segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Terra Comprometida - A antecâmara de uma tragédia anunciada


O que está a passar-se na Síria é um problema sério, terrivelmente sério num mundo instável onde crescem os elementos de indefinição, tanto económicos como sociais, sobretudo em regiões estratégicas dotadas com enormes potenciais de conflito e recursos energéticos determinantes.


Como sempre acontece quando um problema entra na fase de conflito aberto e que há muito extravasou fronteiras, a questão síria é apresentada ao mundo, pelos Media de “referência”, leia-se aqueles que servem de megafone dos interesses que mandam no mundo, como uma espécie de filme de faroeste onde se confrontam os bons e os maus. É a abordagem tipicamente maniqueísta que, quase sempre, tem antecedido e justificado vastas operações militares.


O mundo está metodicamente a ser informado de que na Síria tudo se resume à prepotência e à violência de um regime de tirania, o da família Assad, contra a revolta da “oposição”, uma espécie de coisa pura, romântica, indefesa, sacrificada no altar da indiferença sob os olhos de um mundo impávido perante o martírio.


Deixemo-nos de simplificações absurdas, olhemos um pouco para a realidade. O regime de Damasco é autoritário, tirânico na forma como, ao longo de décadas, tem suprimido liberdades e reprimido levantamentos oposicionistas, um comportamento que, por isso, não é novo. Com ele têm convivido directa ou indirectamente sucessivas administrações norte-americanas, vários governos de Israel, sabendo muito bem o que acontece no país. O regime corresponde a um equilíbrio de características seculares entre correntes económicas, religiosas e sectárias através do qual a minoria alauita, a que pertence a família Assad, tem dirigido um país de maioria sunita.


A oposição, na sua versão actual, pode ser muita coisa, tem até os seus bem intencionados vectores genuinamente democráticos, mas não é um oásis de santidade. O recente relatório da delegação da Liga Árabe que visitou os principais focos de conflito e de violência ajuda a perceber uma outra realidade, que vai muito para lá do frente-a-frente entre bons e maus.


Na origem do levantamento, como aconteceu na Líbia, estiveram expressões corajosas e com vocação democratizadora repudiando os problemas políticos, sociais e humanitários de um país sob ditadura. Rapidamente, porém, essas acções espontâneas e genuínas correspondentes ao espírito daquilo a que se chamou “Primavera Árabe”, começaram a ser enquadradas por grupos organizados, militarizados, representando sobretudo tendências religiosas, sectárias, nacionalistas, manipuladas e financiadas pelas petromonarquias do Golfo, apoiadas clandestinamente pelos Estados Unidos e a NATO.

Em termos de democracia, estes grupos valem tanto como a família Assad, no fundo não procuram mais do que uma troca de poder em Damasco. O relatório da Liga Árabe, do qual apenas se desligaram os delegados da Arábia Saudita – país sem qualquer legitimidade para avaliar o carácter ditatorial de outros regimes –, revela que os grupos armados da oposição participam igualmente em massacres de civis, manejam equipamento como bombas térmicas e mísseis anti-blindagem que não se compram no bazar da esquina.

Ao contrário do que os grandes interesses petrolíferos árabes desejavam, o relatório revela não um clima de violência unilateral mas antes um cenário muito mais próximo da guerra civil. Razão pela qual o seu conteúdo está a ser abafado por acção da actual presidência da Liga Árabe, exercida pelo Qatar, país que é um dos que mais tenta contribuir para o controlo e a domesticação das “Primaveras Árabes” pelos interesses da aliança entre as petromonarquias e a NATO.


Sabe-se também que o tão enaltecido Exército Sírio Livre, espécie de estrutura equivalente aos “rebeldes” da Líbia, é financiado pelo regime islamita da Turquia e tem como elementos preponderantes nas estruturas operacionais mercenários fundamentalistas com experiência adquirida na Al Qaida e grupos afins, alguns deles destacados da Líbia para a Síria pelo próprio Abdel Hakim Belhaj, ex-companheiro de Bin Laden, governador militar de Tripoli e verdadeiro ministro da Defesa da “nova” Líbia. O Exército Livre da Síria aguarda agora que a NATO se decida a apoiá-lo no terreno, razão pelo qual o veto da China e da Rússia a uma resolução das Nações Unidas que preparava caminho para uma futura intervenção caiu tão mal entre os governos da Aliança Atlântica e respectivos propagandistas.


Não sendo a Síria a Líbia, uma vez que é um país tecnicamente em guerra com Israel, com o qual tem problemas territoriais, envolvido nas instabilidade permanente no Líbano, por que razão a sua situação de quase guerra civil é, apesar de tudo, antecâmara de uma tragédia ainda mais ampla?


Porque a Síria de Assad é o último tampão à criação de condições plenas de guerra contra o Irã, grande inimigo da frente formada pelas petromonarquias ditatoriais do Gofo, Estados Unidos/NATO, Israel e até a Turquia.

Caindo a Síria nas mãos de uma anarquia como a da Líbia, manipulada em última instância pelos fundamentalistas sunitas mais ou menos aparentados com a Al Qaida, o Irã xiita será, sem dúvida, um alvo muito mais vulnerável. Esta hipótese aconteceria, porém, se fosse possível fazer equivaler a questão Síria à da Líbia, o que é muito improvável. Mais provável será uma guerra de longa duração num país marcado pelo ressurgimento pleno de lutas sectárias, religiosas e comunitárias.


Se olharmos para os exemplos dos resultados das intervenções dos Estados Unidos e da NATO no Iraque e no Afeganistão não é exagero admitir um cenário de guerras generalizadas e prolongadas estendidas aos territórios da Síria e do Irã, ligando-se aliás geograficamente com as do Afeganistão e do Paquistão, de um lado, e do Iraque, do outro, e ainda envolvendo diretamente Israel. Este é um dos quadros mais negros que poderemos imaginar hoje e que, pesando os fatos presentes, já está para lá da fase de especulação. Guerras prolongadas são desgastantes, agravam crises económicas e políticas, tendem a repercutir instabilidades em cadeia. Daí à tentação de as abreviar, recorrendo à solução nuclear, pode ser o passo de um anão.
A questão Síria é, sem qualquer dúvida, muito assustadora.


Fonte: Jornal de Angola


A ideia do socialismo cultural e o lixo mediático

Ao refletir sobre um assunto, não devemos desprezar o trabalho de todos os que já refletiram sobre ele. Isto parece tão óbvio que devia ser supérfluo dizê-lo. Infelizmente, neste estranho momento histórico, parece necessário reafirmá-lo. Não parece razoável que as decisões tomadas no âmbito do socialismo moderno ignorem a tradição socialista, de Bernstein a John Roemer, nem ignorem qualquer outra grande tradição de pensamento, como o liberalismo de Locke, Voltaire e tantos outros incontornáveis contributos.


