domingo, 6 de fevereiro de 2011

Egito, gendarmes e revoluções populares

A onda de movimentos populares antiditatoriais, iniciada no Irã há 32 anos, reaparece de forma inesperada – como em 1979 – em uma região que o Ocidente tentou manter, até agora com êxito, à margem de qualquer contágio democrático. Washington, Tel Aviv e Riad movem agitadamente seus peões para evitar que o Egito se “extravie” ou, pior, se “perca”, como ocorreu com o Irã em 1979. Está certa a cadeia de televisão Al Jazeera ao qualificar o que está ocorrendo como “a batalha pelo Egito”. Nada poderia ser pior para certas potências estrangeiras que um renascimento do nacionalismo árabe e do espírito antiisraelense egípcio. O artigo é de Augusto Zamora.

No dia 1° de fevereiro de 1979, após meses de revoltas populares reprimidas brutalmente, o aiatolá Ruhollah Khomeini regressou ao Irã. Sua chegada assinalava a derrocada do regime ditatorial e pró-ocidental da família Pahlevi, instaurado no país após o golpe de Estado organizado pela CIA contra o governo nacionalista de de Mossadeq. No dia 1° de abril, depois de um referendum, Khomeini proclamava a República Islâmica do Irã, de caráter antiestadunidense. Poucos meses depois, em 19 de julho do mesmo ano de 1979, outra revolução popular, esta encabeçada por guerrilheiros sandinistas, derrubava a ditadura mais antiga da América, imposta também pelos EUA em 1934.

Na contramão das análises de seus serviços secretos e oficiais políticos, Washington contemplava impotente a derrubada de dois de seus regimes gendarmes, em regiões consideradas de vital importância: Golfo Pérsico e América Central. A “perda” do Irã rompia o cerco estratégico em torno da região do petróleo, formado por Turquia, ao norte, Israel, no centro, Arábia Saudita, no sul, e Irã, a oeste.

A reação não tardou. O temor de que o exemplo iraniano se estendesse por toda a região foi neutralizado com uma guerra de agressão. O regime de Sadam Hussein, armado até os dentes pelos EUA e Europa Ocidental e financiado pelas petromonarquias do Golfo, invadiu o Irã em setembro de 1980. Saddam era, então, o aliado do Ocidente dos regimes reacionários árabes. O objetivo da agressão bélica era destruir a república islâmica. Isso não ocorreu. Os oito anos de guerra fortaleceram a República Islâmica e assentaram as bases para que Sadam quisesse cobrar o inútil sacrifício do Iraque, anexando o Kuwait. A guerra fracassou, mas o “efeito islâmico” foi, efetivamente, neutralizado por décadas. Os EUA, por sua vez, fez do Egito o gendarme substituto do Irá e de Mubarak o novo Xá.

Na Nicarágua, os EUA organizaram um movimento contrarrevolucionário baseado na Costa Rica e Honduras, iniciando uma guerra criminosa – condenada pela Corte Internacional de Justiça, em 1986 – que acabou determinando o fracasso da Revolução Sandinista.

Não obstante, Washington tirou uma lição daquelas duas revoluções: entendeu que as ditaduras militares já não garantiam o controle de países chave. Podiam provocar o oposto, ou seja, servir de elemento aglutinador e mobilizador contra essas tiranias.

Iniciou-se, assim, uma nova política na América Latina, cujo núcleo central era a substituição das ditaduras militares por democracias controladas (pelos EUA). Ditadores e ditaduras foram caindo sem pressa, mas sem interrupção, na Argentina (1982), Chile e Paraguai (1989, onde o ditador Stroessner foi derrubado por seu genro), passando pelo Brasil (1985). No repique, acabou caindo também a ditadura de Ferdinand Marcos, nas Filipinas, em 1986, substituído por Cory Aquino, viúva do assassinado líder Benigno Aquino (fórmula seguida na Nicarágua, em 1990, contra o sandinismo, transformando em candidata a viúva do assassinado Pedro Joaquín Chamorro).

