sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Organizações levam à ONU denuncia sobre violações de DH durante ação na ‘Cracolândia’

Foto: Tiago Queiroz

Na última terça-feira (24), a ONG Conectas, a Pastoral Carcerária, o Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC) e o Instituto Práxis de Direitos Humanos decidiram recorrer à Organização das Nações Unidas (ONU) para pedir esclarecimentos sobre violações de direitos praticadas durante a desocupação da área conhecida como ‘Cracolândia’, localizada na cidade de São Paulo, Sudeste do Brasil.

O pedido foi feito por meio de Apelo Urgente enviado a Anand Grover, Relator Especial da ONU sobre o direito à saúde física e mental; Juan Mendez, Relator Especial sobre tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos e degradantes; e Raquel Rolnik, Relatora Especial sobre moradia adequada.

Os três relatores foram acionados já que as ONGs denunciantes afirmam que, durante a operação de desocupação que teve início no último dia 3 com a presença da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana, houve uso excessivo e desproporcional da força e tratamento desumano. Além disso, a população residente na área do centro velho de São Paulo, conhecida como Cracolândia, também sofre com a falta de acesso à saúde e à moradia adequadas.

De acordo com Thiago Amparo, coordenador de pesquisa da Conectas, o Apelo Urgente à ONU foi feito com o objetivo de obter mais esclarecimentos sobre o que aconteceu durante as retirada dos dependentes químicos.

"O Governo terá que apresentar formalmente explicações e esclarecimentos sobre o que aconteceu e como foi feita a desocupação da área. Com esta iniciativa também esperamos conseguir o fim das violações de direitos e o cumprimento das normas de direitos humanos, que os culpados sejam investigados e responsabilizados e explicações sobre quais os próximos passos na perspectiva de Direitos Humanos para a Cracolândia”, esclareceu.

Thiago completa que é possível perceber que o Estado e o Município de São Paulo carecem de políticas integradas de saúde e ações sociais, apesar disso, afirma que é obrigação do poder público dar assistência à população necessitada.

"O Estado é obrigado a cuidar dessas pessoas e deve fazer isso levando em consideração seus direitos humanos. Elas não devem ser tratadas como simples objetos de políticas, mas sim como pessoas que têm um conjunto de direitos”.

Como resposta ao Apelo Urgente enviado a Genebra (Suíça) pelas organizações, os relatores especiais deverão solicitar, por meio do Ministério de Relações Exteriores, explicações ao Brasil sobre os fatos denunciados. Pelo fato de o documento citar que os governos do Estado e do Município de São Paulo têm responsabilidades, estes deverão se manifestar e responder aos questionamentos da ONU.

Desocupação

Teve início no dia 3 de janeiro e ainda segue em andamento uma operação de desocupação na região do centro velho de São Paulo conhecida como Cracolândia. O objetivo da ação, segundo o que foi divulgado para a imprensa, é combater o tráfico de crack na região, contudo, a área é ocupada não por vendedores em grande escala, mas sim por usuários.

A operação, realizada com a participação de forças de segurança como a Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana, foi marcada por violência excessiva e maus tratos. Algumas das vítimas realizaram boletins de ocorrência, fato que ajudou as organizações denunciantes a escreverem o Apelo Urgente enviado à ONU.

De acordo com o documento das ONGs e Pastoral Carcerária, especialistas em saúde estimam que o Brasil tenha, pelo menos, 29 grandes áreas similares à Cracolândia localizadas em 17 capitais.

Leia o Apelo Urgente em: http://www.conectas.org/arquivos/multimidia/PDF/42.pdf


Natasha Pitts

Fonte: Adital


Pinheirinho - Comissão de Apuração das Violações de Direitos Humanos




Além da dantesca dor da perda de seus lares, os moradores do Pinheirinho se viram agredidas de forma vil e covarde em seus mínimos direitos como pessoa humana. Além do fato da desocupação ocorrer em dia de domingo (contrário a lei) e ignorando medidas judiciais federais que desautorizam a ação reintegratória levadas a cabo pelo Governo do Estado, pelo Prefeito Municipal, pela justiça estadual, sob o cruel comando de 2 mil policiais militares, houve violência contra a família, a criança, o idoso, ao lar, a integridade física, psíquica e moral, desrespeitos à pequenas posses dos moradores, numa inédita e absurda afronta à mínima dignidade da pessoa humana.


