sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Pastoral da Juventude realiza Encontro Regional de Assessores/as em Campo Grande

 

“Nossa PJ reflorescerá em Mato Grosso do Sul, e como Igreja juntos na peleja, Regional Oeste 1.” (Hino da Ampliada Regional da PJ)
 
Um final de semana caloroso, em Campo Grande, nos dias 7, 8 e 9 de Setembro, realizamos o tão sonhado e esperado: Encontro Regional de Assessores/as. Um sonho concretizado, pois, reunimos participantes de todas as dioceses do Regional Oeste 1.
 
 
 
Mais de 80 participantes, vindos dos quatro cantos do Mato Grosso do Sul, dentre eles: religiosos/as, leigos/as, presbíteros, adultos e jovens maduros na fé, reuniram-se no Instituto Teológico João Paulo II, em Campo Grande, trabalhando a temática “Assessoria e Acompanhamento em Tempo de Mudanças”, com o objetivo de potencializar a assessoria aos grupos de jovens das comunidades eclesiais de Mato Grosso do Sul.
 
 
O tema central do Encontro era “Assessoria e Acompanhamento em Tempo de Mudanças” seguido do lema “Nossa PJ reflorescerá em Mato Grosso do Sul” objetivando potencializar o acompanhamento aos grupos de jovens de todas as comunidades eclesiais de Mato Grosso do Sul. Além de ter formar assessores/as capacitados/as para o acompanhamento juvenil em vista da construção da autonomia e da evangelização juvenil, tendo como horizontes a Jornada Mundial da Juventude no Brasil e a Campanha da Fraternidade.
 
 
 
O Encontro foi assessorado por Marcelo Lemos, da Casa da Juventude Pe. Burnier de Goiânia, que nos ajudou a refletir diversas temáticas, dentre elas a Assessoria e o Acompanhamento, a Vocação e a Organização. Todos os momentos foram pensados a partir da vida da juventude e iluminados a partir dos lugares bíblicos: Emaús, Belém, Nazaré, Jerusalém, Betânia e Samaria.  Contando também com a participação de dom Eduardo Pinheiro, bispo auxiliar de Campo Grande e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil participou no período da manhã do sábado, dia 08 de setembro, saudando os/as participantes do Encontro destacando a importância da formação permanente dos/as assessores.
 
 
 
 
Os rostos dos/as participantes demostravam a grande alegria de ter passado esses dias em comunhão com todas as dioceses que compõem o Regional Oeste 1. Desde muito tempo, é a primeira vez que representantes de todas as dioceses participam de um Encontro sobre a Evangelização da Juventude. Agora começa o grande desafio, primeiro de ampliar esses momentos em todas as Dioceses de Mato Grosso do Sul, depois de continuar realizando momentos de encontro e formação em instância regional. 
Autor/Fonte: Alexsander Arguelo / Walkes Vargas

"Não é pra ter CEBs, mas sim ser CEBs. ..

