quinta-feira, 28 de julho de 2011

Mensagem de Dom Pedro Casaldáliga na Romaria dos Mártires



A fala do bispo-emérito de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, durante a celebração na Romaria dos Mártires da Caminhada, realizada na cidade de Ribeirão Cascalheira/MT, marcou a todos os presentes pelo caráter testemunhal e profundamente profético.


Segue a transcrição da mensagem que aconteceu ao final da celebração de 17 de julho, feita por Marcelo Naves.

“Possivelmente seja essa, para mim, a última romaria pé no chão. A outra já seria contando estrelas no seio do Pai. De todo modo, seja a última, seja a penúltima, eu quero dar uns conselhos. Velho caduco tem direito de dar conselhos... E a memória dos mártires, o sangue dos mártires, mais do que um conselho, [é] compromisso que conjuntamente assumimos, ou reassumimos.

São Paulo, depois de tantos dogmas que anuncia, tantas brigas teológicas, tantas intrigas por cultura, dá um conselho único: ‘o que eu peço de vocês [é] que não esqueçam dos pobres; o que eu peço de vocês [é] que não esqueçam a opção pelos pobres, essencial ao Evangelho, à Igreja de Jesus’. A opção pelos pobres. E esses pobres se concretizam nos povos indígenas, no povo negro, na mulher marginalizada, nos sem-terra, nos prisioneiros..., nos muitos filhos e filhas de Deus proibidos de viver com dignidade e com liberdade.

Eu peço também para vocês que não se esqueçam do sangue dos mártires. Tem gente, na própria Igreja, que acha que chega de falar de mártires. O dia que chegar de falar de mártires deveríamos apagar o Novo Testamento, fechar o rosto de Jesus. Assumam a Romaria dos Mártires, multipliquem a Romaria dos Mártires, sempre, recordemos bem, assumindo as causas dos mártires. Pelas causas pelas quais morreram, nós vamos dedicar, vamos doar, e se for preciso morrer, a nossa própria vida também...

E ainda uma palavra: há muita amargura, há muita decepção, há muito cansaço... Isso é heresia! Isso é pecado! Nós somos o povo da esperança, o povo da Páscoa. O outro mundo possível somos nós! A outra Igreja possível somos nós! Devemos fazer questão de vivermos todos cutucando, agitando, comprometendo. Como se cada um de nós fosse uma célula-mãe espalhando vida, provocando vida. A Igreja da libertação está viva ressuscitada porque é a Igreja de Jesus. A teologia da libertação, a espiritualidade da libertação, a liturgia da libertação, a vida eclesial da libertação não é nada de fora, é algo mui de dentro, do próprio mistério pascal, que é o mistério da vida de Jesus, que é o mistério das nossas vidas.

Para todos vocês, todas vocês, um abraço imenso, de muito carinho, de muita ternura, de um grito de esperança, esse cantar viva a esperança que seja uma razão... Podem nos tirar tudo, menos a via da esperança. Vamos repetir: ‘Podem nos tirar tudo, menos a via da esperança!’. Um grande abraço para vocês, para as suas comunidades, e a caminhada continua!
Amém, Axé, Awere, Saúde, Aleluia!”.


Notícia por email: Wendel Santos

Seminário abre caminhada rumo à Romaria da Terra e das Águas - Diocese de Imperatriz-MA

As Paróquias da cidade de Açailândia, Itinga e São Francisco do Brejão convocam todas as comunidades católicas e os movimentos sociais para o Seminário em preparação à Romaria daTerra e das Águas. Sábado 30 de julho (das 14 às 18h), lideranças e militantes estarão encontrando-se na Paróquia São João Batista (Jacu) para aprofundar o tema da Romaria 2011: “Terra, água, direitos: Defender, Resistir, Construir”.

A XI ROMARIA DA TERRA E DAS ÁGUAS DO MARANHÃO acontecerá nos dias 10 e 11 de setembro em nossa cidade, no distrito industrial do Piquiá. Está prevista a participação
de cinco mil pessoas, vindo de todo o estado do Maranhão. A Romaria é uma iniciativa da CNBB (Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil), composta no Maranhão por 12 Dioceses que compõem o Regional Nordeste5.

O evento acontece a cada dois anos e reúne, em um grande momento de denúncia, celebração e festa, representantes de comunidades eclesiais de base, dioceses, pastorais sociais, movimentos populares.