Assim, as entidades e lideranças solidárias aos agredidos iniciam um esforço em organizar os fatos, informações, agredidos e outros elementos que permitam evitar que as atrocidades próprias de um regime de exceção não fiquem impunes e que seja resgatada a dignidade dos violados.

OBJETIVO

O objetivo é levantar todas as formas e tipos de violência sofrida física, moral e materialmente, agressores, identificar as pessoas vitimadas, inclusive, as desaparecidas. Colher dados sobre comportamentos estranhos em órgãos públicos do município (hospitais, IML, delegacias, etc.) que confirmem os delitos praticados pelo Estado e formar um amplo documentário oficial sobre os acontecimentos.

ENCAMINHAMENTOS

A imoral e covarde desocupação do Pinheirinho é manchete internacional, sendo que a OEA e a ONU e outros organismos internacionais já receberam formalmente a denúncia das violações aqui praticadas. Por aqui já circularam órgãos e entidades de defesa de direitos humanos, como a JUSTIÇA GLOBAL, O CONDEPE, COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA E DA OAB, SECRETARIA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS, ETC. Já existem outras inúmeras iniciativas e pronunciamento em nível nacional acerca deste vergonhoso fato para o povo brasileiro, mas se amplia a cada instante a indignação e a solidariedade.

Por iniciativa do Deputado Carlos Gianazzi do PSOL foi encaminhado denuncia ao CNJ – Conselho Nacional de Justiça para apurar a conduta da juíza Márcia Faria M. Loureira da 6ª Vara Civil da Comarca de São José dos Campos/SP.

As lideranças dos movimentos estão à busca de informações e fatos que relatam as violências, inclusive, neste momento, temos a concreta informação de cinco pessoas desaparecidas.

AUDIÊNCIA PÚBLICA

Próxima segunda-feira dia 30/01 haverá uma audiência pública promovida pelo CONDEPE – Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, juntamente com outras entidades para apurar as violações praticadas no processo de desocupação do bairro Pinheirinho.

Durante o período da tarde, haverá na câmara municipal de São José dos Campos reuniões e entrevista com todos aqueles (pessoas e organizações) que possuem informações documentadas referente aos abusos, para melhor preparar a audiência.

PRINCIPAIS FONTES DE INFORMAÇÕES E FATOS REFERENTES A AÇÕES DO ESTADO (PM) DE AFRONTA AOS DIREITOS HUMANOS.

Sem dúvidas que há outras fontes onde podemos buscar e requisitar informações, no entanto, relacionamos alguns dos principais abaixo:

- Sindicatos, Organizações Sindicais e entidades:
Metalúrgicos, Químicos, CSP-CONLUTAS, UNIDOS PRA LUTAR, CONDEPE – Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Renato Simões), Coletivo de Comunicadores Populares, Defensoria Pública do Estado (Núcleo de Direito Habitacional – Dr. Jairo Salvador), Movimentos estudantil, Igreja católica (Paróquia do Jardim Colonial- Pe. Ronildo), Partidos Políticos que se solidarizaram.

- Parlamentares:
Senador Suplicy, Deputado Federal Ivan valente, Deputados Federais Estaduais Carlos Gianazzi, Marco Aurélio, Vereadores Tonhão Dutra.

- Imprensa em geral.

- Fontes espontâneas
Vídeos, áudios e fotos de centenas de militantes e dos próprios moradores expulsos que registram os atos de violência.

- Lideranças e populares agredidos
Depoimentos de lideranças sociais, sindicais, advogados, parlamentares e autoridades governamentais e populares que foram agredidos.

CENTRALIZAR INFORMAÇÕES E DOCUMENTOS

Faz-se necessário centralizar todas as informações possíveis e úteis num único fórum para que se produza um verdadeiro dossiê das barbaridades praticadas pela PM com a conivência do Poder Judiciário Estadual e dos Executivos Estadual e Municipal.

Muitos militantes possuem imagens sobre as violências praticadas, mas estão receosos em apresentá-los, assim, importa garantir o sigilo e segurança para que possam apresentar os documentários que possuem.

GILBERTO SILVÉRIO

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

SJCampos - Projeto produz embalagens criativas para as compras

saojosedoscampos

Um grupo de costureiras dá exemplo de sustentabilidade em São José dos Campos, no Vale do Paraíba. A Associação das Costureiras Etc e Tal transforma lonas e faixas – que antes seriam descartadas – em bolsas e sacolas para serem utilizadas nos supermercados.