Na mística e construção do Reino temos como motivação a Cruz. Hoje podemos dar o sentido que nos agrada a cruz. Mas é preciso compreender a Cruz como sinal de esperança. A Cruz não é responsável pelos sinais de dores que temos. A cruz é o sentido da esperança. Da utopia, que  número de vezes são esquecidas. Cruz sem utopia é apenas o sinal da dor. Cruz com utopia se torna o sinal de que a ressurreição é nossa grande alegria.
Nos dias 07 a 09 de setembro tive a graça de partilhar a vida no 11º encontro estadual da CEBs de Santa Catarina.  Um povo lindo representando as igrejas povo de Deus. Representando o chão de nossa igreja da Bela e Santa Catarina e em um lugar extraordinário a ilha de Florianópolis, “uma ilha rodeada pelas águas do mar”. Nós fomos o mar enquanto povo reunido em plenária, para ouvir e sentir as experiências e os ensinos. Era um lindo mar, que aos poucos se dividia em “ranchos” para partilhas mais próximos a vida. Os ranchos foram os chãos dos lugares bíblicos de ontem e de hoje... Galileia, Jerusalém, deserto, Samaria... Depois de partilhar a vida e as experiências  eclesiais e sociais.
Povo que assume o compromisso bíblico de ser profeta. Todo profeta anuncia e denuncia. Só é possível anunciar e denunciar quando assumimos esta missão de ser profetas. O profetismo a serviço da vida. A justiça e defesa da vida. A vida.
Dom Manoel, logo na abertura do encontro explica que "Não é pra ter CEBs, mas sim ser CEBs. E q esse encontro nos torne mais CEBs!" acreditar que somos igreja de base. Pois Jesus foi de base. Somos comunidades e assim devemos ser. Uma igreja CEBs ...
Hoje tantas pessoas negam a importância das Cebs. E com ela a experiência da Teologia da Libertação.   Para alguns, isso é obra de “marxistas de esquerda”... Eu já fiquei furioso com isso, hoje dou risada da ignorância. Por que olhar um povo que vive e que acredita em um Projeto maior, Acredita na construção do Reino Definitivo na Civilização do Amor e negar que vivem isso por causa do Evangelho... Isso sim é a maior heresia!
Na tarde de domingo enceramento do encontro, fizemos a experiência de caminhar. Caminhemos em direção do alto do morro. Em celebração. Em liturgia. Em romaria. Na frente ia à cruz, não uma cruz que representa a morte, mas a cruz que brotara e se tornara vida. Cruz esta com historia de um povo. Cruz que representava os mártires que estavam presentes. Caminhamos acreditando. A esperança brotava nos olhos de tantos que ali estavam. Verdade que não éramos uma multidão como nos grandes shows evangelizadores. E acredito que não devíamos ser multidão ali, pois nos dizia o assessor do encontro  "Não adianta sermos o país mais católico do mundo se não partilhamos o pão" (Pe. Benedito Ferraro). Não somos massa, somos fermento...
A vida daqueles que deram suas vidas em nome de uma causa. De um projeto... Projeto de Reino. Deve ser celebrado, ser lembrada, ser divulgada... “comungar é tornar se um perigo” e é... Acreditamos em tudo isso. Acreditamos na CEBs, por que comungamos. “é Jesus este pão de igualdade” é por causa d’Ele. Que sonhamos que caminhamos que sofremos...
"Justiça e profecia a serviço da vida" é isso que queremos, é isso que acreditamos...
Rodrigo szymanski

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Rumos da Teologia da Libertação e contribuição de padre José Comblin foram temas da II Semana Teológica

Terminou na sexta-feira (14), na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa (Brasil) a II Semana Teológica José Comblin, momento que teve início na última quarta-feira e reuniu religiosos, pesquisadores e professores em torno do tema "O legado da Teologia da Libertação e a contribuição de José Comblin”.

Agenor Brighenti, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC/PR, que palestrou ontem sobre o tema "A Teologia da Libertação numa perspectiva ameríndia”, apontou que a II Semana Teológica se insere no contexto de preparação para o Congresso Continental de Teologia,  que acontece de 7 a 11 de outubro em São Leopoldo, Rio Grande do Sul.

O professor afirmou que o evento levantou discussões sobre os 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II e mostrou a trajetória da Teologia da Libertação nos últimos anos, assegurando que ela está se "se repensando e se refazendo”. "A Teologia da Libertação está viva e buscando identificar seus novos desafios e dar respostas condizentes com o contexto de hoje. Ela continua atual, relevante e comprometida com as transformações sociais”, assegurou.

O legado do padre José Comblin, teólogo que ficou conhecido como ‘profeta da Igreja dos pobres’ também foi abordado durante a programação da II Semana Teológica. O frei capuchinho Luis Carlos Susin, secretário geral do Fórum Mundial de Teologia da Libertação, chamou atenção para três aspectos que marcam a trajetória de José Comblin.

"O primeiro e principal aspecto é que ele ensinou a trabalhar a teologia com um método e fez isso quando decidiu vir para a América Latina para encontrar uma alternativa de uma igreja mais viva. Ele tinha expectativas e vontade de aprender. O segundo aspecto do método é que ele fez deslocamentos sociais, eclesiais e teológicos e passa a ver a teologia com outros olhos e a falar a partir da linguagem do povo daqui. O terceiro aspecto é a experiência de liberdade espiritual. Comblin era livre e esta foi uma característica que o marcou. Ele defendia que toda liberdade procede do Espírito Santo”, explicou o frei capuchinho.

Abordando outra temática amplamente discutida durante o encontro, os rumos da Teologia da Libertação, Carlos Susin completou. "Vamos continuar a Teologia da Libertação levando em consideração um mundo mais globalizado, pluralista e que se modifica constantemente”.

No final do dia de ontem, Ermanno Allegri, diretor da Agência de Informação Frei Tito para América Latina (Adital), fez uma exposição sobre as quatro Jornadas Teológicas Regionais realizadas no ano passado em preparação para o Congresso Continental de Teologia e sobre a procura contínua em se construir o pensamento teológico na América Latina.