Nessa edição as comunidades são chamadas a refletir, em continuidade com a caminhada da campanha da fraternidade, sobre a temática meio ambiental e de maneira particular sobre a concepção “perversa” do modelo de desenvolvimento, que visa ao lucro para
poucos “eleitos” deixando rastros de exploração e de miséria para a grande maioria do povo e para o meio ambiente.

Durante o seminário os participantes construirão uma analise de conjuntura das problemáticas sócio ambientais da nossa região, trabalharão em grupos de estudo os temas dos encontros de preparação e receberão informações praticas para que as
comunidades, grupos e movimentos possam participar da romaria.

“Missão, justiça e clamor” será tema do Seminário Regional Norte 2 da CEBs

“Missão, justiça e clamor” será tema do Seminário Regional da CEBs

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“Pela vida grita a terra, por direito todos nós! Grita povo excluído! Ninguém cala a nossa voz” (Ref. Canto do Grito dos excluídos)

As Comunidades Eclesias de Base – CEBS, Comissão Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) promoverá o Seminário Regional da CEBs. Com o tema: CEBS: Missão, justiça e clamor e o lema: Justiça e profecia a serviço do Reino de Deus. O evento acontecerá na Sede do Regional Norte 2, no período de 29 a 31.

O seminário será um momento de formação, informação, partilha e celebração com a finalidade de “manter viva as comunidades em favor da vida”. Visa discutir temáticas como: questões agrárias/ trabalho escravo, abuso e exploração sexual /tráfico humano e de droga, questões ambientais, divisão do Pará, pistas de Ação que os documentos da Igreja apontam, trajetória e os pilares centrais das CEBs, dentre outros.

Estarão presentes neste encontro: Dom Pedro Conti, Pe. Paulinho, a coordenadora da comissão justiça e Paz – CJP, assessora Nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI), iIr. Téa, o coordenador da Cáritas Brasileira e sociólogo, Lindomar Silva, o sociólogo Genival, Ir. Isidora e José Carlos da Diocese de Macapá.

“A partir deste Seminário, queremos ter um novo ardor missionário para dar passos firmes na construção de uma sociedade justa e fraterna e, juntos, levantar as bandeiras contra tudo o que fere a dignidade da pessoa. Também é nosso desejo ter mais lideranças dispostas a enfrentar, sem medo, os desafios da caminhada”, diz um trecho da carta – convite do Seminário Regional das CEBs.

‘Não havendo sábia direção, o povo cai. Mas na multidão de conselheiros há segurança’ (Provérbios 11.14)

Anotações para a preparação da 1ª Conferência Nacional sobre Transparência e Controle Social (CONSOCIAL), convocada para 18 a 20 de maio de2012

Durante o segundo turno das eleições de 2010 expliquei a uma estudante de ciências políticas da Suíça o que são e que poderes possuem hoje as conferências e os conselhos de políticas públicas no Brasil. Acrescentei que o processo de conferências chega a envolver mais de 100 mil pessoas, e que delas emanam diretrizes que se transformam em marcos legais nas mais diversas áreas.

Ela ficou “de queixo caído” e disse: “Isso não existe nem na Suíça!” Então tive de alertar para o fato de que o controle social, apesar de representar um grande avanço como democracia direta, ou participativa, possui vários problemas. Na época, o outro candidato à Presidência da República já havia declarado que, se eleito, não governaria com os conselhos, mas o fez por oposição ideológica à participação popular, não por se interessar na solução de dificuldades. Deixei de lado o descrédito e a suspeição de inutilidade (do tipo rainha da Inglaterra) que pairam sobre as instâncias da democracia representativa, ou a dificuldade de governantes da “velha política” em lidar com a participação da sociedade civil organizada. Tampouco analisei o despreparo técnico e organizativo das próprias organizações não governamentais para cooperar critica e efetivamente na construção e execução de políticas públicas, algo em que estamos avançando. Assinalei que os problemas maiores estão relacionados com o fato de que a Constituição “cidadã” de 1988 nasceu no bojo da implantação dos interesses neoliberais.

Primeiro, o controle social sancionado pela Constituição não “caiu do céu” (assim como o Concílio Vaticano II somente aprovou o aggiornamento porque algumas dioceses latino-americanas já haviam acabado com a missa em latim e promoviam as CEBs). Ele é fruto de uma árdua luta do movimento da saúde nos anos 80mediante um processo construtivo, até certo ponto bem-sucedido, de conferências e criação de órgãos colegiados de gestão do SUS em todos os níveis. Contudo, paradoxalmente, mais de trinta anos depois o noticiário está repleto de informes sobre o caos em que se encontra o atendimento à saúde do povo! Essa situação não pode ser atribuída somente à falta de transparência ou à má gestão dos recursos.