“O Projeto Sacolona confecciona os produtos desde 2008. A concessionária CCR NovaDutra fornece lonas e faixas que foram utilizadas na rodovia. A proposta é diminuir o número de fabricação e circulação de sacolas descartáveis, além de dar um destino ecologicamente correto às lonas”, disse Carla Fornasaro, da área de Relações Institucionais da CCR NovaDutra. “O projeto tem ainda importância social, pois colabora com a geração de renda entre as costureiras”, explica.

Todo o material produzido pela associação é vendido, e a receita integralmente dividida entre as participantes do projeto. Os interessados em conhecer o Programa Sacolona podem entrar em contato no telefone (12) 3341-4525 ou pelo e-mail aetcetal@gmail.com.

Contagem regressiva para o fim das sacolas de plástico




Uma coisa tão cotidiana quanto ir às compras pode colocar em perigo a frágil vida do planeta, e uma simples mudança de hábitos pode evitá-lo. O consumo em massa de sacolas de plástico descartáveis provoca desastres ecológicos, e por isso são muitos os lugares nos quais já não se permite, ou se taxa com impostos o seu uso.
Segundo os especialistas, o consumo mundial de plástico superará os 300 milhões de toneladas em 2010, com o impacto meio ambiental que isso traz. Nas palavras de Esteban Gimeno, presidente da seção ibérica da Associação Europeia de Produtores Plásticos (PlasticsEurope), em 2006 a utilização de recursos plásticos foi da ordem de 250 milhões de toneladas, das quais 25% corresponderam ao continente europeu.

"Ellas são muito consumidas (sacolas plásticas) porque são necessárias. Por ter nos tornado a vida mais fácil, se tornaram imprescindíveis", explicou Enrique Gallego, diretor-geral da Associação Espanhola de Indústrias de Plástico, em entrevista à Agência Efe.

Mas se as substituirmos por aquelas alternativas mais respeitosas com o meio ambiente, elas continuarão nos fazendo a vida mais fácil e nos assegurarão um ambiente limpo e livre de poluição.

No entanto, a Associação Espanhola de Fabricantes de Sacolas de Plástico defende que seus produtos têm "um grave problema de imagem", porque elas são 100% recicláveis, e "não emitem calor, nem CO2 nem outros destruidores da camada de ozônio".

O uso de sacolas de plástico se transformou em uma queda de braço entre Governos, associações ambientais, fabricantes do setor e grandes redes de supermercados. A defesa dos interesses por parte de cada um deles provocou várias dúvidas entre a maioria da população, sobre a realidade dos sacos plásticos.



Conscientização necessária.

A culpa do impacto negativo na ecologia não só é destas sacolas e seus componentes, mas do mal uso que fazem delas. A falta de conscientização em relação aos problemas que provocam e as vantagens da utilização de alternativas agravam a situação.

Na hora de fazer a compra se aposta pela comodidade a todo custo. Se em vez de receber sacolas de plástico novas a cada compra fossem utilizadas as que se amontoam em um cantinho da cozinha, reduziríamos consideravelmente o gasto das mesmas.

Em países europeus como a Suíça sua utilização está praticamente erradicada. Elas foram trocadas por aquelas de papel pagas previamente e reutilizas em sucessivas compras, ou então se recorre às duradouras bolsas de tecido.

Itália, França, Dinamarca e República da Irlanda decidiram implantar o pagamento de taxas por parte dos usuários ou sua proibição. Na China, desde a decisão de cobrá-las, se seu consumo foi reduzido em 66%. Nos Estados Unidos, San Francisco foi a primeira cidade a tomar medidas. Oackland e Boston estudam seguir seus passos. Já Nova Délhi também declarou sua guerra particular às bolsas de plástico e vetou seu uso em toda a cidade.

A ONG espanhola Cicloplast defende que elas não só são consumidas abusivamente, mas depois não são jogadas fora corretamente, pois nem sempre acabam no contêiner de reciclagem adequado, impossibilitando desta maneira sua recuperação.

São muitas as imagens que nos chegam de grandes lixões de plásticos, mas talvez o ambiente mais afetado seja o mar, no qual a fauna e a flora correm grave perigo por causa da presença destas bolsas em seu ecossistema.



Alternativas já presentes.

Saber que faz mal e buscar a maneira de consertar o problema. Isto é o que decidiram as empresas dos setores que as fabricam e dos que as utilizam.
São diversas as companhias que optaram por alternativas mais respeitosas com o meio ambiente.

