lugar de dom Luiz Soares Vieira, após 12 anos na arquidiocese de Tefé (Euzivaldo Queiroz)
Quando recebeu a notícia da nomeação para ser o novo Arcebispo Metropolitano de Manaus, dom Sérgio Eduardo Castriani, 59, estava numa missão de 30 dias na comunidade Gumo do Facão, na Reserva Extrativista do Médio Juruá (a 737 quilômetros de Manaus). Ao aceitar a tarefa, ele reconheceu o desafio que será não só assumir uma arquidiocese com todos os problemas urbanos comuns, mas também de lidar com o que chama de cidades invisíveis aos olhos da sociedade.
“Precisamos derrubar barreiras e abrir os olhos para as cidades existentes por trás dos muros das penitenciárias, hospitais, universidades e escolas e ouvir, escutar histórias”, afirmou o novo arcebispo. Membro da Congregação do Espírito Santo, cuja característica é a atividade missionária, dom Sérgio entrou para a igreja pensando em trabalhar na África, mas foi designado para o Município do Juruá, no qual chegou em 1979. Ele lembra ter sido o mesmo ano da nomeação de ex-presidente general João Batista de Figueiredo, quando aconteceram alguns projetos para a Amazônia, como o programa de revitalização dos seringais. “Foi o momento de Chico Mendes, da criação das reservas extrativistas, das Comunidades Eclesiais de Base, do ressurgimento de povos indígenas e de populações fadadas ao desaparecimento”, explicou, citando a vinda de populações inteiras para Manaus.
Ao estabelecer como primeiro desafio a adaptação à vida urbana, dom Sérgio promete estudar a história da cidade e conhecer as pessoas. Elas são fundamentais nessa caminhada. “Preciso ouvir as histórias, sobretudo de quem está marginalizado”, explicou o novo pastor de mais de 960 mil católicos de Manaus.
Temas polêmicos
Sobre os temas relacionados à igreja debatidos na atualidade, como a renúncia do Papa Bento XVI, ele foi enfático. “Não precisamos fazer elucubrações. Ele foi moderno ao dizer que não tem mais saúde física para dar conta da jornada que envolve celebrações, audiências públicas semanais e toda uma relação diplomática”, assegurou ele, que aposta na nomeação de um papa mais jovem.
Sobre Bento XVI, dom Sérgio destaca a criação de uma congregação para nova evangelização, porque a sociedade atual vive como se Deus não existisse, mesmo acreditando nele. Hoje, vai-se às igrejas em busca de saúde e riqueza, mas isso não tem nada a ver com a Palavra de Deus. “É legítimo, mas numa sociedade secularizada como no Brasil, vê-se muita expressão religiosa, sem qualquer importância na vida das pessoas”, lamentou ele, para quem a Igreja Católica não deve mudar apenas para arrebanhar multidões. “A igreja tem ser mais acolhedora, mas não pode agir como a torcida do Flamengo”, comparou.
Sobre os escândalos que volta e meia envolvem a Igreja Católica, dom Sérgio diz que a instituição tem sua santidade e seu pecado por ser gerida pelas ações humanas. “A igreja não é um museu de santos, mas o importante é que há nela um grupo de pessoas que têm primado pelo bom testemunho”, concluiu.
Auxiliares festejam o pastor
Uma igreja animada e disposta a dar muitos frutos é o legado deixado por dom Luiz Soares Viera a dom Sérgio Castriani na Arquidiocese de Manaus, na opinião do bispo auxiliar dom Dom Mário Antônio da Silva. “Temos uma boa base de leigos e leigas e uma caminhada pastoral muito forte e densa”, explicou o bispo, que considera a vinda de dom Sérgio um incentivo à maior participação dos católicos.
Para o outro bispo auxiliar, dom Mário Pasqualotto, é um bom momento para renovação diante da necessidade e importância da ação de pessoas mais novas para estar mais perto das novas gerações. “Nós, já com certa idade, fazemos um esforço para nos adaptarmos, mas às vezes isso não é possível”, afirmou ele, que vai se aposentar em junho deste ano, pois em maio completará 75 anos.
Com a aposentadoria de dom Mário, o novo papa, a ser eleito em março, será o responsável por receber a carta renúncia dele e fazer a indicação de um novo auxiliar para dom Sérgio.