Congresso Continental de Teologia

De 7 a 11 de outubro, acontece na Unisinos, em São Leopoldo (Rio Grande do Sul – Brasil) o Congresso Continental de Teologia. O evento se insere no contexto de dois grandes acontecimentos que marcam 2012: os 50 anos da inauguração do Concílio Vaticano II, celebrada pelo papa João XXIII; e os 40 anos da publicação do livro Teologia da Libertação. Perspectivas (Gustavo Gutiérrez), que consagra a trajetória da teologia no continente latino-americano.

O encontro, que foi precedido por Jornadas Teológicas Regionais, buscará reunir "em torno ao Vaticano II e à teologia latino-americana, para discernir os novos desafios de uma época marcada por profundas transformações e as consequentes tarefas para uma teologia como serviço à Igreja e à humanidade, em um mundo pluralista e globalizado”.

Para o professor Brighenti, que está na organização do Congresso, este momento é um esforço de mobilizar a comunidade teológica e trazer a Teologia da Libertação para "a praça pública” e olhar para o futuro.

Latinoamericanamente

11 setembro de 1973. Eu era então um jovem estudante de teologia, frade franciscano que mal conhecia as coisas e o mundo. Mas a América Latina já pulsava nos corações dos estudantes em meio à ditadura militar brasileira. A morte, o suicidamento, de Salvador Allende foi um choque. Eram tempos em que os jovens, no meu caso, e muitos militantes das antigas sonhavam com uma frente guerrilheira que viria dos morros para derrubar os poderosos e o regime. Muitos estavam na cadeia – foi quando tivemos contato com as Cartas do cárcere, depois Cartas da prisão, de Frei Betto, e outros – outros tantos no exílio, outros eram torturados e mortos, outros tantos desaparecidos. Mas surgiam as Comunidades Eclesiais de Base, as pastorais populares, quase na surdina, no silêncio, onde os espaços da Igreja permitiam ou eram tolerados.
O Chile e sua primavera eram o refúgio político preferido de muitos militantes exilados, além de Cuba e Europa, querendo conhecer e compartilhar da experiência chilena, além de não ficarem tão distantes dos seus e da pátria amada. Aí vem o golpe de Pinochet, assassinatos como o de Victor Jara, expulsão de brasileiros como Paulo Freire para mais longe.
Nos encontros de formação de jovens cristãos, cantávamos a plenos pulmões, com a alma e o coração, as canções de Victor Jara, preso e assassinado no Estádio Nacional com as mãos esmagadas para nunca mais tocar violão e cantar, e outras tantas canções latino-americanas, embalados pela voz de La Negra, a grande Mercedes Sosa. Sabíamos as letras de cor, em espanhol. Quem não lembra de Te recuerdo, Amanda? –  “Te recuerdo, Amanda/ la calle mojada/ corriendo a la fabrica donde trabajaba Manuel./ La sonrisa ancha, la lluvia en el pelo,/ no importaba nada/ ibas a encontrarte con el,/ com el, con el, com el./ Son cinco minutos/ la vida es eterna/en cinco minutos./ Suena la sirena,/ de vuelta al trabajo/ y tu caminhando lo iluminas todo/ los cinco minutos/ te hacen florecer (...) Que partió a la sierra/ que nunca hizo daño/ que partió a la sierra/ y en cinco minutos/ quedó destrozado./Suenan las sirenas/ de vuelta al trabajo/ muchos no volvieram/ tampoco Manuel.” (Tantos anos depois, arrepio-me todo e canto baixinho ao transcrever a letra).
Ou Plegaria a um labrador: “Levántate y mira la montaña/ de donde viene/ el viento, el sol y el agua (...) Levántate y mirate las manos/ para crecer, estréchala a tu hermano,/ juntos iremos unidos en la sangre,/ hoy es el tempo que puede ser manãna./ Libranos de aquel que nos domina em la miséria:/ traenos tu reino de justicia e igualdad;/ sopla como el viento la flor de la quebrada,/ límpia como el fuego el cañón de mi fusil (...) /Levántate y mirate las manos/ para crecer, estréchala a tu hermano,/ juntos iremos unidos en la sangre,/ ahora en la hora de nuestra muerte. Amén.”
Eram os cantos da libertação e do despertar da primavera latino-americana, espelhada naquele momento no Chile. A esperança estava presente e nos animava na luta.
Veio o golpe de Pinochet, o fim da liberdade e da democracia, o suicidamento de Salvador Allende. Foi a inspiração para o poema que escrevi em 11 de setembro de 1973, afixado no Mural do Instituto de Teologia da PUC-RS, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, também homenagem a Victor Jara e outros cantantes latino-americanos. Ei-lo: “ALLENDE VIVE!/Uma bala mata o homem./Uma bala não mata a ideia./Os dias são muitos,/ incandescentes./Ardem na poeira do tempo./Nada como as horas que se sucedem,/os minutos e segundos,/as batidas do coração que abraçam milhões./Sonhos são para serem sonhados./Sonhos iluminam o horizonte./Sonhos são eternos./Há um tempo para cada coisa./Há um tempo para a morte./ Há um tempo para a vida./Latinoamericanamente,/sobrevivemos. Brasileiramente, vivemos e ressuscitamos Allende”.
Os tempos passaram, são outros. Os sonhos, pelo menos no meu caso, permanecem, continuam vivos. Não são mais os sonhos de guerrilheiros descendo dos morros, "tomando de assalto o poder", à la Fidel, Raul e Che. Esse tempo e sua possibilidade passaram, embora continuem urgentes e necessários. O capitalismo financeiro, destrutivo e sem alma, tomou conta do mundo e elimina a esperança e o futuro de jovens e trabalhadores, especialmente na crise europeia.
O sentimento latino-americano, bolivariano, de Victor Jara, de Che, de Mercedes, tantas e tantos, porém, está vivo nos movimentos sociais e populares, na Teologia da Libertação, nas Comunidades Eclesiais de Base que ainda resistem, nas mobilizações e organizações dos de baixo, nos governos populares e democráticos.
Como cantava Jara, "hoy es el tempo que puede ser manãna", na América do Sul e na América Latina. Feliz e finalmente, o tempo que está-se fazendo hoje não é mais apenas futuro. É unidade sul e latino-americana, como pregava o Che, com democracia popular, com soberania, com igualdade e justiça. Há muito a fazer, coletiva e solidariamente, é verdade. Mas o tempo chegou, a história está sendo feita pelos pobres, pelos trabalhadores, pelos de baixo, quase 40 anos depois do suicidamento do socialista Salvador Allende.
Allende vive!