O Carrefour, empresa proprietária de uma grande rede de hipermercados e supermercados, se comprometeu a eliminar de forma paulatina as sacolas de plástico. O grande império de Amancio Ortega, o Grupo Inditex (Zara, Bershka, Oysho, Massimo Dutti etc.), presente no mundo todo, sendo consciente do problema, está há algum tempo oferecendo sacolas de papel reciclado ou plástico biodegradável, que acelera sua decomposição, sem deixar nenhum resíduo.

O setor de embalagens se orienta cada vez mais à produção de produtos biodegradáveis, a fim de contribuir para a causa ecológica. Assim os artigos fabricados com fécula de batata, emergem com força entre as alternativas já existentes como a utilização de tecido e papel.

Ao contrário de uma bolsa de plástico - que demora cerca de 400 anos para se desintegrar, segundo o Greenpeace - estas de componentes orgânicos se decompõem em pouco mais de três meses passando a fazer parte do substrato do solo sem contaminá-lo, como defende no seu site a Coemmo, empresa que as fabrica.

Sua resistência e aspecto não se diferenciam muito das tradicionais, mas os benefícios para a natureza são notáveis. No entanto, as opções destinadas a substituir as velhas bolsas de plástico são mais caras, e o interesse econômico fica muitas vezes acima do ambiental. "A indústria que as fabrica é mais reticente à mudança", afirma Julio Barea, responsável pelo setor de poluição do Greenpeace Espanha. Apesar disso, ele acredita que as mudanças acontecerão "porque as pessoas querem assim".

É necessária a conscientização sobre o problema, sabendo que pequenas mudanças de hábitos podem contribuir para a conservação do planeta. A oportunidade de melhorar a situação do meio ambiente está nas mãos de todos, desde o cidadão até as grandes companhias.


Natalia P. Otero.
EFE - REPORTAGENS

Por que devemos voltar para Jesus.


Só seguindo o Messias, pode-se agir, sofrer e morrer de modo humano".

Mediante o livro Ser cristão (Ed. Imago, 1976), inúmeras pessoas encontraram a coragem para serem cristãs. O autor sabe isso por causa das inúmeras resenhas, cartas e colóquios. Muitas pessoas, de fato, afastadas da prática e da pregação de alguma grande Igreja cristã, buscam caminhos para continuarem sendo cristãos confiáveis, buscam uma teologia que não seja abstrata para eles e alheia ao mundo, mas explique de modo concreto e próximo da vida em que consiste ser cristão.

Ser cristão não pretendia "seduzir" as pessoas com a retórica ou agredi-las com um tom de pregação. Nem queria simplesmente fazer proclamações, declamações ou declarações em sentido teológico. Pretendia motivar, explicando que, por que e como uma pessoa crítica também pode ser responsavelmente cristã perante a sua razão e o seu ambiente social.

Não se tratava de uma simples adaptação ao espírito do tempo. Certamente, sobre questão discutíveis como os milagres, o nascimento virginal e o túmulo vazio, a ascensão ao céu e a descida aos infernos, sobre a práxis eclesial e o papado também era preciso assumir posições críticas. Isso, porém, não para seguir uma fácil tendência inclinada à hostilidade contra a Igreja ou ao pancriticismo, mas sim para purificar, a partir do próprio Novo Testamento como critério, a causa do ser cristão de todas as ideologias religiosas e para apresentá-la de maneira credível.

A originalidade do livro não está, portanto, nas passagens críticas; está em outro lugar, no fato de ter fixado critérios que, para muitos, representam desafios em teologia. Em Ser cristão, de fato, eu tentei: apresentar toda a mensagem cristã no horizonte das ideologias e religiões contemporâneas; dizer a verdade sem resguardos de natureza político-eclesiástica e sem me preocupar com inclinações teológicas e tendências da moda; não partir, por isso, de problemáticas teológicas do passado, mas sim das questões do ser humano de hoje e, a partir daí, apontar para o centro da fé cristã; falar na língua do ser humano de hoje, sem arcaísmos bíblicos, mas também sem recorrer ao jargão teológico da moda; destacar o que é comum às confissões cristãs, como o renovado apelo ao entendimento no plano prático-organizativo; dar expressão à unidade da teologia de modo que não possa mais ser negligenciado o nexo inabalável entre teoria confiável e práxis vivível, entre religiosidade pessoal e reforma das instituições.

