segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Caldeirão das CEBs

"Justiça e Profecia a Serviço da Vida"
"CEBs, Romeiras do Reino no Campo e na Cidade"

Caldeirão das CEBs é o nome da grande plenaria do9 13º Intereclesial das CEBs

Durante os últimos Intereclesiais de CEBs a dinâmica vem sendo um dos fatores responsáveis pelo o êxito na transmissão da mensagem do Cristo Libertador.

No rol de ações, a inculturação e o ecumenismo são assuntos que permeiam constantemente os encontros das CEBs Brasil a fora.

A introdução da vida do povo nas liturgias e no processo organizacional do Intereclesial, vem sendo para a diocese anfitriã, Crato, um trabalho de profunda dedicação, pois concentram-se em seu entorno a força de uma religiosidade popular, expressa através das romarias, que segundo Irmã Anette, só é compreendida por um olhar apurado do espaço e de espacialidade, que revela algo que não se confunde com alienação religiosa ou com práticas extremamente devocionais e supérfluas.

Foi sobre a compreensão da vertente sociocultural, religiosa e ecumênica que a Ampliada escolheu os nomes dos locais onde acontecerão os momentos de encontros do 13º Intereclesial no Crato.

O local da grande plenária será ‘Caldeirão das CEBs’, aludindo a história da Comunidade do Caldeirão do Beato Zé Lourenço.

Rancho’ (escolas, ginásios etc.)será o local das mini-plenárias. Rancho é o local onde os romeiros ficam hospedados nos tempos de romarias em Juazeiro.

Chapéu’ (salas) foi o nome escolhido para os locais onde pequenos grupos se reunirão para discutirem e trabalharem os assuntos sugeridos durante o encontro.

Fonte: Secretariado do 13º Intereclesial das CEBs

domingo, 30 de janeiro de 2011

‘É dando que se recebe?’




Estamos em tempos de montagem de governos. Há disputas por cargos e funções por parte de partidos e de políticos. Ocorrem sempre negociações, carregadas de interesses e de muita vaidade.

Neste contexto, se ouve citar um tópico da inspiradora oração de São Francisco pela paz "é dando que se recebe” para justificar a permuta de favores e de apoios onde também rola muito dinheiro.

É uma manipulação torpe do espírito generoso e desinteressado de São Francisco. Mas desprezemos estes desvios e vejamos seu sentido verdadeiro.

Há duas economias: a dos bens materiais e a dos bens espirituais. Elas seguem lógicas diferentes. Na economia dos bens materiais, quanto mais você dá bens, roupas, casas, terras e dinheiro, menos você tem. Se alguém dá sem prudência e esbanja perdulariamente acaba na pobreza.

Na economia dos bens espirituais, ao contrario, quanto mais dá, mais recebe, quanto mais entrega, mais tem. Quer dizer, quanto mais dá amor, dedicação e acolhida (bens espirituais) mais ganha como pessoa e mais sobe no conceito dos outros. Os bens espirituais são como o amor: ao se dividirem, se multiplicam. Ou como o fogo: ao se espalharem, aumentam.

Compreendemos este paradoxo se atentarmos para a estrutura de base do ser humano. Ele é um ser de relações ilimitadas. Quanto mais se relaciona, vale dizer, sai de si em direção do outro, do diferente, da natureza e até de Deus, quer dizer, quanto mais dá acolhida e amor mais se enriquece, mais se orna de valores, mais cresce e irradia como pessoa.

Portanto, é "dando que se recebe”. Muitas vezes se recebe muito mais do que se dá. Não é esta a experiência atestada por tantos e tantas que dão tempo, dedicação e bens na ajuda aos flagelados da hecatombe socioambiental ocorrida nas cidades serranas do Rio de Janeiro, no triste mês de fevereiro, quando centenas morreram e milhares ficaram desabrigados? Este "dar” desinteressado produz um efeito espiritual espantoso que é sentir-se mais humanizado e enriquecido. Torna-se gente de bem, tão necessária hoje.

Quando alguém de posses dá de seus bens materiais dentro da lógica da economia dos bens espirituais para apoiar aos que tudo perderam e ajudá-los a refazer a vida e a casa, experimenta a satisfação interior de estar junto de quem precisa e pode testemunhar o que São Paulo dizia: "maior felicidade é dar que receber” (At 20,35). Esse que não é pobre se sente espiritualmente rico.

Vigora, portanto, uma circulação entre o dar e o receber, uma verdadeira reciprocidade. Ela representa, num sentido maior, a própria lógica do universo como não se cansam de enfatizar biólogos e astrofísicos. Tudo, galáxias, estrelas, planetas, seres inorgânicos e orgânicos, até as partículas elementares, tudo se estrutura numa rede intrincadíssima de inter-retro-relações de todos com todos. Todos co-existem, interexistem, se ajudam mutuamente, dão e recebem reciprocamente o que precisam para existir e co-evoluir dentro de um sutil equilíbrio dinâmico.

Nosso drama é que não aprendemos nada da natureza. Tiramos tudo da Terra e não lhe devolvemos nada nem tempo para descansar e se regenerar. Só recebemos e nada damos. Esta falta de reciprocidade levou a Terra ao desequilíbrio atual.

Portanto, urge incorporar, de forma vigorosa, a economia dos bens espirituais à economia dos bens materiais. Só assim restabeleceremos a reciprocidade do dar e do receber. Haveria menos opulência nas mãos de poucos e os muitos pobres sairiam da carência e poderiam sentar-se à mesa comendo e bebendo do fruto de seu trabalho. Tem mais sentido partilhar do que acumular, reforçar o bem viver de todos do que buscar avaramente o bem particular. Que levamos da Terra? Apenas bens do capital espiritual. O capital material fica para trás.

O importante mesmo é dar, dar e mais uma vez dar. Só assim se recebe. E se comprova a verdade franciscana segundo a qual ”é dando que recebe” ininterruptamente amor, reconhecimento e perdão. Fora disso, tudo é negócio e feira de vaidades.

Leonardo Boff

‘O declínio das vocações é a forma de Deus 'desclericalizar' a Igreja’

Entrevista com Thomas Reese


Desclericarizar a Igreja. Empoderar, capacitar os leigos. Para o jesuíta norte-americano Thomas Reese, o declínio das vocações é um claro sinal de Deus para que isso aconteça. Segundo ele, acabou o mito de que a vocação religiosa é, de alguma forma, melhor ou mais santa. O mundo pede novas respostas por parte da Igreja.

Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Reese, ex-editor da renomada revista America, dos Estados Unidos, comenta os fatos mais importantes da Igreja vividos em 2010 e que, certamente, terão desdobramentos em 2011, que será, segundo ele, um ano "mais do mesmo”.

Nesse sentido, ele analisa as novas facetas que Bento XVI revelou em 2010, especialmente a partir de seu livro-entrevista Luz do Mundo, assim como a investigação a respeito das religiosas norte-americanas e a nomeação de Dom João Braz de Aviz, ex-arcebispo de Brasília, como prefeito da Congregação para os Religiosos. Por fim, pondera quanto ao futuro das congregações religiosas tradicionais, como os franciscanos e os jesuítas. Segundo o entrevistado, elas serão muito menores do que as de meados do século XX. Mas isso, por um lado, é um chamado de Deus a forçar a Igreja a empoderar os leigos, a "desclericalizar" a Igreja. "Quanto menos padres e religiosos houver, mais os leigos devem se lançar para fazer o trabalho da Igreja", afirma

Por isso, as temáticas candentes do início desta década, como as questões ambientais, exigem, segundo Reese, uma "sensibilidade franciscana para com a natureza e um estilo de vida simples" e uma "espiritualidade inaciana do discernimento e de encontrar Deus em todas as coisas".

Thomas J. Reese entrou para a Companhia de Jesus em 1962, tendo sido ordenado em 1974. É membro sênior do Woodstock Theological Center, centro jesuíta independente de pesquisa teológica da Universidade de Georgetown, em Washington. É mestre em ciências políticas pela Universidade de St. Louis e em teologia pela Escola Jesuíta de Teologia de Berkeley. Possui doutorado em ciências políticas pela Universidade da Califórnia. Entre 1998 e 2005, foi o editor-chefe da revista America, a renomada revista católica dos EUA, fundada em 1909. Porém, por pressão do Vaticano, que discordava de suas decisões editoriais, principalmente com relação a temáticas como o celibato sacerdotal e a ordenação de mulheres, Reese pediu para deixar o cargo. É autor de diversos livros que examinam a política e a organização eclesial. Em português, publicou O Vaticano por Dentro: A Política e a Organização da Igreja Católica (Edusc, 1998).

Confira a entrevista

IHU On-Line – Neste início da segunda década do século XXI, como o senhor avalia os episódios ocorridos em 2010 no Vaticano? Que expectativas centrais o senhor tem para 2011?

Thomas Reese – O que é surpreendente com relação às notícias que surgiram sobre o Vaticano, no ano passado, é como o Papa teólogo foi forçado a desempenhar um papel no cenário internacional. Joseph Ratzinger era um teólogo acadêmico, mais confortável em uma biblioteca e em uma sala de aula do que em uma coletiva de imprensa ou em uma negociação diplomática. No entanto, os eventos o obrigaram a assumir um papel para o qual ele nunca foi treinado. A violência contra cristãos no Oriente Médio, Ásia e África, o secularismo agressivo na Europa, os terremotos no Haiti e um colapso econômico mundial não estão na agenda normal de um teólogo, mas foram lançados sobre o Papa como o líder de 1,1 bilhão de católicos. Infelizmente, este ano provavelmente será mais do mesmo.

IHU On-Line – Em 2010, Bento XVI também publicou seu livro-entrevista Luz do Mundo. Que face de Bento XVI surge desse livro, além dos seus gestos e pronunciamentos ao longo do ano?

Thomas Reese – Bento, em seu coração, é um professor. Se ele pudesse, ele iria gastar seu tempo mais escrevendo e menos em reuniões com líderes mundiais. Francamente, ele é um professor melhor do que o Papa João Paulo II, cujos escritos eram muitas vezes ininteligíveis até mesmo para os leitores instruídos. Bento XVI é mais acessível como professor quando responde a perguntas, como ele faz em seu novo livro Luz do Mundo. Ele é capaz de extrair uma riqueza de conhecimento e explicar as questões para as pessoas. Às vezes, ele também deseja falar como um simples teólogo (sujeito à correção) e não como Papa. Embora muitas pessoas achem isso refrescante, algumas autoridades do Vaticano não gostam, porque acreditam que isso reduz a mística de sua autoridade. Elas também objetam que seu livro foi publicado sem ser revisto e revisado dentro do Vaticano.
Esses funcionários curiais têm razão. Depois de décadas tratando cada palavra de um Papa como escritura sagrada, é difícil para os católicos simples entenderem que algo que o Papa diz pode estar aberto ao debate. No curto prazo, isso é confuso e, no longo prazo, será saudável para a Igreja. Também é constrangedor quando as palavras do Papa não são claras, como foi com o trecho sobre os preservativos, que exigiu uma semana de esclarecimentos para explicar o que ele quis dizer. Se ele, que não é um teólogo moral, tivesse consultado teólogos morais na elaboração de seus parágrafos sobre os preservativos, essa confusão poderia ter sido evitada. Por outro lado, a sua vontade de dizer que, sob certas circunstâncias, o uso de preservativos por pessoas com Aids pode ser moralmente responsável foi uma ruptura corajosa com o passado. Se ele tivesse consultado a burocracia do Vaticano, ele poderia não ter dito isso.
O que os discursos e os livros de Bento XVI mostram é um teólogo que, às vezes, se expressa com confiança, sem necessariamente se consultar com alguém dentro ou fora do Vaticano. Isso lhe permite falar em um estilo menos burocrático, mas também o coloca em apuros quando ele diz algo que um crítico amável poderia tê-lo protegido de dizer, por exemplo o que ele disse em sua visita ao Brasil, que o colonialismo foi uma bênção para a índios da América Latina por ter trazido o cristianismo.

IHU On-Line – Qual a sua análise da Visitação Apostólica às religiosas dos EUA? Já se tem algum resultado prévio? Está sendo uma iniciativa válida, em sua opinião?