Selvino Heck 
assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

Oportunidade imperdível: O Congresso Continental de Teologia

O Congresso Continental de Teologia, que se realizará em São Leopoldo, para José Ferrari Marins da equipe de articulação das comunidades eclesiais de base - CEBs, "significa, para o caminhar eclesial de aplicação do Vaticano II e das Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano, uma grande oportunidade de recolher o melhor das experiências realizadas, de fazer a sempre necessária autocrítica, de aprofundar intuições, de discernir o que o Espírito está realizando em nosso tempo e inspirando aos seguidores de Jesus".

Eis o artigo.

Na manhã do dia 8 de dezembro de 1965 o Papa Paulo VI, com os Padres Conciliares, os “periti”, os auditores, observadores e a multidão de peregrinos vindos de todo o mundo, junto com os cristãos da Igreja romana e outros... se reuniram na Praça de São Pedro para a celebração conclusiva do Concílio Vaticano II.

Os brasileiros (padres conciliares e peritos, que eram mais de 250) transbordavam de euforia. Primeiro e evidentemente, pela conclusão do Vaticano II. Haviam sido seus protagonistas. Segundo e com razão não menos importância, porque podiam retornar às suas Igrejas locais com um Plano de Pastoral de Conjunto para a aplicação do que agora estavam proclamando ao mundo.

Estive entre eles. Colaborei na confecção do mencionado plano, como e muito mais, em sua aplicação nos anos seguintes. De modo particular, me foi pedido concentrar-me na temática dos ministérios e das comunidades eclesiais de base (ou simplesmente CEBs), que já se multiplicavam no Brasil desde a década dos anos 1950 (Barra do Piraí, em Natal, RN – S. Paulo de Potengi; Cravinhos, SP.; Pirambú, CE). E, com isso, chegamos à Assembleia de Medellín, em setembro de 1968, quando se escreveu o inspirado texto do documento 15,10 [1].

As CEBs têm sido pensadas como um novo e original sujeito na Igreja e na sociedade. Resultaram limitadas e frágeis em face da enormidade de ambas as instituições. Têm despertado esperanças, suspeitas e reações agressivas desde indiferenças que paralisam até a difamação aberta.

Assim que as “ameaças e o risco de dissolução” são inerentes ao processo das CEBs e às alternativas de criar algo novo, tanto na Igreja como na sociedade, seja em nível local como na sociedade, seja em nível global.