Infelizmente a auto-denominada “Terceira Via” comportou-se de forma diametralmente oposta. Era de esperar que a tradição fosse criticada, demonstrando a sua insuficiência, antes de se perfilharem os pontos de vista daqueles que sempre se colocaram contra essa tradição.
Pelo contrário, a “Terceira Via”, de Lorde Anthony Giddens, abraça, com entusiasmo, posições neo-liberais, excluindo, por exemplo, qualquer hipótese de economia pública de mercado, sem análise aos argumentos dos defensores do socialismo de mercado.


Os exemplos deste desprezo pela cultura são muitos e em muitos temas, na “Terceira Via” e, infelizmente, nalgumas práticas dos partidos socialistas atuais.


A cultura exige que as novas propostas, da atualidade, sejam fundamentadas e melhoradas com base no conhecimento já acumulado ou, pelo menos, exigem que o abandono dos caminhos traçados pela tradição se faça após crítica desta. Não basta cavalgar a onda da opinião mais corrente, mesmo quando complementada por livros pretensamente abrangentes ou por tecnocracias economicistas que escondem os seus pressupostos ideológicos.


Como é possível que as teorias do socialismo de mercado sejam, hoje, quase completamente ignoradas na Europa, apesar de serem dos principais temas de debate dos académicos, norte-americanos, do grupo Real Utopia? Como é possível que as ideias de democracia participativa e cognitiva, bem como o debate sobre os contornos que estas devem assumir numa democracia socialista, não passem de notas de rodapé nos programas e debates socialistas, apesar de ser um dos campos nos quais mais se escreve e investiga, desde Held a Fishkin?


Será possível um sistema político com cidadãos realmente informados que não passe por múltiplos fóruns temáticos especializados, constituídos por cidadãos, com efetivo poder descentralizado?


Como é possível que os Media continuem a passar encapotadas mensagens ideológicas, a título de uma pretensa neutralidade objetiva que realmente nunca existiu, até porque os interesses políticos dos seus proprietários estão ligados aos interesses das grandes concentrações de capitais?


Para quando um verdadeiro pluralismo, com possibilidade de todas as forças políticas serem ouvidas, efetivamente, sobre os conteúdos dos Media que veiculem mais importantes mensagens ideológicas? Será possível a democracia sem democracia nos Media? Haverá dúvida que a política está à mercê do espectáculo dos Media, nos quais o sensacionalismo, a exploração do sadismo, a superficialidade e a repetição substituem o estudo e a solidez dos argumentos?


Alguém pensa ser possível que se informem os cidadãos passando, de três em três minutos, para outro assunto sem se aprofundar nada? Porque são esquecidas as várias teorias críticas sobre os Media, desde Adorno até ao liberal Karl Popper?


Será que, também, estamos satisfeitos com o indecoroso espectáculo dos Media que ignoram os efeitos das suas peças recreativas na sustentabilidade dos valores e da ética?


Como é possível que os Media centrem a cultura actual na procura de poder e de consumo, sem uma oposição sistemática do campo socialista que quase parece ignorar todo o contributo da teoria crítica e dos valores éticos que veicula, desde Marcuse a Anselm Jappe?


Como é possível que, apesar de Bernstein e Rawls, não se continue a procura da síntese entre liberalismo e socialismo? Como é possível que, depois de Kierkegaard, Freud, Gordon Allport e Edward Wilson, entre tantos, não se procurem as pontes entre o idealismo ideológico e o idealismo religioso, entre oriente e ocidente, entre o Concílio do Vaticano II, teologia da libertação e socialismo europeu? Como é possível que as teorizações sobre a economia do conhecimento, de Arrow a Paul Romer, mostrando as novas insuficiências do sistema de mercado puro, não mobilizem os socialistas em torno de uma economia de transparência, com instituições e regras que facilitam a efectiva apropriação da inovação pela multiplicidade das empresas, bem como um benchmarking amplo e sistemático?


Em suma, como foi possível tanta reinvenção da roda, pela “Terceira Via”, desaguando na quadrada roda neo-liberal que pouco mais é que o simplismo primitivista da lei do mais forte? Talvez a “Terceira Via” devesse ser chamada “terceira roda” do triciclo no qual se quis montar o socialismo a percorrer o íngreme caminho da História.


Efetivamente não sei como explicar tanta obliteração da cultura. Suponho que a enorme campanha mediática, contra o socialismo, orquestrada a partir da oportunidade psicológica da queda do Muro de Berlim, tenha desempenhado papel importante, apesar da evidência de que o socialismo democrático, gradual e humanista, de Bernstein, sempre se opôs ao belicismo de Marx expresso, por Lenin e Stalin, no comunismo soviético.


Essa evidência foi irrelevante para uma enorme campanha mundial da pior propaganda, contra todo o socialismo, que hoje dá os seus frutos, plenos de veneno e destruição. De facto, os Estados estão à mercê da sofreguidão e cobiça dos mercados financeiros, apesar dos Estados terem, muito recentemente, salvo estes mercados da implosão.


A classe política, na qual o povo se devia rever, é detestada pelo próprio povo, o Estado Social aproxima-se da insolvência, o crescimento económico entrou numa dança recessiva na qual só alguns poderosos ganham, as pequenas e médias empresas lutam contra a sufocação por elevados impostos e por condições leoninas impostas pelas grandes concentrações empresariais.


A proteção do Ambiente é adiada sine die, não se vê como resolver a insegurança, o fanatismo crescente e a degradação da ética. Os partidos socialistas continuam, corajosamente, a defender o Estado Social mas são obrigados a fazê-lo recuando de trincheira em trincheira. Contudo, a conjunção de tradição, ciência, cultura e criatividade encontrou já imensas ideias novas que, todavia, continuam a ser ignoradas pelos Media e, até, por largos segmentos da classe política.


Exige-se mais cultura, mais sério, sistemático e profundo debate e menos mediatismo e propaganda. Exige-se um socialismo cultural para dar ao mundo uma esperança reformista, gradual mas profunda e inovadora, em respeito por todas as classes sociais, crenças e ideologias.

Um socialismo reconstruído com ideias inovadoras e criatividade, amigo do brainstorming, sem ninguém ter receio de errar ou chocar mas em diálogo com a tolerância, com as múltiplas tradições e com a diversidade dos campos do conhecimento moderno.