Thomas Reese – Durante décadas, os católicos conservadores falaram mal das religiosas dos EUA. Alguém poderia ter a impressão de que todas elas são bruxas que celebram a missa sem um sacerdote. Infelizmente, o Vaticano ouve esses conservadores. Na verdade, as religiosas dos EUA são mulheres majoritariamente generosas e dedicadas, que trabalharam arduamente para implementar o Vaticano II em suas comunidades e ministérios. Elas cometeram algum erro? Claro que sim. Mas elas também aprenderam com os seus erros. Elas estão constantemente refletindo sobre como podem viver melhor o Evangelho e seus carismas particulares. A maioria delas é a favor da ordenação de mulheres? Certamente, assim como a maioria dos católicos norte-americanos. Elas estão fugindo e sendo ordenadas? Não.
A maioria dos católicos norte-americanos tem uma visão muito positiva das irmãs, com base em sua experiência com elas nas paróquias, escolas e hospitais. As irmãs são amadas e respeitadas. Quando os bispos norte-americanos fizeram uma coleta especial para criar um fundo de aposentadoria para as irmãs idosas, a coleta arrecadou mais do que todas as outras coletas nacionais somadas.
Grande parte do problema com a visitação foi a forma com ela foi instigada. Não houve consulta com as irmãs sobre isso, embora as lideranças nacionais das irmãs estivessem em Roma um mês antes da visitação ser anunciada. O objetivo da investigação não foi bem explicado. A impressão que ficou é que as religiosas haviam ficado loucas, e que os homens iriam endireitá-las. Muitos leigos pensaram que não eram as irmãs, mas sim os bispos norte-americanos que deveriam ser submetidos a uma investigação do Vaticano por causa da sua má gestão da crise dos abusos sexuais. As pessoas erradas estavam sendo investigadas.

IHU On-Line – Em 2010, foi nomeado o novo secretário da Congregação para a Vida Religiosa, o norte-americano Joseph Tobin, e recentemente o Papa indicou o brasileiro João Bráz de Aviz como prefeito desse dicastério. Como o senhor recebe essas indicações? Que rumos e tendências Bento XVI deseja para a vida religiosa?

Thomas Reese – As religiosas norte-americanas têm respondido muito positivamente à indicação do arcebispo Tobin como secretário da Congregação para os Religiosos. Mesmo antes de se apresentar em Roma, ele reconheceu que a visitação estava com problemas e disse que iria ouvir as irmãs e transmitir suas opiniões a Roma. Palavras francas como essas de um recém-indicado ao Vaticano são inéditas. A nomeação de Dom João Braz de Aviz como prefeito só pode ser uma melhoria com relação ao cardeal [Franc] Rodé, que foi um desastre completo. As opiniões de Rodé acerca da vida religiosa eram pré-Vaticano II. Se o novo prefeito se aproximar das irmãs norte-americanas com uma mente aberta e ouvir o arcebispo Tobin, a crise será evitada.

IHU On-Line – Em sua opinião, qual o papel da vida religiosa hoje, especialmente das grandes e tradicionais congregações, como os dominicanos, franciscanos, jesuítas etc.?

Thomas Reese – O papel das congregações religiosas é providenciar uma base institucional para os carismas a serviço da comunidade cristã. Enquanto a hierarquia proporciona estrutura e estabilidade para a Igreja, as comunidades religiosas proporcionam criatividade e espontaneidade. Quando a Igreja hierárquica se torna burocrática, a vida religiosa providencia espaço para a inovação e a reforma. Não é de surpreender que a história da Igreja narra inúmeros conflitos entre as congregações religiosas e os bispos. As congregações religiosas são muitas vezes locais de teste para a teologia, para as devoções e os ministérios, que, se se provarem bem-sucedidos, podem ser implementados em todo o mundo na Igreja.
Ao mesmo tempo, hoje existe claramente um declínio no número de religiosos no Norte global e até mesmo em partes do Sul global. A maior conscientização e respeito ao papel dos leigos e à vocação da vida matrimonial abalou o mito de que a vocação religiosa é, de alguma forma, melhor ou mais santa. Os pais com poucos filhos não incentivam as vocações. Considerando que a vocação ao sacerdócio ou à vida religiosa de uma família analfabeta levava a um melhor status social no passado, hoje uma vocação é vista, às vezes, como um rebaixamento cultural. O crescente afastamento dos jovens da Igreja também tem o seu preço. As congregações religiosas da primeira metade do século XXI serão muito menores do que as de meados do século XX. O declínio das vocações pode ser uma forma de Deus forçar a Igreja a empoderar os leigos.
Ao mesmo tempo, o século XXI oferece novas oportunidades para a vida religiosa. O aquecimento global e outras questões ambientais certamente exigem uma sensibilidade franciscana para com a natureza e um estilo de vida simples. Da mesma forma, a espiritualidade inaciana do discernimento e de encontrar Deus em todas as coisas pode oferecer uma abordagem às novas questões que podem surgir.

IHU On-Line – Por outro lado, como o senhor analisa os novos movimentos religiosos? A que realidades e necessidades concretas do nosso tempo eles respondem? Quais são suas limitações?

Thomas Reese – Os novos "movimentos" não têm sido muito bem sucedidos nos Estados Unidos, por isso minha resposta será tentativa. Um razão pela qual os movimentos não têm sido bem sucedidos aqui é que a vida paroquial nos EUA é muito mais viva do que na Europa. Desde o início do catolicismo nos EUA, os padres foram próximos do seu povo. Desde o início, os bispos e padres dependeram dos seus paroquianos, e não do Estado, para apoio financeiro. Depois do Concílio Vaticano II, também tivemos programas de renovação paroquial de sucesso, como o "Renew", que começou na Arquidiocese de Newark. Como resultado, as paróquias norte-americanas têm uma vitalidade, uma riqueza de ministérios e um senso de comunidade que está ausente na Europa, onde os movimentos surgiram.
Os movimentos religiosos surgiram em resposta a uma necessidade sentida de comunidade, espiritualidade e participação ativa no ministério. Quando as paróquias não atendem a essas necessidades, então as pessoas se voltam para os movimentos ou para outras Igrejas, como os evangélicos. Assim como as ordens religiosas, os movimentos também podem oferecer inovação e criatividade. Eles também podem ser locais de teste para novas ideias e práticas, embora a maioria dos movimentos tendam a ser bastante tradicionais, o que os levou a servir aos que já estão salvos em vez dos mais afastados. Resta saber se eles poderão perdurar a longo prazo, sem o compromisso permanente e a longa formação dos religiosos professos. Serão divididos pelas facções e pelas políticas internas? Seus membros e suas lideranças irão envelhecer ao longo do tempo?

IHU On-Line – Como jesuíta, como o senhor analisa os cenários futuros da Companhia de Jesus nos EUA e no mundo? Que ações ainda são necessárias para uma ação mais eficaz?