Estes acontecimentos vêm à tona porque a onda de movimentos populares antiditatoriais, iniciada no Irã há 32 anos, reaparece de forma inesperada – como em 1979 – em uma região que o Ocidente tentou manter, até agora com êxito, à margem de qualquer contágio democrático. Enquanto na América Latina se derrubavam as ditaduras, dando lugar a poderosos movimentos de mudança e ao ressurgimento da esquerda, no mundo árabe ocorria o contrário. Na Argélia, a vitória democrática da Frente islâmica de Salvação (FIS), em 1992, foi abortada por um golpe de Estado e uma sangrenta guerra civil, com 200 mil mortos. O triunfo legal e legítimo do Hamas, em Gaza, em 2006, foi respondido com um bloqueio imoral, seguido da criminosa agressão israelense de 2008.

Os tempos mudaram e, sem Guerra Fria, ninguém pode justificar golpes de estado ou invasões estrangeiras para sufocar com sangue revoltas populares, como a triunfante na Tunísia ou a que está em marcha no Egito e que começa a se espalhar por outros países.

Mas o Egito não é a Tunísia. País gendarme na região mais volátil do planeta e contraponto muçulmano ao crescente poder e influência do Irã, o Egito é a peça mais estratégica da região, depois de Israel. Por isso, o levante popular egípcio não seguirá a rota relativamente fácil do tunisiano. Por trás das massas rebeladas, Washington, Tel Aviv e Riad movem agitadamente seus peões para evitar que o Egito se “extravie” ou, pior, se “perca”, como ocorreu com o Irã em 1979. Está certa, portanto, a cadeia de televisão Al Jazeera ao qualificar o que está ocorrendo como “a batalha pelo Egito”.

O retorno de Mohamed Al Baradei foi uma jogada dirigida com o objetivo de ter disponível um eventual substituto moderado (um “Cory Aquino” egípcio), caso se torne urgente a saída de Mubarak, como ocorreu nas Filipinas, em 1986, ou no Paraguai, em 1989. Al Baradei reúne bons requisitos para sucedê-lo. É moderado, respeitado, de direita, próximo ao Ocidente. Um personagem gatopardiano, que mudaria tudo sem mudar nada, sobretudo o papel de policial desempenhado pelo Egito na região.

Nada poderia ser pior para certas potências estrangeiras que um renascimento do nacionalismo árabe e do espírito antiisraelense egípcio, em cujo sepultamento Mubarak teve um papel essencial.

O estabelecimento de sistemas verdadeiramente democráticos, por mais que se fale deles, tira o sono de várias potências ocidentais, porque, parafraseando a frase de Kissinger sobre o Chile, em 1973, os povos tendem demasiadas vezes a atuar irresponsavelmente, elegendo personagens duvidosos (como Allende). O caso da FIS, na Argélia, e o êxito do Hamas, em Gaza, demonstram que, deixados ao seu livre arbítrio, os povos podem votar perigosamente. Olhem a América Latina, que, após uma onda de sucessivas revoltas populares nos anos 90, se cobriu de um encantador – e incômodo – tom vermelho-rosado democrático, com povos que são, afinal, donos de seus países.

(*) Autor de Ensayo sobre el subdesarrollo: Latinoamérica, 200 años después.

(**) Rebelión publicou este artigo com a permissão do autor mediante uma licença de Creative Commons, respeitando sua liberdade para publicá-lo em outras fontes.


Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

Quando as empresas preferem os ditadores à democracia


O Egito foi o segundo grande receptor de ajuda externa dos Estados Unidos durante décadas, depois de Israel (sem contar os fundos gastos nas guerras e ocupações do Iraque e Afeganistão). O regime de Mubarak recebeu cerca de 2 bilhões de dólares ao ano desde que assumiu o poder, em sua imensa maioria para as forças armadas. Onde foi parar esse dinheiro? Em geral, foi para empresas estadunidenses. O dinheiro vai para o Egito e logo volta para pagar aviões F-16, tanques M-1, motores de aviões, mísseis, pistolas e latas de gás lacrimogêneo. O artigo é de Amy Goodman.