Sem embargo, como passa com os novos sujeitos comunitários, as CEBs, assim como tiveram acolhida e êxitos, também cometeram erros estratégicos.

O Congresso acadêmico internacional, que irá ser realizado se em São Leopoldo por mediação da Unisinos, significa, para o caminhar eclesial de aplicação do Vaticano II e das Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano, uma grande oportunidade de recolher o melhor das experiências realizadas, de fazer a sempre necessária autocrítica, de aprofundar intuições, de discernir o que o Espírito está realizando em nosso tempo e inspirando aos seguidores de Jesus. Convidamos a todos os assessores/assessoras e participantes de CEBs para que possam se encontrar conosco no próximo mês de outubro, no Brasil. Desde agora sabemos que vai nos invadir a mesma alegria de Jesus ao escutar o povo simples e vulnerável: “Comoveu-se em seu íntimo... Graças, Pai, porque o tens revelado a estes...” (Mt 11,25-27 e Lc 10,21-22).

Nota:

[1] Com o apoio do secretário geral e depois presidente do Celam, Cardeal Eduardo Pirônio, formamos uma equipe itinerante a serviço das Igrejas do continente e do Caribe, em linha de aplicação dos documentos aprovados e para acompanhar o processo das CEBs nas Igrejas que, por acaso, pedissem assessoria. Cerca de 30 pessoas (padres, freiras, leigos) de várias nacionalidades e por diferentes períodos participaram dessa equipe que ainda continua ativa e ocasionalmente tem também colaborado com igrejas da Ásia (5 vezes), África (2 vezes), Austrália (7 vezes), Nova Zelândia (1 vez), EUA, América Latina e Caribe (constantemente por 40 anos).

“O Reino de Deus deve ser perseguido também aqui na terra”

Adital - “Religião e fé não podem se limitar ao ambiente da Igreja; precisam enxergar a dimensão política, as causas das injustiças e desigualdades sociais”. Este foi o lema que conduziu a vida religiosa do bispo emérito de Juazeiro, Dom José Rodrigues de Souza, que atuou no Nordeste, falecido na madrugada do último domingo (09), relembra Haroldo Schistek, coordenador do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – IRPAA.  Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, após retornar do enterro de Dom José, Schistek recorda a atuação do bispo junto aos excluídos do Nordeste e as iniciativas desenvolvidas para conscientizar e ajudar as pessoas diante dos problemas sociais evidenciados na região. “Para os pobres, pequenos agricultores, criadores de animais na Caatinga, pescadores, ameaçados de grilagens, ele era o endereço certo. As cartas enviadas ao bispo, assinadas pelos lavradores, eram lidas no programa ‘Semeando a Verdade’, causando sempre grande repercussão”. Durante os 27 anos em que foi bispo de Juazeiro, destaca, “deixou claro que a pobreza não se elimina dando esmola, mas se engajando na derrubada de estruturas injustas. E cada cristão precisa se engajar nesta empreitada”.

Dom José Rodrigues encontrava-se entre os bispos que deram e dão apoio às Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, sendo o pioneiro “na maneira como reagir a projetos governamentais, ao exemplo da Barragem de Sobradinho”. Segundo Schistek, sua atuação junto das comunidades foi “uma aula para o movimento popular, como exemplo de luta por seus direitos em outras novas obras e resultou no Movimento Nacional dos Atingidos por Barragens”. Também foi uma figura central no desenvolvimento de um “novo paradigma da convivência com o semiárido”. “Utilizou-se do rádio e outros instrumentos de comunicação para levar ao povo a mensagem de libertação através da convivência com o clima e com nossa região, evidenciando os aspectos políticos que sustentavam a famigerada indústria da seca no semiárido brasileiro, que possui, no paradigma ilusório do ‘combate à seca’, a sua maior fonte de renda”, destaca.

Haroldo Schistek é teólogo pela Universidade de Salzburgo, Áustria, agrônomo pela Universidade de Agricultura em Viena e da Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco em Juazeiro, na Bahia. É idealizador do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – IRPAA, com sede em Juazeiro, fundado em 1990. Trabalha com assessoria relacionada a recursos hídricos, desenvolvimento rural, beneficiamento de frutas nativas, questões agrárias, entre outras áreas. É elaborador de apostilas, livros, relatórios. Além disso, acompanha e coordena programas junto de agricultores, dentro do conceito da Convivência com o Semiárido. Integra a Coordenação Coletiva do IRPAA como coordenador administrativo. Confira a entrevista.

Conte-nos um pouco da trajetória, na Igreja, de Dom José Rodrigues de Souza, bispo emérito de Juazeiro?