Thomas Reese – Qualquer pessoa que prediz o futuro pode ter certeza de apenas uma coisa: vai estar errado. Se em 1970 alguém tivesse me dito que, na virada do século, os jesuítas norte-americanos abririam mais escolas de ensinos fundamental e médio, eu perguntaria o que eles estavam fumando. De fato, abrimos ou financiamos dezenas de escolas Cristo Rey [1] e Nativity [2], quando, na década de 1970, falávamos em fechar escolas. Essas escolas não saíram de nenhum plano nacional. As primeiras foram fundadas por indivíduos criativos, com o apoio de seus provinciais. As escolas funcionaram e foram replicadas por outros.
As congregações gerais podem oferecer visão e inspiração, mas os novos ministérios vêm de indivíduos criativos que respondem às oportunidades e são encorajados e apoiados por suas comunidades. Infelizmente, a Igreja de hoje não é boa para encorajar a criatividade.
Com um menor número, será difícil para que a Companhia [de Jesus] faça tudo o que queremos fazer. Com os números projetados, não será possível provermos nossas escolas com pessoal. Educamos os leigos, e agora entregamos as nossas escolas para eles. Esse é um sinal de sucesso, assim como de diminuição. Talvez, o declínio das vocações é a forma de Deus "desclericalizar” a Igreja. Quanto menos padres e religiosos houver, mais os leigos devem se lançar para fazer o trabalho da Igreja.
Mas enquanto a Companhia for verdadeira para com os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, enquanto estivermos abertos para discernir os movimentos do Espírito, vamos encontrar formas de servir a comunidade cristã e construir o reino de Deus.

Notas:

1. A rede de escolas Cristo Rey Rede é composta por 24 escolas de ensino médio para jovens que vivem em comunidades urbanas com poucas opções educacionais. Hoje, possuem 6.500 alunos, que de outra forma não teriam acesso à educação. A missão das escolas é possibilitar a entrada dos alunos Cristo Rey no ensino superior. A rede foi fundada em 2001, quando os líderes de Portland, Oregon, Cleveland, Denver e Nova York procuraram uma forma de repetir o sucesso da escola jesuíta de ensino médio Cristo Rey, de Chicago.
2. As escolas da rede Nativity começaram com os jesuítas de Nova York na década de 1970, dirigidas às crianças pobres. As escolas cobram uma taxa mensal de 25 a 100 dólares – ou até mesmo nada – e sustentam-se por meio de doações de fundações, individuais e da ajuda de igrejas e ordens religiosas católicas que dirigem muitas das escolas. Os pais e tutores geralmente trabalham voluntariamente em algumas funções específicas da escola, como em atividades de escritório, cuidado do jardim etc.

Moisés Sbardelotto


Fonte:IHU - Unisinos

sábado, 29 de janeiro de 2011

Haiti: história de um genocídio e de um ecocídio

Para “ajudar” o Haiti de fato, é preciso respeitar o seu povo e devolver a eles o que lhes foi tomado em 500 anos em dinheiro, reflorestamento, desenvolvimento agrícola diversificado e equipamentos.

Quando Colombo chegou em 1492 à ilha que chamou La Española (Haiti e Santo Domingo) ele encontrou um verdadeiro pomar ocupado por uma grande população nativa que vivia pacificamente.

Entretanto, desde 1500 começou o desmatamento da ilha para dar lugar aos cultivos dos conquistadores, bem como teve início a eliminação física dos nativos, que foram substituídos por africanos reduzidos à escravidão. Foi assim que, no início do século XXI, os bosques, que no momento da conquista ocupavam 80% do território, foram reduzidos a 2% no Haiti e a 30% em Santo Domingo, com tremendas conseqüências ecológicas e climáticas. (1)

A primeira República da América Latina e do Caribe e a primeira República negra do mundo

Há algo mais que 200 anos, no dia 1º de janeiro de 1804, a população do Haiti aboliu a escravidão e se proclamou República independente.

A abolição da escravatura no Haiti suscitou medos de que se espalharia o exemplo entre os escravos das colônias europeias vizinhas e também nos Estados Unidos, onde a escravidão existiu até a guerra da Secessão, na década de 1860. Por esse motivo, o Haiti sofreu um largo período de isolamento internacional.

Em 1802 Napoleão, que se propôs a restabelecer a escravidão nas colônias, enviou ao Haiti uma expedição militar de 24 mil homens sob o comando do general Leclerc, que de inicio alcançou algum apoio e até recebeu alistamentos por parte dos haitianos sob a falsa promessa de restabelecimento da escravidão.

Toussaint Louverture, com outra parte dos haitianos, não se deixou enganar e lutaram contra os franceses com desvantagens.

Quando, no entanto, se espalhou a notícia da prisão de Toussaint Louverture, de sua deportação à França e do restabelecimento da escravidão em outras colônias como Guadalupe, os rebeldes reiniciaram com mais força os combates e finalmente derrotaram o exército enviado por Napoleão e entraram em Porto Príncipe em outubro de 1803. As forças francesas, que haviam perdido milhares de homens, entre eles seu general Leclerc e vários outros generais, evacuaram a ilha em dezembro de 1803.

Desde então e até agora os haitianos tiveram que suportar invasões (dos EUA, de 1915 a 1934), ditaduras sob o patrocínio dos Estados Unidos (Duvalier pai e filho, e este último retorno ao Haiti enquanto Aristide está proibido de voltar), golpes de Estados e novas invasões.

Aristide, primeiro presidente do Haiti democraticamente eleito, expulso pelos Estados Unidos e França.

Quando Aristide, o primeiro presidente da história haitiana eleito democraticamente, assumiu o governo no Haiti em fevereiro de 1991, ele propôs aumentar o salário mínimo de 1,76 a 2,94 dólares por dia. A Agência para Investimento e Desenvolvimento dos Estados Unidos (USAID) criticou esta iniciativa, dizendo que significaria uma grave distorção do custo da mão de obra. As linhas de montagem estadunidenses radicadas no Haiti (quer dizer, quase a totalidade de linhas de montagem estrangeiras) concordaram com a análise da USAID e, com a ajuda da Agência Central de Inteligência, prepararam e financiaram o golpe de Estado contra Aristide em setembro de 1991 (2). Como a reação internacional (o embargo) e o caos interno paralisaram a produção das empresas estadunidenses no Haiti, as tropas do país restabeleceram Aristide no governo em 1994 e asseguraram simultaneamente a impunidade e um recuo confortável aos chefes militares golpistas.