Quando recebeu a notícia da nomeação para ser o novo Arcebispo Metropolitano de Manaus, dom Sérgio Eduardo Castriani, 59, estava numa missão de 30 dias na comunidade Gumo do Facão, na Reserva Extrativista do Médio Juruá (a 737 quilômetros de Manaus). Ao aceitar a tarefa, ele reconheceu o desafio que será não só assumir uma arquidiocese com todos os problemas urbanos comuns, mas também de lidar com o que chama de cidades invisíveis aos olhos da sociedade.
“Precisamos derrubar barreiras e abrir os olhos para as cidades existentes por trás dos muros das penitenciárias, hospitais, universidades e escolas e ouvir, escutar histórias”, afirmou o novo arcebispo. Membro da Congregação do Espírito Santo, cuja característica é a atividade missionária, dom Sérgio entrou para a igreja pensando em trabalhar na África, mas foi designado para o Município do Juruá, no qual chegou em 1979. Ele lembra ter sido o mesmo ano da nomeação de ex-presidente general João Batista de Figueiredo, quando aconteceram alguns projetos para a Amazônia, como o programa de revitalização dos seringais. “Foi o momento de Chico Mendes, da criação das reservas extrativistas, das Comunidades Eclesiais de Base, do ressurgimento de povos indígenas e de populações fadadas ao desaparecimento”, explicou, citando a vinda de populações inteiras para Manaus.
Ao estabelecer como primeiro desafio a adaptação à vida urbana, dom Sérgio promete estudar a história da cidade e conhecer as pessoas. Elas são fundamentais nessa caminhada. “Preciso ouvir as histórias, sobretudo de quem está marginalizado”, explicou o novo pastor de mais de 960 mil católicos de Manaus.
Temas polêmicos
Sobre os temas relacionados à igreja debatidos na atualidade, como a renúncia do Papa Bento XVI, ele foi enfático. “Não precisamos fazer elucubrações. Ele foi moderno ao dizer que não tem mais saúde física para dar conta da jornada que envolve celebrações, audiências públicas semanais e toda uma relação diplomática”, assegurou ele, que aposta na nomeação de um papa mais jovem.
Sobre Bento XVI, dom Sérgio destaca a criação de uma congregação para nova evangelização, porque a sociedade atual vive como se Deus não existisse, mesmo acreditando nele. Hoje, vai-se às igrejas em busca de saúde e riqueza, mas isso não tem nada a ver com a Palavra de Deus. “É legítimo, mas numa sociedade secularizada como no Brasil, vê-se muita expressão religiosa, sem qualquer importância na vida das pessoas”, lamentou ele, para quem a Igreja Católica não deve mudar apenas para arrebanhar multidões. “A igreja tem ser mais acolhedora, mas não pode agir como a torcida do Flamengo”, comparou.
Sobre os escândalos que volta e meia envolvem a Igreja Católica, dom Sérgio diz que a instituição tem sua santidade e seu pecado por ser gerida pelas ações humanas. “A igreja não é um museu de santos, mas o importante é que há nela um grupo de pessoas que têm primado pelo bom testemunho”, concluiu.
Auxiliares festejam o pastor
Uma igreja animada e disposta a dar muitos frutos é o legado deixado por dom Luiz Soares Viera a dom Sérgio Castriani na Arquidiocese de Manaus, na opinião do bispo auxiliar dom Dom Mário Antônio da Silva. “Temos uma boa base de leigos e leigas e uma caminhada pastoral muito forte e densa”, explicou o bispo, que considera a vinda de dom Sérgio um incentivo à maior participação dos católicos.
Para o outro bispo auxiliar, dom Mário Pasqualotto, é um bom momento para renovação diante da necessidade e importância da ação de pessoas mais novas para estar mais perto das novas gerações. “Nós, já com certa idade, fazemos um esforço para nos adaptarmos, mas às vezes isso não é possível”, afirmou ele, que vai se aposentar em junho deste ano, pois em maio completará 75 anos.
Com a aposentadoria de dom Mário, o novo papa, a ser eleito em março, será o responsável por receber a carta renúncia dele e fazer a indicação de um novo auxiliar para dom Sérgio.
Entrevista com Marcelo Barros: Teologia da Libertação, igreja, religião…
Entrevista dada ao jornalista e repórter Marcos Nunes (do Jornal Opção, Goiânia, quarta feira, 20 de fevereiro de 2013).
1 – Vemos hoje que há muitas pessoas trocando de religião, assim como também, há pessoas deixando a religião e partindo para outros caminhos, como o ateísmo. Isso significa que religião está em crise?