O segundo aspecto que expliquei à estudante é que da mesma Constituição que inaugurou a participação social na gestão pública também derivam, nos anos 90,as chamadas agências reguladoras, que não “regulam nada” no interesse do povo. Ainda poucos dias atrás o professor de engenharia mecânica da UNICAMP Arsênio Sevá Filho declarou diante da reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Goiânia que a ANEEL “não representa a interface entre o governo e a sociedade, apenas os negócios das empresas”. Mais que um projeto ambiental e de engenharia, as usinas são vistas como unidades de negócios, que precisam ser gerenciadas para ser cada vez mais lucrativas (G1,13-07-2011). Lembro que em 2009 se descobriu que a ANEEL cometeu um erro no cálculo da tarifa de energia, de modo que os usuários pagaram bilhões a mais às distribuidoras, mas não havia como elas fazerem a devolução.

Os agro combustíveis, alardeados por suas vantagens sociais e ambientais, não estão sujeitos ao controle social (são regulados pela ANP, que não entende nada de agricultura). Em relação ao programa do biodiesel, que concede incentivos fiscais e um “selo social” as usinas que comprovarem a compra de parte da matéria-prima da agricultura familiar, não se sabe de nenhum acompanhamento por parte da sociedade civil organizada, muito menos das necessárias correções de rumo em vista dos fracassos. Na III Conferência de Segurança Alimentar e Nutricional em 2007 foi aprovada uma moção que, entre outros, reivindica: 1) regulação pública de toda a cadeia do etanol por meio de uma certificação social e ambiental; 2) combate à concentração fundiária pelos monocultivos de cana e oleaginosas e à aquisição de terras por estrangeiros; 3) concessão do selo social somente quando o agrocombustível não reduzir áreas de cultivo de alimentos. É desnecessário dizer que sequer aconteceu o debate amplo dessa questão, e nem mesmo ”Conselhão” (CDES) se ocupou desses problemas.

Na Constituição (Arts. 194, VI, Art. 204, I e II, etc.) o controle social está previsto somente para políticas sociais. Setores monopolizados e oligopolizados da economia estão isentos dele. É como se o desenvolvimento do país estivesse sendo construído sobre dois trilhos independentes, supostamente paralelos, um sócio ambiental e outro econômico. Apesar de “ajeitamentos” de vários tipos(audiências públicas forjadas, alegação de falsas alternativas de geração de energia, CTNBio como instância de controle social dos transgênicos?), os dois trilhos inevitavelmente entram em rota de colisão: saúde popular X empresas farmacêuticas e hospitalares; atingidos por barragens X empreiteiras; luta por reforma agrária X 200 milhões de hectares na mão de latifúndios improdutivos; agricultura de base agroecológica X agronegócio e multinacionais de agrotóxicos e sementes; povos extrativistas com manejo florestal X madeireiras; ensino público de qualidade X privatização do ensino; auto sustentabilidade do cidadão X assistencialismo e criação de mão-de-obra barata; erradicação da pobreza extrema X as causas que a geram sempre de novo. Parece que a sociedade civil tem o direito de comer pelas beiradas, mas diante de tanta beirada ela não chegará nunca ao miolo do sistema. Ali os interesses parecem estar muito bem amarrados, e os governos nem sempre conseguem disfarçar sua ambiguidade (p.ex., BNDES empresta verbas do FAT para mega empreendimentos social e ambientalmente predatórios; União e Estados concedem isenções de impostos para agrotóxicos).

Para não se limitar ao combate à corrupção ou ao acompanhamento técnico de programas– ambos importantes – a cooperação crítica da sociedade organizada nas políticas públicas precisa ter um parâmetro ou critério: Tratamos de questões que não se regulam pelas leis do mercado. Aliás, o mesmo vale para a maioria das coisas na vida. Educação, saúde, água, segurança alimentar, acesso à terra e moradia, ambiente saudável e futuro sustentável não são mercadorias, mas direitos inalienáveis de todo ser humano. O atendimento a esses direitos não pode ser assegurado por meio de atividades gerenciadas através de um modelo empresarial. São bens públicos que devem ser administrados de modo eficiente e sem perder de vista sua finalidade, que não é gerar lucro para alguns poucos.