“As pessoas levavam um cartaz que dizia ‘Para: Estados Unidos. De: Povo egípcio. Deixem de apoiar Mubarak. Ele acabou!” – dizia o twitter de meu valente colega e produtor em chefe de Democracy Now! Sharif Abdel Kouddous, desde as ruas do Cairo.

Mais de dois milhões de pessoas se manifestaram naquele dia em todo o Egito: a maioria delas inundaram a praça Tahrir, no Cairo. Tahrir, que significa “libertação” em árabe, se converteu no epicentro do que parece ser uma revolução em grande medida pacífica, espontânea e sem líderes no país mais povoado do Oriente Médio. Este incrível levante que desafio o toque de recolher militar, foi conduzido pelos jovens, que constituem a maior parte dos 80 milhões de habitantes do país. Twitter, Facebook e as mensagens de texto de telefones celulares ajudaram esta nova geração a vincular-se e organizar-se, apesar de viver há três décadas em uma ditadura apoiada pelos Estados Unidos.

Em resposta, o regime de Mubarak, com a ajuda de empresas estadunidenses e europeias, cortou o acesso à Internet e restringiu o serviço de telefonia celular, deixando o Egito em uma situação de obscuridade digital. C.W. Anderson comentou a respeito de se o que estava ocorrendo no Oriente Médio era uma espécie de revolução do Twitter: “não é a tecnologia, mas sim as pessoas que fazem a revolução”.

As pessoas nas ruas exigem democracia e autodeterminação. Sharif viajou para o Egito à noite, em um terreno incerto. As odiadas forças de segurança do Ministério do Interior e a polícia de camisas negras leais ao presidente Hosni Mubarak estavam reprimindo e matando gente, prendendo jornalistas, quebrando e confiscando câmeras. No sábado pela manhã, Sharif se dirigiu à praça Tahrir. Apesar do bloqueio da internet e das mensagens de texto, Sharif, talentoso jornalista e gênio da tecnologia, achou rapidamente uma maneira de publicar mensagens no twitter desde a praça Tahrir: “Que cena assombrosa: estão passando três tanques carregados de gente que grita “Fora Hosni Mubarak!”.

O Egito foi o segundo grande receptor de ajuda externa dos Estados Unidos durante décadas, depois de Israel (sem contar os fundos gastos nas guerras e ocupações do Iraque e Afeganistão). O regime de Mubarak recebeu cerca de 2 bilhões de dólares ao ano desde que assumiu o poder, em sua imensa maioria para as forças armadas. Onde foi parar esse dinheiro? Em geral, foi para empresas estadunidenses. Pedi a William Hartung, da New America Foundation, que explicasse isso:

“É uma forma de bem estar empresarial para empresas como Lockheed Martin e General Dynamics, porque o dinheiro vai para o Egito e logo volta para pagar aviões F-16, tanques M-1, motores de aviões, todo tipo de mísseis, pistolas, latas de gás lacrimogêneo de uma empresa chamada Combined Systems International, cujo nome figura nas latas achadas nas ruas do Egito”.

Hartung acaba de publicar um livro, “Os profetas da guerra: Lockheed Martin e a criação do complexo militar industrial”. Continuou dizendo:

“Lockheed Martin encabeçou acordos de 3,8 bilhões de dólares nestes últimos dez anos; a General Dynamics de 2,5 bilhões para tanques; a Boeing de 1,7 bilhões para mísseis e helicópteros e a Raytheon para todo tipo de mísseis para as forças armadas. Então, basicamente este é um elemento fundamental destinado a manter o regime, mas grande parte do dinheiro se recicla. Os contribuintes poderiam simplesmente dar o dinheiro diretamente para a Lockheed Martin ou a General Dynamics”.