José Nuno Lacerda

Fonte: Jornal de Angola

Fraternidade e Saúde Publica



A Campanha da Fraternidade da CNBB sempre nos propõe um tema para estudo, reflexão e ação durante o tempo litúrgico da Quaresma. Trata-se, na verdade, de complementar a conversão pessoal, própria deste período, com uma conversão de caráter pastoral e sociopolítico. Nessa perspectiva, a campanha elege determinada situação de abandono ou precariedade como centro de nossa atenção. Neste ano de 2012, está em pauta a Fraternidade e a Saúde Pública, cujo lema sublinha uma frase bíblica: “que a saúde se difunda sobre a terra...” (Eclo, 38,8).

A CF/2012 põe o dedo numa das feridas sociais mais profundas deste país. É como se os pastores percorressem as longas filas do INSS, ouvissem os clamores de inúmeros doentes em busca de tratamento e sentissem suas “angústias e tristezas”, para usar a expressão do Concílio Ecumênico Vaticano II (Gaudium et Spes, nº 1). O Brasil é falho em termos de atendimento público, mas não em termos de leis relacionadas à saúde, como veremos adiante. Originalmente, “o sistema único de saúde brasileiro [SUS] tem uma concepção filosófica humanista-comunitária maravilhosa; é perfeita na teoria, mas na prática deixa muito a desejar, revelando-se um caos em termos de funcionamento” (Pe. Leo Pessini, in. Revista Vida Pastoral, nº 283, março-abril de 2012).

A declaração poderia estender-se a outras áreas sociais. Nas metáforas de Gilberto Freire, o Brasil sempre contou com uma dupla política, uma para a Casa Grande, outra para a Senzala: um sistema de educação para ricos, outro voltado aos pobres; um sistema de transporte para ricos, outro voltado aos pobres; um sistema de segurança para ricos, outro voltado aos pobres; um sistema de habitação para ricos, outro voltado aos pobres. Na pirâmide social, o andar de cima, histórica e estruturalmente, conta com um tratamento diferenciado. Para o andar de baixo, sobram os favores, as migalhas, tais como bolsa família, bolsa escola, minha casa minha gente, e assim por diante.

No caso da saúde, o contraste é mais estridente. Os gemidos que sobem das filas do INSS, dos corredores de postos de saúde e hospitais, além da falta de profissionais de saúde e das condições precárias oferecidas setores de baixa renda, tornam-se ensurdecedores diante dos privilégios reservados aos que podem arcar com os custos de um Plano de Saúde. Aliás, estes pagam três vezes: através dos impostos exorbitantes e da previdência social, como todos, acrescentando as prestações do dito plano. Mesmo assim, na hora da enfermidade, não está garantida uma coberta total.

E por falar em Planos de Saúde, vale salientar que todos eles em conjunto cobrem uma população de aproximadamente 40 milhões de pessoas, enquanto o SUS acaba sendo o “Plano de Saúde” de 150 milhões. Ou seja, numa população de 196 milhões, oito de cada dez brasileiros dependem do Sistema único de Saúde. Ainda em termos de comparação, uma consulta médica custa para o SUS cerca de R$ 7,00, ao passo que os diversos Planos de Saúde pagam ao redor de R4 80,00 por consulta. Evidente que os médicos migram em debandada para as unidades de saúde cobertas pelos planos. Concentram-se onde os ganhos são melhores!

Entretanto, não faltam normas para garantir o direito universal à saúde. Este consta, em primeiro lugar, da Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948); depois, de acordo com a Constituição Federal do Brasil, promulgada em 1988, artigo 196, “a saúde é direito de todos e dever do Estado”; por fim, a Lei Orgânica da Saúde, nº 8.080/1990, que regulamenta o SUS, segundo citação do Pe. Leo, “garante os princípios do direito à saúde, do acesso universal e gratuito, da integração das ações preventivas com as curativas e da participação da comunidade (controle social) que se dá, de modo especial, por meio dos Conselhos de Saúde (criados pela Lei Federal nº 8.142/1990” (idem). A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, define a saúde não como ausência de doenças, e sim como o completo bem estar físico, mental e social. De um ponto de vista ainda mais amplo, poderíamos acrescentar a busca do equilíbrio psíquico e espiritual.

Entretanto, por melhor que sejam, as leis não bastam. O descompasso entre seu conteúdo e seu cumprimento chega a ser quilométrico, para não dizer infinito. Ocorre que, a exemplo de outros benefícios adquiridos, especialmente na área trabalhista e assistencial, o direito à saúde acaba reconvertendo-se em mercadoria. Mercadoria rara e cara, tanto em termos de acesso aos especialistas quanto na aquisição dos remédios necessários. Quem tem saúde deve pagá-la e que não tem deve comprá-la! A mercantilização da medicina constitui uma dos entraves mais sérios a uma saúde pública justa, abrangente e equitativa. A dor, a enfermidade e os medicamentos geram uma “indústria da doença”, altamente lucrativa e cobiçada.

Indústria que pode ser mãe de outra ainda mais indecente: a judicialização da saúde. De fato, para ter acesso aos direitos garantidos pelas leis supracitadas, não basta correr ao primeiro posto de saúde ou ao hospital mais próximo. Muitas vezes será necessário apelar para a justiça. E aqui os custos com a burocracia e os honorários de advogados, acrescidos às perdas dos dias não trabalhados, alimentam outro tipo de “indústria da doença”. Isso para não falar das fraudes, da corrupção, do tráfico de influência, da compra e venda de atestados medidos, e coisas desse gênero.

Nem precisaria concluir que o acesso aos meios de saúde e aos respectivos remédios torna-se bem mais difícil entre alguns segmentos da população. Entre eles, podemos citar os imigrantes sem documentos, os moradores de rua, os prisioneiros, os desempregados, as mulheres prostituídas, a população do campo... Mas a lista não é exaustiva. Nestes casos, vigoram muitas vezes a falta de conhecimento, as distâncias dos centros de saúde ou o simplesmente o medo de expor-se, como no caso dos estrangeiros “sem papéis”.

Uma verdadeira política pública de saúde, além de combater tais “indústrias”, deve concentrar seus esforços na melhoria do SUS – o “Plano de Saúde” dos pobres. Equipamentos de última geração; profissionais bem remunerados; atendimento humanitário; rede ampla e integrada, nas mais diversas especialidade; remédios ao alcance das famílias de baixa renda; descentralização da cidade para o campo, cobrindo todo território nacional... Eis alguns dos desafios!


Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Sete anos! - Irmã Dorothy Stang, um sorriso que contagia


O assassinato de Ir. Dorothy Stang, no dia 12 de janeiro de 2005, na área onde se desenvolvia um projeto de desenvolvimento sustentável PDS que aliava a produção familiar com a defesa do meio ambiente, como a missionária propugnava e defendia, provocou uma gigante onda de indignação nacional e internacional. Qual uma verdadeira tsunami, esta tragédia invadiu o Palácio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Tomou conta das redações dos jornais e dos estúdios das TV’s e das rádios. E seus abalos se sentiram em todo o mundo. A pequena e desconhecida Anapu passou a ocupar um lugar de destaque na geografia mundial.

A reação do governo foi rápida. Ministros de Estado se deslocaram até Anapu (PA). Autoridades de todos os níveis se manifestaram condenando a agressão. O exército brasileiro deslocou contingentes para a região. Promessas de punição implacável dos culpados se repetiram. Medidas para regularizar a posse das terras foram anunciadas e áreas de proteção ambiental criadas.

Não demorou muito tempo e os dois pistoleiros executores do crime foram detidos. Depois foi preso o intermediário que os contratou e por fim dois fazendeiros, apontados como mandantes do crime. As investigações da polícia federal apontaram para uma ação envolvendo um consórcio de fazendeiros e madeireiros interessados na eliminação desta missionária. Os executores do assassinato, Rayfran das Neves Sales e Clodoaldo Carlos Batista e o intermediário Amayr Feijoli da Cunha, o Tato, foram julgados e condenados num processo muito rápido para a morosidade da justiça paraense. Um dos mandantes, Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, foi condenado a 30 anos de prisão, em 2007, porém, menos de um ano depois, em segundo julgamento, foi absolvido. Julgado novamente em abril de 2010, foi condenado, após 15 horas de julgamento, a 30 anos de prisão em regime fechado. Em outubro de 2011 ganhou o direito de cumprir o restante de sua pena em regime semiaberto.

O outro acusado de ser mandante, Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, esteve preso durante um ano, mas foi solto, pouco depois, por habeas corpus emitido pelo Supremo Tribunal Federal. Julgado novamente em 2010, Regivaldo também foi condenado a 30 anos de prisão. O Tribunal de Justiça do Pará (TJPA), ao rejeitar a apelação, decretou sua prisão cautelar. Um pedido de habeas corpus foi feito para que o réu pudesse permanecer em liberdade até o julgamento do último recurso contra a condenação. Este foi negado na última segunda feira, 10 de fevereiro, pelo relator do caso, desembargador convocado Adilson Vieira Macabu, que considerou não haver elementos que justificassem sua libertação.

As outras medidas governamentais não surtiram o efeito proclamado. Pior do que isso, em 2008 e 2009, o governo federal publicou as medidas provisórias 422 e 458 que acabam regularizando a grilagem de terras na Amazônia em áreas de até 1500 hectares. Com o discurso de propor um ordenamento jurídico para a ocupação da Amazônia, pavimenta-se, na realidade, o caminho para a ampliação do agronegógio, com suas monoculturas predatórias e voltadas para a exportação. Além disso, o projeto de reformulação do Código Florestal e a aberração com nome de Belo Monte, abrirão grandes feridas na Amazônia de Dorothy, de Chico Mendes e de tantos outros e outras, cujo sangue semeia e fertiliza as terras amazônicas. Em 2011, essa mesma realidade vitimou, também, José Cláudio e Maria do Espírito Santo, assassinados por defender a floresta e a convivência harmônica dos povos com ela.

Passados sete anos, o que impressiona é que a presença de Dorothy, antes confinada a Anapu, multiplicou-se. A irradiação do seu sorriso contagia pessoas no mundo todo. Sua morte irrompeu com a força da ressurreição. Sua ação, humilde e desconhecida, pequena e quase isolada, expandiu-se por todos os cantos do Brasil, conquistando corações e mentes e ganhou as dimensões do mundo.

Dom Erwin Kräutler, o bispo do Xingu, em cuja diocese Dorothy exercia seu trabalho pastoral, disse na missa do quarto aniversário de sua morte: “O sangue derramado engendrou uma luta que nunca mais parou. Sepultamos os mártires, mas o grito por uma sociedade justa e pela defesa do meio-ambiente tornou-se um brado ensurdecedor.”

Em vários lugares do Brasil, como em Belém e em Fortaleza, serão realizadas celebrações para lembrar os sete anos sem irmã Dorothy.

Belém - Pará

Local: Praça da República (Espaço do MOVIDA)

Horário: às 10h do dia 12/02

Fortaleza - Ceará

Local: Paróquia de Santo Afonso (Igreja Redonda).

Av. Jovita Feitosa, 2733 – Parquelândia – Fortaleza – CE.

Horário: 18 horas do dia 12/02

Ruralistas miram além da revisão do Código Florestal

Primeira ofensiva dos grandes produtores rurais neste ano será confirmação de alterações ambientais. Depois, almejam pressionar por outras mudanças

Um dos temas mais chamativos neste ano legislativo que se inicia é, sem dúvida, a revisão do Código Florestal. Depois de ter sido aprovada na Câmara dos Deputados e alterada no Senado ao longo do ano passado, a proposta será novamente apreciada por deputadas e deputados federais e poderá ser levada a plenário logo no início de março. Caso seja aprovada, seguirá para o Palácio do Planalto que, no processo de sanção final, dispõe ainda da prerrogativa de vetar aquilo que julgar impróprio no texto que lá chegar.

Para deputado Paulo Piau, Constituição de 1988 é um `monstro`(Foto: Beto Oliveira/Ag. Câmara)

O relator da matéria, Paulo Piau (PMDB/MG), fez elogios à última versão votada no Senado e prometeu apresentar o seu parecer ainda na primeira quinzena de fevereiro. Nesta fase, o parlamentar terá a incumbência de montar um único projeto com base exclusivamente nos textos que foram aprovados nas duas Casas, ou seja, não há possibilidade de redação de uma versão completamente nova e diferente das que já foram ratificadas.

Fontes consultadas pela Repórter Brasil apresentam perspectivas distintas sobre o possível desenrolar desta segunda passagem da matéria pela Câmara. Há quem aposte na retomada vigorosa do projeto aprovado na Câmara, que agrada mais à bancada ruralista; e também aqueles que aguardam um compêndio final mais próximo ao que emergiu do Senado, instância na qual o Poder Executivo interveio de forma muito mais ativa e coordenada para “reduzir danos”. Mas dado o peso expressivo dos ruralistas, a proposta que deve sair do Congresso, seja ela mais próxima à da Câmara ou à do Senado, seguramente atenderá os principais anseios dos grandes proprietários rurais.