Dom José Rodrigues de Souza C.SS.R (Congregação do Santíssimo Redentor, ou seja, redentorista) (foto) nasceu em Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro, em 1926. Ingressou na Congregação do Santíssimo Redentor e foi ordenado sacerdote em 1950. Por longos anos ele atuou na equipe dos missionários itinerante dos redentoristas. Fez especialização em Catequese e Pastoral, na Bélgica. Foi professor de Português. Por quatro anos foi superior vice-provincial de Brasília (hoje, Província de Goiás). Em 1974, foi nomeado pelo papa Paulo VI como bispo de Juazeiro, Bahia, sucedendo o primeiro bispo da Diocese de Juazeiro, D. Tomás Murphy, também redentorista. Era famoso por suas pregações e palestras claras e bem estruturadas. Os seus programas de rádio eram ouvidos com assiduidade por todos – muito além dos limites da diocese, seja pelo povo simples, seja pelos “coronéis”, de todas as colorações (estes últimos com preocupação). Grande também era a sua capacidade de escrever. O jornal diocesano “Caminhar Juntos” era todo mês um retrato muito fiel dos problemas, conflitos e avanços, sejam do âmbito da Igreja ou da sociedade civil. Pode-se dizer que D. José Rodrigues foi nomeado bispo no momento certo: a construção da Barragem de Sobradinho estava ainda no começo e os grandes projetos de irrigação a serem iniciados.

Como ele era visto e reconhecido pela comunidade local? Ele tinha muitos conflitos com os “coronéis” da região? Dom José ficou conhecido como o bispo dos excluídos. Quem eram os excluídos que ele apoiava?

Dom José Rodrigues expressava bem claro: religião e fé não podem se limitar ao ambiente da Igreja; precisam enxergar a dimensão política, as causas das injustiças e desigualdades sociais. Deixou claro que a pobreza não se elimina dando esmola, mas se engajando na derrubada de estruturas injustas. E cada cristão precisa se engajar nesta empreitada. Para os pobres, pequenos agricultores, criadores de animais na Caatinga, pescadores, ameaçados de grilagens, ele era o endereço certo. As cartas enviadas ao bispo, assinadas pelos lavradores, eram lidas no programa “Semeando a Verdade”, causando sempre grande repercussão. Mas ele não deixou só na divulgação: mantinha paróquias atuantes e uma equipe da Comissão Pastoral da Terra – CPT eficiente, que procuravam junto à população saídas e estratégias.

Não é de estranhar que políticos, grupos e famílias tradicionais viam nele logo o oponente que tocava no seu poder de mando e perturbava a aparente “paz” social. Mas D. José Rodrigues não tinha receio de colocar as mãos nas chagas da sociedade: no auge dos anos da construção da barragem, Juazeiro e Sobradinho atraiam muitas “mulheres da vida”. Mulheres muitas vezes jovens demais, pobres mesmo, exploradas e condenadas por todos por serem “pecadoras”. O bispo montou uma pastoral específica para elas, com a finalidade de serem respeitadas como gente e sentirem sua dignidade como pessoa. Montou a Pastoral da Mulher Marginalizada. Celebrou com elas a Santa Missa. Ao protesto da sociedade, na pregação da missa, não hesitou em citar a Bíblia onde diz: “Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” (Mt 21, 31).

A partir de sua atuação no Nordeste, como ele chamou a atenção da Igreja para a situação do povo local? Como o senhor descreve a relação dele com os fiéis, especialmente com aqueles que ele chamava de as “vítimas do desenvolvimento”, atingidos pela barragem de Sobradinho e pelos projetos de irrigação?

Não era novidade que os direitos à posse de terra para os pequenos agricultores constituíam-se como sendo muito voláteis perante o poder dominante. Mas reconheceu a gravidade da situação e foi um dos fundadores da CPT Regional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB Nordeste III (Bahia/Sergipe), já em 1976, da qual foi bispo acompanhante por muitos anos. Logo em seguida criou a CPT na diocese como resposta pastoral ao sofrimento do povo expulso pela barragem de Sobradinho e aos camponeses vítimas da grilagem de terra, em consequência à implantação de grandes projetos de irrigação.

A ação profética dele dedicou também atenção específica a outros grupos sociais que pouca atenção recebia: criou mais sete pastorais sociais (juventude do meio popular, pescadores, a já mencionada mulher marginalizada, saúde, reassentados, carcerária, criança), “círculos de cultura” (com Paulo Freire), um setor diocesano de comunicação que revolucionou a comunicação e o fluxo de informações entre os municípios da diocese. Implantou uma biblioteca de 45 mil volumes, realizou uma campanha pioneira pelas cisternas familiares de água de chuva, pilar da Convivência.