De maneira similar, a “chave geral” para bloquear a Internet e os telefones celulares no Egito foi ativada com a colaboração de empresas. A empresa Vodafone (gigante mundial da telefonia celular, proprietária de 45% das ações da Verizon Wireless nos Estados Unidos), com sede na Inglaterra, tentou justificar-se em um comunicado de imprensa: “Estava claro que Vodafone não tinha opções legais nem práticas, mas sim que devia satisfazer as exigências das autoridades”.

Narus, uma subsidiária da Boeing Corporation, vendeu equipamentos ao Egito para permitir uma “inspeção profunda de pacote” (DPI, em sua sigla em inglês), segundo Tim Karr, do grupo de política de mídia Free Press. Karr disse que a tecnologia da Narus “permite às empresas egípcias de telecomunicações ver as mensagens de texto dos telefones celulares e identificar o tipo de vozes dissidentes que existem. Também fornece ferramentas tecnológicas para localizar essas mensagens geograficamente e rastreá-las”.

Mubarak prometeu não se apresentar como candidato à reeleição em setembro. Mas o povo do Egito exige que ele saia agora. Como durou 30 anos? Talvez isso possa ser explicado melhor quando consideramos uma advertência feita por um general do exército dos EUA há 50 anos, o presidente Dwight D. Eisenhower, que disse: “Devemos tratar de evitar que o complexo militar-industrial adquira influência injustificada, seja ela buscada ou não”. Esse complexo mortal não é um perigo apenas para a democracia em nível nacional, mas também quando apoia déspotas no estrangeiro.

Tradução: Katarina Peixoto


Fonte: Carta Maior

O cérebro se transforma quando aprendemos


Tanto a substância cinzenta quanto a branca aumentam quando adquirimos conhecimento, e isso vale para jovens e idosos

© Sebastian Kaulitzki/Shutterstock

Adquirimos constantemente novas informações e aptidões.

No entanto, os pesquisadores ainda sabem muito pouco sobre o que exatamente acontece durante esse processo: será que o maquinário já existente das células cerebrais é adaptado a cada situação ou unidades de processamento completamente novas são criadas e integradas?

Ou seja, apenas a comunicação entre os neurônios se altera ou toda a estrutura do cérebro, o hardware neural, também se modifica durante a aprendizagem?


As células neurais funcionam como unidades processadoras de informações. Seus corpos formam a substância cinzenta, o córtex, que compõe a camada externa do cérebro.

Cada neurônio pode receber sinais de outras células, transmitidos pelos pontos de contato, as sinapses, e depois encaminhados ao longo de extensões chamadas axônios.

Eles ficam dentro do cérebro, ou seja, embaixo do córtex, e são chamados substância branca. Sua função é ligar os neurônios por longas distâncias, permitindo a comunicação entre diversas áreas.


A cor clara vem da camada de gordura isolante que envolve os axônios. Essa bainha de mielina acelera o encaminhamento dos sinais, contribuindo para uma comunicação rápida sem perdas de dados.

O truque decisivo: a bainha mielínica é interrompida a pequena distância pelos nódulos de Ranvier; os sinais praticamente “saltam” de um nódulo para outro. Sem essas interrupções, os sinais se difundiriam mais lentamente e, em trechos mais longos, acabariam por se extinguir.

O grau de mielinização, portanto, influencia a velocidade e a força dos impulsos: quanto mais grossa a camada isolante, melhor e mais rápido os dados são transmitidos.


Mas o que isso tem a ver com aprender? O aprendizado, antes de mais nada, baseia-se em uma alteração de comunicação entre as células do cérebro.

Assim, é bastante plausível que a substância branca também se modifique quando aprendemos uma nova habilidade motora (como no caso do malabarismo), pelo surgimento de novos axônios ou com uma mielinização mais intensa daqueles já existentes.

Dessa forma, os sinais de áreas visuais teriam condição de atingir as regiões cerebrais motoras com mais rapidez, por exemplo.

Por isso, dançar, nadar, treinar lutas marciais, jogar tênis ou xadrez, praticar arvorismo ou qualquer outra atividade que mantenha o corpo e a mente em movimento favorece a capacidade neural.