As forças armadas dos Estados Unidos, que intervieram no Haiti com o aval do Conselho de Segurança da ONU, se apoderaram da documentação referente às violações dos direitos humanos cometidas pela ditadura militar e provavelmente das provas de intervenção da CIA no país. As autoridades dos Estados Unidos continuam retendo a dita documentação, apesar das várias reclamações a este respeito feitas em diversas ocasiões. (3)

Em 2004 se repetiu o cenário de 1991, com Aristide, que havia sido reeleito em 2001, politicamente desprestigiado, sitiado economicamente pelos Estados Unidos e asfixiado pelo Fundo Monetário Internacional. Desta vez a expulsão de Aristide foi orquestrada pelos Estados Unidos tendo a França como segundo violino e legitimada pelo Conselho de Segurança após o ocorrido. Aristide teria, além de tudo, imprudentemente reclamado à França a devolução da “indenização” que o Haiti havia pago no século XIX, estimada atualmente em 21 bilhões de dólares.

De fato, a França cobrou o Haiti por sua independência

Em 1814 a França exigiu do Haiti uma indenização de 150 milhões de francos-ouro, que em 1838 rebaixou a 90 milhões. Foi só quando o Haiti aceitou a exigência que a França passou a reconhecê-lo como nação independente, recebendo as quotas da indenização que o Haiti terminou de pagar em 1883.

Logo após a queda de Aristide em 2004, reuniu-se em Washington uma “Conferência de Doadores”. Um ano depois, daqueles 1 bilhão e 80 milhões comprometidos durante a dita Conferência, haviam chegado ao Haiti somente 90 milhões, metade dos quais eram destinados à organização das eleições.

A MINUSTAH (Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti) criada pelo Conselho de Segurança da ONU em 30 de abril de 2004, usando como pretexto a proliferação de criminosos armados, realizou verdadeiros massacres em Cité Soleil, o bairro mais pobre de Porto Príncipe e reduto principal dos partidários de Aristide. Os massacres ocorreram em 6 de julho de 2005 e nos dias 16, 22 e 28 de dezembro de 2006, e utilizaram metralhadoras pesadas, cujas balas atravessavam de um lado a outro as miseráveis casas, como se fossem de papel.

O Terremoto

Diversas instituições (Médicos Sem Fronteiras e outras) denunciaram que a implantação das forças militares estadunidenses no país impediu a ajuda sanitária urgente dos primeiros momentos.

Em 21 de janeiro, Françoise Saulnier, diretora jurídica do MSF, informou que cinco pacientes faleceram no centro médico instalado pela instituição. Saulnier me disse: “A cirurgia é uma prioridade urgente em tais catástrofes. São os três primeiros dias para retirar toda a gente dos escombros, mais os três dias seguintes para executar todas as intervenções cirúrgicas e depois vem a comida, o abrigo, a água. Tudo se misturou, a atenção à vida da gente se atrasou de tal maneira que a logística militar, que poderia ser útil no quarto dia ou mesmo no oitavo, correu e lotou o aeroporto”. Segundo Saulnier, os três dias perdidos criaram graves problemas de infecção, de gangrenas e os obrigaram a realizar amputações que poderiam ter sido evitadas.

O papel do Conselho de Segurança.

O Conselho de Segurança da ONU, que se reúne em menos de 24h quando o tema interessa às grandes potências, tardou uma semana em se reunir e adotou como única decisão aumentar o contingente da MINUSTAH a 8.940 militares e 3.711 policiais.

Quando, em setembro de 2009, discutiu-se no Conselho de Segurança a prorrogação do mandato da MINUSTAH, vários diplomatas levantaram a necessidade de dar uma nova orientação à dita Missão. O representante da Costa Rica disse que os haitianos precisam mesmo é de um futuro melhor, e, para poder comer, contar com um setor agrícola dinâmico. Perguntou-se por que prosseguir a enormes custos com a militarização da MINUSTAH e a reconstituição das forças armadas se o Haiti não é objeto de nenhuma ameaça exterior. Disse também que era urgente superar o obstáculo que é o regime de propriedade da terra.

No entanto, a MINUSTAH continuou com a mesma orientação majoritariamente militarista.

Atualmente existe no Haiti uma força militar quase equivalente, em proporção à população e ao território, às forças armadas despendidas no Afeganistão e Iraque.

O aumento do salário mínimo como detonador?

O salário mínimo no Haiti estava fixado desde maio de 2003 em 70 gourdes por dia, isto é, 1,75 dólares, o mesmo salário em dólares que havia em 1991, quando Aristide quis aumentá-lo para 2,94 dólares. Em 2007 produziu-se no Haiti um enorme processo inflacionário que afetou os preços dos produtos básicos. Levando em conta esta dita inflação, o salário mínimo industrial deveria situar-se entre 550 e 600 gourdes diários. Depois de dois anos de discussão, o Parlamento haitiano aprovou em abril de 2009 um aumento do salário mínimo a 200 gourdes, ou seja, algo menos que 5 dólares diários. O presidente da República e o governo haitiano se recusaram a ordenar a promulgação da nova lei.

Foram organizadas grandes manifestações de estudantes e trabalhadores exigindo a promulgação da lei, e estas foram violentamente reprimidas pela polícia haitiana e pela MINUSTAH.

Finalmente em agosto de 2009 se fixou o salário mínimo em 150 gourdes diários (uns 3,50 dólares)

Totalmente insuficiente para viver, porém inaceitável para as empresas.

Talvez este aumento do salário mínimo possa explicar, pelo menos em parte, a ocupação das Forças Armadas dos Estados Unidos no Haiti. Como foi o caso com o golpe militar de 1991. (4)

Roubo e apropriação de crianças

O Haiti tem uma larga história de roubos de crianças, adoções ilegais, além de bem fundamentadas suspeitas de tráfico de órgãos de crianças.

Depois do terremoto foram constatadas numerosas transgressões ao “interesse superior da criança”: o roubo de menores, a aceleração dos procedimentos de adoção e a expatriação de crianças com fins alegadamente humanitários.