A sociedade civil não constitui apenas uma “multidão de conselheiros”, mas também toma iniciativas que passam a ser políticas públicas, a exemplo das escolas comunitárias, da pastoral da criança, das cisternas do semiárido, dos milhares de empreendimentos de economia solidária, das iniciativas comunitárias na defesa do meio-ambiente. Quanto mais a sociedade se organizar em favor dessas iniciativas, tanto mais rapidamente virá a mudança rumo ao efetivo controle das políticas públicas pelo povo, rumo à partilha sustentável dos bens e dos saberes.


Werner Fuchs

Fonte: Adital

Julio Bonino, bispo uruguaio: 'Se intensificou a influência social sobre a Igreja'

Julio Bonino, bispo de Tacuarembó, Uruguai, afirmou que atualmente se vive "uma mutação histórica que afeta notavelmente a Igreja Católica" e que se expressa em "uma intensificação da influência da população sobre a Igreja e um enfraquecimento da influência da Igreja sobre o povo".

"A Igreja se debilitou em uma sociedade poderosa. Está nascendo um tempo novo da Igreja e da história da humanidade", afirmou o religioso ao dar testemunho sobre o seu papel de bispo durante uma conferência no salão de honra da Universidade Católica do Chile, onde se analisou a influência do Concílio Vaticano II e da teologia da libertação.

"Não sabem quanto me doi que os bispos não sejam hoje uma boa notícia. Neste momento da Igreja católica onde existe tanto inverno, antes de levantar o dedo para julgar tem que pensar muito", ressaltou.

Segundo o bispo uruguaio, que participa nas Jornadas Teológicas do Cone Sul e Brasil, em curso em Santiago, "está nascendo um tempo novo da igreja e da história da humanidade".

"Este enfraquecimento do poder e do prestígio da Igreja tem uma coisa boníssima porque possibilita ser e atuar como discípulos e missionários do Carpinteiro de Nazaré", concluiu.

Por sua parte, o reitor da Universidade Alberto Hurtado, o jesuíta Fernando Montes, pediu à Igreja para "encontrar uma linguagem para falar para a sociedade civil não desde o poder” indicando que o desafio é ter uma palavra e dialogar diante de problemas completamente novos em uma sociedade centrada hoje na competência.

"A Igreja não está neste mundo para dizer a verdade senão para falar para a gente”, disse o ex-provincial dos jesuítas chilenos, acrescentando que "neste momento de crise se abre uma oportunidade para a igreja para voltar a sonhar”.

Em seu testemunho, Montes pediu para "repensar o papel da Igreja” e sublinhou o papel da teologia da libertação que efetua "uma reflexão ligada à ação”.

"A teologia da libertação não foi uma teologia nascida para teólogos, mas para fazer crescer a vida dos cristãos”, ressaltou para logo reconhecer o papel de seu impulsor inicial, Gustavo Gutierrez, que depois de ser criticado na Europa, recebeu o grau de doutor ‘honoris causa’ por numerosas faculdades de teologia deste continente.

Orlando Milesi

Fonte: Adital

Boff eletrizou o auditório do 24.º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião



O professor e teólogo Leonardo Boff eletrizou o auditório do 24.º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter), realizado, na semana passada, em Belo Horizonte - MG, ao relembrar a história da Teologia da Libertação, em uma palestra sobre os 40 anos de atuação do movimento de esquerda que revolucionou a Igreja Católica no Brasil e na América Latina.


Os 360 participantes aplaudiram de pé quando Boff e seu colega, padre João Batista Libânio, afirmaram que a Teologia da Libertação continua viva e presente nos movimentos sociais, apesar de ter sido "incompreendida, difamada, perseguida e condenada pelos poderes deste mundo", civis e eclesiásticos.

A prova, segundo Boff, são o Partido dos Trabalhadores, o Movimento dos Sem-Terra, o Conselho Indigenista Missionário, a Comissão Pastoral da Terra e outras pastorais.

"Nunca, na história do cristianismo, os pobres ganharam tanta centralidade", disse o ex-frade franciscano, que abandonou o convento e o ministério sacerdotal, mas não perdeu a fé nem deixou de ser teólogo, após ter sido punido pelo então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Joseph Ratzinger, atualmente papa Bento XVI, após a publicação do livro Igreja, Carisma e Poder, de 1981.