Fonte: Uol

Há clones? Humanos?!

Se há clones do touro Bandido, certamente temos por ai clones humanos...

As pesquisas não param e quando há muita fumaça...

Se já clonam mamiferos perfeitos, como o touro Zangão, que é clone do touro Bandido, então certamente temos por ai humanos clonados...

Nós, como a grande maioria dos humanos na história conhecida dos homens, crescemos e sempre ficamos a margem de tudo, do conhecimento e da ciência e agora também da tecologia, que avançam em passos galopantes, em passos de mitológicos...

Agora é um tempo de muito conhecimento e avanços, mas também tempo em que uma ignorância terrivel sombreia e cobre a maioria dos humanos, uns na busca diária da sobrevivência, outros na busca de atender o proprio consumismo frenético,porem são impedidos de perceber o que acontece na face da terra, pois não tem tempo senão para a propria vida...

Há clones humanos? Certamente que sim....

‘Sociedade Civil precisa se mobilizar para o fortalecimento da Defensoria Pública no Brasil’

A Defensoria Pública foi criada no Brasil com a promulgação da Constituição Federal de 1988, prevista no artigo 134.

De modo simples, é o órgão público que tem por objetivo garantir a todas as pessoas o acesso à justiça, o atendimento jurídico especializado, em especial para pessoas carentes.

Em muitos estados brasileiros, a Defensoria Pública ainda não existe efetivamente.

O atendimento à população é feito por meio de convênios, em geral com a OAB ou outras instituições, em que advogados credenciados realizam o trabalho de defensores públicos.

Este sistema de convênios traz alguns inconvenientes, como a dificuldade de controle na qualidade do atendimento ou ainda da quantidade de pessoas atendidas.

A atuação da Defensoria Pública está dividida em núcleos especializados: Cidadania e Direitos Humanos, Infância e Juventude, Habitação e Urbanismo, Situação Carcerária, Combate a Discriminação, Racismo e Preconceito, Proteção e Defesa dos Direitos da Mulher e Direitos do Idoso.

Em outubro de 2010 o Presidente Lula sancionou a Lei Orgânica da Defensoria Pública para padronizar o trabalho do defensor público no país e ampliar suas funções, reforçando a criação da Defensoria nos estados de Goiás, Santa Catarina e Paraná.

A Lei ainda define que a Defensoria Pública deve atuar dentro dos presídios, sendo assegurado o espaço e as condições adequadas para o atendimento ao preso, que mesmo privado de liberdade, tem direito ao acesso à justiça.

Pe. Valdir João Silveira, Coordenador Nacional da PCr fala sobre a Defensoria Pública e suas funções. Confira:

1. Qual a importância da Defensoria Pública para a população carcerária?

A restrição da liberdade acaba por tolher também a possibilidade da pessoa presa de acessar por si mesmo as informações de seu processo. Como a retomada da liberdade dependerá, via de regra, de decisões judiciais, a principal ânsia da população carcerária é por saber sobre a situação processual, quando terá benefícios, quando extingue a sua pena, etc. A presença da Defensoria Pública no Sistema Carcerário não apenas agilizaria a consecução de benefícios pela pessoas presas, como também aliviaria sensivelmente a enorme carência de informações que atinge a população carcerária.
Além disso, com uma Defensoria atuante no sistema carcerário, muitos dos problemas que, apesar de graves, não chegam ao conhecimento dos principais atores do sistema penal seriam detectados e combatidos. De modo que graves violações de direitos que costumeiramente ocorrem sob as sombras dos muros penitenciários tenderiam a se reduzir e até se extinguir com uma Defensoria Pública estruturada, presente e atuante nos cárceres.