Resposta: Acredito que esse fenômeno do trânsito religioso (o fato das pessoas passarem uma Igreja a outra ou de uma religião a outra) e o fenômeno da secularização (isso é, o aumento do número de pessoas que se dizem sem religião) é decorrência de um mundo mais diversificado, com mais liberdade de escolhas e contatos entre as diferentes culturas. Os meios de comunicação e a facilidade de relação entre pessoas e grupos de diferentes tradições religiosas fazem com que o mundo seja mais pluralista. Penso que isso é positivo. Não é motivo de crise para nenhuma religião ou Igreja. Acredito que a religião, ou melhor, as religiões estão em crise, sim, mas é por motivos internos. Hoje, o desafio para as religiões é saberem se situar adequadamente nesse mundo pluralista, aprender a dialogar com a humanidade de hoje e testemunhar que a mensagem que trazem é pertinente, justa e diz algo de importante para as pessoas da geração contemporânea.
2 – Bento XVI chegou a afirmar que a IGREJA está em crise. Era a isso que ele se remetia?
Não posso responder por ele, mas não creio que ele tenha querido dizer isso. Até porque ele parece preferir uma Igreja minoritária e pouco inserida na humanidade que seja fiel à doutrina e aos princípios de sempre. Quando ele diz que a Igreja está em crise (está se referindo à Igreja Católica e não a toda Igreja cristã), creio que tem em vista a crise interna da estrutura romana. Nas alocuções e homilias feitas depois da sua declaração de renúncia, aludiu à divisão na cúpula do Vaticano, à luta pelo poder entre cardeais e aos sofrimentos que teve por parte de pessoas que lhe eram próximas. Sem dúvida, os escândalos com relação à pedofilia de clérigos e à desonestidade econômica e ilegalidades no Banco do Vaticano (IOR) o fizeram sofrer e são elementos dessa crise que ele aponta.
3 – Há uma preocupação, por parte da Igreja, com a constante perda de fieis? Se a igreja não se preocupa em ganhar novos fieis, não deveria se atentar para garantir a permanência dos existentes?
Tomar como objetivo da Igreja ganhar novos fiéis é confundir missão com proselitismo, ou seja, a política de conquistar pessoas. É transformar a Igreja em uma empresa que faz propaganda de si mesma e de seus produtos. Algumas Igrejas cristãs e alguns setores católicos caem nessa tentação. Jesus mandou seus discípulos testemunharem e anunciarem o projeto divino no mundo (que o evangelho chama de reino de Deus). Propaganda da própria Igreja é outra coisa. É claro que a Igreja tem um compromisso de servir a seus fiéis. Se uma pessoa quer deixar a Igreja Católica por motivo de consciência, é seu direito e a Igreja não deve fazer nada para impedir. Agora se alguém deixa a Igreja porque não encontra mais nela aquilo que precisa para viver sua fé, aí a Igreja tem de se rever e se perguntar se ainda tem alguma razão de ser.
4 – Em pronunciamento, Bento XVI pediu a renovação da Igreja e disse: “Temos que trabalhar verdadeiramente para que se realize o segundo Concílio do Vaticano e que se renove a Igreja”. As diretrizes do Concílio, que foi aprovado na década de 1960, atendem ao crescente apelo por renovação da Igreja?
Nos anos 60, o Concílio foi uma verdadeira primavera para a Igreja, um tempo de renovação (João XXIII o definiu: um novo Pentecostes, isso é, começo novo para a Igreja sob a inspiração do Espirito). É claro que um acontecimento que foi renovador há 50 anos, agora precisa ser reinterpretado para a realidade de agora. Comumente, no mundo, uma organização, cultural e social, pensaria que princípios emanados há 50 anos já estariam superados. De lá para cá o mundo mudou tanto que são necessário critérios novos e novas diretrizes. Com a Igreja Católica, contudo, o que ocorreu é que sob a influência muito centralizadora dos dois últimos papas, o que existe de mais novo hoje ainda é a proposta de renovação emanada do Concílio Vaticano II. Depois do Concílio e dos anos de sua aplicação, nada se fez de mais renovador ou que buscasse uma atualização da missão, do modo de expressar a fé e da organização da Igreja. Por isso, de fato, a única referência que temos que pode responder ao apelo de renovação da Igreja é o Concílio Vaticano II e na América Latina, a conferência do episcopado latino-americano em Medellin (1968). Se conseguirmos que a Igreja, hoje, retome esse espírito, já será uma maravilha.