O processo de revisão em toque de caixa – que tem motivado críticas da comunidade científica e de diversas representações da sociedade civil por anistiar ilegalidades ambientais e pavimentar brechas para a reprodução da lógica de avanço do desflorestamento - é um dos desejos mais antigos e estratégicos do grupo político dos latifundiários, representado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

O principal argumento utilizado pelos ruralistas para negar a anistia, estendida às irregularidades cometidas até 22 de julho de 2008 (data da edição do Decreto 6.514/08, que regulamenta a Lei de Crimes Ambientais 9.605/98), consistia na conversão das multas aplicadas aos responsáveis em obrigações de regularização (já previstas no Decreto 7.029/2009). Pois a necessidade de recompor parte das áreas degradadas, que seriam consolidadas pelo Programa de Regularização Ambiental (PRA), está sob fogo cerrado dos próprios ruralistas.

O deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO) tem dito, por exemplo, que seriam necessários R$ 325 bilhões para recompor os cerca de 65 milhões de hectares de áreas de preservação permanente (APPs) e de reserva legal ocupadas pela produção agropecuária. Não haveria, segundo o parlamentar, possibilidade de executar tal proposta.

Ronaldo Caiado, Paulo César Quartiero e Oziel de Almeida (de cima para baixo) criticaram fiscalização (Fotos: Agência Senado)
Já a senadora Kátia Abreu (PSD-TO), que preside a CNA desde 2008 e foi reeleita para permanecer na função até 2014, classificou o projeto do Senado de “incumprível”. A despeito das manobras que podem ser promovidas pelo governo para pleitear a inclusão de alguns pontos do projeto final e até dificultar o processo de votação, a proposta deve ser aprovada conforme a vontade da bancada ruralista.

Agenda
A revisão do Código Florestal é apenas um dos itens da agenda ruralista. Uma vez concluída a modificação das leis ambientais, os grandes produtores rurais almejam intensificar a pressão em outros sentidos. A Repórter Brasil esteve em sessão da Comissão de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (CAPADR), realizada no final de setembro de 2011, e registrou os pronunciamentos de ruralistas acerca dessas e de outras questões. A audiência pública foi convocada pelo deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) para "apurar denúncias de ação abusiva de agentes da fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Polícia Federal (PF) contra associados ao Consórcio de Empregadores Rurais de Ibiraiaras (RS) e contra produtores rurais de todo o Brasil".

As falas dos congressistas revelam ambições que vão muito além de alterações ambientais e trabalhistas. A própria Constituição de 1988 é alvo de ataques, respaldando o desejo já manifestado pelo bloco ruralista articulado em torno do recém-criado PSD de convocar nova Assembleia Constituinte. São emitidas sinalizações claras do intuito da retirada, por parte de membros do Congresso Nacional, de prerrogativas do Ministério Público. Faz-se até a defesa implícita dos pretensos "benefícios" do trabalho infantil no meio rural.

Durante a audiência pública, produtores do Rio Grande do Sul e da Bahia acusaram a fiscalização trabalhista de abusos, especialmente quanto à suposta truculência da Polícia Federal (PF). Representantes dos principais órgãos que participam das ações – Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Ministério Público do Trabalho (MPT) e PF – compareceram à audiência, reforçaram a importância do trabalho que vem sendo realizado para proteger o direito dos trabalhadores, e apontaram formas – administrativas e judiciais - de questionar a conduta das equipes de fiscalização.

Além dos repetidos auto-elogios fundados na relevância econômica do setor agropecuário e do apelo à fragilidade dos produtores, a bancada ruralista se empenhou em inverter a lógica das operações fiscais: em vez de possíveis responsáveis por exploração ilegal de mão de obra, os produtores rurais foram apresentados como vítimas do despotismo estatal.

O próprio Paulo Piau declarou estar preocupado com a "legislação absolutamente incompatível com a cabeça do brasileiro" e associou o zelo na área trabalhista com "a importância do meio ambiente, que virou um fundamentalismo" por parte de quem tem se colocado contra as mudanças no Código Florestal. "A Constituição de 1988 foi chamada de cidadã, mas, no fundo, criamos um monstro", definiu. Para ele, agentes públicos que "não tem experiência, mas tem poder de caneta" e exigem a aplicação efetiva da lei estão fazendo "um grande mal para esse país". Na visão do deputado, essa cobrança, sem que haja a conscientização da sociedade (no caso especifico, dos produtores rurais), se converte em "martírio, prisão".

Comparação
O coro contra a fiscalização foi engrossado por Paulo Cesar Quartiero (DEM/RR), arrozeiro que exercia o cargo de prefeito de Pacaraima (RR) durante o processo de homologação da Terra Indígena (TI) Raposa/Serra do Sol, confirmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O deputado aproximou a conduta das fiscalizações federais com as forças alemãs do regime nazista de Adolf Hitler, que conduziu milhões a campos de concentração, e também com as tropas norte-americanas de mariners que invadiram o Iraque. Segundo a autoridade, fiscais passam nos concursos, vestem o colete, saem “atropelando quem aparece pela frente” e protagonizam o que ele definiu como “sadismo”.

Homero Pereira, ex-ministro Reinhold Stephanes e
Luis Carlos Heinze (de cima para baixo) falaram
durante audiência (Fotos: Agência Senado)
Além das comparações, o produtor rural e congressista de Roraima argumentou que o elenco de "compromissos" como o combate ao trabalho escravo, a sustentabilidade ambiental e a defesa dos direitos humanos e de minorias (como indígenas e quilombolas) não foi "gerado pela nossa sociedade", mas "trazido de fora e aqui implementada".

"Nunca vi trabalho escravo. E olhe que eu ando em tudo que é buraco, em tudo que é maloca, em tudo que é corrutela. Eu não vejo trabalho escravo. Eu vejo é miséria, abandono e pobreza. Pobreza que atinge os trabalhadores e o produtor também", disparou o parlamentar. Dizendo-se vítima da "carga monstruosa de impostos", pregou a inexistência de distinção entre empregados e empregadores no meio rural. "A diferença é que o trabalhador ainda não conseguiu ser proprietário".

Para Homero Pereira (PSD-MT), assim como a legislação ambiental, as normas trabalhistas são “impossíveis de serem praticadas”. Ele condenou tanto a forma preconceituosa (“turma do mal”) como os produtores rurais são tratados no país como a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 438/2001, que prevê o confisco de terra onde houver flagrante de trabalho análogo à escravidão, tema que deve voltar à baila com a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Trabalho Escravo. Para o ex-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso (Famato), a legislação trabalhista é “tão avançada que avança, inclusive, sobre o emprego das pessoas”.