2. Na sua opinião, por que em alguns Estados, como o Paraná, ainda não existe Defensoria Pública?

A Constituição Federal estabelece que o Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito.
Contudo, a consolidação de uma democracia parte não apenas da alternância dos mandatários dos Poderes Executivo e Legislativo, mas também com políticas públicas que viabilizem o acesso ao Poder Judiciário.
Dito de outro modo, pode-se falar em efetiva democracia quando as portas dos Tribunais do País estão abertas não só àqueles que podem contratar os préstimos de um advogado, mas principalmente quando há mecanismos que permitem que a população carente, que os grupos vulneráveis, que as pessoas desafortunadas possam "bater” às portas dos Tribunais.
Preocupada com uma política pública de democratização do Poder Judiciário, a Constituição Federal atribuiu ao Estado a obrigatoriedade de prestar assistência jurídica pública, por intermédio da Defensoria Pública.
Quer dizer, portanto, que a Constituição atual, além de elencar a assistência jurídica pública como direito fundamental, atribuiu tal mister ao Estado que deve estar voltado para uma política social de acesso a direitos.
No Estado do Paraná, passados mais de 20 anos da Constituição, não se colocou a Defensoria Pública como prioridade, pois, até os dias de hoje, ainda não se cumpriu o mandamento constitucional, o que vem a prejudicar, segundo dados do Ministério da Justiça, mais de 7.000.000 de paranaenses que não têm voz e são potenciais assistidos da Defensoria Pública.
No Governo Requião, a questão da Defensoria Pública do Estado praticamente não avançou, sendo que um dos últimos atos de governo do então Governador, hoje Senador da República, foi fazer convênio com a Ordem dos Advogados do Brasil para repasse de dinheiro público, sem fazer qualquer alusão à criação da Defensoria Pública.
Tempestivamente, as Associações Nacionais de Defensores Públicos Federais e Estaduais, ANADEF e ANADEP, Pastoral Carcerária Nacional denunciaram a omissão. Concomitante, o novo Governador, Orlando Pessuti, sensibilizado com a situação, iniciou as tratativas pela implantação da Defensoria Pública, estando à frente deste processo o então Secretário, Prof. Nildo Lubke.
O projeto de Lei foi encaminhado pelo Governador Pessuti à Assembléia Legislativa, em menos de 4 meses de gestão. O Deputado Tadeu Veneri, relator do projeto na Assembléia, teve papel fundamental para conseguir a aprovação em primeiro turno.
Todavia, o novo Governador eleito, Beto Richa, ao invés de estabelecer a implantação da Defensoria Pública como prioridade e permitir a votação em segundo turno, simplesmente se omitiu e, por meio de lideranças de governo, não avaliza a votação do projeto enviado pelo seu antecessor, em segundo turno. Em síntese, o novo Governo expôs a idéia de que a cidadania e que os direitos da população carente podem esperar, por meras questões políticas.
Quem sofre com tal omissão, de forma clara, é a população carente e os grupos vulneráveis, o que deflui uma mensagem muito nítida: Defensoria Pública não é prioridade no Estado do Paraná, por parte do novo Governador.
Deflui, desse raciocínio, a seguinte conclusão: a população paranaense não conta com uma Defensoria Pública do Estado por mera falta de vontade política dos agentes governamentais que, de forma provinciana, insistem em impedir a efetiva proteção dos direitos humanos dos grupos vulneráveis, a ponto de inibir que a Justiça esteja ao alcance de todos.

3. Por que em alguns estados a Defensoria Pública é inadequada, falha ou insuficiente?

A Defensoria Pública é órgão relativamente novo. Foi criada por obra do Constituinte de 88, ao passo que as demais instituições, como as Procuradorias, o Judiciário e o Ministério Público, já há muito existiam. No entanto, há outro fator que parece ter sido preponderante no processo de constituição das Defensorias estaduais: a mobilização social. Naqueles estados em que houve maior mobilização da sociedade civil organizada, o processo de criação da Defensoria Pública avançou. Obviamente, conta, e muito, o perfil do Governo estadual, vez que a criação da Defensoria depende da iniciativa do Executivo. Assim, Governos mais sensíveis às causas sociais e humanitárias tendem a ser mais ativos na criação e estruturação da Defensoria em seus Estados.