5 – O papa João Paulo II classificou o Concílio como “um momento de reflexão global da Igreja sobre si mesma e sobre as suas relações com o mundo”. Essas relações são, ainda hoje, levadas em consideração?
O Concílio significou um tempo de grande diálogo da hierarquia da Igreja Católica com a humanidade do seu tempo. No Concilio, o papa e os bispos deixaram de ver os tempos modernos como algo negativo e perigoso para a fé. Nas últimas décadas, esse diálogo foi rompido e a modernidade de novo passou a ser vista como simplesmente negativa. (É bom a gente ser críticos, mas não pessimistas e movidos pelo medo). É preciso retomar o diálogo como princípio espiritual e elemento fundamental da missão da Igreja.
6 – Ao pedir essa renovação, Bento XVI disse que isso implicará em um combate espiritual, “porque o espírito do mal quer nos desviar do caminho de Deus”. Essa afirmação remete a alguma contenda política na Igreja?
Só ele pode afirmar exatamente o que quis dizer com isso. De fato, a espiritualidade é sempre um constante combate interior, cada pessoa consigo mesma. Essa luta pela conversão pessoal e comunitária transforma a Igreja em suas estruturas para que ela não se torne uma empresa qualquer. Conforme o rabino Nilton Bonder, na tradição judaica, o termo hebraico Satã (no grego diabolos) significa não uma pessoa ou entidade externa a nós, mas um bloqueio na conexão entre a pessoa e o Espírito. O demônio seria uma energia que cria obstáculo no caminho da saúde e da integração interior[1]. Jon Sobriño, teólogo salvadorenho, escreveu: “O conteúdo concreto da tentação que Jesus enfrentou foi o uso do poder que Jesus poderia ter para exercer sua missão. Ele o rejeitou”[2].
- Mas, então, isso significa que existe mesmo algum conflito interno e político na cúpula da Igreja?
Embora assistida pelo Espírito Divino, a Igreja é feita de homens e sua hierarquia é humana. Alguém acha estranho que em uma instituição do tamanho da Igreja e com sua importância hoje no mundo haja tendências diferentes, grupos opostos e no próprio Vaticano em um momento como esse isso apareça? Penso que imaginar o contrário seria querer uma Igreja de anjos e seres celestiais e não de pessoas humanas concretas. Acho normal que haja esses conflitos. O que não é normal seria usar métodos anti-éticos para desqualificar o outro lado e vencer de qualquer modo.
- Concretamente, como seria isso?
A Bíblia nos diz para não tomar o nome de Deus em vão. Acho uma vergonha todo mundo saber que no Vaticano, grupos se degladiam pelo poder e quando são perguntados, todos respondem: É o Espírito Santo que decidirá. Isso é chamar as pessoas de idiotas. Creio e espero que o Espírito Santo inspire e guie as pessoas que votarão, mas não creio em ato mágico e nem de incorporação espírita na hora da votação. As pessoas são humanas e em consciência votarão como pensam, mesmo se invocarem o Espírito para poderem discernir o que é melhor para a Igreja. Desejo muito que o resultado reflita a vontade de Deus, mas isso não é mecânico e automático. Na história houve papas que fizeram muitas coisas boas e bonitas, mas houve também papas que agiram muito mal e será que esses foram escolhidos também pelo Espirito Santo? Ou foi um erro dos cardeais? Com a eleição papal, ocorre como nós cremos que ocorre com a própria palavra da Bíblia: é inspirada por Deus, mas nem por isso deixa de ser humana, o que significa, é cultural, é social e política e condicionada ao momento presente e a todas as circunstâncias da história. É isso que o evangelho diz quando proclama que o Verbo, isso é a Palavra Divina se fez carne (João 1, 14).
7 – O que o senhor acha da Teologia da Libertação?
Se Jesus é salvador e disse que o Espírito Santo o ungiu para anunciar aos empobrecidos a libertação (Lucas 4, 16 ss), então, toda a fé cristã e toda teologia deveria ser libertadora. Não se trata de uma teologia sobre a libertação. Isso não é tão importante. O importante é que a teologia seja qual for colabore para que a humanidade tenha mais vida, mais saúde e mais alegria. Jesus disse: Eu vim para que todos tenham vida e vida em plenitude (João 10, 10). Então a teologia deve visar a libertação. Em 1968, os bispos católicos da América Latina, reunidos em Medellin definiram: A Igreja precisa ser pobre e missionária, comprometida com a libertação de toda humanidade e de cada pessoa humana em sua integralidade (libertação moral, libertação espiritual, libertação cultural, libertação social, econômica, etc). (Cf. Medellin, documento sobre Juventude 5, 15). Não vejo em que isso ficou superado. Nem o mundo melhorou tanto depois de 68 que isso se tornou desnecessário (ao contrário, a pobreza se agravou) e nem o evangelho perdeu sua atualidade. A teologia da libertação, hoje, deve assumir novas tarefas e nova linguagem, mas é sempre necessária e atual.