Tudo isto violando a Convenção dos Direitos da Criança, a Convenção sobre a Adoção Internacional, as Diretrizes do Escritório do Alto das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) sobre a proteção das crianças em caso de conflitos armados ou catástrofes naturais, e também as recomendações da UNICEF. O ACNUR e a UNICEF sustentam que, em circunstâncias como as que o Haiti atravessa, é necessário PARALISAR os processos de adoção, e não iniciar novos, não se pode usar indevida e abusivamente a classificação de “órfãos”, mas sim de “menores desacompanhados” até que se saiba com certeza o que ocorreu com seus pais e sua família próxima. E insistem que não se pode expatriar as crianças, para evitar que, além do trauma da catástrofe, sofram o trauma da separação abrupta de seu ambiente habitual e da ruptura de todos os laços familiares.

Depois do terremoto a Holanda levou 109 crianças do Haiti, que, aparentemente, já se encontravam em processo de adoção, os EUA levaram 53 crianças a Pittsburgh “para melhorar seu estado de saúde”, ainda que informações assegurem que eles facilitarão os processos de adoção por casais que atendam aos requisitos. Devemos entender que estas 53 crianças nem sequer estavam em um processo de adoção. A França expatriou mais 120, ao que parece como resultado de uma “aceleração” do processo de adoção.

Segundo uma porta-voz da UNICEF, Véronique Taveau, a política do organismo internacional é conseguir a reunificação da família a todo custo e neste sentido expressou sua preocupação pela decisão de alguns países em acelerar os trÂmites de adoção. Inclusive quando o trâmite da adoção estiver terminado. “As Autoridades centrais de ambos Estados assegurarão para que o deslocamento se realize com toda a segurança, em condições adequadas, e, quando for possível, em companhia dos pais adotivos ou dos futuros pais adotivos”, como indica o artigo 19 inciso 2 da Convenção sobre a Adoção Internacional. Quer dizer que em circunstâncias tão dramáticas quanto estas, os pais adotivos deveriam ir buscar a criança adotada e não simplesmente esperá-lo no aeroporto de chegada.

Em suma, não se trata de “ajudar” o Haiti (de fato, as promessas de doações se fizeram efetivas em uma mínima parte) senão de respeitar o seu povo (entre outras coisas, que seja o povo haitiano e não a OEA e a ONU que elejam as autoridades haitianas) (5), de devolver a eles o que é possível devolver de tudo o que lhes foi tomado em 500 anos.

Devolver-lhes em dinheiro, em reflorestamento, em desenvolvimento agrícola diversificado, em equipamentos, em reconstrução, em material sanitário etc.


Notas:

1) Isabelle Ligner, AFP, “Haiti, exemplo extremo de desmatamento e de perturbação do ciclo da água”.

2) “Haiti After the Coup”. Um Relatório Especial da Delegação o Comitê Nacional do Trabalho. Fundo da Educação em Apoio aos Direitos Humanos e Trabalhistas na América Central, Nova York, Abril 1993.

3) Situação dos direitos humanos no Haiti, Informe do expert independente, Anexo. Nações Unidas, E/CN.4/2001/106, 30 de janeiro de 2001, onde se faz referência a 160.000 páginas de documentos retidos pelas forças armadas dos Estados Unidos em 1994 em instalações militares e paramilitares no Haiti.

4) Plataforma Interamericana de Direitos Humanos, Democracia e Desenvolvimento (PIDHDDD), Reprime protestos por salário mínimo no Haiti; Nota em francês:
http://www.alterpresse.org/spip.php?article8410; Batay Ouvriye, Haiti - Salário mínimo. Edital – 23.03.08; Faubert Bolívar, Alterpresse, No Haiti o salário mínimo é de 70 gourdes, 2/06/09; Wooldy Edson Louidor (ALTERPRESSE, especial para ARGENPRESS.info), Haiti: A luta por aumento do salário mínimo, 4 de setembro de 2009.

5) Oppenheimer, correspondente do diário “La Nación” de Buenos Aires nos Estados Unidos, propunha abertamente converter o Haiti em um protetorado (La Nación, 25 de janeiro 2011)



Por Alejandro Teitelbaum
28 de janeiro de 2011


Tradução de Cainã Vidor.

Fonte: Revista Forum

O legado de Dom Helder Câmara, por Frei Betto


O arcebispo desclandestinizou a pobreza existente em nosso país e induziu poder público e cristãos a encarar com seriedade os direitos dos pobres à vida digna e feliz
13/01/2011
Frei Betto

O arcebispo Dom Helder Câmara (1909-1999) é figura singular na história da Igreja Católica no Brasil. Diminuto, magérrimo, poucos o superavam em oratória: adornava as ideias com gestos efusivos e um senso de humor incomum ao se tratar de bispos. Por onde andasse, lotava auditórios: Paris, Nova York, Roma... Entre os anos de 1960-80, apenas dois brasileiros gozavam de ampla popularidade no exterior: Pelé e Dom Helder.
Tamanho o carisma dele que, em 1971, em Paris, convidado a falar num salão capaz de comportar 2 mil pessoas, tiveram que transferi-lo para o Palácio de Esportes, que abriga 12 mil.

Hábitos simples

Conheci-o em 1962, ao chegar ao Rio, vindo de Minas, para integrar a direção nacional da JEC (Juventude Estudantil Católica). Dom Helder era bispo-auxiliar da arquidiocese carioca e responsável pela Ação Católica. Vivia de seu salário como assessor técnico (aprovado em concurso público) do Ministério da Educação, morava modestamente, almoçava em botequim - ou melhor, beliscava, pois a vida toda comeu como passarinho - e subia as favelas como quem se sente em casa, sempre trajando batina, hábito mantido por toda a vida, mesmo quando o Concílio Vaticano II (1962-1965) permitiu aos clérigos saírem à rua em trajes civis.

Desde seus tempos de seminarista em Fortaleza - nascera em Messejana, hoje bairro da capital cearense - Dom Helder cultivava hábitos incomuns: deitava-se por volta das dez ou onze da noite, levantava-se às duas da madrugada, trocava a cama por uma cadeira de balanço, na qual orava, meditava, lia e escrevia cartas e poemas. Todos os seus livros foram concebidos naquele momento de “vigília”, como dizia. Às quatro retornava ao leito, dormia por mais uma hora para, em seguida, celebrar missa e iniciar seu dia de trabalho.
Com frequência Dom Helder visitava a “república” das Laranjeiras, onde se amontoavam os estudantes dirigentes da JEC e da JUC (Juventude Universitária Católica). Betinho (Herbert Jose de Souza) e José Serra, líderes estudantis, encontravam ali hospedagem garantida ao vir de Minas ou São Paulo.