Fonte: Adital

Fórum Mundial de Teologia e os seus desafios

Começou, 05/02, em Dakar o Fórum Mundial de Teologia e Libertação, paralelamente ao Fórum Social Mundial. É um bom momento para repensarmos a caminha das mais diversas teologias na perspectiva da libertação ou críticas.

Eu quero enumerar alguns desafios.

A teologia da libertação latinoamericana, no início da década de 1970, assumiu a tarefa de pensar teologicamente as lutas dos pobres e dos seus aliados contra a pobreza, desigualdade e injustiças sociais a partir da teoria da dependência. Esta teoria foi um marco no pensamento sócio-econômico não só na América Latina, mas também em outras partes. Na década de 1980, a realidade econômica mundial mudou e o neoliberalismo passou a ser a ideologia dominante e a ditar as políticas e relações econômicas. Foi uma novidade que muitos da TL não compreenderam muito bem no seu início, tanto que o discurso sobre questões econômicas e sociais da TL mudou muito pouco naquele tempo. Depois, os discursos se concentraram na crítica ao neoliberalismo, mas essa mudança gerou poucas formas novas de crítica teológica, que fossem mais adequadas para o novo tempo. No início do século XXI estamos tendo outras novidades na economia globalizada.

Além do surgimento da China como um dos grandes "atores” na economia mundial e a explosão das "redes sociais” – e o que isso significa em termos econômicos e sociais–, uma das questões fundamentais do nosso tempo é que o Império global de hoje domina por sedução. Os impérios anteriores (até o Império Britânico) sempre usaram força bruta para conquistar e manter a dominação e exploração. Hoje, os povos e países que estão foram do "circuito do Império” desejam entrar e participar do seu modo de vida. É claro que o Império ainda tem a força militar para reprimir os seus inimigos, mas a sua expansão e manutenção se dão ordinariamente por sedução.

A crítica a um sistema tão sedutor assim exige um tipo diferente de crítica teológica. As críticas contra a pobreza não significa mais necessariamente crítica ao sistema, pois pode ser uma demanda para poder entrar nela e viver o seu "modo de vida”. Eu penso que o conceito de "fetiche” (Marx) e de idolatria do Mercado (Hinkelammert e Assmann) podem ser instrumentos muito importantes (e até fundamentais) nesta teológica crítica, de libertação, do nosso tempo.

Um segundo ponto. A TL latinoamericana se constitui tendo como o tema central o pobre, isto é, a questão sócio-econômica. A noção de Deus da Vida, que luta contra as forças de morte e de opressão, gerou também outras teologias críticas em torno de questões como o do gênero (teologia feminista e suas variações), de etnia (a teologia negra, indígena...), o da sexualidade e também da ecologia. O desafio que temos hoje é como articular essas lutas para que cada uma não se perca em sua especificidade ou na "luta interna” para ver qual é a luta mais importante.

Nesta articulação, precisamos perceber que a teologia da libertação privilegiou a relação produtiva, isto é, as relações sociais mediadas pela produção de bens materiais a partir da natureza. Enquanto que outras lutas como a do gênero, etnia e sexualidade tem o foco central nas relações intersubjetivas. As mulheres, negros, indígenas, homossexuais etc desejam ser reconhecidos/as pelos outros e pela sociedade como seres de plena dignidade humana.

O desafio é como elaborar ou assumir uma teoria antropo-social capaz de explicar de uma forma articulada as relações de expropriação, exploração e dominação; isto é, relações produtivas e relações intersubjetivas, e em diálogo com essa teoria elaborar um discurso teológico crítico. (a continuar)

Hugo Assmann ( "Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres")


Fonte: Adital

"Encerrando Ciclos"

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final...

Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.

Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.

Foi despedida do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?

Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu....
Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó.

Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.

Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco.

O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.

As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora...

Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.

Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração... e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.

Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.

Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.

Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor.

Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.

Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal".

Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!

Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.

Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.

Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és..

E lembra-te:
Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão.

Fernando Pessoa