Na perspectiva do parlamentar, o Ministério Público, que teve as suas prerrogativas asseguradas pela Constituição de 1988, se tornou um “grande algoz”, pois não vê o outro lado e se arvora de uma autoridade “que certamente esse Congresso vai rever em breve”. Qualquer um dos vários projetos que tramitam na Casa no sentido de tirar prerrogativas do Ministério Público seria certamente aprovado se colocado em votação, previu.

Reorientação
Ex-prefeito de Luís Eduardo Magalhães (BA) entre 2001 e 2008, Oziel de Oliveira (PDT-BA) alegou ter sido ele próprio vítima de abuso de fiscalização trabalhista ao ser citado indevidamente no relatório de uma ação ocorrida no Oeste baiano. De acordo com ele, graças ao cargo de deputado federal, teve como destinar a denúncia à CAPADR e à cúpula do MTE, mas “tantos outros [que passado por situações semelhantes] não têm essa mesma condição”. Dizendo-se defensor dos trabalhadores rurais e dos direitos humanos, clamou para que os agentes públicos se dediquem a verificar, por exemplo, as condições dos presos da região. As dependências carcerárias de Luís Eduardo Magalhães (BA) e Barreiras (BA), de acordo com ele, estão superlotadas. Na primeira cidade, seriam 80 presos para um local com capacidade para 12 pessoas. Na segunda, 130 para um espaço que comporta apenas 30.

Orgulhoso de seus 40 anos de vida pública (35 deles em postos de comando) e de suas passagens como ministro de Estado (em gestões e pastas distintas, desde a administração de Itamar Franco, passando por Fernando Henrique Cardoso até o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva), Reinhold Stephanes (PSD-PR) contrastou a simplicidade dos agricultores frente às “centenas de exemplos” de truculência da PF e dos fiscais do poder público.

Segundo o ex-ministro, o que se vê são agentes públicos, com seus salários "10 a 15 vezes" maiores que a renda de pequenos produtores e “pouquíssimo conhecimento da realidade”. Para ele, os fiscais precisam ser treinados para uma abordagem mais dirigida à orientação. "Tudo bem, multem, mas multem com educação. Entrar com uma metralhadora na casa do agricultor é um negócio inconcebível”, criticou. Na concepção dele, os responsáveis por ações desse tipo deveriam ser presos. "Se meu pai ou o meu avô recebessem isso, eles efetivamente entrariam em parafuso, porque são pessoas mais simples".

Ronaldo Caiado desqualificou o enquadramento maniqueísta que tenta ligar a imagem do produtor à de bandido. O ruralista lembrou que a Chacina de Unaí – em que três auditores fiscais do trabalho e um motorista do MTE foram assassinados em uma emboscada em janeiro de 2004 – foi um ato criminoso repudiado por todos, assim como outros incidentes em que as vítimas foram produtores. Chamou atenção para a tendência, segundo ele incentivada pelo governo federal, de exclusão dos pequenos e médios produtores a favor da concentração do setor agropecuário na mão de poucos. "Talvez as grandes empresas multinacionais sejam as únicas que consigam seguir as normas regulamentadoras de trabalho", salientou o parlamentar, "pois os pequenos não teriam como cumprir as exigências".

Em nome da “paz no campo”, Ronaldo Caiado pediu reflexão aos representantes dos órgãos fiscalizadores acerca do “prejuízo que estão trazendo” e sugeriu a busca de uma reorientação a partir de “pontos de concórdia” e de “correções que precisam ser feitas”, em detrimento de custosas multas, máculas às imagens dos envolvidos e disputas judiciais.

Valdir Colatto (acima) e Onyx Lorenzoni (abaixo)
condenaram atuação "ideológica" e "dogmática" de
equipes de inspeção (Fotos: Agência Senado)

Encaminhamento
Como representante dos produtores rurais, Valdir Colatto (PMDB/SC) afirmou que tem obrigação de se indignar contra essas legislações. Criado com outros 14 irmãos, declarou ter começado a trabalhar aos cinco anos de idade para ajudar os pais na roça e que sempre ouve agricultores se queixando que não podem fazer o mesmo porque a lei não permite. Equipes de fiscalização, a seu ver, deveriam adotar o bom senso em vez de incorporar um viés ideológico e preconceituoso, conforme os seus parâmetros, dos problemas rurais.

“Trabalho escravo é agricultor que planta sem saber que vai receber a remuneração do seu trabalho. Esse é o trabalho escravo”, resumiu o congressista catarinense da região de Chapecó (SC). Ele chegou a sustentar que se toda a legislação trabalhista e ambiental fosse respeitada, “não se produz nada”. “É isso que se quer? Acho que não”, emendou.

Valdir Colatto repudiou o risco de perda de patrimônio (caso seja aprovada a PEC do Trabalho Escravo) e o excesso de detalhes da Norma Regulamentadora (NR) 31, que estabelece regras para o trabalho rural. Esses exageros, no entendimento do deputado, estariam sendo cobrados nas libertações de mão de obra escrava nos segmentos de cultivo de maçã e extração de erva-mate. “A Polícia Federal que vá caçar bandido no morro”.

As equipes dedicadas à fiscalização, de acordo com Luis Carlos Heinze (PP-RS), parecem não entender a “maravilha” que é o agronegócio, principal responsável pelo superávit na balança comercial nacional. Ao reclamar da política de liberalização econômica que “esfola” produtores (a maioria deles de baixa renda) desde os governos de José Sarney e de Fernando Collor (ambos atualmente senadores, o primeiro pelo PMDB-AP e o segundo pelo PTB-AL), ele admitiu ter “saudades dos governos militares” e dos anteriores. Disse não entender como há quem seja capaz de falar mal dos agricultores. Segundo ele, diante de tantas adversidades e do contexto, os produtores rurais brasileiros deveriam ser “levantados e ovacionados”.

O país só teria conseguido atravessar a crise de 2008, continuou Luis Carlos Heinze, por causa da produção primária agrícola. Mesmo se colocando como defensor dos trabalhadores, questionou o que seriam o quadro “degradante” e a “jornada exaustiva”, itens previstos no art. 149 do Código Penal que define o trabalho em condições análogas à escravidão. O maior explorador de todos, disparou o congressista gaúcho, é o governo federal, que impõe uma carga tributária da ordem de 36% do Produto Interno Bruto (PIB).