Boff afirmou que João Paulo II e Bento XVI tentaram barrar a Teologia da Libertação. "Ratzinger entrará na história como inimigo dos pobres", disse. "A teologia se inspira no Cristo libertador e não no marxismo, que já morreu", advertiu. "Marx não foi pai nem padrinho da Teologia da Libertação."

A reportagem é de José Maria Mayrink e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 17-07-2011.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Falece o sacerdote jesuíta Jan de Vos Van Gerven líder da teologia da libertação no México

MEXICO D.F., 26 Jul. 11

No domingo 24 de julho, à idade de 75 anos, faleceu na capital do México o historiador e sacerdote jesuíta Jan de Vos Van Gerven, perito em línguas indígenas e líder da teologia marxista da libertação –contrária à doutrina católica– que influiu no pensamento do falecido Bispo mexicano Samuel Ruiz.

Jan de Vos Van Gerven, já não atuiava na ICAR ( Igreja Catolica Apostolica Romana).

Conforme informa o jornal mexicano La Jornada, Jan de Vos faleceu logo depois de uma cirurgia por uma severa condição cardiovascular.

Os restos do historiador e conhecedor das línguas indígenas do México serão levados a San Cristóbal de las Casas, estado de Chiapas. Nessa cidade ele residiu desde que chegou ao país em 1973.

Este sacerdote jesuíta junto com Andrés Aubry foram dois teólogos que influenciaram o falecido Bispo mexicano Samuel Ruiz, considerado um emblema da "teologia da libertação a indígena" e que governou a diocese mais pobre do México durante 40 anos.

Andrés Aubry e Jan de Vos

Andrés Aubry era um homem próximo ao Bispo Ruiz. Foi sacerdote jesuíta e fundador do "Instituto de Assessoria Antropológica para a Região Maia A.C." (INAMERAC). Com sua companheira Angélica Inda (falecida em 2001), dirigiu o Arquivo Histórico da Diocese de San Cristóbal de las Casas durante 36 anos.


Aubry promoveu os diáconos casados para o projeto do "sacerdócio uxorado" (casado) e impulsionou a chamada "igreja nativa", sob as duas modalidades: "horizontalista" em Ococingo, dos dominicanos, e "verticalista" em Bachajón, dos jesuítas.

Atacou em diversas ocasiões o Cardeal Angelo Sodano quando era Secretário de estado Vaticano, e os Cardeais Jorge Medina Estévez e Francis Arinze, consecutivamente, Prefeitos da Congregação para a Disciplina dos Sacramentos e o Culto Divino, quando proibiram a ordenação de mais diáconos, até que não fosse reiniciada a genuína evangelização e "afastada a desafortunada e falsa ‘ideologização’ na diocese de San Cristóbal de las Casas".

Andrés Aubry faleceu em um acidente automobilístico em 2007.

Durante o mesmo período que Aubry, Jan de Vos trabalhou em Chiapas como "agente de pastoral" durante 20 anos para logo deixar a ordem dos jesuítas. Uniu-se a uma das filhas do economista e sociólogo Daniel Cosío Villegas, Fundador do Fundo de Cultura Econômica e da Escola Nacional de Economia do México.

Converteu-se em um dos que influíram no pensamento do Bispo Ruiz que apoiava o sacerdócio casado e definia a "teologia indígena" como algo que "nasce no interior de um contexto de opressão. Não foi só uma conquista violenta desta terra por parte da Espanha: também a religião, como a supremacia política, foi imposta".

Em 1999 e depois de uma visita de João Paulo II ao México, a Arquidiocese da Cidade do México divulgou um documento anunciando a condenação do Pontífice à teologia indígena, como derivada da teologia da libertação.

Nos últimos anos de seu trabalho pastoral ao final da década de 90, o Bispo se converteu em alvo de críticas de diversos setores, especialmente governamentais, por sua simpatia com o movimento guerrilheiro marxista conhecido como "Frente Zapatista de Libertação Nacional" que lançou uma ofensiva armada em Chiapas em 1994.

Em janeiro de 1960, apenas 3 por cento dos habitantes da diocese não estavam batizados; média que se manteve até 1986. No ano 2000, quando Dom Ruiz se tornou Bispo Emérito, a cifra tinha subido para 33 por cento.

O falecido Prelado chegou a fechar o seminário. Nos 40 anos que governou San Cristóbal de las Casas, só ordenou onze sacerdotes.