A esse livro não faltaram reconhecimentos públicos. Além disso, também foi uma oportunidade para as Igrejas e, nesse nível, ele encontrou um amplo consenso igualmente. No entanto, não pode ser silenciado o fato de que os membros da hierarquia alemã e romana fizeram de tudo para esvaziar essa oportunidade. Não se envergonharam – diante do sucesso do livro até mesmo entre o clero – de pôr publicamente em dúvida ou, melhor, de difamar a ortodoxia do autor. De nada serviu ao autor o fato de ter declarado amplamente, mais uma vez, a sua fé em Cristo no livro Deus existe? (1978), que apareceu quatro anos depois de Ser cristão. A hierarquia romana e alemã tomaram a cristologia aqui exposta como pretexto para retirar do autor a “missio canonica” para o ensino da teologia, pouco antes do Natal de 1979, embora jamais tenha sido realizado um processo magisterial contra Ser cristão e Deus existe?. Dessa forma, buscou-se desviar a discussão da embaraçosa questão da infalibilidade à questão cristológica, não por último para envolver os cristãos evangélicos. Além disso, para os expoentes da hierarquia contrários às reformas eram indigestas as exigências de reforma na Igreja que eram propostas nesse livro.

Assim, a hierarquia alemã apoiou o percurso de restauração do papa polonês que estava então se impondo e teve que pagar um alto preço por isso: a perda de credibilidade e uma difundida hostilidade contra a Igreja na opinião pública.

Com toda a modéstia: algumas coisas na pregação e na pastoral cristã seguramente teriam sido diferentes e não tivesse sido recusada a oferta de Ser cristão. Mas, como sempre acontece: para mim, Ser cristão tornou-se ponto de partida para um novo desenvolvimento teológico e para uma espiritualidade à qual, apesar de todas as dificuldades do presente, o futuro devia pertencer.

Como inúmeros outros católicos antes do Concílio Vaticano II, eu também cresci com a imagem tradicional de Cristo da profissão da fé, dos concílios helênicos e dos mosaicos bizantinos: Jesus Cristo, "Filho de Deus", sentado em um trono, um "Salvador" amigo dos seres humanos e, ainda antes, para a juventude, o "Cristo Rei". Sobre isso, eu depois acompanhei, em Roma, um curso de um semestre inteiro sobre "cristologia". Certamente, eu passei sem problemas por todos os exames em latim, não exatamente simples – mas a minha espiritualidade? Isso era outra coisa totalmente diferente, permanecia insatisfeita. A figura de Cristo só se tornou decisivamente interessante para mim quando eu pude conhecê-la, com base na moderna ciência bíblica, como real figura da história.

A essência do cristianismo, de fato, não é nada de abstratamente dogmático, não é uma doutrina geral, mas sim, desde sempre, é uma figura histórica viva: Jesus de Nazaré. Ao longo dos anos, elaborei o perfil singular do Nazareno com base na riquíssima pesquisa bíblica dos últimos dois séculos, refleti sobre tudo com apaixonada participação.

De Ser cristão em diante, sei do que estou falando quando, de modo totalmente elementar, eu digo: o “modelo de vida cristã” é simplesmente esse Jesus de Nazaré enquanto messias, christós, ungido e enviado. Jesus Cristo é o fundamento da autêntica espiritualidade cristã. Um exigente modelo de vida para a nossa relação com o próximo, assim como com o próprio Deus, que, para milhões de seres humanos em todo o mundo, tornou-se critério de orientação e de vida.

Quem é, portanto, um cristão? Não é aquele que diz apenas "Senhor, Senhor" e apoia um "fundamentalismo" – seja ele de tipo bíblico-protestante, ou autoritário-romano-católico ou tradicionalistaoriental-ortodoxo. Ao contrário, cristão é aquele que, em todo o caminho pessoal de vida, se esforça para se orientar praticamente para esse Cristo Jesus. Não se exige nada mais.

A minha vida pessoal e, assim, qualquer outra vida, com seus altos e baixos, e também a minha lealdade à Igreja e a minha crítica à Igreja só podem ser compreendidas a partir dessa referência. A minha crítica à Igreja, assim como a de muitos cristãos, brota justamente do sofrimento pela discrepância entre o que esse Jesus histórico foi, pregou, viveu, lutou, sofreu, e o que hoje a Igreja institucional, com a sua hierarquia, representa. Essa discrepância tornou-se muitas vezes insuportavelmente grande. Jesus, nas cerimônias pontifícias da basílica papal de São Pedro? Ou na oração com o presidente George W. Bush e o papa na Casa Branca? Inconcebível!