A necessidade de priorização do aspecto orientativo das fiscalizações foi repisada pelo deputado Onyx Lorenzoni, autor do requerimento de convocação da audiência pública. O deputado se declarou contra o que classificou como “dogmas” de agentes públicos dedicados apenas a aplicar a “letra fria da lei”. Essa visão unilateral, na opinião dele, teria feito com que a legislação ambiental colocasse 4,5 milhões dos 5,2 milhões de proprietários rurais do país em situação de ilegalidade. A esperança do deputado se volta para iniciativas similares à do seu colega Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que teria expressado “profundo sentimento de brasilidade” no esforço que serviu de alicerce para as mudanças do Código Florestal que estão sendo debatidas.

Moacir Micheletto (PMDB-PR), que estava na sua sexta legislatura e faleceu no final de janeiro deste ano em um acidente de carro, e Marcon (PT-RS) também reprovaram a conduta da fiscalização trabalhista. O único a sair abertamente em defesa dos órgãos de inspeção para evitar abusos por parte dos empregadores foi o deputado federal Jesus Rodrigues (PT-PI).

O MPT foi representado na audiência pública por Débora Tito Farias, da Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conaete) e da Procuradora Regional do Trabalho da 6ª Região (PRT-6), em Recife (PE). Guilherme Moreira, da Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo (Detrae), marcou presença como integrante do MTE, e o delegado Elmiz Rocha Júnior compareceu pela PF. Rosângela Rassy, presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait) também se manifestou durante a audiência em defesa das equipes que têm se dedicado às inspeções.

Como encaminhamento, Onyx Lorenzoni solicitou que a degravação da audiência pública fosse encaminhada às corregedorias dos órgãos que atuam na fiscalização trabalhista (MPT, MTE e PF), “para que a situação que vivemos tenha repercussão nas instâncias superiores que aqui estiveram representadas” e também ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).


Por Maurício Hashizume

Reporter Brasil

Rubem Alves fala da Teologia da Libertação em uma Igreja Pentecostal

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Uma 5ª à noite (09/02/2012), convite para um relançamento de um livro de teologia –ainda mais teologia da libertação– escrito há mais de 40 anos: quantas pessoas poderiam se interessar? É claro que o autor, Rubem Alves, é uma “atração” por si só; mas como ele não tem escrito mais livros ou artigos de teologia, muito menos escrito ou pronunciado sobre teologia da libertação, eu pensei que haveria um número razoável, mas nada de excepcional.

Ainda mais se levarmos em conta que o evento teria lugar em uma igreja pentecostal –Igreja Betesda– e seria um debate sobre o livro com título “Por uma teologia da libertação” (título original da sua tese de doutorado defendida por Rubem Alves em 1968, mas publicada primeiramente nos Estados Unidos, em 1969 como “Por uma teologia da esperança humana”, por decisão do editor; e publicado no Brasil, em 1987, com o título “Da esperança”).

Rubem Alves voltando a debater em público sobre a teologia da libertação em uma igreja pentecostal? Isso seria impensável alguns anos atrás. E para quem não conhece bem o ambiente evangélico e pentecostal, é preciso lembrar que a teologia e os escritos mais espirituais de Rubem Alves são considerados heréticos ou até satânicos por muitos.

Está certo que esse evento foi divulgado na rede social através de pessoas com muitos “seguidores” ou “amigos”, mas divulgação por si não garante o sucesso do evento. Por isso, fui ao evento –após um dia muito intenso e longo de trabalho que quase me fez desistir de ir– com muita expectativa em relação ao que poderia ouvir de Rubem Alves, e dos outros dois debatedores: Ricardo Gondim (pastor da Igreja onde foi realizado o evento) e Ricardo Gouvêa (teólogo presbiteriano); mas não muita em relação ao número de participantes. Além disso, eu imaginava que Rubem Alves fosse falar de muitas coisas, mas pouco especificamente da teologia.

Tive duas surpresas! Em uma igreja com capacidade para 2.000 pessoas, o local estava quase completamente lotado. Imagino que estavam presentes mais de 1.500 pessoas; muitas delas com a Bíblia na mão (algo bem pentecostal ou do mundo evangélico popular). A segunda surpresa: Rubem, no meio de suas memórias, estórias e poesias –bem ao seu estilo–, falou explicitamente da teologia da libertação.

Alguns anos atrás, eu participei, na cidade de México, de um painel sobre a teologia da libertação juntamente com Rubem Alves, Dussel e José M. Vigil. E lá, Rubem Alves falou da sua participação no início da teologia da libertação e como um acontecimento muito desagradável o afastou do grupo principal da TL. Mas, depois ele não respondeu nenhuma pergunta específica sobre teologia ou teologia da libertação. Por isso, minha surpresa ao vê-lo aqui tratar diretamente da TL e, em particular, sobre as diferenças entre a TL católica e a protestante. Foi uma fala de quem se sente ainda dentro da grande corrente da teologia cristã da libertação, uma corrente que é feita de várias teologias da libertação, como uma corrente marítima que é alimentada por muitos rios e “caminha” banhando muitos lugares.

Quem conhece o estilo de falar de Rubem Alves sabe que é muito difícil resumir em poucas palavras a complexidade de suas idéias expressas através de imagens, estórias, poesias e raciocínios acadêmicos. Por isso, não vou me atrever sintetizar aqui a bela exposição dele. E penso que isso também não é o mais importante. O mais importante da noite foi o próprio evento.

Alguns podem interpretá-lo como o fechamento de um ciclo que já acabou, como um evento “histórico” no sentido de recuperação de uma memória histórica que marcou a vida da geração de Rubem Alves e de outros. Outros podem interpretar como um sinal de “esperança” (o tema principal na fala de Rubem Alves e de Ricardo Gondim), de que algo novo está surgindo.

A presença de muitos jovens (alguns vindos de lugares distantes da Grande S. Paulo e de outras cidades) pode indicar isso. Contudo, o mais importante, para mim, foi o encontro de uma figura memorável – alguém que é capaz de incitar grandes discussões acadêmicas e também encantar corações infantis com suas estórias, que carrega no seu corpo e memória as lutas e esperanças da gerações passadas – com as novas gerações que também anseia por um cristianismo liberto de amarras e dogmatismos que possa contribuir no fortalecimento da esperança dos mais pobres e das lutas pela libertação. E isso em uma igreja pentecostal!

O que resultará desse encontro? A resposta depende das novas gerações de cristãos que assumem –motivadas pelos testemunhos e memória dos mais antigos– a tarefa de levar adiante a boa-nova da esperança, a boa-nova de que a salvação vem pela graça de um Deus que nos ama apesar de tudo. E que, por isso, podemos continuar sorrindo, lutando e vivendo alegremente a vida, apesar de tudo, porque vivemos da esperança e fé.