Era Dom Helder quem nos assegurava, graças a seus relacionamentos em todas as camadas sociais, passagens aéreas pelo Brasil, bolsas de estudos, e até alimentação. Na época, o governo dos EUA, preocupado com a ameaça comunista na América Latina (sobretudo após a vitória da Revolução Cubana), lançara a campanha “Aliança para o Progresso”, que consistia, basicamente, em remeter alimentos às famílias miseráveis.

Para socorrer-nos da penúria na “República”, Dom Helder, responsável pela distribuição dos donativos, nos enviava caixas de papelão contendo o que denominávamos “leite da Jaqueline” e “queijo do Kennedy”. Como os produtos ficavam meses no porto, sujeitos ao calor carioca, vários de nós tivemos problemas de saúde por ingeri-los.

Senso de oportunidade

O maior sonho de Dom Helder era a erradicação da miséria no mundo. Sonhava com o ano 2000 sem fome. Ainda no Rio, criou o Banco da Providência e a Cruzada São Sebastião, no intuito de pôr fim às favelas. Graças a doações, edificou no Leblon um conjunto de prédios, para cujos apartamentos transferiu famílias de uma favela próxima. Não deu certo. Sem recursos para pagar os impostos (luz, água, telefone...), os moradores passaram a sublocar os domicílios e a obter renda graças à venda de torneiras, pias e outras peças do imóvel.

Para angariar recursos a suas obras, Dom Helder não titubeava em comparecer a programas de auditório de grande audiência televisiva. Certa ocasião, foi convidado por um apresentador para sortear prendas expostas no palco e vistas por todos, exceto pela pessoa trancada numa cabine opaca. Calhou de ser um desempregado. “Seu Joaquim, o senhor troca isto por aquilo?” E sem nomear o objeto, Dom Helder apontava um liquidificador e, em seguida, um carro. Seu Joaquim respondia “sim” e toda a platéia vibrava. Em seguida, Dom Helder indagou se trocava o carro por um abridor de latas. O homem topou. E não mais arredou pé, cismou que escolhera a melhor prenda. Ao sair da cabine, recebeu dos patrocinadores, decepcionado, o abridor. E Dom Helder mereceu um polpudo cheque. O arcebispo não teve dúvidas: “Seu Joaquim, o senhor troca este cheque pelo abridor?”

No dia seguinte, no Palácio São Joaquim, onde funcionava a cúria do Rio, criticamos Dom Helder por ter aberto mão de um recurso que poderia reforçar suas obras sociais. Ele justificou-se: ?Perdi o cheque, ganhei em publicidade. Esperem para ver quanto dinheiro vou angariar.?

Visão empreendedora

Homem carismático, dotado de forte espírito gregário, era difícil alguém- incluído quem o criticava - não se deixar envolver pela energia que dele emanava no contato pessoal. JK quis que se candidatasse a prefeito do Rio. Dom Helder jamais aceitou meter-se em política partidária; bastava-lhe, como lição, o erro de juventude, quando demonstrou simpatia pelos integralistas.
Por sua iniciativa, foram fundados, em 1955, o CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) -, que congrega e representa os bispos do nosso Continente, e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), pólo articulador dos prelados de nosso país, do qual ele foi o primeiro secretário-geral.

Bispo vermelho

Numa época em que* não havia Igreja progressista nem Teologia da Libertação, Dom Helder, graças à sua sensibilidade social e sua opção pelos pobres, era tido por comunista, difamação acentuada após a implantação da ditadura militar no Brasil, em 1964. Costumava comentar: “Se defendo os pobres, me chamam de cristão; se denuncio as causas da pobreza, me acusam de comunista”.

Nomeado arcebispo de São Luís (MA) no mesmo mês do golpe, antes de tomar posse o papa Paulo VI o transferiu para Olinda e Recife, onde permaneceu até morrer.

Em 1972 o nome de Dom Helder despontou como forte candidato ao Prêmio Nobel da Paz. Há fortes indícios de que não foi laureado por duas razões: primeiro, pressão do governo Médici. A ditadura se veria fortemente abalada em sua imagem exterior caso ele fosse premiado. Mesmo dentro do Brasil Dom Helder era considerado persona non grata. Censurado, nada do que o ?arcebispo vermelho? falava era reproduzido ou noticiado pela mídia de nosso país.

A outra razão: ciúmes da Cúria Romana. Esta considerava uma indelicadeza, por parte da comissão norueguesa do Nobel da Paz, conceder a um bispo do Terceiro Mundo um prêmio que deveria, primeiro, ser dado ao papa...

No Recife, Dom Helder lançou a Operação Esperança: promoveu reforma agrária nas terras da arquidiocese; passou a visitar favelas, mocambos e bairros pobres; estreitou laços com artistas, universitários e intelectuais.

Graças ao seu poder de articulação e carisma profético, em 1973 bispos e superiores religiosos do Nordeste fizeram ecoar a primeira denúncia cabal à ditadura feita por católicos: o manifesto “Ouvi os clamores de meu povo”. O documento, recolhido pela repressão, foi divulgado através de edições clandestinas mimeografadas.

Homem de fé

Um dia, o governo militar, preocupado com a segurança do arcebispo de Olinda e Recife, temendo que algo acontecesse a ele “um atentado” ou “acidente” - e a culpa recaísse sobre o Planalto, enviou delegados da Polícia Federal para lhe oferecer um mínimo de proteção. Disseram-lhe: “Dom Helder, o governo teme que algum maluco o ameace e a culpa recaia sobre o regime militar. Estamos aqui para lhe oferecer segurança”.

Dom Helder reagiu: “Não preciso de vocês, já tenho quem cuide de minha segurança”. “Mas, Dom Helder, o senhor não pode ter um esquema privado. Todos que dispõem de serviço de segurança precisam registrá-lo na Polícia Federal. Esta equipe precisa ser de nosso conhecimento, inclusive devido ao porte de armas. O senhor precisa nos dizer quem são as pessoas que cuidam da sua segurança”.

Dom Helder retrucou: “Podem anotar os nomes: são três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo”.

Dom Helder morava numa casa modesta ao lado da igreja das Fronteiras, no Recife. Frequentemente, as pessoas que tocavam a campainha eram atendidas pelo próprio arcebispo. Certa noite, a polícia fez batida numa favela da capital pernambucana, em busca do chefe do tráfico de drogas. Confundiu um operário com o homem procurado. Levou-o para a delegacia e passou a torturá-lo.