A Pastoral da Juventude do Meio Popular tinha como meta formar jovens com “os dois pés” na fé e na vida, para dar um sentido novo à vida deles e transformar a sociedade. Não eram raras as ocasiões, e ocorrem até hoje, em que, num ambiente de reunião ou encontro, quando uma pessoa se destacava pela visão boa dos problemas e pelo jeito envolvente de conduzir a discussão, ela se revelava como tendo sido membro da Juventude do Meio Popular nos anos anteriores.

E as barragens?

Pioneiro foi na maneira como reagir a projetos governamentais, ao exemplo da Barragem de Sobradinho. Até então, o governo, militar ou não, fazia o que bem entedia com os moradores que residiam próximos à obra. No nosso caso, tantas vezes se ouvia um porta-voz da Chesf (Companhia Hidroelétrica do São Francisco – executora da obra) afirmar na televisão, a repórteres, que o tratamento com as populações residentes acontece de maneira absolutamente justa, que ninguém ficará sem as devidas indenizações. Uma breve visita às comunidades evidenciava bem o contrário. O acompanhamento destes conflitos, por ele e sua equipe, causou recuo da Chesf, processo ganhos ou conciliações, indenizações pagas ou entrega de parcelas de terra para famílias atingidas. A luta contra a construção da barragem foi, pode-se dizer, uma aula para o movimento popular, como exemplo de luta por seus direitos em outras novas obras e resultou no Movimento Nacional dos Atingidos por Barragens.

Dom José foi um dos incentivadores da convivência com o semiárido. Como ele contribuiu para repensar o desenvolvimento na região?

Para nós do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – IRPAA, a partida de D. José Rodrigues é penosa e triste, pois a história da entidade e a sua pessoa estão intimamente ligadas. Ele foi uma figura central na fundação do IRPAA, sendo inclusive o primeiro presidente da entidade. Em suas caminhadas pela diocese de Juazeiro, divulgava o novo paradigma da convivência com o semiárido, em suas pregações, de forma contextualizada com as passagens bíblicas. Utilizou-se do rádio e outros instrumentos de comunicação para levar ao povo a mensagem de libertação através da convivência com o clima e com nossa região, evidenciando os aspectos políticos que sustentavam a famigerada indústria da seca no semiárido brasileiro, que possui, no paradigma ilusório do “combate à seca”, a sua maior fonte de renda.

Dom José também foi um dos grandes apoiadores das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs. O que destacaria de sua atuação junto às comunidades pobres da caatinga e das periferias urbanas, especialmente no período da ditadura?

A época não foi fácil politicamente. Todos tinham medo de expressar sua opinião nas universidades, em reuniões e em lugares públicos. Os quatro municípios atingidos pela barragem de Sobradinho foram declarados área de segurança nacional. Mas ele não se intimidou. Sua casa foi invadida e vasculhada por agentes da ditadura, os muros e portas da catedral foram pichados pelo Comando de Caça aos Comunistas. Por toda parte podia de se ler em letras grafais “O bispo de Juazeiro é comunista”, o que perante os olhos da ditadura era o maior crime imaginável.

Quando a população se revoltava contra desmandos públicos e privados, atribuíram isso à “agitação” do bispo. Certa vez, dois fazendeiros no vale do Salitre foram mortos pela população revoltada que queria defender seu direito à água, perante as eletrobombas potentes que sugavam toda água do pequeno rio. Seguiu uma campanha de difamação contra o bispo, dizendo que ele seria o mandante destas mortes. A organização eclesial (CEBs), sindical e política do povo sertanejo teve grande impulso sob sua inspiração e incomodou os coronéis locais e os donos do poder na Bahia. Por conta de seu destemor na defesa dos pobres, explorados e oprimidos, esteve por várias vezes sob risco de violência e morte, mas não retrocedeu, impávido, às vezes contra nossa vontade.

Dom José costumava dizer que era fiel a Jesus de Nazaré. Como a história e o legado de Jesus se manifestaram no seu dia a dia?