8 – Analistas pontuam que o cardeal Ratzinger investiu contra a Teologia da Libertação, na América Latina, assim como contra os teólogos jesuítas na Europa, o feminismo e a homossexualidade. A rigidez dele e de João Paulo 2º os levou a tentar sufocar as discussões sobre os padres casados e o celibato, a ordenação de mulheres, a contracepção e o aborto. Essas questões devem ser discutidas de forma mais aberta pela Igreja?
Em 1962, ao abrir o Concílio Vaticano II, o papa João XXIII afirmou que a Igreja manteria sua fé de sempre, mas se empenharia em expressá-la de uma outra maneira. Ele explicou que se pode afirmar a fé de modo que divida as pessoas e provoque sofrimento e se pode afirmar a mesma fé de modo que una. A fé é a mesma, mas a sua expressão pode variar e isso vale para a doutrina, inclusive disciplinar e moral. No Evangelho, Jesus nunca se negou a dialogar com as pessoas e soube adaptar-se à realidade delas, Rezo para que toda a hierarquia da Igreja Católica aprenda a fazer isso. Quem quer que seja, padre, bispo ou papa, tem o direito de pensar como quiser, mas como ministro de Jesus, é chamado a dialogar e abrir-se a uma atitude acolhedora e amorosa com todas as pessoas que o procuram ou pedem a sua palavra.
9 – Com dois antecessores poliglotas e que se relacionaram de forma assídua com o mundo, o que deve ser levado em consideração na escolha do próximo papa? Esse fator relacional irá pesar na escolha? Ele deverá ser um bom relações-públicas?
Pessoalmente, como crente e como teólogo, desejo e oro para que os cardeais que se reunirão proximamente em conclave, percebam que em um mundo como o nosso, não tem nenhum sentido manter o ministério do papa como uma monarquia absoluta medieval de direito divino e com jurisdição no mundo todo. E ainda dizer que isso vem do tempo dos apóstolos e é vontade de Deus. Se a Igreja aceitasse voltar ao estilo do primeiro milênio do Cristianismo, o papa deveria ser escolhido com o critério de ser bispo de Roma, patriarca da Igreja latina, ponte (pontífice) da unidade de todas as Igrejas, mas a partir do respeito à autonomia das Igrejas locais que não são filiais de uma organização internacional e sim verdadeiras Igrejas, com todos os elementos da Igreja universal. Para resumir, nada de papa brasileiro ou africano. Papa deve ser italiano, de preferência romano que seja verdadeira e plenamente bispo de Roma e coordene a comunhão das Igrejas locais de forma sinodal e colegial, como quis o Concílio Vaticano II.
10 – Qual o caminho a ser seguido pela Igreja nos próximos anos?
Como já afirmei, voltar ao espírito do Concilio Vaticano II e revalorizar as Igrejas locais como verdadeiras Igrejas e não apenas como sucursais do Vaticano. Nesse mundo autoritário e excludente em que vivemos, dar o exemplo de dialogar e estabelecer uma agenda de discussões com a humanidade que toque nas grandes questões sociais, humanas, éticas e culturais. Penso que é importante intensificar a aproximação com as outras Igrejas e religiões e com elas realizar um fórum de todas as tradições espirituais pela paz, justiça e defesa da natureza criada por Deus. E aí sim a Igreja saberá enfrentar as questões internas da igualdade entre homem e mulher nos ministérios e superar normas disciplinares que valeram para outras épocas, mas hoje não são sinais da realização do projeto divino no mundo.
O autor é monge beneditino, biblista e assessor de comunidades eclesiais de base e movimentos populares. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Tem 44 livros publicados
FONTE:Por Revista Consciência.Net em 24/02/2013
Bento XVI consolidou guinada conservadora da Igreja na AL
Os 8 anos à frente do Vaticano de Bento XVI significaram para a América Latina, uma região com as maiores disparidades entre ricos e pobres e que concentra 46% de católicos do mundo, a consolidação do conservadorismo imposto por seu antecessor, João Paulo II, como parte de sua ofensiva contra a Teologia da Libertação (TL), consideraram analistas.