Pela lógica policial, se o preso apanha e não fala é porque é importante, treinado para guardar segredos. Vizinhos e a família, desesperados, ficaram em volta da delegacia ouvindo os gritos do homem. Até que alguém sugeriu à esposa do operário recorrer a Dom Helder.

A mulher bateu na igreja das Fronteiras: “Dom Helder, pelo amor de Deus, vem comigo, lá na delegacia do bairro estão matando meu marido a pancadas”. O prelado a acompanhou. Ao chegar lá, o delegado ficou assustadíssimo: “Eminência, a que devo a honra de sua visita a esta hora da noite?”

Dom Helder explicou: “Doutor, vim aqui porque há um equívoco. Os senhores prenderam meu irmão por engano” “Seu irmão?!” “É, fulano de tal”, deu o nome, “é meu irmão”. “Mas, Dom Helder”, reagiu o delegado perplexo, “o senhor me desculpe, mas como podia adivinhar que é seu irmão. Os senhores são tão diferentes!”

Dom Helder se aproximou do ouvido do policial e sussurrou: “É que somos irmãos só por parte de Pai”. “Ah, entendi, entendi”. E liberou o homem.
De fato, irmãos no mesmo Pai.

Perseguições e direitos humanos

Durante o regime militar, Dom Helder moveu intensa campanha no exterior de denúncia de violações dos direitos humanos. O governador de São Paulo, Abreu Sodré, tentou criminalizá-lo. Alegava ter provas de que Dom Helder era financiado por Cuba e Moscou. Alguns bispos ficavam sem saber como agir, como foi o caso do cardeal de São Paulo, Dom Agnelo Rossi, amigo do governador e de Dom Helder. Não foi capaz de tomar uma posição firme na contenda. Mais tarde a denúncia caiu no vazio, não havia provas, apenas recortes de jornais.

Incomodava ao governo ver desmoralizada, pelo discurso de Dom Helder, a imagem que ele queria projetar do Brasil no exterior, negando torturas e assassinatos. Dom Helder ressaltava que, se o governo brasileiro quisesse provar que ele mentia, então abrisse as portas do país para que comissões internacionais de direitos humanos viessem investigar, como havia feito a ditadura da Grécia.

Se hoje, na Igreja, se fala de direitos humanos, especificamente na Igreja do Brasil, que tem uma pauta exemplar de defesa desses direitos, apesar de todas as contradições, isso se deve ao trabalho de Dom Helder. Nenhum episcopado do mundo tem agenda semelhante à da CNBB na defesa dos direitos humanos. A começar pelos temas anuais da Campanha da Fraternidade: idoso, deficiente, criança, índio, vida, segurança etc. Neste ano de 2010, economia. Isso é realmente um marco, algo já sedimentado. Também as Semanas Sociais, que as dioceses, todos os anos, promovem pelo Brasil afora, favorecem a articulação entre fé e política, sem ceder ao fundamentalismo.

A Igreja Católica e o Brasil devem muito a Dom Helder Câmara, que desclandestinizou a pobreza existente em nosso país e induziu poder público e cristãos a encarar com seriedade os direitos dos pobres à vida digna e feliz. O profeta nascido em Messejana foi, sim, um autêntico discípulo de Jesus Cristo.

Frei Betto é escritor, frade dominicano, assessor de movimentos populares, autor do romance ?Um homem chamado Jesus? (Rocco), entre outros livros.


2º Dia da II Ampliada Nacional das CEBs rumo ao 13º Intereclesial

A celebração eucarística marcou o inicio das atividades do segundo dia da Ampliada Nacional das CEBs que está acontecendo na diocese de Crato, Ce.

A equipe do secretariado apresentou uma proposta para elaboração do texto base do Intereclesial contendo a metodologia do Ver, Julgar e Agir, sugerindo artigos escritos por várias personalidades relacionadas com os trabalhos das CEBs, contemplado assuntos de grande relevância e de consonância com o tema e o lema do evento.


O cantor e poeta Zé Vicente, no período da tarde dissertou sobre a importância da arte na nas comunidades e apresentou uma proposta de construção de um projeto sobre “Arte nas CEBs”, para ser trabalhado de forma permanente.

Trata-se de um conjunto de ações que visam o resgate da memória das CEBs e dinamização das mesmas através da pluralidade artística, a produção de novas músicas, a valorização do artista da caminhada dentre outros pontos.


No final da tarde os membros da Ampliada elegeram o cartaz do 13º Intereclesial e durante a noite participaram da confraternização com comidas típicas, apresentações artísticas culturais e o tradicional forró pé de serra.

Fonte: Secretariado do 13º Intereclesial das CEBs

CEBs e pequenas comunidades eclesiais


As Comunidades Eclesiais de Base, popularmente denominada CEBs, junto com pequenas comunidades cristãs têm tido, especialmente em alguns lugares, um providencial florescimento, nos últimos anos, dando uma nova dinâmica para as paróquias e igrejas particulares com sua riqueza carismática, educadora e evangelizadora (cf. DAp, n. 99 e).

Para estudar este tema, à Luz de Aparecida, convidamos o Padre José Marins, como guia, que, durante décadas, vem percorrendo o continente, levando sua equipe de colaboradores, esta tocha da conformação da CEBs como expressão eclesial básica, "A Igreja que se reúne na casa", inspirada nas primeiras comunidades do Novo Testamento.

Aparecida destaca na linha de Medellín, Puebla e Santo Domingo, "que as Comunidades Eclesiais de Base têm sido escolas que têm ajudado a formar cristãos comprometidos com sua fé, discípulos e missionárias do Senhor, como o testemunha a entrega generosa, até derramar o sangue, de muitos de seus membros". (DAp. n. 178).

Sem dúvida, essas comunidades eclesiais facilitam o acesso à Palavra de Deus, ao compromisso social, em nome do Evangelho, ao aparecimento de novos serviços leigos e a educação da fé dos adultos (cf. DPb, n. 629).

Finalmente, deve-se levar em conta que a CEBs e as pequenas comunidades eclesiais, "desenvolvem seu compromisso evangelizador e missionário entre os mais simples e mais distantes e sua expressão visível da opção preferencial pelos pobres" (DAp, n. 179), isto faz com que se convertam em um ponto de partida válido para a Missão Continental permanente.

Dom Víctor Sánchez Espinosa

Bispo Auxiliar da Arquidiocese de México