 Dom José Rodrigues era a simplicidade em pessoa. Era de grandeza em personalidade, impressionava pela palavra, pelos conhecimentos, pela informação. Falava com firmeza inquestionável perante a Assembleia Legislativa, na Câmara Federal e em viagens pela Europa. Aliás, numa época em que, no Brasil, valia a lei do silêncio, as várias viagens para Europa foram de grande valia para os pobres. Ganhava aliados nas pessoas de lá que protestavam junto às Embaixadas do Brasil na Europa, e enviavam abaixo-assinados para autoridades brasileiras. Importante foi também conseguir informações sobre o Brasil, sobre projetos e as fontes internacionais de financiamentos que aqui, na época, eram mantidos em sigilo. Numa contra-ação das pichações difamatórias, jovens lançaram mão de pichações a favor do bispo. Uma que lembro vivamente dizia: “Dom Rodrigues, o pequeno grande bispo”. Isso porque ele era de baixa estatura. A simplicidade e o desapego aos bens materiais se mostram também no vestuário. A sua camisa lavava toda noite de mão própria e pendurava na varanda da casa, virada para a rua, para usar no próximo dia. Nunca usava ar condicionado, quando alguém passava de madrugada, ao lado da casa, ouvia, pela janela aberta, ele escrevendo na pequena máquina datilográfica, já os artigos e publicações dos últimos acontecimentos.

Para encerrar a entrevista, qual destacaria como sendo o legado do bispo emérito de Juazeiro, Dom José Rodrigues de Souza?

O legado? O Reino de Deus deve ser perseguido também aqui na terra, através da luta pela justiça, começando com cada um de nós. À Igreja e à sociedade faltam novos Dom José Rodrigues.

O nome "CEBs - "O que são as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)?


Movimento que se tornou CEBs e nosso país pela primeira vez....
 
Houve um tempo em que não havia muita necessidade de explicar o significado da sigla "CEBs". Fazia parte do cotidiano e do vocabulário de muitos cristãos católicos. Transmitia entusiasmo e esperança, assim como havia dúvidas e interrogações.  Mas, hoje, muitos nem se lembram mais dos difíceis e duros anos da ditadura militar no Brasil e nem participaram do processo de democratização. Foi nesta época que surgiram, em todo o país, pequenas comunidades ligadas principalmente à Igreja católica. Querendo ou não, contribuíram de diferentes maneiras para o processo de democratização. Eram grupos de pessoas que, morando no mesmo bairro ou nos mesmos povoados, se encontravam para refletir e transformar a realidade à luz da Palavra de Deus e das motivações religiosas. Daí o nome de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Começavam também a reivindicar pequenas melhorias nos bairros, mas, ao mesmo tempo, iniciavam uma caminhada para tomar consciência da situação social e política. Queriam a transformação da sociedade. Inspiradas no método "Paulo Freire" de alfabetização de adultos, executavam uma metodologia que levasse da conscientização à ação.
 
O que as CEBs não são
Segundo Sérgio Coutinho, assessor nacional das CEBs, não se pode confundir CEBs com “GRUPOS ECLESIAIS”. Ou seja, as CEBs não são “pastorais”, não são serviços comunitários e muito menos “movimentos eclesiais”. Sendo assim, vamos ver quais são as diferenças entre as CEBs e os diferentes grupos que atuam na Igreja e nas comunidades.
As CEBs são fundamentalmente uma forma de organizar a Igreja; é a Igreja “na base”. São as unidades eclesiais menores, mas relativamente completas, autônomas e dotadas dos elementos constitutivos de uma Igreja: a Fé, o Anúncio, a Celebração, a Comunhão e a Missão. São comunidades de base eclesial e não uma comunidade de base qualquer, como um grupo de reflexão ou de amigos etc. Podem surgir até mesmo destes grupos, mas não podem ser reduzidos a eles.
Na comunidade, todos e todas, homens e mulheres, jovens e adultos, lideranças ou não, geralmente em forma colegiada, assumem a animação e a condução de toda a comunidade. Ali estão presentes catequistas, a senhora do Apostolado da Oração, o pessoal da liturgia, as lideranças das pastorais sociais, animadores/as da comunidade e outros. Todos os assuntos são apresentados à comunidade, discutidos e assumidos por todos no conselho pastoral comunitário.
A Comunidade tem um caráter permanente e os grupos, por sua vez, são transitórios e se organizam para atender a um serviço ou objetivo bem específico.
A comunidade pode se compor por vários grupos diferentes. O grupo, ao contrário, é único e não é comunidade eclesial. Entrar em uma Comunidade Eclesial de Base é entrar na Igreja. Agora, entrar em um grupo não significa entrar automaticamente na Igreja como tal. Todo o batizado deve pertencer a uma comunidade. O batismo não é o rito de entrada em um movimento ou grupo.
Fonte: "Cartilha da Cebs de Cuiabá-MT"