O mais urgente e mais libertador para a nossa espiritualidade cristã, consequentemente, é nos orientar pelo nosso ser cristão, tanto em nível teológico quanto prático, não tanto segundo as formulações dogmáticas tradicionais e os regulamentos eclesiásticos, mas sim de novo e cada vez mais segundo a singular figura que deu nome ao cristianismo.

Tradução: Moisés Sbardelotto.
Hans Küng
Fonte: IHU

Para atrair fiéis, Igreja Católica insere elementos regionais e exóticos nas missas

Para atrair fiéis, Igreja Católica insere elementos regionais e exóticos nas missas

Os ritos católicos já passaram por diversas modificações ao longo da história. No Concílio Vaticano II (1962-1965) muitos fiéis chegaram a alegar o abandono da tradição, com missas em latim e o sacerdote de costas para o povo, enquanto outros acreditavam que era hora de uma “abertura”.

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Atualmente a igreja tem procurado atrair fiéis para as celebrações acrescentando à missa elementos culturais característicos de determinadas regiões do país e até de outras localidades, criando assim missas afro, missas crioulas, missas gaúchas, missas sertanejas e em alguns lugares até mesmo voltando ao velho costume onde o padre celebrava o rito em latim de costa para os fiéis.

“Em 2007, o Papa Bento XVI autorizou a celebração de missas em latim aos fiéis que solicitassem. A prática tinha sido abandonada pela Igreja depois do Concílio Vaticano II. Para muitos, a volta representaria uma tentativa do pontífice em reaproximar os católicos insatisfeitos com as reformulações propostas pelo decreto”, explicou o padre Aldo da Paróquia São Paulo Apóstolo, na capital paulista, que uma vez por semana celebra as missas “à moda antiga”, de costas para os fiéis, em direção ao Oriente.

Para aqueles que não querem se sentir em uma catedral da Idade Média, existem paróquias que se aproximam mais da cultura atual criando missas temáticas, como a missa crioula celebrada nos Centros de Tradição Gaúcha (os CTGs), no Rio Grande do Sul. Com cânticos apresentados no ritmo dos violeiros, fiéis trajando vestimentas típicas como bombachas e botinas acompanham a missa idealizada pelo padre Paulo Murab Aripe, diante de um altar ornamentado com cuias de chimarrão, espetos de churrasco e lampiões.

A cultura afro também está presente em algumas missas. De acordo com o portal IG na Paróquia de São João Batista, na cidade de São João de Meriti, Baixada Fluminense, o ritmo da celebração é marcado pelo atabaque, um instrumento de percussão muitas vezes associado à umbanda e ao candomblé.

“A missa afro ganhou força no Brasil na preparação da campanha da fraternidade sobre o sobre o negro, em 1988 [Centenário da Abolição da Escravatura]. Quando vim pra cá em 1997, ela já havia sido consolidada pelo frei David Raimundo dos Santos, da Educafro, que envolveu padres, religiosos e leigos da América Latina e Caribe, com alguns teólogos ligados à teologia da libertação”, explica frei Athaylton Jorge Monteiro Belo, mais conhecido como frei Tatá, que celebra as missas na Paróquia de São João Batista.

Tem também as missas celebradas na língua árabe na Paróquia Nossa Senhora do Paraíso, igreja greco-católica localizada em São Paulo, onde a leitura do Evangelho é feita em árabe e português e as partes nas quais os fiéis respondem às interlocuções do sacerdote são feitas, em grego, por um coral.

No interior de Goiás existem as missas sertanejas. Na cidade de Guarinos, no interior do estado, até os casamentos são celebrados ao som da autêntica música caipira. “É uma celebração da missa como as outras. A diferença é que ela está carregada de elementos sertanejos e agropecuários”, explicou ao IG o padre Valdivino Borges Junior, conhecido como padre Junior Periquito. O sucesso das celebrações do pároco foi tão grande que ele chegou a gravar o CD e DVD “Missa Sertaneja – Pe. Junior Periquito”.