O papado de Joseph Ratzinger projeta em sua reta final a imagem de um pontífice pouco transcendente para a região, que cumpriu com menos agressividade o roteiro traçado por seu antecessor, João Paulo II (1978-2005), e que lidou com os escândalos de pedofilia do clero no México, nos Estados Unidos e na Europa.
"Ratzinger não queria gerar conflitos na Igreja na América. Foi um papa de transição, que não fez grandes mudanças e manteve as coisas em seu lugar", disse à AFP o professor Jeffrey Klaiber, historiador de religiões na Universidade Católica de Lima.
Segundo Klaiber, "Bento XVI seguiu na América Latina a pauta de João Paulo II, só que foi menos agressivo porque em certo sentido a Teologia da Libertação já havia passado como movimento intelectual".
"Para além da Teologia da Libertação, é difícil falar de um legado específico de Bento XVI para a América Latina", disse à AFP o especialista americano John L. Allen, vaticanista para o semanário National Catholic Reporter e para a rede CNN.
"Bento provavelmente consolidou uma forma madura de teologia da libertação, que esteve tomando forma durante muito tempo", indicou Allen sobre quem foi o executor como prefeito da Fé da ofensiva conservadora de João Paulo II contra os partidários desta teologia na década de 1980.
"O maior impacto foi a consolidação da linha conservadora que João Paulo II impôs durante seu papado", afirmou à AFP Luis Pásara, pesquisador sobre o catolicismo e professor da Universidade de Salamanca.
"Ratzinger foi o teórico por trás desta guinada para a direita, dando um voo intelectual do qual o polonês Karol Wojtyla carecia; como Bento XVI, aprofundou o caminho adotado", disse Pásara.
"Sua herança - acrescenta - pode ser medida em termos das nomeações de bispos na América Latina. Ao colocar como pastores do rebanho católico personagens conservadores ou ultraconservadores, Bento XVI buscou perpetuar esta característica que prevalece na Igreja Católica de hoje".
Segundo o vaticanista Allen, Bento XVI deixou ao seu sucessor a abordagem do "desafio ao catolicismo na América Latina representado pelo crescimento dos movimentos pentecostais e evangélicos, e pela indiferença religiosa básica".
"Na América Latina, as pessoas não saem da igreja por seu conservadorismo, e sim porque os sermões dos padres são tediosos. É uma mistura de um clero que não desperta atenção, pouco carismático, com um discurso ultrapassado", alerta Klaiber.
"Cuidado - afirma Klaiber - ao enfatizar apenas a questão doutrinal, como fez Bento XVI, porque, por exemplo, as igrejas pentecostais atraem muita gente pela maneira de realizar seus serviços, e não por sua doutrina".
Allen ressaltou as únicas viagens do pontífice à região: Brasil 2007 e México-Cuba 2012, para afirmar que ambas traçaram um perfil público dos temas que o interessaram e guiaram em torno de uma recuperação de algumas premissas da TL.
No Brasil, Bento XVI se "identificou com as aspirações básicas da Teologia da Libertação, com a crítica de um sistema econômico injusto e em colocar a igreja do lado dos pobres, mas insistiu na primazia da fé em oposição à análise sociológica", disse Allen, autor de "Dez coisas que o papa Bento XVI quer que saibas", entre outros livros.
A resistência em abordar temas capitais para o futuro da Igreja Católica em uma região considerada reduto do catolicismo por seu maior número de fiéis "deixa a impressão de que não é um homem dogmático, mas um homem desconectado do mundo real", afirma o historiador Klaiber.
Klaiber ressaltou que, no escândalo de pedofilia que atingiu a Igreja nos últimos anos, o Papa atual "não encobriu os fatos, mas não se deu conta de como a situação era grave". "Teve a valentia de pedir perdão pessoalmente a muitas das vítimas nos Estados Unidos e na Europa", admitiu Klaiber.
A TL surgiu na América Latina há mais de quatro décadas para renovar a mensagem do catolicismo com a ideia central de que "os pobres eram a opção preferencial" desta religião.
A reflexão foi acusada de desvios marxistas por João Paulo II.
O paradoxo na posição de Roma é que foram o Concílio Vaticano II (1962) e a Conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín (1968) os que serviram de inspiração à TL.
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