Jung Mo Sung

Diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Univ. Metodista de S. Paulo. Entre vários livros publicados, “Cristianismo de libertação” e “Sementes de Esperança”.


Fonte: Fora da Zona de Conforto

Casa - acolhida e libertação para as primeiras comunidades

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Orides Bernardino fala sobre sua obra ao CEBI

O autor destaca em seus escritos que Jesus fez de sua casa a casa de todos. Nesse sentido, Orides nos lança exatamente este desafio: permitir que outros olhem para nossa casa e se sintam com vontade de entrar e participar. Para tanto, o autor busca pelo perfil das casas na história, em especial na Palestina dos tempos bíblicos. O resultado a que chega é duplo: 1) o cristianismo herdou e reteve idéias do judaísmo bíblico e das concepções das casas no mundo greco-romano. 2) O evangelho, contudo, fez com que se redefinisse casa a partir das necessidades da solidariedade sem fronteiras pregadas por Cristo.

O autor também analisa a importância que teve a casa na pregação, nas ações e no ministério abrangente de Jesus, tendo como referencia o Evangelho de Lucas.

Acompanhe a entrevista.

CEBI - Por que escrever sobre esse assunto? Alguma preocupação com a situação das casas de nosso povo hoje?

ORIDES - O tema de casa é de grande atualidade para o cristianismo. Escrever sobre a casa é importante não somente por representar um resgate das origens do próprio cristianismo, mas em nosso contexto também por se inscrever no marco da resistência e da luta pelo prosseguimento daquilo que talvez tenha sido a mais original e importante contribuição do nosso continente para a eclesiologia cristã, que foi o movimento das Comunidades Eclesiais de Base, que configuram uma "releitura", uma tradução contextualizada, atual e coerente da proposta apresentada por Jesus e vivenciada nas primeiras comunidades cristãs espalhadas no império romano. É nos lembrar do valor perene das casas como veículo para uma existência pautada em novos valores e novas relações.

Tenho preocupação com a situação das casas de hoje. Não tenho preocupação com a arquitetura, como são construídas. Tenho preocupação que nossas casas estão deixando de ser espaço de acolhida, de comunhão, espaço de libertação e de inclusão. Nossas casas estão sendo ilhas solitárias na paisagem urbana. Vamos à casa para dormir e, algumas vezes, para nos alimentar, sendo que muitas vezes não conhecemos a nossa casa e até ficamos perdidos quando temos que ficar em casa.

No texto, você traça um perfil das casas na história, em especial na Palestina dos tempos bíblicos. O que você destaca da pesquisa?

A Casa é mais do que uma realidade física feita de quatro paredes, portas, janelas e telhado. A casa tem historicamente permitido uma variedade de imagens e significados, seja ela entendida como uma construção específica que serve de abrigo, seja como uma imagem de um espaço simbólico de pertencimento social, de intimidade e segurança. No antigo Israel, a vida estava organizada ao redor da casa. A casa era o vínculo principal da tradição, da sabedoria e da identidade do povo. Defender a casa, a comunidade, o clã, era o mesmo que defender a Aliança com Deus.

Com a monarquia as casas não desaparecem. As tribos perdem parte da sua autonomia. Pouco a pouco, o sistema tribal, centralizado na casa e na aldeia, foi submetido à corte e ao Templo, com a exploração por meio de tributos. Esta tendência aumentou com a dominação de outros impérios - Assíria, Babilônia e Pérsia -, especialmente dos gregos. Com eles implantou-se o helenismo, um sistema baseado na cidade. Mas muitas das práticas das instituições tribais seguem existindo. Cada família, clã, tribo, no seu dia-a-dia tem seus locais de culto, seus santuários tribais, a páscoa (memorial do Êxodo) é celebrada nas casas até a época de Josias. Só Josias destruirá os santuários tribais. Mesmo assim a espiritualidade, as leis da casa, das tribos permanecerão fortes em muitos lugares. Estes são os berços da profecia e mais tarde do próprio Jesus. A casa, seus valores e seus princípios - Deus do Êxodo, relações de solidariedade - continuarão sendo local básico da educação e da formação das pessoas.

Qual a contribuição do livro para nossas comunidades cristãs? De tipo de Igreja pode ser sentido ou proposto através do seu texto?

A casa é muito importante na vida das pessoas e na organização da sociedade. A casa não é só um abrigo para o ser humano, mas também um porto seguro para seus sonhos e devaneios, é onde ele se reencontra com sua intimidade, é o nosso canto do mundo, o nosso primeiro universo. Espaço onde a vida se desenrola, onde tudo se discute, onde a família e a comunidade se encontram.

Vivemos num sistema que nos cega e nos impede de observarmos a nossa própria casa, a nossa história e nos tornamos surdos para o convite: "Vem à minha Casa e repousa e refaz as forças e experimenta como é suave o meu amor." Acredito que a importância deste trabalho está em podermos entrar na casa, olhá-la de perto, tocá-la, sentir cada pedacinho de sua estrutura, entrar na sua intimidade e participar do diálogo, da festa e do banquete que acontece em seu interior.

Na casa está a pequena comunidade, a Igreja. A menção da casa manifesta que a Igreja está ligada a um espaço humano. Não precisamos criar espaços enormes, luxuosos. Precisamos descobrir Jesus na pequena, pobre e insignificante história dos homens e mulheres que nos rodeiam e que se nos aproximam.

4. Pode fazer um resumo de sua história pessoal?

Sou o Orides. Sou formado em História, licenciatura. Sou professor e, no momento, estou gerente em uma empresa pública ligada a Prefeitura do Município de Joinville. Ao meu lado caminham minha esposa, Neciolir e minha filha, Naiara.

Faço parte de uma comunidade cristã e acredito que "um outro mundo é possível", mas não de forma ilusória, ou seja, não que "esta globalização" vai ser substituída por "uma outra", paradisíaca. Pés no chão, caminhar pra frente e seguir lutando faz a diferença. Para "um outro mundo possível", creio que precisamos apagar duas palavras que estão encravadas em nossos corpos: a indiferença e a intolerância. Nestas palavras estão as enfermidades que leva o povo à miséria, à exclusão social, política, econômica e religiosa.

Sou CEBI! Sou apaixonado pela "leitura popular da Bíblia" e pelo jeito de educar do Mestre Paulo Freire. Tenho um sonho: "Que todos tenham vida em abundância". Digo todos: você e eu; nós.

Na verdade, não sei contar a minha história. Sou o que sou, simplesmente. Enquanto a vida segue!

Fonte: CEBI