Apesar das características regionais, a Igreja Católica afirma que os ritos dessas missas são os mesmos que os de uma celebração tradicional. “Na verdade, a eucaristia e os sacramentos são os mesmos. Todas essas celebrações fazem parte do que se convencionou chamar ritos litúrgicos ocidentais da Igreja Católica. Apenas foram feitas adaptações, de acordo com as peculiaridades de cada região ou grupo” explicou o cônego Antônio Aparecido Pereira, da Arquidiocese de São Paulo.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Crise econômica, Código Florestal e Rio+20 marcam os protestos da marcha de abertura do Fórum Social Temático


Porto Alegre – O calor de 35 graus Celsius e um temporal não desanimaram os ativistas que participaram da marcha de abertura do Fórum Social Temático (FST) pelas ruas de Porto Alegre. Com a chuva, o trânsito ficou caótico na capital gaúcha, desde as proximidades da Avenida Borges de Medeiros, na região central, até a Usina do Gasômetro, onde terminou a passeata por volta das 20h.

Com público eclético, a marcha refletiu a diversidade dos debates que vão acontecer ao longo da semana, focados principalmente na crise econômica internacional e na preparação para a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, marcada para junho.

Entre sindicalistas, estudantes, movimentos sociais, aposentados, feministas, um grupo de ativistas da comunidade alternativa Aldeia da Paz chamava a atenção com cartazes que traziam frases pacifistas e lemas como “Só o amor transforma”.

Logo na abertura do cortejo, ambientalistas declaravam a morte das florestas brasileiras por causa das mudanças no Código Florestal. Caixões com mudas de plantas foram levados pelo grupo durante o trajeto. O diretor de Políticas Públicas da organização não governamental SOS Mata Atlântica, Mario Mantovani, disse que, diante da aprovação do texto pelo Congresso Nacional, a sociedade civil não pode se calar e deve cobrar o veto da presidenta Dilma Rousseff.

“Cada vez agregamos mais segmentos nessa briga, outros movimentos sociais, inclusive os trabalhadores da agricultura familiar. Chega de hipocrisia, vamos denunciar toda essa chantagem que vem sendo feita pelos ruralistas contra o governo e contra a sociedade”, disse.

A marcha seguiu pelas ruas da capital gaúcha ao som de música tão eclética quanto o público. A seleção musical ia desde o fandango gaúcho a um samba-enredo dos trabalhadores puxado por uma central sindical. Na metade do percurso, um temporal surpreendeu os ativistas, mas a maioria manteve a mobilização e completou o percurso até as margens do Rio Guaíba.

Vestidas de lilás e com faixas pedindo a descriminalização do aborto, um grupo de militantes da Marcha Mundial das Mulheres se destacava na romaria. Além de causas tradicionais do movimento feminista, a ativista Cláudia Prates disse que é preciso levantar outras bandeiras de defesa das mulheres.

“Temos que estar presentes, porque a que a crise afeta primeiro as mulheres e não fomos nós que criamos a crise. Na Rio+20, por exemplo, queremos discutir o debate da terra, da crise climática que se estabelece e empobrece cada vez mais as mulheres. São as mulheres que mais passam sede, que passam fome no mundo, por isso estamos aqui”.

A marcha também foi espaço para a crítica e oposição ao governo, como o grupo do PSTU que levava uma grande bandeira com palavras de ordem contra o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, e a presidenta Dilma Rousseff.

A desocupação, considerada pelos movimentos sociais violenta, da comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), também foi lembrada pelos manifestantes na abertura do FST. O militante do PSTU, Manoel Fernandes, ajudava a carregar uma imensa faixa de solidariedade aos moradores expulsos. Adesivos com o slogan “Somos todos Pinheirinho” também fizeram sucesso entre os caminhantes. “A luta do Pinheirinho é uma luta da classe trabalhadora. É preciso ter repercussão nacional. Foram cometidos crimes contra o povo pobre que não tem onde morar. Queremos chamar a atenção para o quanto é difícil morar no Brasil”, argumentou.

Professores gaúchos caminharam vestidos de preto, em protesto contra a política salarial do governo do estado. O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, que se juntou à passeata em alguns trechos, disse que a manifestação dos docentes é corporativista, mas que faz parte da democracia.

A marcha abriu oficialmente a programação do FST, que, até domingo (29), deve reunir cerca de 30 mil pessoas em quase mil atividades em Porto Alegre e em mais três cidades da região metropolitana da capital gaúcha.

Luana Lourenço

Fonte: Agencia Brasil